A
psicóloga e professora da UFMT Karine Wlasenko Nicolau acredita que a
campanha do Setembro Amarelo deveria focar mais na valorização da vida
ao invés de falar em prevenção ao suicídio.
O Setembro Amarelo foi criado no Brasil em 2015 por uma iniciativa do
CVV (Centro de Valorização da Vida), CFM (Conselho Federal de
Medicina) e ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria). A ideia é
conscientizar sobre a prevenção ao suicídio e dar visibilidade à causa.
"Temos que cuidar das palavras que a gente usa e o modo
como a gente trata a situação. Prevenção do suicídio fica uma coisa
muito no ar. Para se prevenir eu tenho que ter alguém que se coloque
como potencial suicida, isso é um problema. Temos que tomar muito
cuidado para que não seja um disparador", afirma a psicóloga, em
entrevista ao MidiaNews.
Segundo a Karine, que é doutora em Ciências e Tecnologias
em Saúde na área de Saúde Mental, uma forma de combater a depressão e os
pensamentos suicidas é se socializar mais. "Se você me perguntar qual é
a receita do bolo, seriam as ligações da vida, o compromisso com ela e o
não isolamento", disse. "É uma ironia falar isso na pandemia, mas numa
pandemia a gente pode se isolar fisicamente e mesmo assim fazer
contatos".
Na entrevista, a profissional falou ainda sobre a necessidade de as
pessoas naturalizarem mais a morte, os sinais da depressão e os
tratamentos.
Confira os principais trechos da entrevista:
MidiaNews - Qualquer pessoa está sujeita a desenvolver depressão? Há gatilhos ou facilitadores que acionam a doença?
Karine Wlasenko Nicolau - Teoricamente
sim. Qualquer pessoa poderia desenvolver uma depressão, mas isso não é o
que acontece individualmente. A depressão se desenvolve no contexto de
vida de uma pessoa e não de modo isolado. Envolve o modo como ela vive,
se alimenta, se relaciona e especialmente de como ela investe a energia
no seu dia. Essa é uma questão bem importante: a organização da vida
como um fator.
Na abordagem terapêutica que eu trabalho a gente entende
que haveria tipos de personalidades mais e menos propensas à depressão.
Costumamos pensar isso como aquele marcador de incêndio que tem aqui no
Centro-Oeste. Ele pode estar com maior risco de “fogo”. Mas uma pessoa
com personalidade propensa pode passar a vida toda sem risco de
“incêndio”. Enquanto outra pessoa, aparentemente com menor risco, pela
situação de vida, pode ser levada a ter um quadro mais grave de
depressão. Então, teria uma predisposição, de alguma forma, mas estaria
muito mais atrelada às condições de como essa pessoa vive e organiza sua
vida e faz as suas ligações e conexões, especialmente as conexões
sociais.
MidiaNews - Como a doença age na mente e no corpo de uma pessoa?
Karine Wlasenko Nicolau - A gente costuma
comparar a depressão com uma tristeza, mas a depressão não é uma
tristeza. É um rebaixamento psicoemocional que afeta o organismo de um
jeito sistêmico, ou seja, total. Ela afeta as emoções, a movimentação,
etc. Não está localizada, não tem como extrair, por exemplo, a depressão
de uma pessoa. Ela é um nível de desenergização no sentido de
funcionamento, de ter força para tocar a vida. Esse é um traço
importante da depressão do ponto de vista psicopatológico.
MidiaNews - Quais as formas de diagnosticar a doença?
Karine Wlasenko Nicolau - Na parte da
psiquiatria a gente tem o exame clínico, basicamente, e na psicologia
também temos muitas testagens utilizadas e validadas para identificar a
depressão. A gente pode dizer que existe um diagnóstico formal para a
depressão: médico, psicológico e psiquiátrico. Mas a depressão nas
pessoas é muito particular. É uma resposta a certas condições
psicoemocionais e de vida. Os relatos sobre a depressão ou registros
médicos têm muito mais a ver com a necessidade dos profissionais de
trocarem informações, do que para atender as pessoas.
MidiaNews - Como é possível sair de um quadro de depressão?
Karine Wlasenko Nicolau - Existe todo um
caminho particular para cada pessoa resgatar as suas emoções,
especialmente o contato consigo mesmo para sair da depressão. Inclusive
com a movimentação física e com o resgate dessa fortaleza, porque a
depressão tem a ver com o desligamento dos processos da vida. No
entanto, cada um faz esse desligamento de uma forma diferente, esse
processo é muito próprio. Isso é importante de ser observado, porque os
tratamentos também têm que ser muito voltados para cada pessoa, não pode
ser nada muito parecido, muito homogêneo.
Se você me perguntar qual é a receita do bolo, seriam as
ligações da vida, o compromisso com ela e o não isolamento. É uma ironia
falar isso na pandemia, mas numa pandemia a gente pode se isolar
fisicamente e mesmo assim fazer contatos. Então, é nesse movimento de
vinculação, de compromisso, de colaboração coletiva que está a saída.
Quanto menos a gente colabora coletivamente, mais estamos propensos a
ter depressão.
MidiaNews - Podemos falar em diferentes níveis ou estágios da depressão? Como isso funciona?
Karine Wlasenko Nicolau - Podemos dizer
que sim. A gente costuma falar em depressão leve, depressão moderada e
depressão grave. Isso tem a ver com os efeitos que esse quadro
psicoemocional tem nas pessoas e o quanto a vida dela fica comprometida
por conta disso.
Então, é claro, se pensar na promoção da saúde e na
prevenção, a gente deveria estar com o olhar atento para esses momentos e
essas ligações com relação à qualidade de vida, para que um quadro de
depressão não se aprofunde, não se desenvolva. Com uma gravidade maior
dessa doença, a gente também tem maiores dificuldades, inclusive da
pessoa procurar atendimento, procurar ajuda.
MidiaNews - Quais as possíveis formas de tratamento para a doença?
Karine Wlasenko Nicolau - Hoje em dia
temos muitas abordagens, tanto na área clínica - mais tradicional -,
quanto em práticas integrativas que hoje já fazem parte do Sistema Único
de Saúde (SUS) e trabalham com todos os quadros de depressão. Mas o
tratamento é algo muito individual. Não podemos dizer que existe um que
seria padrão.
Às vezes a medicação é necessária para que a pessoa consiga
sair desse quadro e comece a desenvolver ações que resgatem essas
ligações que ela perdeu.
Na minha área, que é essa psicologia do corpo, a gente vai
trabalhar muito com a questão corporal: a movimentação, a respiração e o
exercício físico - importante no quadro depressivo. Há pessoas que
mesmo em quadros leves sentem muito cansaço e desmotivação para o
movimento físico, mas ele pode ter um efeito muito positivo.
O mais importante é que a pessoa tem que participar desse
processo, não só receber esse tratamento passivamente. Ela deve entender
que o quadro em que ela se encontra é uma resposta. Não se pega
depressão, se desenvolve um quadro depressivo por algum motivo na vida.
MidiaNews - Toda pessoa que tem depressão está sujeita a ter pensamentos suicidas?
Karine Wlasenko Nicolau - Poderíamos dizer
isso por causa desse rebaixamento, desse cansaço, desse desconforto que
ela sente, mas isso não é regra, não. Há estudos mostrando, por
exemplo, que muitos jovens que fizeram a tentativa [de suicídio]
demonstram um impulso que depois não se repetiu. Isso mostra que [o
suicídio] tem um caráter impulsivo e nem sempre é decorrente de um
quadro depressivo muito grave. Por outro lado, existem outros estudos
mostrando uma tendência da pessoa que teve uma tentativa, fazer uma nova
tentativa. As coisas são singulares, são muito particulares.
Isso de certa forma mostra que não devemos estigmatizar a
coisa toda, do tipo: “Quem está com depressão vai tentar o suicídio”,
não, não vai. É relativo, são respostas das pessoas para as vida delas.
MidiaNews - Campanhas como a do Setembro Amarelo causam efeito? Elas são realmente efetivas?
Karine Wlasenko Nicolau - O que eu te falo
é profissional, mas também pessoal. Pensando em efetividade, eu diria
que o Setembro Amarelo deveria ser um mês para a gente promover a vida.
Temos que cuidar das palavras que a gente usa e o modo como a gente
trata a situação. Então, talvez, em vez de ser um mês de prevenção do
suicídio, devesse ser um mês de promoção da vida. Isso faz sentido,
porque todos nós precisamos dessa promoção da vida.
Prevenção do suicídio fica uma coisa muito no ar. Para se
prevenir eu tenho que ter alguém que se coloque como potencial suicida,
isso é um problema. Temos que tomar muito cuidado para que não seja um
disparador, principalmente para as pessoas com uma personalidade mais
impulsiva, que nem estavam em um quadro depressivo tão grave assim. Às
vezes outras patologias psíquicas podem levar a pessoa a pensar em
suicídio, mas não necessariamente a depressão.
MidiaNews - Quando o pensar na morte pode se tornar um risco para a pessoa?
Karine Wlasenko Nicolau - Do ponto de
vista cultural, pensar na morte é algo importante, só não precisamos ser
fixados nela. Talvez, inclusive, a nossa negação da morte traga tantos
problemas em relação às ligações em vida. Devemos pensar na morte como
processo da vida. Somos finitos, nenhum de nós é eterno.
Na nossa cultura parece que a morte é um acidente, mas ela
não é. Ela é natural e faz parte da vida. Naturalizar mais a morte pode
ser um grande ganho, inclusive para a promoção da saúde mental: é pensar
nisso, é lidar com isso, é passar por isso. Principalmente nesse
período que estamos vivendo [pandêmico] em que muitas pessoas estão
lidando com a morte. É importante que as pessoas passem pelo luto para
entrar em contato com uma outra parte da vida.
MidiaNews - A que sinais familiares e amigos devem ficar atentos para evitar um possível suicídio?
Karine Wlasenko Nicolau - Acho que um
sinal importante é a mudança. Quando a gente nota muito retraimento,
muito cansaço. Eu não pensaria exatamente na questão do suicídio, mas
mais na questão da depressão, que é mais visível. No caso do suicídio,
em alguns quadros a gente não consegue identificar assim com tanta
antecedência. Mas no caso da depressão como sendo um fator, não o único,
mas um deles, é observar essa mudança e lembrar que muito da depressão
tem a ver com esse desligamento.
Buscar sempre o contato dos familiares, não é controlar,
mas manter esse contato, o vínculo, manter a conversa aberta. O controle
tem um efeito paradoxal que, ao invés de ajudar, atrapalha.
MidiaNews - Há algum registro de aumento de casos do adoecimento mental durante a pandemia?
Karine Wlasenko Nicolau - Temos uma
pesquisa em andamento com a Universidade Federal do Mato Grosso do Sul,
Brasília, Goiás e com Mato Grosso. São quatro universidades federais do
Centro-Oeste reunidas para fazer um mapeamento do panorama de saúde
mental com docentes, técnicos e estudantes das unidades.
A gente está observando que a ansiedade disparadamente é um
fator nesse período [de pandemia], em maior número do que a depressão.
Os nossos dados devem ser processados ao longo dos próximos meses e a
gente deve ter mais informação sobre isso, mas na prévia já observamos
que a ansiedade é o grande fator, em termos psicopatológicos.
MidiaNews - No cenário de pandemia, muitos são os
possíveis fatores que geram ansiedade. É possível destacar algum deles
como sendo o principal causador?
Karine Wlasenko Nicolau - Pelo que eu
tenho percebido, é a superestimulação nesse período. Todos nós estamos
imersos com o mundo virtual. Alguns ainda com sobrecarga na família,
pessoas adoecidas, além da expectativa, que é o primeiro ponto da
ansiedade.
A ansiedade como expectativa seria uma coisa interessante
quando a gente se abre para uma novidade. Mas quando ela não cessa, a
gente passa o dia esperando alguma coisa.
Uma metáfora da ansiedade seria a suspensão, nós ficamos
suspensos esperando algo. Mas já estamos há quase dois anos esperando.
Então isso é um gerador de ansiedade. Os estímulos deveriam gerar uma
resposta e nem sempre é o que acontece. Por exemplo, quando você observa
algum noticiário com uma situação grave ou muito dramática - como a que
temos visto -, você não consegue dar uma resposta imediata para aquilo,
é só o impacto.