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segunda-feira, 2 de maio de 2016

Tristeza não é depressão... Mais uma reportagem esclarecedora sobre a depressão!

Tristeza não é depressão, depressão é não sentir nada

Não ter reação, não sentir a dor da perda, não sentir nada de nada, apenas uma culpa profunda. Estes podem ser sinais de uma depressão, especialmente se duram muito tempo.

Estes o título e o subtítulo da matéria especial do jornal Observador, de Portugal, sob a batuta da jornalista Vera Novais, publicada ontem, 1° de maio de 2016.

Reproduziremos integralmente a reportagem nas linhas abaixo, em razão de ser muito esclarecedora. Uma ilustração (depressão ontem e hoje) foi por nós traduzida e adaptada.

Tristeza não é depressão, embora a prostração seja um dos estados comuns de quem sofre da doença. Assim, não podemos classificar todas as pessoas tristes como deprimidas, mas nem por isso os números da doença são menos preocupantes – há mais de 350 milhões de pessoas com depressão em todo o mundo, refere a Organização Mundial de Saúde.

A depressão é uma das doenças mais comuns em todo o mundo e uma das principais causas de incapacidade. As faltas ao trabalho, ou a presença não produtiva dos trabalhadores, significam perdas significativas para as empresas. Um impacto económico que chega aos 92 mil milhões de euros na Europa refere a Eutimia – Aliança Europeia Contra a Depressão em Portugal.

Além do prejuízo económico, a doença tem elevados custos humanos: cerca de dois terços das pessoas que sofrem de depressão cometem suicídio, refere a Nature. Só no Reino Unido três quartos das pessoas com depressão nunca chegam a receber diagnóstico ou tratamento.

“O problema é que muitas pessoas acham que a depressão não é uma verdadeira doença, que é uma reação às situações difíceis da vida”, diz ao Observador Ulrich Hegerl, presidente da direção da Aliança Europeia Contra a Depressão. Enquanto as pessoas não perceberem que isto é um problema real, o dinheiro para a investigação nesta área vai faltar, assim como os recursos para tratar as pessoas, afirma o psiquiatra.
“Como agravante, os doentes com depressão não se conseguem fazer ouvir, estão deprimidos, não se manifestam. Não têm esperança e culpam-se a si próprios. ‘Sou culpado. Fiz tudo errado na minha vida. Não mereço que outras pessoas tomem conta de mim. Sou um fardo’, estes são os pensamentos das pessoas com depressão.”
Muitas pessoas pensam que qualquer doença psicológica pode ser chamada de depressão, mas não é nem assim, pois não? O que é realmente a depressão?

Se eu tiver em consulta uma mulher que perdeu o marido, que tem uma doença somática grave, que tem de deixar a casa e que tem problemas com os filhos, é claro que esta mulher estará triste e desesperada, mas isto não é uma depressão.

Para saber se estou perante uma depressão ou não, procuro vários sintomas. Por exemplo, se há uma tendência para sentimentos de culpa. Isto é típico da depressão. Ela não culpa os filhos que não a visitam, mas culpa-se por ser uma má pessoa, por fazer as coisas erradas. Depois, as pessoas dizem que estão cansadas, não no sentido de ensonadas, mas no contrário – estão exaustas, devido a um estado de elevada excitação interior. E as pessoas dizem também que não são capazes de sentir nada, nem mesmo a dor de perder alguém. Em termos técnicos é a “sensação de não sentir nada”. É um estado específico em que não é visível nenhum tipo de sentimentos, nem alegria, nem raiva. É como se estivessem mortos por dentro.

Quando eu falo com uma destas pessoas, com uma depressão profunda, é sempre interessante perceber que durante uma conversa não há quaisquer movimentos ou expressões que seria normal vermos numa conversa com outra pessoa – movimentos para a frente e para trás, por exemplo. Apresentam o mesmo estado emocional o tempo todo.

Claro que precisamos ainda de observar outros sintomas e que estes se mantenham durante duas semanas, para que se cumpram os critérios de diagnóstico da depressão. São eles: estar abatido, ter perturbações na energia – não é falta de energia, mas inibição de energia, que quer dizer que há uma resistência ao movimento ou à fala, que é diferente de estar sonolento -, anedonia (incapacidade de sentir prazer, nem mesmo nas coisas mais felizes) e, claro, distúrbios de processos cerebrais. Pelo menos dois destes sintomas centrais têm de estar presentes durante duas semanas.

Mas há pessoas que, por vezes, se sentem assim durante alguns dias. Estão deprimidas?

Se alguma coisa muito má acontece, pode estar presente durante um período de tempo curto, mas não está presente durante duas semanas. E há outros sintomas que têm de manifestar-se, como problemas em dormir – quase todos os doentes com depressão os têm -, perda de apetite com frequente perda de peso, porque não sentem prazer em comer, problemas de concentração e de memória, o que leva as pessoas a pensarem que têm Alzheimer, sentimento de culpa e desespero.

Quando se tem uma depressão tem-se sempre a sensação que é um estado terrível e que não há escapatória, não se tem a sensação de que é um mau episódio que vai passar e que em poucos dias vai-se estar bem. A sensação de não haver escape, de não haver esperança, leva aos pensamentos sobre como se pode acabar com este estado terrível — aos pensamentos suicidas. É um risco permanente na depressão que as pessoas tenham comportamentos suicidas. A depressão é a maior causa de suicídios em todo o mundo.


Todas as pessoas com depressão têm este tipo de pensamentos?

Mesmo pessoas que não estejam com uma depressão, em momentos mais difíceis da vida, podem ter este tipo de pensamentos. Mas a maior parte das pessoas com depressão têm pensamentos destes [suicidas] e muitas desenvolvem impulsos neste sentido. Muitas assustam-se com estes impulsos e procuram um médico, porque começam a ter medo de se magoarem. Os pensamentos vêm subitamente, como estar perto de uma linha do comboio e pensar em saltar.

Qual a origem da depressão? É genética, ambiental, traumática ou tudo isto?

A definição de depressão é que é uma disfunção da mente e do corpo. Muitos doentes perguntam isso [qual a origem] e eu explico sempre com o exemplo da moeda que tem duas faces. Enquanto ser humano podemos observar a interação social: o que a pessoa está a dizer, qual a história da sua vida, que boas e más experiências teve antes. Neste nível de observação podemos detetar fatores que aumentam o risco de depressão no futuro. Por exemplo, os traumas e abusos nos primeiros anos de vida aumentam o risco de depressão no futuro.

Às vezes encontramos gatilhos para a depressão, como acontecimentos negativos. Às vezes mesmo acontecimentos positivos podem ser um gatilho, como entrar de férias. São as mudanças na constância da vida que podem desencadear a doença. Claro que podemos tratar este lado da moeda com psicoterapia.

Mas a moeda tem sempre outro lado, neste caso, interior – o que se passa no cérebro em termos biológicos. A genética, que influencia o risco de ficar doente, mudanças nos neurotransmissores e nos processos que ainda não foram completamente compreendidos – é muito complexo. Neste caso, pode tratar-se as mudanças nos neurotransmissores com antidepressivos. Não se trata de um tratamento em detrimento de outro, é um uso complementar.




Um dos grupos que vive eventos traumáticos, neste momento, são os refugiados. São um grupo de risco?

As estatísticas disponíveis em relação aos diagnósticos psiquiátricos demonstram que os distúrbios são principalmente afetivos. A prevalência de traumas também é mais elevada do que na população em geral, mas não tão alta como se pensa. Outro ponto é que, se viveram um evento traumático, devem poder ter um momento de segurança e coesão social, porque o tempo ajuda a curar. Devemos permitir-lhes que não tenham uns traumas atrás dos outros, mas que tenham um período de calma e segurança depois do evento traumático terminar. Este é, provavelmente, o fator mais importante para permitir [aos refugiados] ultrapassarem o trauma – o tempo. Há tratamentos para o stress pós-traumático, mas a eficácia não é tão boa quanto gostaríamos. Não existe nenhum comprimido que acabe com o trauma, portanto o tempo é importante. Em relação à depressão há muito bons tratamentos. Mesmo que as pessoas não se deem bem com um medicamento, podemos tentar outro e combiná-lo com psicoterapia.

Qualquer pessoa pode vir a sofrer de depressão?

Se tivermos uma predisposição genética, ou se sofremos um trauma na infância, existe um grande risco de vir a sofrer de depressão. E não precisam ser fatores externos fortes. Vê-se muitos casos que, da noite para o dia, podem passar da depressão para a excitação e, de repente, a euforia passa e volta a depressão. E sem nenhum motivo aparente.

Pode imaginar que, se tiver azar, cai numa depressão. E, depois, a depressão vai à procura dos aspetos mais negativos da vida – todos temos lados mesmo bons na vida – e estes aspetos negativos são ampliados, colocados no centro das atenções e a pessoa não vê mais nada que não estas situações. Claro que a pessoa depois pensa que a depressão é por causa destes eventos negativos, mas a maior parte das vezes não são a razão. Para quem tem problemas muito graves, isso pode ser um gatilho, mas a maior parte das vezes a causa não é evidente.
"Há uma ideia de que a depressão é uma reação a uma situação adversa da vida — o que é compreensível. Não está completamente errado, mas não é absolutamente verdade."
E as crianças pequenas podem ter depressões?

Podem, mas não é muito fácil detetar. Agora sabemos que crianças com menos de 10 anos podem ter depressões – têm medo de ir para a escola, não querem brincar, por exemplo. Depois, o risco de ficarem deprimidos na adolescência aumenta. E mantêm um risco alto durante toda a vida adulta.

Pode prevenir-se a depressão?

Sabe o que o Mark Twain recomendou para prevenir as doenças mentais: “Escolhe os teus pais com cuidado e morre cedo”. Prevenção precoce é difícil, porque ainda não sabemos muito bem como funciona a doença. Se for uma pessoa em risco – se os pais ou irmãos sofrem de depressão -, então deve informar-se sobre a doença, de forma a reconhecê-la e a procurar tratamento precocemente, conhecer o tratamento e quem o providencia. E isto ajuda, claro, a lidar com este problema.

A depressão pode ser tratada só com psicoterapia ou tem sempre de recorrer a medicamentos?

As orientações de tratamento na Alemanha dizem que se deve usar psicoterapia ou medicação nas formas mais moderadas, mas na maior parte dos casos mais graves de depressão é preciso recorrer a antidepressivos.

A maior parte dos países usa antidepressivos como forma de tratamento, já na Alemanha temos muitos psicoterapeutas. Mas enquanto um psicoterapeuta pode tratar 50 pessoas por ano, um psiquiatra trata 500 pessoas com depressão. Os antidepressivos são um tratamento muito bom e para mim, se estiver perante uma pessoa com uma depressão severa, é a minha primeira opção.

Muitos médicos de clínica geral também prescrevem antidepressivos. De facto, em muitos países, a maior parte dos antidepressivos são receitados pelo médico de clínica geral.

Usamos mais antidepressivos do que devíamos?

Não conheço bem a situação em Portugal, mas é verdade que aqui são muito mais usados do que na Alemanha. Não sei qual é a razão: se é excesso de medicação ou se existem menos recursos para a psicoterapia.

Na Alemanha, a relutância em tomar antidepressivos é forte, as pessoas têm medo de ficar dependentes, têm medo das mudanças que ocorrem, não querem tomar químicos – se for um produto natural tomam-no de bom grado, mas são muito céticos em relação aos químicos. Claro que a situação em Espanha e Portugal é diferente, não imprimem tantas emoções negativas em relação à toma de antidepressivos. Mas não conheço bem a situação.


Ainda assim, existe um estigma em relação às consultas com psiquiatras. Como podemos ultrapassar isso?

Com informação, simplesmente com informação. Esta é uma doença do cérebro, não só, mas também. Assim como a epilepsia, não é só uma doença do cérebro, é uma doença que afeta toda a vida. É uma doença que pode atingir todas as pessoas, mas é tratável. Esta é a mensagem-chave desta aliança contra a depressão: há ajuda disponível, os medicamentos não criam dependência, não mudam a personalidade, não são comprimidos da felicidade – se alguém saudável os tomar não vai ficar pedrado nem ter momentos de euforia, pode ter apenas uns efeitos secundários.

Mas vai manter-se o problema de que as doenças mentais ou psiquiátricas, como a depressão, mudam a parte mais íntima e sagrada que temos – nós próprios. O ego, é isto que muda. Não algo de que estejamos distantes, como uma dor física. A depressão muda-nos e isto é assustador para muitas pessoas. Para quem não está doente também pode ser assustador se uma pessoa mudar subitamente: se não rir, se não quiser partilhar a intimidade, se não quiser sair. Não é fácil de perceber a depressão como um problema.

Os doentes aceitam que outras pessoas lhes digam que devem ir ao médico?

Claro que há muitas pessoas que dizem que a depressão é culpa sua, ou que não são doentes psiquiátricos. Mas esta perceção tem mudado nos últimos anos: as pessoas estão mais abertas e mais bem informadas. E quanto mais informação existir, mais fácil é para as pessoas aceitarem.

As pessoas podem ser curadas da depressão ou podem apenas ser tratadas e a doença voltar outra vez?

Se a pessoa tiver uma propensão para a depressão – e se já teve depressão uma vez, tem essa propensão – há probabilidade de ficar doente outra vez. Os riscos de voltar a adoecer, mesmo que já não se imagine que se pode voltar a ficar deprimido, mantêm-se, mas podem ser reduzidos por psicoterapia ou antidepressivos.

E é preciso fazer psicoterapia ou tomar medicamentos para o resto da vida?

Não necessariamente. Algumas pessoas têm um único episódio e não voltam a ter outro até ao final da vida, mesmo sem tratamento específico. Mas a maior parte das pessoas têm mais do que um. Quem tiver dois ou três episódios, tem uma probabilidade elevada de ter mais durante a vida. Neste caso, pode fazer sentido fazer antidepressivos durante vários anos.


A depressão ainda é um problema difícil de aceitar e de lidar e a própria família, amigos ou colegas de trabalho têm dificuldade em entender e ajudar estas pessoas.

Um familiar deve informar-se sobre o que é a depressão: deve ler e deve ter um conhecimento profundo da situação. Em geral, os mediadores comunitários, professores, padres, etc., devem ter um conhecimento básico sobre a doença.

Algumas empresas, por exemplo, têm programas e linhas de orientação para o caso das pessoas que têm problemas com álcool. Há um procedimento implementado para o alcoolismo, mas não há um procedimento para a depressão, apesar de ser uma doença frequente, com custos elevados para a empresa, e ser tratável. E a depressão é mais fácil de tratar do que o alcoolismo. No caso da dependência de álcool há mais conhecimento. No caso da depressão, seria melhor se as pessoas tivessem acesso a tratamento mais cedo, para sair da depressão mais rápido.

Os empregadores deveriam prestar mais atenção a esta doença?

Os patrões sabem que têm muito prejuízo com as pessoas deprimidas, que estão presentes no trabalho, sem produzirem, e que contribuem para o absentismo — é um dos maiores prejuízos das empresas. Podem beneficiar se criarem um ambiente na empresa em que as pessoas com este tipo de doenças não precisam de as esconder, mas pelo contrário podem ser um pouco mais abertas e ser aceites, e se, adicionalmente, tiverem alguns conhecimentos básicos sobre quem pode tratar estas pessoas, como um psiquiatra ou um psicoterapeuta.

Quais os principais objetivos da Aliança Europeia Contra a Depressão?

Eu e o Ricardo Gusmão [Presidente da EUTIMIA – Aliança Europeia Contra a Depressão em Portugal] estabelecemos intervenções diretas nas comunidades em quatro níveis: cooperação com médicos de clínica geral, porque a maior parte das pessoas são tratadas por estes médicos; uma campanha para sensibilizar o público em geral e aumentar os seus conhecimentos; treinar mediadores comunitários, professores, padres, farmacêuticos e outros profissionais de saúde; e apoiar os doentes e familiares, criando grupos de ajuda, disponibilizando informação na internet. As missões são: primeiro, aumentar os cuidados de saúde das pessoas com depressão, e, segundo, prevenir o comportamento suicida. Combinamos estes dois objetivos, que parcialmente se sobrepõem, porque a depressão e os suicídios estão relacionados — existem outras doenças mentais relacionadas com o suicídio, mas a depressão é a principal.

Fonte: http://observador.pt/especiais/tristeza-nao-depressao-depressao-nao-sentir-nada/


sábado, 30 de maio de 2015

Mais um exemplo que vem de Portugal. Também precisamos destes peritos!

Programa de formação vai criar 900 “peritos em depressão” nos centros de saúde
Catarina Gomes (26/5/15) 

Ricardo Gusmão afirma que muitos médicos de família se limitam a prescrever ansiolíticos ou antidepressivos. O objectivo do projecto nacional é a redução do número de suicídios.

Os centros de saúde são muitas vezes a primeira porta de entrada no sistema de saúde para pessoas com depressão, mas muitos dos seus profissionais não estão preparados para lidar com este problema de saúde, afirma o psiquiatra Ricardo Gusmão. Um programa nacional de formação vai criar nos centros de saúde 900 “peritos em depressão”, entre médicos de família, enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais, explica o responsável pelo projecto. Dois dos objectivos são a prevenção do suicídio e a redução do consumo de ansolíticos.

O psiquiatra Ricardo Gusmão estima que 20% das pessoas que vão ao médico de família tenham tido uma depressão no último ano. Mas cerca de 90% são depressões ligeiras a moderadas, nota, e nestes casos “não faz sentido referenciar para a psiquiatria. Há a capacidade para tratar nos cuidados primários.”

O problema é que os médicos de família tiveram durante a sua formação cerca de duas a três cadeiras de saúde mental e passaram três meses num serviço de psiquiatra. “É muitíssimo pouco”, diz. Depois disso, ficam por sua conta.

Ricardo Gusmão afirma que a resposta de muitos médicos de família, quando percebem que podem estar em causa depressões, "é prescreverem um placebo, caso dos fortificantes, ou benzodiazepinas [ansiolíticos]” ou então receitam antidepressivos. Mas também "há médicos de família que não percebem que podem estar em causa sintomas de depressão e, se percebem, muitos não sabem o que fazer". Este projecto pretende chegar a cerca de 15% a 20% dos médicos de família do país.

Mas, nota o médico, “temos de ser justos, os médicos de família não tem tempo para fazer psicoterapia, nem os psicólogos [dos centros de saúde]”. Então o objectivo é que seja dada formação a cerca de 900 profissionais, entre médicos, psicólogos, enfermeiros e assistentes sociais, que funcionarão como “peritos em depressão” e que, por sua vez, deverão transmitir os conhecimentos que adquiriram a 3400 profissionais das suas respectivas áreas.

O programa quer chegar a um total de 4300 profissionais e assim atingir um milhão de utentes, entre os quais 200 mil pessoas com depressão e outras doenças mentais, ajudando a prevenir o suicídio, já que se admite que “o suicídio é uma complicação da doença mental, nomeadamente da depressão”, explica Ricardo Gusmão, que é presidente da Eutimia-Aliança Europeia Contra a Depressão em Portugal, associação que propôs o projecto.

O projecto Primary Care Mental Health Sustained Capacity-Building for Depression and Suicidal Behaviour (PrimeDep), que é apresentado publicamente esta quarta-feira em Sintra, prevê um modelo de formação de oito horas mais 4 de e-learning. “Pretende-se que os médicos de família aprendam a diagnosticar, a prescrever e a monitorizar correctamente”, notando que prescrever benzodiazepinas ou antidepressivos deveria implicar que “o doente deveria ser visto pelo menos uma vez por mês, para aferir o resultado”.

A ideia é que muito do trabalho de seguimento possa ser feito por enfermeiros e psicólogos que possam criar “grupos psicoeducacionais”, onde é transmitida ao doente informação sobre a sua doença, sobre como gerir os seus sintomas, conhecer os efeitos secundários dos medicamentos. E, como objectivo último, deverão ser criados grupos de auto-ajuda de doentes.

Outras das ferramentas do programa envolverá uma plataforma informática que poderá ser ser prescrita pelo médico, sendo dado ao doente um login e palavra-passe, sendo o seu uso acompanhado por um profissional de saúde. "É uma ferramenta de auto-ajuda guiada”, que será “receitada” caso estejam cumpridos alguns critérios, como, por exemplo, o utente não querer tomar medicação, ter alguma literacia informática, explica o médico.

O programa vai ser posto em prática em centros de saúde das administrações regionais de saúde do Norte, Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve. O Alentejo e Algarve são as regiões do país com maiores taxas de suicídio, “nessas regiões a cobertura é quase integral”, sublinha.

O PrimeDep recebeu um financiamento de 500 mil euros, para ser aplicado durante 2015-16, no âmbito do programa EEA Grants (linha de financiamento concedida pela Islândia, Liechtenstein e Noruega aos Estados Membros da União Europeia), sendo gerido pela Administração Central do Sistema de Saúde do Ministério da Saúde.

Este tipo de intervenção já foi testado em termos locais, em Matosinhos, Oeiras, Cascais e Amadora, nota. Ricardo Gusmão acompanhou mais de perto o projecto no concelho da Amadora, constatando que houve redução do número de suicídios e tentativas de suicídio que não resultaram em morte em cerca de 20%, e diminuiu a prescrição de benzodiazepinas. Para que os efeitos da formação não se percam no tempo, o projecto vai recrutar 12 a 20 líderes regionais escolhidos pelos respectivos profissionais a quem estes possam passar a recorrer.

Uma associação para os “sobreviventes do suicídio"


Em Portugal cerca de mil pessoas cometem suicídio todos os anos. “Por cada pessoa que morre há duas ou seis pessoas muito próximas que ficam a sofrer com aquela perda e que correm risco de depressão e de suicídio”, sublinha o psiquiatra Ricardo Gusmão, presidente da Eutimia-Aliança Europeia Contra a Depressão em Portugal, que se assume como a primeira associação vocacionada para apoiar “os sobreviventes do suicídio”. Foi formalmente criada no ano passado mas vai ser apresentada publicamente esta quarta-feira.

Fonte: http://www.publico.pt/sociedade/noticia/programa-de-formacao-vai-criar-900-peritos-em-depressao-nos-centros-de-saude-1696815?frm=ult

domingo, 3 de fevereiro de 2013

As discussões em torno de um plano de combate ao suicídio em Portugal

O que tem sido dito, oficialmente:
"Aumentar o preço das bebidas alcoólicas e implementar um programa de ativos no mercado de trabalho são duas das propostas do plano de prevenção do suicídio, que deverá estar concluído no final de março"
Uma voz dissonante e sensata nos dá muitas aulas sobre o tema, o que pode interessar ao leitor brasileiro, preocupado com a prevenção do suicídio em terras tupiniquins.

Trata-se de Ricardo Gusmão, psiquiatra e coordenador da Aliança Europeia Contra a Depressão. Vamos à entrevista concedida por ele.


Não é com restrições ao álcool que se combate o suicídio em Portugal
02.02.2013 - 07h47 Natália Faria

Diagnosticado o problema da subnotificação dos casos de suicídios, o psiquiatra Ricardo Gusmão calcula que em Portugal ocorram em média quatro suicídios por dia. Depois de, em Outubro, se ter afastado da comissão de peritos responsável pela elaboração do plano de prevenção do suicídio, que aponta as restrições ao álcool e o reforço dos apoios sociais aos desempregados como ferramentas de combate ao problema, diz-se convencido que tais medidas nada farão pela diminuição do suicido em Portugal. Entre outras coisas, justifica, porque quem se suicida são os velhos e não os desempregados. É professor na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa e coordena em Portugal a Aliança Europeia contra a Depressão. Entre 2008 e 2012, liderou um projecto comunitário que, segundo diz, reduziu o suicídio em 23% na Amadora. Os seus resultados vão ser apresentados no dia 14 de Março e, segundo garante, a receita (que incidiu nos cuidados de saúde primários e nos “facilitadores comunitários”, como padres e professores) é extrapolável para outras regiões do país .

Por que decidiu sair da comissão responsável pela elaboração do plano de prevenção do suicídio?
Na realidade nunca quis lá entrar. E pareceu-me que, se saísse, talvez isso fosse mais vantajoso para que as coisas se esclarecessem e para que a comissão pudesse trabalhar de uma forma mais solta. Os trabalhos de comissão às vezes têm algumas particularidades que fazem com que se tenha que ceder em questões de princípio.

O coordenador do plano já adiantou que este recomendará medidas de restrição ao consumo de álcool e o reforço do apoio social aos desempregados, a par da formação dos clínicos gerais. Que lhe parecem estas medidas?
As recomendações relativamente ao álcool irão incidir sobre os adolescentes. E, neste momento, se há algum sucesso de que Portugal se pode gabar na área da prevenção do suicídio é exactamente a redução franca do número de suicídios adolescentes. Neste momento, o suicídio consumado de adolescentes em Portugal é um não problema. E, portanto, não faz muito sentido que, num momento em que o tecido económico português está muito fragilizado, se arranje conflitos com uma parte importante da sociedade como é o sector da produção e distribuição de álcool. Portugal é um país com consumos de álcool importantes em relação a outros países, mas moderado na forma como usufrui desse consumo. É verdade que há questões de saúde pública associadas ao álcool, e até do álcool em relação ao suicídio, mas nenhuma das medidas propostas nesse plano relativamente ao álcool irá contribuir para a redução da suicidalidade em Portugal.

Nem sequer a proposta de aumento generalizado dos preços?
O que me incomoda nesta história do álcool é ele ter sido associado à prevenção do suicídio. O suicídio não é um instrumento de arremesso político, é uma das principais causas de morte, de anos potenciais de vida perdidos. E, portanto, precisamos do consenso da sociedade. E precisamos de conseguir diminuir o estigma em relação à doença mental e em relação às consequências mais grave da doença mental que é o suicídio. E isso não se consegue a concitar pontos de atrito com sectores importantes da sociedade portuguesa - a não ser que valha muito a pena. A questão é que não vale nada a pena.

E quanto aos apoios aos desempregados?
Os princípios estão completamente errados. Aquilo que se alega é que por cada aumento de 1% na taxa de desemprego haveria um aumento de 0,8% na taxa de suicídio. Olhando para o número total de desempregados em Portugal, percebe-se que esse universo cresceu umas 400 mil pessoas, nos últimos quatro anos e meio. Ora bem, são quase 7 pontos percentuais desde 2008. Portanto, isso daria sete vezes 0,8%, o que, pelas minhas contas, são 5,5%. Ora bem, nada disto aconteceu. Os números quer de suicídios registados, quer de mortes violentas por causa indeterminada não mostram isso. Portanto, não há um impacto do desemprego ao nível do suicídio. Além disso, preocupa-me que se faça uma proposta que não tem saída nenhuma no erário público. Se me perguntarem se os períodos de recessão económica levam ao aumento da taxa de suicídio, dir-lhe-ei que sim - aliás, isso até está estudado em Portugal por Pedro Pita Barros -, só que o problema é que esse aumento de mortalidade não se verifica nas pessoas em idade activa mas nos idosos.

Não há uma associação directa entre o desemprego, o álcool e o suicídio?
É mais grave do que isso. Não há necessidade nenhuma de gastar dinheiro em protecção social dos desempregados para prevenir o suicídio. Haverá mas por outros motivos, nomeadamente porque as pessoas estão em situação de fragilidade económica, agora para prevenir o suicídio não faz sentido.

Quais são as variáveis que mais interferem na variação da taxa de suicídio?
A formação dos médicos de família e de outros médicos. Mas não faz sentido que se tenha um programa de formação de médicos de família que não esteja validado, em primeiro lugar, e, em segundo, sem que haja formação de formadores para o aplicar. Por último, não faz sentido um plano de formação que seja simultâneo no país, a não ser que em simultâneo sejam feitas outras intervenções, a outros níveis. Porque a única forma de conseguirmos reduzir a taxa de suicídio em Portugal é fazer em regiões determinadas, geralmente as de maior risco, intervenções simultâneas: ao nível da população, dos médicos de família, dos serviços de urgência, dos municípios, das IPSS, de maneira a haver uma sinergia de vontades e de maneira a remarmos todos na mesma direcção. É óbvio que há aqui muito trabalho de estabelecimento de parcerias, de redes, mas, enfim, já há experiência nisto.

Já disse que por detrás da variação da taxa de suicído estarão variáveis como o divórcio e a toma ou não de antidepressivos.
O desemprego, o divórcio, a pobreza, o consumo de álcool e o não tratamento de doenças per se não levam ao suicídio. A existência de uma doença mental que é a depressão faz com que as pessoas em situações de crise, espoletada por esses factores de risco, possam de facto consumar o suicido. Mas a variável mais importante que explica a redução do suicídio nos últimos 30 anos na Europa é o aumento da utilização de antidepressivos. A outra é efectivamente o divórcio. Não sei se será porque as pessoas que se divorciam vão procurar menos ajuda do que as pessoas que têm alterações do comportamento aditivo de álcool ou do que as pessoas que deprimem por causa do desemprego. Mas em relação ao desemprego existem medidas muito mais eficazes e custo-efectivas que passam por realizar acções de sensibilização e educação nos centros de emprego: o sistema já existe, é só acrescentar conteúdos. A custo quase zero. O mesmo se pode fazer em caso de divórcio nas conservatórias, se bem que de uma forma mais informal. E em ambos os casos com entrega de materiais.

Na análise que fez às mortes violentas por causa indeterminada e aos suicídios nos últimos 30 anos em Portugal, a que conclusões chegou em termos de taxa efectiva de suicídio?
Anda entre os 12 e os 14,5 suicídios por cada 100 mil habitantes, mas poderá chegar facilmente aos 15. Isso dará entre 120 a 160 mortes por mês, o que significa também que a cada seis horas há um suicídio consumado, ou seja, quatro por dia. E o problema é que está a aumentar. E não é por causa da crise, que é outra falácia. O suicídio está a aumentar pelo menos desde 2000, nomeadamente nas pessoas com mais de 65 anos e é óbvio que isso tem que ser levado em conta num plano de prevenção do suicídio. Os homens que se matam ainda são mais do que as mulheres, mas ao longo dos anos essa diferença tem vindo a diminuir. E, apesar de ser também um número bastante elevado, não há alterações da mortalidade por suicídio entre os 25 e os 64 anos de idade. E entre os 14 e os 25 anos há uma redução de 300%.

O aumento é na faixa dos 65 e mais anos porquê?
Por causa da pobreza em que essas pessoas se encontram, pela solidão, pelas dificuldades de acesso a cuidados médicos e por vezes também por falta de formação dos profissionais que lidam com eles.

Confirma-se a velha ideia de que as pessoas se matam mais no Alentejo?
Em termos relativos, sim. Se tivermos em consideração a população total, é verdade que as taxas no Alentejo são maiores do que no Norte de Portugal. O que se passa é que no Norte há uns quantos Alentejos em termos de população. E, portanto, em termos absolutos, o suicídio é maioritário no Norte e no Centro. Por ano, há cerca de mil mortes por suicídio no Norte e Centro. No Alentejo são 200 e tal. São muitos face à população do Alentejo, mas são muito menos do que no Norte e no Centro. E, neste momento, onde a taxa de suicídio é mais elevada até é na Madeira. Por outro lado, enquanto no distrito de Beja para cada dois suicídios há um registo de uma morte violenta por causa indeterminada, que pode mascarar um suicídio, no distrito do Porto para cada suicídio há cinco mortes violentas indeterminadas.

Fonte: http://m.publico.pt/Detail/1583036