Mostrando postagens com marcador reflexões. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador reflexões. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Setembro amarelo: o suicídio no mundo contemporâneo

Rafael Polakiewicz

O suicídio é um grave problema de saúde no mundo. O ato interrompe um processo natural da vida, sendo este ocasionado por diversos sentimentos conflituosos, onde a plenitude da vida se torna cada vez mais distante. Gostaria de chamar atenção não para os fatores subjetivos inerentes ao sujeito, que se relacionam com o suicídio, mas sobre a doutrina materialista em que vivemos, que corrompe muitas pessoas ao ato. O distanciamento do “Ser” e a aproximação do “Ter”, pode estar provocando um colapso nas proposições de vida e um distanciamento de uma vida feliz. O desgosto pela vida, onde muitos sentem que não há mais razões para viver, pode estar provoca o suicídio. 

Fato é que, os sentimentos são criados pelo mundo externo aliado a vulnerabilidade do indivíduo. No mundo atual há a estranha necessidade de sucesso, vendida todos os dias como ato necessário para viver  provoca sensação de que subindo degraus, sempre ganhando, sempre melhorando nossa vida material, sendo mais rico ou mais bem sucedido, chegaremos a condição de felicidade. Quando não alcançado, a compreensão de vitória ou de ser bem sucedido, podemos cair em  uma crise existencial, provocada pela pressão desenfreada do mundo. Quando esses fatos são aliados ao desamparo social e possuem a impulsividade do sujeito relacionada, temos um amplo caminho para a perda de nossa identidade, de nossa alegria e do nosso propósito de vida. 

Propósito é ato constante na vida feliz. É importante dizer que não é todo propósito que é bom ou que é benéfico para a pessoa. Muitos caminhos que tomamos nos levam direto a busca de resultados e isso quer dizer que nasce uma pressão para o comportamento perfeito. Nunca usamos tanto a palavra FOCO! Objetivo é sempre a concentração na apropriação quase sempre material. Poucas vezes vemos a palavra sugerida ao foco na felicidade, foco na família, foco nas coisas boas da vida. Nesse movimento, a sociedade vai gerando um sinônimo entre felicidade e chegar ao topo. Mas será que esse movimento tem gerado boas coisas à sociedade? Bom, bem sabemos em nossas vidas pessoais, que a pressão por melhores resultados nos trás sentimentos como estresse, ansiedade, raiva etc. Quando não alcançamos bons resultados, desenvolvemos frustrações que podem até nos levar a uma compreensão que a vida não vale a pena. 

O atual cenário, onde milhares de pessoas no mundo cometem suicídio, pode se aproximar de um ritual japonês denominado Haraquiri. Iniciado com os Samurais esse ritual consistia na reparação da honra pelo suicídio. Na Segunda Guerra Mundial, generais que não conseguiam vitória em guerra, também tiravam a própria vida, por se sentirem indignos e desonrados com as derrotas.  No mundo atual, o suicídio parece estar ligado a vulnerabilidades psíquicas e ao sentimento de derrota, de impotência diante do sucesso. Muitos se afetam no caminho natural do viver em sociedade que preserva a moralidade, honra e outros atributos ligados à vitória e ao sucesso, não sei se nos distanciamos muito dos antigos samurais, mas sei que temos mais recursos também para lidar com essas questões. 

suicídio

O Setembro Amarelo como iniciativa para discutir o suicídio

O suicídio é um terrível mal que deve ser combatido pela humanidade. A trágica solução que alguns encontram para o sofrimento leva famílias e toda a sociedade ao sofrimento. O Setembro Amarelo veio como forma de resposta. No dia 10 de setembro temos o dia mundial de combate ao suicídio. Discussões são realizadas em todo mundo com objetivo de diminuir a incidência de suicídio. No Brasil, a iniciativa ficou famosa no mês de setembro, mas sabendo as autoridades da importância de se discutir o assunto em todos os meses do ano. Desde 2014, o setembro amarelo faz parte do calendário de atenção do Ministério da Saúde e inicia-se com campanhas de instituições e conselhos de classe dos trabalhadores da saúde do Brasil. Os casos atingem mais os jovens e, por isso, requer atenção da população e do estado. Mas não é o bastante, com a pandemia há necessidade do aumento de iniciativas para a diminuição dos casos de suicídio no Brasil.

Algumas informações sobre o assunto são importantes

Principais fatores de risco:

– Doenças mentais
 
– Tentativa prévia 
 
– Pessoas jovens

As doenças mentais elevam a vulnerabilidade para o suicídio. Damos atenção aqui à depressão que aparece como uma das doenças que mais leva os jovens a buscar o fim da própria vida. A tentativa prévia aparece na maioria dos casos de suicídio, sendo que 8 em cada 10 pessoas que cometeram o suicídio já realizaram alguma tentativa ao longo da vida. Os jovens são vulneráveis ao Suicídio. Esses são suscetíveis às mudanças fisiológicas, pois estão em fase de amadurecimento físico e psíquico. Quem convive com um adolescente, sabe que as mudanças nem sempre são fáceis. Nós sabemos que tudo isso vai passar, mas para isso precisamos trabalhar juntos em prol da criança ou do jovem que está precisando da nossa ajuda

​Como identificar que o jovem está precisando de ajuda? 

– Fique atento às modificações do corpo ou mudanças fisiológicas que levam ao desencadeamento de doença psíquica. Essa fase é de constante modificação e devemos ter muita atenção; 
 
– Analisar se a pessoa possui vulnerabilidades sociais ou genéticas. As vulnerabilidades sociais são fatores de risco. Mas não é apenas avaliar a condição socioeconômica, mas questões que levam a pessoa a um detrimento da saúde mental; 
 
– Fique atento aos sinais. Os pais, professores, parentes e amigos podem ser fundamentais nessa identificação. Algumas alterações de comportamento quando observadas podem salvar vidas; 
 
– Observe se o jovem fica isolado, se possui impulsividade de reação, tristeza constante, dificuldade em se relacionar com pessoas, crises de raiva ou agitação, problemas com autoestima, se gosta de comportamento de risco, se utiliza álcool ou outras drogas em excesso. 
 
– Observe se o jovem provoca automutilações, que é definida como qualquer comportamento intencional envolvendo agressão a si próprio, sem intenção de suicídio. É um fator de risco, mesmo não sendo objetivo, o suicido. Esse evento nos mostra que o adolescente pode não saber lidar com situações.

O acolhimento, a empatia e a criação de vínculos são dispositivos importantes para qualquer contato com o jovem. Lembre-se que no mundo de hoje, a pressão por resultados chega cada vez mais cedo na vida dos jovens. Por isso, essa discussão se torna cada vez mais necessária nos ambientes escolares e nos territórios. É importante criar redes de acolhimento dos jovens, impedindo que doenças tratáveis possam se tornar um perigo real. Os profissionais de saúde, principalmente enfermeiros que são o maior número de profissionais da linha de frente, devem investir na prevenção do suicídio. Para isso, torna-se necessário que os diversos atores da sociedade possam refletir também sobre a lógica de vida, de estudo e trabalho dos jovens. 

Autor

Referências

Maia RS, Rocha MMO, Araújo TCS, Maia EMC. Comportamento suicida: reflexoes para profissionais de saúde. Rev. bras. psicoter. 2017;19(3):33-42. Disponível em: http://rbp.celg.org.br/detalhe_artigo.asp?id=234 
 
Martínez Cárdenas Alberto, González Sábado Rita, Tabernilla Guerra Odalis Norma, Domínguez Morales Wendy, Reytor Ballester Danaysis. Satisfacción estudiantil sobre el manual “Prevención de la Conducta Suicida” en Medicina General Integral. EDUMECENTRO. 2021 Sep;  13( 3 ): 119-131. http://scielo.sld.cu/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2077-28742021000300119
 
Razzouk Denise. Por que o Brasil deveria priorizar o tratamento da depressão na alocação dos recursos da Saúde?. Epidemiol. Serv. Saúde. 2016  Dez;  25( 4 ): 845-848. http://dx.doi.org/10.5123/S1679-49742016000400018

​Fonte: https://pebmed.com.br/setembro-amarelo-o-suicidio-no-mundo-contemporaneo/

terça-feira, 7 de setembro de 2021

 Setembro amarelo: tempo de repensar a vida

Rodolfo Furlan
Laís Kristyna Rocha de Oliveira

“E o que te faz viver?”. De forma simplória, poderíamos elencar vários motivos para manter a engrenagem da chamada “vida”, palavra cheia de significados – ou melhor, de existência – etimologicamente proveniente do latim “vita”.

Seja por amor a algo ou alguém (incluindo desde o “eu” até os demais pronomes relativos utilizados) seja pela ideia de oferecer ajuda à sociedade em geral (motivados pela sua espiritualidade ou não), mantemos o motor da vida em funcionamento, dia após dia, embora muitas vezes não consigamos nomear o real sentido de permanecermos nesta engrenagem.

Na verdade, quando as coisas funcionam sem grandes percalços, raramente paramos para questionar a essência da vida. Antagonicamente a esta realidade, no entanto, quando o medo, a insegurança, a tristeza ou mesmo a apatia tomam conta do sujeito em sua forma mais singular (diga-se de passagem, até mesmo solitária), eis que vem a dúvida: qual o real significado da vida? Tal pergunta fez alguns filósofos, entre eles Albert Camus escreveu em O Mito de Sísifo:

“Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: é o suicídio. Julgar se a vida merece ou não ser vivida, é responder a uma questão fundamental de filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, vem depois. São apenas jogos; primeiro é necessário responder.”
Diante dos questionamentos envolvendo a temática supracitada, devemos atuar ativamente na conscientização da valorização da vida e na prevenção do suicídio, um conteúdo por vezes visto como um tabu e que, em alguns momentos, ainda demanda escritas um tanto caprichosas para burlar o veto dado ao assunto polêmico.

A importância de falarmos sobre o suicídio

Quer queira ou não, as mortes autoprovocadas são um problema de saúde pública mundial (mais de 800 mil mortes por suicídio e mais de 16 milhões de tentativas todos os anos no mundo), que invade os mais diversos ambientes, atingindo desde o colega distante do trabalho, ao frequentador da mesma igreja, ao parente nem tão próximo, esvaecendo até mesmo seu amigo, cônjuge, filho, pai, mãe… ou paciente!  

Enquanto os números caem no mundo, o Brasil não para de crescer nessa sombria estatística. Brasil, México e Estados Unidos são responsáveis por um aumento de 35% no número de suicídios mundiais no século XXI, enquanto, neste mesmo período, o mundo encolheu 30%. E, acredita-se que o número seja ainda mais preocupante, visto que as subnotificações são uma realidade que permeiam muitos países e acabam por interferir na qualidade do gerenciamento dos registros oficiais, incluindo no próprio Brasil.

Haja vista a proporção alarmante de tentativas de autoextermínio, devemos estar aptos a reconhecer os sinais de alerta. Processos de introspecção, com retraimento social, perda de prazer por atividades outrora interessantes, descuido com aparência, piora do desempenho nas atividades laborais ou nos estudos, alterações no sono e no apetite, diminuição da energia, além de pensamentos de morte podem dar fortes indícios de que é hora de cuidar.

Pessoas mais acometidas

Um outro ponto de importante ressalva é o impacto do suicídio nas minorias. Cada vez mais negros, indígenas, gays, transexuais, e mulheres, tentam suicídio todos os anos. Algo precisa ser feito. Como diz a grande socióloga Michelle Alexander em seu livro “Responsibility for Justice”, quando o problema não é de ninguém, ele é de todos. E sim, de todos nós!

Além da necessidade de pôr-se em prática o conceito de integralidade no contexto de prevenção do suicídio, com a atuação dos profissionais de saúde de forma articulada e multidisciplinar diante do indivíduo em situação de vulnerabilidade, também devemos repensar o quão poderoso é o exercício de uma boa escuta, oferecendo um verdadeiro acolhimento do sujeito em sofrimento. Não menos importante, é de extrema relevância a articulação com outros setores na sociedade, promovendo ações preventivas educacionais, sedimentando a luta contra o preconceito, como o bullying, além de campanhas contra o porte e posse de armas, que matam mais e mais pessoas por suicídio em todo o mundo.

Gostaríamos de encerrar com essa frase, que resume o ato de prevenir o suicídio em todas as esferas:

O cuidado é a essência da vida, e o amor é a essência do cuidado.
Currículo dos autores:

Rodolfo Furlan. Médico Preceptor e Doutorando da disciplina de psiquiatria do HC-FMUSP. Psiquiatra do corpo clínico do Hospital Sírio Libanês e do Hospital Israelita Albert Einstein. Membro do Programa de Saúde, Espiritualidade e Religiosidade (Pro-SER) do HC-FMUSP, do Grupo de Pesquisa em Educação Médica da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e atualmente Tutor da disciplina de psiquiatria da FMUSP. Co-organizador dos livros: “Uma Nova Medicina para Um Novo Milênio: A Humanização do Ensino Médico”, “Cartas ao Dr. Bezerra de Menezes”, “Spirituality, Religiousness and Health” e do livro “Compreendendo o Suicídio”, publicado em 2021 pela editora Manole. Revisor técnico da terceira edição do livro “Espiritualidade no Cuidado com o Paciente”, do prof. Harold Koenig e da segunda edição do Tratado de Clínica Psiquiátrica do IPQ-HCFMUSP.

Laís Kristyna Rocha de Oliveira. Médica pela Universidade Estadual do Piauí; Residente do Hospital das Clínicas Luzia de Pinho Melo.

Fonte: https://pebmed.com.br/setembro-amarelo-tempo-de-repensar-a-vida/

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Sobre setembro, suicídio e sentido

Qual o sentido de se escrever mais um artigo sobre o Setembro Amarelo e seu apelo de valorização da vida e prevenção do suicídio?

Viktor Frankl, o célebre médico psiquiatra austríaco fundador da logoterapia – a terapia centrada no sentido, definia o homem como um ser que sempre aponta para além de si mesmo, em busca permanente de sentido.

Em 1930, com apenas 25 anos de idade, criou o Centro de Assistência a Jovens Suicidas. De 1933 a 1937 foi chefe do Pavilhão Feminino de Suicidas, no hospital psiquiátrico de Viena.

O que ele chamou de síndrome da falta de sentido, marcada pelo sentimento de angústia e de profundo vazio existencial, inicialmente foi considerada um efeito colateral do pós-guerra. No entanto, tornou-se ainda mais presente e acentuada nos dias atuais, como uma espécie de ferida aberta em nossa “sociedade do espetáculo”, como diria o filósofo Guy Debord, e em tempos de “mundo líquido”, como propunha o sociólogo e também filósofo Zygmunt Bauman.

E um de seus mais tristes aspectos é que o suicídio entre jovens vem aumentando de forma impressionante no mundo todo, enquanto cresce também entre as pessoas da terceira idade, inclusive no Brasil.

Em linhas gerais, nós nos afastamos da natureza e de seus ciclos reguladores; criamos uma sociedade toda baseada no poder de consumo e no prazer imediato como valores máximos; imprimimos um ritmo insano às nossas atividades; cultivamos relacionamentos fluidos e superficiais; perdemos a conexão com nossos valores e nos prendemos apenas ao que é imediato, visível, concreto, pragmático, de forma utilitarista; afastamo-nos de nossa essência e daquilo que Frankl chama de nossa dimensão noética ou espiritual.

Sim, Viktor Frankl, diria que estamos gravitando exclusivamente em nossa dimensão psicobiosocial, lutando para sobreviver, sentir o máximo de prazer, administrar a luta entre a razão e o instinto, obter poder e sucesso como sinônimos de uma felicidade quase sempre ameaçada pelas circunstâncias, aprisionados num ciclo pequeno, muito aquém de nossas reais possibilidades e do florescimento preconizado por Martin Seligman.

Como seres humanos, a vontade de prazer e a vontade de poder nos impulsionam para a luta comum, porém, a vontade de sentido impõe-se como a motivação primária em nossa vida. Uma vez negligenciada, pode nos lançar em uma angustiante frustração existencial, capaz de gerar neuroses profundas.

Prevenir o suicídio é uma missão com múltiplos caminhos e negar a complexidade do momento atual não deve ser um deles. Estamos sim, atravessando momentos complicados, sujeitos a um modelo de sociedade que já não nos serve, enfrentando problemas de difícil e demorada solução, sentindo dores e angústias para as quais não encontraremos respostas nem capacidade de superação sem os recursos de nossa dimensão noética.

É pela nossa dimensão noética que nos tornamos capazes de transcender nossas limitações biológicas, nossos condicionamentos psicológicos e nossos horizontes sociais, dirigindo-nos a razões fora de nós mesmos para encontrar o sentido em tudo o que vivemos, seja qual for a situação, inclusive naquelas em que já não existe a possibilidade de mudar o contexto, restando-nos apenas a liberdade última: a de escolher a forma como nos posicionaremos e como reagiremos ao que nos acontece.

Em outras palavras, nesta linha de ação, prevenir o suicídio não é necessariamente evitar que pessoas sofram, mas acionar em nós e ajudar que elas acionem também a sua dimensão noética ou espiritual (sem negligenciar as psicoterapias e outros recursos ao nosso alcance).

Mas, como?

É estarmos atentos quando períodos de tristeza se prolongarem mais do que o normal naqueles que convivem conosco, por exemplo. Vemos o suicídio como um ato extremo, mas deveríamos pensar nele como um processo que se desenha no transcorrer do tempo, de forma mais ou menos silenciosa, mas quase sempre emitindo alguns sinais.

É acolhermos o outro, com extremo respeito à sua singularidade. É ouvirmos as pessoas de forma empática e realmente interessada. É promovermos momentos de encontro real, sem outro interesse além da comunhão, em que possamos nos conectar verdadeiramente uns com os outros e onde cada um possa reconectar-se com sua essência, reconciliar-se com a natureza, construir relacionamentos positivos, redescobrir seus valores, cultivar seus talentos e virtudes, engajar-se em causas maiores do que suas próprias causas, perceber a sua conexão com o todo e com algo maior do que nós, o que nos torna solidariamente interconectados.

Valorizar a vida e prevenir o suicídio é um projeto de amor que se executa no dia a dia.

Mais amor, mais interesse legítimo, mais silêncio, mais escuta, mais ritmos naturais, mais comunhão, mais espiritualidade.

E que setembro nos desvende o sentido maior de nossas vidas: florescermos juntos.

Fonte: http://www.administradores.com.br/artigos/cotidiano/sobre-setembro-suicidio-e-sentido/106736/

sexta-feira, 5 de maio de 2017

"Jovens, nosso presente". Não é nosso dever protegê-los?!


Portas para a realidade…

Fernando Barroso

As lutas são difíceis. Temos que ser mais arrojados do que o “inimigo”. O certo é que vamos ganhando algumas batalhas. Há batalhas muito difíceis de vencer, mas podem contar com a nossa luta até sempre porque os nossos filhos não podem ser “engolidos” pela voracidade das máquinas, e muito menos por mentes que se dão ao “LUXO” de “CRIAR” caminhos para o suicídio. BALEIAS AZUIS? Jogos com caminhos ínvios, que promovem a automutilação, e o colocar termo à própria vida? 50 Desafios “ORIENTADOS” por um “CURADOR”?

1 – Com uma navalha, escreva “F57” na palma da mão e em seguida envie uma foto para o curador.
…
28 – Não fale com ninguém o dia todo.
…
50 – Tire a sua própria vida.
…
QUAL O NOSSO PAPEL? QUAL O PAPEL DE TODOS QUE ESTÃO ACORDADOS PARA AS REALIDADES TRAZIDAS PELA OBSCURA VIRTUALIDADE?

O nosso papel é compreender o sistema e, se necessário, enfrentá-lo em busca de uma sociedade mais justa.

A OMS RECONHECE O SUICÍDIO COMO UMA PRIORIDADE DE SAÚDE PÚBLICA. NO PRIMEIRO RELATÓRIO DA ORGANIZAÇÃO SOBRE O ASSUNTO, RECONHECE QUE A “PREVENÇÃO DO SUICÍDIO: UM IMPERATIVO GLOBAL”

O fenómeno macabro “Baleia Azul” ganha destaque, com justificada razão, entre os assuntos que nos preocupam (guerra na Síria, eleições na França, guerra nuclear da Coreia do Norte, as já conhecidas investidas de Donald Trump). O fenómeno é dinamizado pela execução gradativa de 50 desafios que vão desde a automutilação até ao suicídio. Quem estabelece as regras e propõe os reptos é um mentor (curador), uma espécie de líder, geralmente adulto, que ordena a realização da tarefa do dia com a garantia de provas (os participantes são obrigados a enviarem fotos do trabalho feito). Claro que o “CURADOR” (estranho nome) nunca cumpriu os propósitos do jogo.

UM TOTAL DE 1,3 MILHÃO DE PESSOAS DE 15 A 29 ANOS MORREM NO MUNDO ANUALMENTE VÍTIMAS DE CAUSAS EVITÁVEIS OU TRATÁVEIS, SENDO A PRINCIPAL DELAS OS ACIDENTES DE TRÂNSITO (11,6% DO TOTAL). O SUICÍDIO FICA EM SEGUNDO LUGAR, RESPONSÁVEL POR 7,3% DAS MORTES.

Inescusavelmente, esses acontecimentos fazem-nos pensar sobre um fenómeno que, certamente, não é novo (suicídio entre a população jovem), mas que ganha impulso renovado com um jogo que se desdobra nas malhas da tecnologia.

OS JOVENS NÃO SÃO APENAS O NOSSO FUTURO – ELES SÃO O NOSSO PRESENTE.

São múltiplos os portões de acesso que nos levam a alguns endereços de reposta (como diria Kafka, as portas são inumeráveis, a saída é uma só, mas as possibilidades de saída são tão numerosas quanto as portas).

Para o filósofo sul-coreano Byung-Chull Han, a sociedade de desempenho (que substitui a sociedade disciplinar) prima pelo excesso de positividade. Somos teleguiados pela lógica do excesso (super-comunicação, super-rendimento, super-produção), que nos quer sempre ocupados, respondendo aos estímulos que não param de nos cortejar frente às telas, agora ubíquas.

Provavelmente, os jovens dão-se conta dessas limitações e ousam responder a pergunta que habita as páginas do famoso livro A insustentável leveza do ser: “Então, o que escolher? O peso ou a leveza?” (...)

Coluna: A Saga do Soldado de Papel
Fonte: http://regiaodecister.pt/opiniao/portas-para-realidade

sábado, 24 de setembro de 2016

Reflexões maduras de uma operadora do Direito sobre o suicídio

Glaucia Amaral é formada em Direito e, via concurso, tornou-se procuradora  (advogada a serviço de um ente público, no caso específico, do Mato Grosso).

O que me chamou a atenção no seu texto, ora reproduzido, é o relato dela do suicídio de três de pessoas próximas. Ela é uma sobrevivente, uma enlutada ou impactada pelo suicídio. Alguém que ainda sofre em razão das perdas e que, por muito tempo, trabalhará o luto por conta destas ocorrências.

O depoimento, bem escrito, servirá de reflexão para muitos de nós, estudiosos, enlutados e interessados no tema. Que prossigamos firmes em nossas lutas em favor da vida (incluso a nossa!):)


The Leftovers

Glaucia Amaral

O suicídio é uma epidemia, relativamente silenciosa. A OMS informa que mata mais do que o HIV, e em estudo inédito nos revela que há um suicídio no mundo a cada 40 segundos. Não sou especialista na área apesar de me aventurar a escrever este artigo. Médicos psiquiatras, psicólogos, neurologistas e até nutrólogos são os profissionais mais habilitados a informar com precisão técnica o que a ciência já sabe deste flagelo dos dias atuais.

O que tenho é a experiência de ter testemunhado isso ocorrer.  Creio que, com esses índices, parando para pensar, todos conhecem casos de pessoas próximas que cometeram suicídio. E do que vivi e aprendi, é que peço licença para compartilhar. Quem sabe compartilhar a experiência de quem restou, possa ajudar. E, mesmo, compartilho, pois é preciso falar deste assunto e não escondê-lo para debaixo do tapete. Está acontecendo, muito perto de todos nós.

Da primeira vez que um suicídio aconteceu com alguém próximo, foi com um familiar. Um primo, num ato que pareceu a uma criança (que eu era) um desatino. Ciúme e até estar submetido a pressão da sociedade machista o levaram ao extremo, imediatamente após um divórcio. Tantos anos atrás, meus tios fizeram  de tudo para que os detalhes não ganhassem os jornais.

Na segunda vez, e bastante recentemente, vi minha melhor amiga de uma vida inteira ser consumida pela depressão. Família, amigos, igreja – ela era uma pessoa de muita fé – mas nada a atingia o suficiente, para fazer voltar a crer na vida. Uma irmã, das brincadeiras e aprendizados da infância, adolescência e faculdade, começa a definhar diante dos olhos e nada do que a medicina tem para oferecer sequer chega a dar esperança de mudança de rota. Fiz promessas de estar perto. Vi os olhos brilharem durante conversas reacendendo a alegria que já estivera presente. E, fundamentalmente, nunca acreditei – por ser impossível acreditar que alguém tão essencial um dia se vá – que o pior fosse acontecer. Aconteceu.

Um ano depois, vi novamente. Tudo que li e pesquisei para ajudar minha melhor amiga, foi o substrato que me ajudou a enxergar que mais alguém tão querido trilhava este caminho. O sinal de alerta acendeu ao ouvir frases desejando estar livre do que existia na própria vida. A confissão entrecortada e negada imediatamente, dizendo que morrer lhe passava pela cabeça. A mudança dos gestos, a construção de uma versão da realidade na qual a única conclusão possível seria que sua ausência era o melhor para os que amava. E o fim.

A tristeza de perder amigos amados, como naquela poesia que tanto circula, muda a gente. O título do artigo, “The Leftovers”, é de uma série de TV americana, de realismo fantástico que propõe uma realidade paralela: em um determinado dia, na mesma hora, milhões de pessoas desaparecem da face da terra. Sem explicação. Não é sequestro, não é morte, não há corpos, nada. Somem diante dos olhos. A série mostra a vida daqueles que ficaram, e suas tentativas de descobrir o que de fato ocorreu e sobreviver à tristeza. “Leftovers” é também, a forma como se referem à comida que sobrou. As sobras.

O enredo da série é um pouco do sentimento que fica, quando um ente querido se vai após perder a batalha contra um flagelo mental. Não sou capaz de compreender a perda da vontade de viver. Nos três casos que sofri, o coração partido só se recorda que eram três pessoas incapazes de fazer o mal e  alegres. Meu primo gostava de praticar esportes e dançar tango, minha melhor amiga tinha a gargalhada mais alegre de todas, e sempre presente. E minha querida amiga que faleceu ano passado, passava a vida a agregar grupos, fazer amigos tornarem-se amigos uns dos outros. Pessoas amadas pelas famílias.

Outra coisa que o mundo moderno trouxe, é o senso comum invadindo o momento de luto, com tantas opiniões nos jornais e redes sociais. Desconhecidos apontando o dedo, após a morte e falando em falta de amor, ou falta de Deus. Comentários que só posso concluir que nasçam da ignorância, de não ter o conhecimento técnico (dos médicos e psicólogos) e nem o conhecimento trazido pela vida àqueles que já tentaram auxiliar uma pessoa nessas condições. Nos três casos que presenciei, a busca - e paz - que sentiam cada um com sua fé religiosa, por si só não resolveu. Mas também não era apagado, como muitos acreditam, no conforto de seus sofás.

Uma doença física é melhor percebida pelo doente, pela família, por quem está em volta. O luto após um suicídio é uma dor com características diferentes. Resta uma grande pergunta não respondida, naqueles que ficam. E a preocupação não cessa. Anos depois, ainda me pego na lembrança dos momentos felizes, e dos momentos de dor. E pensando no que poderia ter sido feito.

O que posso dizer, para todos, pois não sabemos quem pode passar por isso, é que teria multiplicado a atenção por dez, cem, mil vezes
. É preciso estar atento e esquecer o senso comum. Ao perceber amigos doentes, meu primeiro passo foi buscar a orientação em artigos e grupos. E falei com profissionais da área pedindo orientação sobre o que fazer para auxiliar - e descobri que é sim, possível ajudar. O suicida fala em morrer, há sites de apoio e campanhas de esclarecimento sobre os elementos comuns na forma como se comportam.  A pessoa com esse perfil dá sinais.

Diante dos sinais, se você está por perto, não pense que é exagero agir. Aja. Fale. Pode ser que os familiares da pessoa doente sejam abertos a ouvir. Fale, avise o responsável (pai, mãe, marido, esposa, irmãos). Há situações em que os familiares não são abertos para ouvir. Procure mesmo assim, comunique. Comunique ao médico responsável. Ele não convive com a pessoa 24 horas, e só conta com o que ouve na consulta.
Mesmo estando presente, mesmo estando atento, saiba que a batalha é interna e só pode ser vencida pela própria pessoa. E que todos os seus esforços serão considerados insuficientes por você mesmo, caso perca alguém querido. Tente ajudar mesmo assim. Testemunhei o amor que cada uma dessas pessoas tinha por seus familiares, mesmo no auge da doença. Colocando-me a disposição, ouvi frases de preocupação com os pais, com os filhos. E testemunhei o que esta doença faz com o cérebro e a capacidade de raciocínio de pessoas amorosas: a ilusão de que sua morte é melhor para os que ficam. Um pensamento fixo que substituiu a realidade.

Depressão é uma doença grave, séria, que não dá tréguas aos que dela padecem. A quem teve um ente querido perdido, minha solidariedade, a gente descobre e redescobre o que tem valor na vida. E o valor da própria vida.  Aos que pensam que dar fim à própria vida pode ser um caminho, um apelo amoroso para que lute contra esse pensamento equivocado, procure e acredite no poder da ajuda especializada. A morte não é solução. É um vazio que nunca pode ser preenchido, pela perda da pessoa única e especial que cada um é.

Glaucia Amaral é Procuradora do Estado em Mato Grosso e presidente da Associação dos Procuradores do Estado de Mato Grosso (Apromat).

Fonte: http://www.olhardireto.com.br/artigos/exibir.asp?artigo=the-leftovers&id=8044

terça-feira, 7 de junho de 2016

Lá e cá, cá e lá: Brasil e Portugal e a prevenção do suicídio

Tenho republicado e comentado muitas reportagens de Portugal.

A consciência mais aguda dos portugueses, pesquisadores e governantes, dão a entender que eles, em alguns aspectos, estão à nossa frente em prevenção do suicídio.

LÁ

Publicação de item na coluna "Cartas á Directora", do jornal Público.

Os suicidários

No ano 2014 da era cristã, 1223 pessoas suicidaram-se em Portugal. Os dados do Instituto Nacional de Estatística são bons para as agências funerárias. Nascemos para viver! A crise económica não explica tudo. A competição no mundo ocidental a todos implica. O desemprego, a desestruturação moral, os problemas mentais e a falta de perspectivas convidam ao suicídio. Contudo, os responsáveis políticos devem estar atentos na prevenção do suicídio em meios académicos, face ao aumento do suicídio entre os jovens. Álvaro de Carvalho, coordenador do Plano Nacional de Prevenção do Suicídio deve ser ouvido pelos responsáveis políticos e governativos. Segundo Álvaro de Carvalho “Portugal é dos países da União Europeia que apresenta a maior taxa de morte por causa indeterminada”. Jorge de Sena escreveu: “…Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém/ vale mais que uma vida…”

Ademar Costa, Póvoa de Varzim


Fonte: https://www.publico.pt/opiniao/noticia/cartas-a-directora-1734272

CÁ

O projeto de um aplicativo para celular, que torna possível o apoio emocional acessível a todas as pessoas em momentos difíceis está entre os dez finalista no Brasil do DESAFIO DE IMPACTO SOCIAL, promovido pelo Google.

Com o prêmio, eles tem como propósito desenvolver um aplicativo para facilitar a conexão entre pessoas que precisam de ajuda com os voluntários, mais do que duplicando o número de atendimentos em dois anos.

Para ver e votar, clique aqui.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Suicídio: morte evitável


Quando a morte pode ser evitada
Diene Batista
 
De um lado, jovens com idade entre 15 e 24 anos atravessando um período de indefinição: sem   autonomia econômica e emocional, eles precisam decidir sobre os rumos da própria vida. De outro, idosos na casa dos 70 anos que perderam a influencia na família e na sociedade. O desejo – muitas vezes levado a cabo – de tirar a própria vida aproxima essas duas faixas da população distantes etariamente.

É entre os jovens e os idosos que o suicídio mais cresce, segundo a psicoterapeuta e psicodramatista Célia Maria Ferreira da Silva Teixeira. De acordo com ela, a vontade de interromper a existência  é resultado de uma complexa interação entre fatores biológicos, psicológicos, sociais, culturais e ambientais.

A prática é considerada problema de saúde pública pela Organização Mundial da Saúde (OMS) porque impacta toda a rede de relacionamentos do indivíduo. “Família, amigos e colegas são os sobreviventes dos suicídios, morte que mais gera problemas emocionais graves e tipo de luto mais difícil de lidar”, detalha.

Fundadora do  Inter-Vir Suporte em Perdas, grupo que discute ações de prevenção do suicídio, ela defende que esse é um tipo de morte que pode ser evitada. Para tanto, seria necessário atuar em três frentes: políticas públicas voltadas para a área, a prevenção dessa prática e a capacitação dos profissionais que lidam com indivíduos que tentaram o suicídio.

No contexto brasileiro, entretanto, a perspectiva não é animadora. Segundo a psicoterapeuta, as políticas públicas em relação ao suicídio são raras: há apenas uma Portaria Ministerial define as  Dire­trizes Nacionais de Prevenção ao Suicídio. De acordo com Célia, na academia, as pesquisas sobre o tema são desdenhadas. O quadro parece ainda pior no âmbito da qualificação profissional, em que a formação visando o atendimento de pessoas que já tentaram suicídio é  quase inexistente.

Campanhas

Na última semana, o Inter-Vir realizou em parceria com o Centro de Atendimento em Estudos de Psicodrama (Caep), palestra para esclarecer sobre os riscos e as formas de prevenção do suicídio. A iniciativa contempla o artigo dois das Diretrizes Nacionais de Prevenção ao Suicídio: desenvolver estratégias de informação e de comunicação para mostrar a sociedade que esse é um tipo de morte evitável.
“Existem campanhas para prevenir problemas cardiovasculares, o câncer e os acidentes de trânsito. E campanhas de prevenção ao suicídio?”, questiona o  psiquiatra Heisler  Lima Vilela. A falta de visibilidade dos debates demostra o quanto o tema ainda é um tabu, apesar estar cada vez mais presente na sociedade.
De acordo com a OMS, nos últimos 45 anos as mortes provocadas intencionalmente aumentaram 60%. Estudos da mesma organização mostram ainda que o suicídio é a  6ª causa de óbito dos adultos com idade entre 15 e 69 anos em todo o mundo.

Vilela lembra que a tentativa de tirar a própria vida é uma maneira de tentar resolver em nível emocional algo que faz o indivíduo sofrer. O psiquiatra ressalta que há um sentimento de ambivalência envolvendo a situação vivida. “Em geral, quem tenta o suicídio não está totalmente decidido. A morte seria uma solução para sua dor, mas, ao mesmo tempo, ele quer viver”, explica.  

Levantamento da OMS aponta que 53% das pessoas que planejam e chegam a executar, sem sucesso, um plano de suicídio não seguem o tratamento médico após a 1ª tentativa. Ao ser atendido, porém, nem sempre esse paciente  recebe a assistência adequada, como lembra o psiquiatra Thiago Cézar da Fonseca.

Segundo Fonseca, para muitos profissionais de saúde trata-se de uma “demanda indigna”, especialmente em unidades já abarrotadas de doentes, como os prontos-socorros. “Esse paciente chega a ser vítima de piadas e comentários maldosos, que pioram a situação”, descreve.

Além das deficiências profissionais, o psiquiatra vê na ausência de Centros de Referência sobre suicídio uma lacuna que impede o mapeamento mais detalhado da ocorrência desse tipo de situação e dificulta a elaboração de políticas para a área.

Fonte: http://tribunadoplanalto.com.br