terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Bortolote ao vivo, na Unesp de Botucatu: Mídia na prevenção do suicídio


Psiquiatra falará sobre papel da imprensa na prevenção do suicídio

A Faculdade de Medicina de Botucatu/Unesp (FMB), por meio de sua Assessoria de Comunicação e Imprensa (ACI), promoverá nesta quinta-feira (21 de fevereiro de 2013), a partir das 10 horas, mais um encontro voltado a representantes de veículos de comunicação. Os jornalistas participarão, na sala da Congregação, no prédio administrativo da FMB, de um bate-papo com o médico psiquiatra José Manoel Bertolote, professor do Departamento de Neurologia, Psicologia e Psiquiatria da FMB e o tema em pauta será: “Prevenção do Suicídio”.

Em parceria com o Núcleo de Educação à Distância e Tecnologias de Informação em Saúde (NEAD.TIS) da FMB, todo evento será transmitido, ao vivo, pela internet, e poderá ser acompanhado pelo link www.nead.fmb.unesp.br/prevencaosuicidio

Bertolote, que acaba de lançar o livro “O suicídio e sua prevenção” (142 páginas), pela Editora Unesp, é reconhecido internacionalmente por seus estudos sobre o tema. O especialista lançou, em 2000, um manual voltado especificamente para profissionais da mídia com objetivo de orientá-los sobre como tratar o assunto em suas reportagens, tanto em circunstâncias gerais quanto específicas e apontar as armadilhas a serem evitadas nas coberturas de suicídios.

A coletiva de imprensa promovida pela FMB terá duração de 40 minutos. Professor Bertolote usará metade do tempo para uma apresentação sobre os índices de suicídio no Brasil e no mundo, além de abordar formas de prevenção. Em seguida, haverá 20 minutos para perguntas dos jornalistas e discussão sobre o tema.

  “A mídia desempenha um papel significativo na sociedade atual, ao proporcionar uma ampla gama de informações, através dos mais variados recursos. Influencia fortemente as atitudes, crenças e comportamentos da comunidade e ocupa um lugar central nas práticas políticas, econômicas e sociais. Devido a esta grande influência, os meios de comunicação podem também ter um papel ativo na prevenção do suicídio”, cita trecho de apresentação da cartilha “Prevenção do suicídio – um manual para profissionais da mídia”, de autoria de Bertolote.

Sobre o autor

José Manoel Bertolote é graduado em Medicina pela Faculdade de Ciências Médicas e Biológicas de Botucatu da Unesp, atual Faculdade de Medicina, onde leciona, no Departamento de Neurologia, Psicologia e Psiquiatria. Tem mestrado em Psiquiatra Social e Transcultural pela McGill University de Montreal, no Canadá, e foi coordenador da equipe de transtornos mentais e neurológicos na sede da Organização Mundial da Saúde (OMS), em Genebra. Recebeu o prêmio Ringel Service Award, International Association for Suicide Prevention, da OMS.

Na TV: prevenção do suicídio em programa, na Bahia


No programa Saúde & Vida, da Tarde TV, de Salvador-BA, Soraya Carneiro Carvalho-Rigo deu a entrevista que ser assistida aqui.

Soraya é psicóloga, psicanalista, especialista em Psicologia Hospitalar e participa do Núcleo
de Estudo e Prevenção do Suicídio (NEPS).

Segue link para o seu artigo Suicídio no Brasil: uma aposta na prevenção, apresentado no  IV Congresso Latinoamericano da ULAPSI, em 2012.



quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Mais sobre o Plano de Prevenção do Suicídio em Portugal


Médicos de família determinantes na prevenção do suicídio
Bárbara Baldaia

A primeira tónica do Plano de Prevenção do Suícidio está na formação dos clínicos gerais para estarem atentos a casos de depressões graves.

Os números mostram que a maioria das pessoas que se suicidaram recorreu a um médico no mês anterior.

Por isso mesmo, adianta Álvaro de Carvalho, a primeira tónica do Plano de Prevenção do Suícidio está na formação dos clínicos gerais para estarem atentos a casos de depressões graves.

Ou seja, o médico de família deve estar alerta para perceber as depressões graves que podem desenvolver tendências suicidárias, de forma a conseguir encaminhá-las para o psicólogo ou o psiquiatra.

O coordenador do Plano de Prevenção do Suicídio chama ainda à discussão outros elementos que podem ter um papel fundamental para evitar mortes.

Álvaro de Carvalho chama-lhes os porteiros sociais. Professores, polícias, bombeiros, padres, taxistas: são pessoas que às vezes ouvem desabafos e que devem estar atentas a casos potencialmente mais graves.

Procurar um especialista é o primeiro passo que a pessoa com depressão deve dar e essa decisão pode surgir com a ajuda de alguém que está de fora.

Fonte: http://www.tsf.pt/PaginaInicial/Portugal/Interior.aspx?content_id=3027329&page=-1


Guia Orientador de Boas Práticas para a Prevenção de Sintomatologia Depressiva e Comportamentos da Esfera Suicidária

Os enfermeiros portugueses, por meio de seu órgão de classe, publicaram este interessante manual, que pode ser baixado aqui.

No seu preâmbulo se lê:
A prevenção da depressão e do suicídio encontra-se entre as áreas prioritárias de intervenção no Plano Nacional de Saúde Mental 2007-2016
Tratando-se de um fenómeno complexo, que envolve saberes de diversas áreas disciplinares e profissões, beneficiando com uma intervenção multifacetada e de todo um trabalho multidisplinar e multiprofissional, é uma área do saber na qual os enfermeiros especialistas de Saúde Mental têm um contributo muito relevante.

Contextualizando, hoje Portugal tornou público as discussões em torno do seu Plano de Prevenção do Suicídio e os enfermeiros reivindicam mais espaço de atuação.

Esperemos que no Brasil tenhamos também debates em torno do tema e a participação decisiva dos atores da esfera da saúde mental.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

As discussões em torno de um plano de combate ao suicídio em Portugal

O que tem sido dito, oficialmente:
"Aumentar o preço das bebidas alcoólicas e implementar um programa de ativos no mercado de trabalho são duas das propostas do plano de prevenção do suicídio, que deverá estar concluído no final de março"
Uma voz dissonante e sensata nos dá muitas aulas sobre o tema, o que pode interessar ao leitor brasileiro, preocupado com a prevenção do suicídio em terras tupiniquins.

Trata-se de Ricardo Gusmão, psiquiatra e coordenador da Aliança Europeia Contra a Depressão. Vamos à entrevista concedida por ele.


Não é com restrições ao álcool que se combate o suicídio em Portugal
02.02.2013 - 07h47 Natália Faria

Diagnosticado o problema da subnotificação dos casos de suicídios, o psiquiatra Ricardo Gusmão calcula que em Portugal ocorram em média quatro suicídios por dia. Depois de, em Outubro, se ter afastado da comissão de peritos responsável pela elaboração do plano de prevenção do suicídio, que aponta as restrições ao álcool e o reforço dos apoios sociais aos desempregados como ferramentas de combate ao problema, diz-se convencido que tais medidas nada farão pela diminuição do suicido em Portugal. Entre outras coisas, justifica, porque quem se suicida são os velhos e não os desempregados. É professor na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa e coordena em Portugal a Aliança Europeia contra a Depressão. Entre 2008 e 2012, liderou um projecto comunitário que, segundo diz, reduziu o suicídio em 23% na Amadora. Os seus resultados vão ser apresentados no dia 14 de Março e, segundo garante, a receita (que incidiu nos cuidados de saúde primários e nos “facilitadores comunitários”, como padres e professores) é extrapolável para outras regiões do país .

Por que decidiu sair da comissão responsável pela elaboração do plano de prevenção do suicídio?
Na realidade nunca quis lá entrar. E pareceu-me que, se saísse, talvez isso fosse mais vantajoso para que as coisas se esclarecessem e para que a comissão pudesse trabalhar de uma forma mais solta. Os trabalhos de comissão às vezes têm algumas particularidades que fazem com que se tenha que ceder em questões de princípio.

O coordenador do plano já adiantou que este recomendará medidas de restrição ao consumo de álcool e o reforço do apoio social aos desempregados, a par da formação dos clínicos gerais. Que lhe parecem estas medidas?
As recomendações relativamente ao álcool irão incidir sobre os adolescentes. E, neste momento, se há algum sucesso de que Portugal se pode gabar na área da prevenção do suicídio é exactamente a redução franca do número de suicídios adolescentes. Neste momento, o suicídio consumado de adolescentes em Portugal é um não problema. E, portanto, não faz muito sentido que, num momento em que o tecido económico português está muito fragilizado, se arranje conflitos com uma parte importante da sociedade como é o sector da produção e distribuição de álcool. Portugal é um país com consumos de álcool importantes em relação a outros países, mas moderado na forma como usufrui desse consumo. É verdade que há questões de saúde pública associadas ao álcool, e até do álcool em relação ao suicídio, mas nenhuma das medidas propostas nesse plano relativamente ao álcool irá contribuir para a redução da suicidalidade em Portugal.

Nem sequer a proposta de aumento generalizado dos preços?
O que me incomoda nesta história do álcool é ele ter sido associado à prevenção do suicídio. O suicídio não é um instrumento de arremesso político, é uma das principais causas de morte, de anos potenciais de vida perdidos. E, portanto, precisamos do consenso da sociedade. E precisamos de conseguir diminuir o estigma em relação à doença mental e em relação às consequências mais grave da doença mental que é o suicídio. E isso não se consegue a concitar pontos de atrito com sectores importantes da sociedade portuguesa - a não ser que valha muito a pena. A questão é que não vale nada a pena.

E quanto aos apoios aos desempregados?
Os princípios estão completamente errados. Aquilo que se alega é que por cada aumento de 1% na taxa de desemprego haveria um aumento de 0,8% na taxa de suicídio. Olhando para o número total de desempregados em Portugal, percebe-se que esse universo cresceu umas 400 mil pessoas, nos últimos quatro anos e meio. Ora bem, são quase 7 pontos percentuais desde 2008. Portanto, isso daria sete vezes 0,8%, o que, pelas minhas contas, são 5,5%. Ora bem, nada disto aconteceu. Os números quer de suicídios registados, quer de mortes violentas por causa indeterminada não mostram isso. Portanto, não há um impacto do desemprego ao nível do suicídio. Além disso, preocupa-me que se faça uma proposta que não tem saída nenhuma no erário público. Se me perguntarem se os períodos de recessão económica levam ao aumento da taxa de suicídio, dir-lhe-ei que sim - aliás, isso até está estudado em Portugal por Pedro Pita Barros -, só que o problema é que esse aumento de mortalidade não se verifica nas pessoas em idade activa mas nos idosos.

Não há uma associação directa entre o desemprego, o álcool e o suicídio?
É mais grave do que isso. Não há necessidade nenhuma de gastar dinheiro em protecção social dos desempregados para prevenir o suicídio. Haverá mas por outros motivos, nomeadamente porque as pessoas estão em situação de fragilidade económica, agora para prevenir o suicídio não faz sentido.

Quais são as variáveis que mais interferem na variação da taxa de suicídio?
A formação dos médicos de família e de outros médicos. Mas não faz sentido que se tenha um programa de formação de médicos de família que não esteja validado, em primeiro lugar, e, em segundo, sem que haja formação de formadores para o aplicar. Por último, não faz sentido um plano de formação que seja simultâneo no país, a não ser que em simultâneo sejam feitas outras intervenções, a outros níveis. Porque a única forma de conseguirmos reduzir a taxa de suicídio em Portugal é fazer em regiões determinadas, geralmente as de maior risco, intervenções simultâneas: ao nível da população, dos médicos de família, dos serviços de urgência, dos municípios, das IPSS, de maneira a haver uma sinergia de vontades e de maneira a remarmos todos na mesma direcção. É óbvio que há aqui muito trabalho de estabelecimento de parcerias, de redes, mas, enfim, já há experiência nisto.

Já disse que por detrás da variação da taxa de suicído estarão variáveis como o divórcio e a toma ou não de antidepressivos.
O desemprego, o divórcio, a pobreza, o consumo de álcool e o não tratamento de doenças per se não levam ao suicídio. A existência de uma doença mental que é a depressão faz com que as pessoas em situações de crise, espoletada por esses factores de risco, possam de facto consumar o suicido. Mas a variável mais importante que explica a redução do suicídio nos últimos 30 anos na Europa é o aumento da utilização de antidepressivos. A outra é efectivamente o divórcio. Não sei se será porque as pessoas que se divorciam vão procurar menos ajuda do que as pessoas que têm alterações do comportamento aditivo de álcool ou do que as pessoas que deprimem por causa do desemprego. Mas em relação ao desemprego existem medidas muito mais eficazes e custo-efectivas que passam por realizar acções de sensibilização e educação nos centros de emprego: o sistema já existe, é só acrescentar conteúdos. A custo quase zero. O mesmo se pode fazer em caso de divórcio nas conservatórias, se bem que de uma forma mais informal. E em ambos os casos com entrega de materiais.

Na análise que fez às mortes violentas por causa indeterminada e aos suicídios nos últimos 30 anos em Portugal, a que conclusões chegou em termos de taxa efectiva de suicídio?
Anda entre os 12 e os 14,5 suicídios por cada 100 mil habitantes, mas poderá chegar facilmente aos 15. Isso dará entre 120 a 160 mortes por mês, o que significa também que a cada seis horas há um suicídio consumado, ou seja, quatro por dia. E o problema é que está a aumentar. E não é por causa da crise, que é outra falácia. O suicídio está a aumentar pelo menos desde 2000, nomeadamente nas pessoas com mais de 65 anos e é óbvio que isso tem que ser levado em conta num plano de prevenção do suicídio. Os homens que se matam ainda são mais do que as mulheres, mas ao longo dos anos essa diferença tem vindo a diminuir. E, apesar de ser também um número bastante elevado, não há alterações da mortalidade por suicídio entre os 25 e os 64 anos de idade. E entre os 14 e os 25 anos há uma redução de 300%.

O aumento é na faixa dos 65 e mais anos porquê?
Por causa da pobreza em que essas pessoas se encontram, pela solidão, pelas dificuldades de acesso a cuidados médicos e por vezes também por falta de formação dos profissionais que lidam com eles.

Confirma-se a velha ideia de que as pessoas se matam mais no Alentejo?
Em termos relativos, sim. Se tivermos em consideração a população total, é verdade que as taxas no Alentejo são maiores do que no Norte de Portugal. O que se passa é que no Norte há uns quantos Alentejos em termos de população. E, portanto, em termos absolutos, o suicídio é maioritário no Norte e no Centro. Por ano, há cerca de mil mortes por suicídio no Norte e Centro. No Alentejo são 200 e tal. São muitos face à população do Alentejo, mas são muito menos do que no Norte e no Centro. E, neste momento, onde a taxa de suicídio é mais elevada até é na Madeira. Por outro lado, enquanto no distrito de Beja para cada dois suicídios há um registo de uma morte violenta por causa indeterminada, que pode mascarar um suicídio, no distrito do Porto para cada suicídio há cinco mortes violentas indeterminadas.

Fonte: http://m.publico.pt/Detail/1583036

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Entrevista com o psiquiatra José Manoel Bertolote


Depressão e alcoolismo são os principais fatores de risco do suicídio

Especialista garante que a prevenção é possível com aumento do conhecimento sobre situação

É possível evitar o suicídio, garante o psiquiatra José Manoel Bertolote, autor do recém-lançado livro “O suicídio e sua prevenção” (Unesp) e ex-chefe do Programa de Prevenção do Suicídio da OMS. Ainda assim, o professor da Universidade de Griffith (Austrália) e da Unesp (Botucatu-SP) diz que cada caso é um caso e ressalta que as motivações também passam por cultura e religião.

Existem fatores de risco para os casos de suicídio?

Quando se estuda a população que comete suicídio, há algumas características em comum. A mais universal é a presença de um transtorno mental. Nos países ocidentais, as duas doenças mais encontradas são a depressão e o alcoolismo. A esquizofrenia vem em terceiro lugar, um pouco longe destas duas. Seja isoladamente ou em uma combinação de fatores, cerca de dois terços de todas as pessoas que cometem suicídio têm ou depressão ou alcoolismo.

E no Oriente?

Só a China e a Índia têm um quarto de todos suicídios do mundo. São mais de 200 mil nestes dois países. Além disso, apesar de não ser maioria, quase um quarto é de suicídios impulsivos, ao passo que no Ocidente isto é raríssimo. São gestos para impressionar, não necessariamente com a intenção de morrer. Na China, tradicionalmente, quando há o casamento, a noiva vai morar na casa do noivo, onde morava o filho e os pais. O grande conflito que tem como consequência o suicídio lá é entre nora e sogra.

O senhor chefiou um programa de prevenção de suicídio da OMS. Como funciona?

Trabalhei na OMS por 20 anos e era o chefe da seção de transtornos mentais. Criei o programa que trata da melhoria do atendimento ao doente mental grave, principalmente com estes três diagnósticos que mencionei.

Como preveni-lo?

O suicídio é uma situação de crise na vida que é absolutamente evitável, é uma eventualidade que ocorre geralmente na vigência de uma doença mental e é importante que cada cidadão se sinta responsável pelo vizinho ou parente que ele perceba estar em crise.

Como identificá-los?

As pessoas se retraem. Uma das dificuldades de poder ajudar é que elas se afastam, o problema não é visível. Normalmente não nos interrogamos sobre o que está havendo. Entrevistamos famílias de suicidas em Botucatu e vimos que em alguns casos eles contaram que iam se matar para a família, mas ninguém fez nada.

Em geral, é algo que passa frequentemente pela cabeça da pessoa?

Passa pela cabeça sim, e no momento que ela sabe que existe um médico, um enfermeiro, uma associação, um padre, um pastor, um número de telefone, a quem ela possa recorrer e falar do problema, a pessoa usa.

E como ficam estas famílias?

Existem associações em vários países que se denominam “sobreviventes do suicídio”. Não para os que tentaram se suicidar, mas para os familiares e amigos que ficaram. Existe uma mistura de sentimentos, como culpa, raiva, impotência, que são fatores de risco para um novo suicídio. É comum a pessoa que ficou de um suicídio tente se suicidar também, como em “Romeu e Julieta”.

Quem são as pessoas que estão prestes a cometer o ato?

Há um grupo de pessoas que realmente quer botar um fim na vida. Ou acha que viveu tudo o que tinha para viver, que não tem mais sentido, ou que não enxerga uma saída para uma situação difícil que está vivendo, então quer acabar com tudo. Há outro grupo que não quer necessariamente morrer, mas quer mudar aquela situação. Existe um terceiro grupo para quem o ato suicida é o famoso grito de socorro.

É preciso ter um motivo específico para se cometer o suicídio?

O indivíduo se suicida na crise de ansiedade. Está deprimido, o rendimento cai e ele é despedido. É um precipitante. Mas a percepção social toma o precipitante pela causa. Acham que ele se suicidou por ter sido demitido e não pelos outros sintomas.

Por que homens se suicidam mais? No Brasil, são três para cada mulher.

Uma das manifestações típicas em homens é o uso de álcool e, em menor quantidade, drogas. Além disso, a depressão no homem nem sempre é diagnosticada porque apresenta características diversas da da feminina. No homem, se manifesta mais como transtorno de comportamento, agressividade.

E na faixa etária, são os idosos que se suicidam mais?

A taxa de suicídio cresce com a idade. Ela é zero até os 5 anos, praticamente zero até os 10 anos, baixíssima até os 15; aí começa a subir progressivamente e as taxas mais altas estão em idosos. A taxa média do Brasil é de seis suicídios por 100 mil habitantes, entretanto, em idosos, ela chega a 25/100 mil.

Por que a taxa brasileira é baixa?

O Brasil é tradicionalmente religioso, a maioria não tem armas de fogo, a população idosa não é tão grande, é uma série de fatores. Há dez mil suicídios por ano, está em décimo lugar. Mas a taxa é mesmo muito baixa. Só que vem aumentando nos últimos dez anos, principalmente em jovens, que é uma população muito desassistida.

No Brasil, a tentativa e a facilitação do suicídio são crimes. O que o senhor acha do direito ao suicídio?

Há mais de 50 anos que nenhum juiz processa alguém por tentativa. Há países onde isso é mais sério, como na Índia, o que complica o tratamento, porque o paciente foge do hospital e o médico omite o fato. Há países que reconhecem o direito, como a Suíça. É uma decisão de foro íntimo que varia muito dada a situação do indivíduo.

Existe um grupo social com maior incidência?

São os policiais, por uma questão muito clara: eles têm uma arma do lado. O acesso ao meio é fundamental. Médicos e dentistas, que têm acesso a substâncias, também.

Nesta linha, países com facilitação de acesso a substâncias ou armamentos têm esta propensão? Como exemplo, o acesso às armas nos EUA?

A taxa é relativa. Nos EUA não é muito alta, entretanto, a grande maioria de suicídios é por arma de fogo. Seria de se esperar uma queda drástica dessa taxa com um controle maior de armas.

Ou seja, é uma questão que envolve vários setores da sociedade.

A saúde está na ponta, inclusive tem só 200 anos que isto entrou no rol da ciência médica. A religião tem uma enorme influência. Um estudo que fiz na OMS comparando países de religiões diferentes mostrou que os mais ateus na época, como URSS, China e Vietnã, tinham taxas muito mais elevadas do que países com religião, seja budismo, cristianismo ou islamismo. Aliás, é extremamente raro o suicídio em países muçulmanos. Os casos famosos de suicidas terroristas não são suicidas, são pessoas que morrem para matar o inimigo. É o suicídio altruísta.

Há picos e vales de suicídios?

Na Europa, houve queda vertical na 1ª e 2ª guerras. Há algumas explicações, como por exemplo a pessoa ter que lutar pela sobrevivência se desvia de seus problemas. Em praticamente todos os países com conflito armado com inimigo externo, o suicídio diminui. Por outro lado, aumenta com uma desorganização social. Quando a Noruega descobriu petróleo e ficou rica da noite para o dia, houve onda de suicídio.

Fonte: http://noticias.orm.com.br/noticia.asp?id=628379&%7Cdepressao+e+alcoolismo+sao+os+principais+fatores+de+risco+do+suicidio#.UQrDEqXEwZU

domingo, 13 de janeiro de 2013

Livremos nossos filhos do suicídio, educando-os para a adversidade...


Na edição de 2 de novembro de 2008 de Cambio (www.cambio.com.co), na seção 10 Perguntas, Miguel de Zubiría conversa sobre o seu livro  Cómo prevenir la soledad, la depresión y el suicidio en niños y jóvenes.

 O título da matéria originalmente é "Estamos formando unos hijos ineptos". Deixamos o adjetivo ineptos tal como está no original e apresentamos abaixo o seu significado, conforme o Aulete:

. Diz-se daquele que não tem habilidade(s) ou aptidão (para algo).
. Que não é inteligente; a quem falta inteligência; IDIOTA; IMBECIL; PARVO.
. Que denota falta de inteligência, estupidez ou ingenuidade.

Segue abaixo a entrevista completa.

Estamos formando filhos ineptos

Cambio: Por que você escreveu o livro "Como prevenir a solidão, a depressão e o suicídio em crianças e jovens"? 

Miguel de Zubiría: Porque desde 1945 o suicídio era uma exceção entre exceções, mas suas taxas vêm crescendo com consistência em todos os países, sobretudo entre jovens entre 15 e 25 anos.

C: A decisão de escrever este livro teve alguma motivação pessoal, específica?

M: Sim, a perda de vários amigos, pessoas com um imenso potencial, e por descobrir que o que faz a diferença entre os seres humanos não são as atitudes, mas as paixões.

C: Qual a causa do aumento do suicídio?

M: Passamos de famílias extensas, com muitos irmãos e primos, a famílias reduzidas. As crianças, hoje, têm pouca capacidade de socialização. Não há quem as oriente, corrija e por isso são pessoas pouco competentes neste sentido. Nós também acreditávamos que o paraíso era a geladeira e o armário cheios, porém as evidências mostram que quanto maior a abundância, mais infelicidade se tem.

C: A permissividade é um caldo de cultura para o suicídio?

M: Sim. Hoje, os pais se consideram bons à medida que tornam fácil a vida dos filhos. Não se dão conta que estão educando uma pessoa para viver em um mundo que não existe. Quando a criança chega à escola encontrará gente egoísta, agressiva, cruel, exigente... E isso acaba criando um contraste muito forte entre a liberdade que se tem em casa e a violência da vida real. Uma criança que só faz o que quer se torna um inadaptado; a vida, para ele, se torna um peso e pode levá-lo à ideia de que não vale a pena viver. 

C: Isto quer dizer que não perdeu sentido o famoso ditado “por tanto te querer acabo te sufocando”?

M: Neste sentido, funciona sim. Nunca na história da humanidade os pais têm amado tanto os seus filhos. Antes do movimento hippie, o papel dos pais era formá-los; a educação das crianças tinha por base obrigações e deveres. É uma hipótese ousada, mas acredito que a criança que receba tão somente amor e carinho pode ser a origem desta tragédia.

C: Você afirma que são três as causas fundamentais do suicídio: fragilidade, solidão e depressão. Analisemos uma por uma:

Fragilidade

M:  É a característica de uma pessoa que não sabe se defender quando agredida. É provável que tenha sido criada por pais que não entenderam que sua tarefa era formar seus filhos para uma vida, que na maioria das vezes, não é nada fácil.  Estamos formando crianças e jovens ineptos, incapazes de arrumar a própria cama, a comprar alguma coisa na padaria, a fritar um ovo,  a fazer coisas mínimas do nosso cotidiano. 

Solidão

M: A solidão é a epidemia do século XXI, um tema que ainda a psiquiatria não tem abordado com a profundidade que se faz necessário. Mas temos que fazer a distinção entre ser só e estar só. Estar só é um estado apropriado à reflexão, à meditação, enquanto ser só é não conseguir amigo ou namorado. É o fruto de uma incompetência, de ser filho único, de não ter tido a experiência de partilhar suas coisas, de não ter aprendido a negociar, de ser incapaz de exercitar-se na arte mais refinada que existe: a de estabelecer interação íntima com outro ser humano. 

Depressão

M: A depressão sinaliza o mesmo que a solidão, mas o foco está voltado a alguém muito importante: você mesmo. É a incapacidade de se valorizar, de acordar e dizer: “Que bom viver mais um dia!” A pessoa depressiva não consegue gostar de si mesma e se for solitária e frágil o mecanismo do suicídio poderá ser ativado em face de ocorrências como: não passar de ano, perder o namorado, ir à falência nos negócios ou até mesmo sofrer um constrangimento qualquer.

C: Como preparar os filhos para enfrentar as adversidades?

M: Ajudando-os a enfrentá-las gradativamente. Não é possível escalar altas montanhas antes das de baixa altitude. Só possível tocar em um concerto de Mozart se começarmos com os pequenos exercícios ao piano.  É isso o que os pais “amorosos” de hoje não entendem. 

C: As taxas de suicídio são mais altas em países ricos, desenvolvidos?  

M: Esta relação não é direta: maior riqueza, maior taxa de suicídio. As sociedades mais desenvolvidas  tem abandonado a as raízes familiares, rompido os vínculos com a comunidade e criado condições de vida que tem se mostrado ruins. Um estudo muito interessante e que nos serve de exemplo é o do psicólogo Martin Seligman. Em um experimento para sua tese de doutorado ele colocou 50 ratos em uma gaiola e anotou o tempo que eles demoravam a morrer sem alimento. 45 morreram nas primeiras 24 horas e cinco deles sobreviveram até 72 horas. Seligman não encontrou qualquer particularidade biológica entre eles. Um dia, porém, o seu auxiliar de laboratório lhe forneceu a chave do mistério: quando ele tinha ido comprar os ratos só havia 45. O vendedor lhe disse que ele esperasse um dia a mais que ele forneceria os outros cinco. Sabe onde o vendedor os conseguiu? No esgoto. Eles eram justamente os cinco que haviam sobrevivido. A única particularidade era o fato de que eles enfrentavam todos os dias a adversidade.

Quem é Miguel de Zubiría Samper?
Local e data de nascimento: Bogotá, 9 de fevereiro de 1951.
Estado civil: casado, dois filhos.
Formação: Psicologia, Composição musical, Antropologia, Biologia e Matemática.
Percurso profissional: professor universitário, diretor da Fundação Alberto Merani, presidente da Liga Colombiana contra o Suicídio.
Área de pesquisa: Nos últimos anos tem estudo a afetividade e a felicidade em uma perspectiva científica.
Obras publicadas: Psicología de la felicidad (2006), La afectividad humana (2006), Cómo prevenir la soledad, la depresión y el suicidio en niños y jóvenes (Aguilar, 2007).

Fonte desta entrevista
Cambio (www.cambio.com.co)
Domingo 2 de noviembre de 2008 :: Inicio/10 preguntas :: "Estamos formando unos hijos ineptos"
http://www.cambio.com.co/paiscambio/10preguntascambio/738/ARTICULO-WEB-NOTA_INTERIOR_CAMBIO-3684900.html

Biografia de Miguel de Zubiría na Wikipédia:
http://es.wikipedia.org/wiki/Miguel_de_Zubir%C3%ADa_Samper