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quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Plano de aula para dois temas que se entrelaçam: automutilação e suicídio

Automutilação e suicídio: como abordar com a turma

Bárbara Rubira e Mariana Hallal (15 outubro 2019)

Em abril, o presidente Jair Bolsonaro sancionou uma lei que determina que hospitais e escolas devem notificar, de forma sigilosa, casos de automutilação e suicídio. A legislação instituiu também a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio. Segundo dados divulgados em setembro do ano passado pelo Ministério da Saúde, o Brasil registrou 5,8 suicídios por 100 mil habitantes em 2016, com um caso a cada 46 minutos.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o suicídio é a segunda causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos no mundo todo. A entidade elaborou um Manual para Professores e Educadores, dedicado aos profissionais considerados fundamentais no combate ao problema entre adolescentes.

Uma reportagem feita pela repórter Júlia Marques mostra que a preocupação com o problema já tem mobilizado ações em escolas, consultórios e universidades. Algumas iniciativas partem inclusive dos próprios estudantes, que formam grupos de apoio com a orientação de especialistas.

Usando a reportagem e o manual da OMS, desenvolva discussões em sala de aula sobre os principais fatores de risco, sinais de alerta e maneiras de prevenir o suicídio.

Propostas de atividades 


1 – Sociologia


Discuta com os alunos: como as ideias de Émile Durkheim sobre o suicídio, elaboradas na França do século 19, se relacionam com o tema nos dias de hoje?

2 – Políticas públicas


Proponha um debate: as iniciativas do poder público no combate e prevenção à automutilação, ao suicídio e a outros problemas relacionados são eficientes? Que outras ações e projetos os alunos conhecem? O que mais poderia ser feito?

3 – Transtornos psicológicos


Pergunte aos os alunos o que eles sabem sobre depressão e ansiedade. Depois, peça a eles que pesquisem sobre o tema e desenvolvam um trabalho com suas percepções sobre o assunto. O objetivo é desmistificar essas doenças e quebrar preconceitos.

4 – Sem rótulos


Proponha uma atividade para debater os rótulos que são impostos aos adolescentes e discuta as consequências que isso pode ter no desenvolvimento de cada um. É um bom momento para trabalhar as diferenças e as particularidades dos alunos, mostrando que ser diferente é normal.

5 – Internet


Questione os alu
nos sobre o uso das redes sociais pelos adolescentes. Eles acham que o uso exagerado e certos comportamentos influenciam na autoestima? A realidade mostrada por personalidades das redes sociais pode deixá-los descontentes com a sua própria realidade? O que eles podem fazer para diminuir esses efeitos negativos das redes sociais?

6 – Habilidades socioemocionais


Proponha atividades que incentivem trabalhos em grupo e fortaleça a empatia entre os alunos. As habilidades socioemocionais também podem ser trabalhadas em conjunto com o psicólogo da escola ou da comunidade, por meio de palestras explicativas sobre temas pertinentes à saúde mental da turma (depressão, ansiedade, uso de álcool e drogas, entre outros). Aproveitar momentos de grande debate sobre o tema, como o Setembro Amarelo, é uma opção.

Banco de dados e materiais sobre o tema


Vídeo para trabalhar a vida no Instagram versus vida real (em inglês)

Guia do Instituto Ayrton Senna sobre competências socioemocionais no cotidiano das escolas
Centro de Valorização da Vida

Manual de prevenção do suicídio da Sociedade Brasileira de Psiquiatria

Instituto Vita Alere, que trabalha com suicídio, prevenção e posvenção

Projeto Cuca Legal, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)

Associação Americana de Suicidologia (em inglês)

A repórter Júlia Marques fala sobre a produção da matéria foi feita nesse vídeo.


Disciplinas envolvidas: Sociologia, Filosofia, Biologia.

Anos em que as habilidades podem ser trabalhadas: ensino médio

Referências na BNCC: Ciências da Natureza e suas Tecnologias – EM13CNT207*

Ciências Humanas e Sociais Aplicadas – EM13CHS502*; EM13CHS503*; EM13CHS605*

*(EM13CNT207) Identificar, analisar e discutir vulnerabilidades vinculadas às vivências e aos desafios contemporâneos aos quais as juventudes estão expostas, considerando os aspectos físico, psicoemocional e social, a fim de desenvolver e divulgar ações de prevenção e de promoção da saúde e do bem-estar.

*(EM13CHS502) Analisar situações da vida cotidiana (estilos de vida, valores, condutas etc.), desnaturalizando e problematizando formas de desigualdade e preconceito, e propor ações que promovam os Direitos Humanos, a solidariedade e o respeito às diferenças e às escolhas individuais.

*(EM13CHS503) Identificar diversas formas de violência (física, simbólica, psicológica etc.), suas principais vítimas, suas causas sociais, psicológicas e afetivas, seus significados e usos políticos, sociais e culturais, discutindo e avaliando mecanismos para combatê-las, com base em argumentos éticos.

*(EM13CHS605) Analisar os princípios da declaração dos Direitos Humanos, recorrendo às noções de justiça, igualdade e fraternidade, identificar os progressos e entraves à concretização desses direitos nas diversas sociedades contemporâneas e promover ações concretas diante da desigualdade e das violações desses direitos em diferentes espaços de vivência, respeitando a identidade de cada grupo e de cada indivíduo.

O material teve a colaboração de Luciana Cardoso, psicóloga e professora de Filosofia da escola Imaculada Conceição (Pelotas/RS).

Fonte: https://educacao.estadao.com.br/blogs/estadao-na-escola/2019/10/15/automutilacao-e-suicidio-como-abordar-com-a-turma/

terça-feira, 25 de junho de 2019

A frequência da automutilação entre os adolescentes deveria acender um "alerta permanente"...

Casos de automutilação são frequentes no público adolescente e acendem alerta

Especialista diz que contágio pelas redes sociais ajuda a explicar o fenômeno da violência autoprovocada

Greyce Bernardino (23 junho 2019)

Cortar a própria pele, bater em si mesmo, arranhar-se ou queimar-se. Este tipo de comportamento traz problemas e questões que vão muito além da pele. A  automutilação tem sido cada vez mais frequente entre crianças e adolescentes e acende um alerta aos familiares.

Para o psicólogo clínico da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e coordenador do projeto de extensão Qualidade de Vida Acadêmica (QVA): promoção de saúde mental no contexto universitário, Éverton Calado, o contágio pelas redes sociais - há jovens que publicam as lesões na internet e páginas que incentivam a prática - ajuda a explicar o fenômeno da violência autoprovocada, na qual se incluem a automutilação e as tentativas de suicídio.

"Pesquisas confirmam esse crescimento, mas quanto a uma explicação causal ainda estamos tateando em meio a muitas hipóteses. O excesso de virtualização da vida em uma sociedade aceleradamente mutante, é uma delas; a queda e a falta de referências simbólicas, a crise moral das instituições, o hiperindividualismo e a escalada da intolerância são outras. Arrisco dizer que nossa preocupação seria entender o porquê de tamanho sofrimento psíquico no mundo contemporâneo, do qual a prática do "cutting" é uma manifestação por vezes preferencial do jovem e adolescentes", explicou.

O especialista também alertou sobre os sintomas do comportamento que, por vez, pode ser a válvula de escape para dores emocionais. "Precisamos entender sintomas como expressões, algo sendo dito, mostrado, o que implica haver alguém capaz de escutar, acolher essa confissão de sofrimento. A automutilação é resultante de uma angústia, um tanto quanto inominável, incompreensível, para qual serve de escape e alívio, através da dor física. As feridas emocionais vestem-se em comportamentos de se cortar, se bater, se queimar, se escarificar etc., o que vem se tornar a uma experiência estranhamente prazerosa, de satisfação, porque é compensatória", pontuou.

Éverton Calado afirmou, ainda, que a automutilação tem um efeito de contágio, o que explica em parte como a escola surge como um dos principais cenários de sua ocorrência.

"Existe uma associação clara entre esses fenômenos, mas não se trata de uma explicação definitiva pela qual alguém se machuca sempre em função de ter sofrido bullying, embora isso apareça com frequência. Carecemos de dados epidemiológicos, de mais pesquisas acerca da autolesão que tem ares de epidemia, e somente agora as autoridades estão atentando para isso", disse.

"Sem dúvida, a escola tem um papel crucial não somente na identificação e na evitação desses comportamentos, mas na prevenção destes e isso é muito mais desafiador, pois convoca o principal agente desse processo: a família do jovem e do adolescente, cuja presença e apoio - ou sua falta - são determinantes para que o problema "estoure" na escola, mas não tenha sido engendrado naquele ambiente", completou o psicólogo.

"Alívio momentâneo"


Leonardo* - nome fictício usado para proteger a identidade - disse que a prática da automutilação servia como um alívio momentâneo. O estudante, de 22 anos, começou a se mutilar em 2013, mas garante que a prática ficou no passado. "A automutilação era uma forma de cano de escape, pois quando eu me cortava, aliviava tudo. Era dessa forma que eu atingia o meu ponto de paz", frisou.

O jovem disse, ainda, que só veio entender o motivo dos cortes após ser diagnosticado com depressão cerca de um ano depois. "O problema surgiu devido a uma mistura de tudo que eu passei no Ensino Médio, além de passar um tempo sem poder praticar atividades físicas por causa de uma cirurgia. Quando eu percebi que isso era um paliativo, que eu só estava adiando um problema maior, comecei o tratamento, transferindo o cano de escape pra outras coisas", falou.

Ele completou dizendo que os cortes eram feitos geralmente na parte superior dos braços. " A região era a escolhida por não ficar muito amostra. Era só usar uma camisa com manga, que ninguém percebia. Sem falar que evitava ficar sem camisa até mesmo em casa", finalizou

O psicólogo Éverton Calado listou algumas formas de ajuda às vítimas de automutilação. "Na escola ou fora dela, primeira e imediatamente forma é escutar, escutar muito, com respeito, empatia e disponibilidade - e aqui é preciso desmistificar que isso é tarefa ou habilidade exclusiva de especialistas da área, como o psicólogo. Ao mesmo tempo, a família tem de ser comunicada e a rede de apoio e proteção à saúde, acionada: conselho tutelar, unidade de saúde etc., preservar a segurança da pessoa, buscar uma psicoterapia, intervenção psiquiátrica ou na urgência, quando necessários também é essencial".

Lei sancionada

O presidente da República, Jair Bolsonaro, sancionou a lei que cria a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio.

O texto foi publicado no Diário Oficial da União no mês de maio.  A lei cria um sistema nacional, com estados e municípios, para prevenção do suicídio e da automutilação e um serviço telefônico gratuito para atendimento ao público.

A publicação ainda determina que a notificação compulsória destes casos deve ter caráter sigiloso nos estabelecimentos de saúde, segurança, escolas e conselhos tutelares.

Nesse contexto, o Governo Federal, por meio do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH) lançou, em abril, a campanha Acolha a Vida, visando à prevenção do suicídio e da automutilação.

A iniciativa é voltada a todas faixas etárias, com atenção especial para crianças e adolescentes.

Fonte: https://gazetaweb.globo.com/portal/especial.php?c=79417

quarta-feira, 1 de maio de 2019

A "Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio" é sancionada, mas a cobertura jornalística sobre é pífia...

Há um constrangedor silêncio sobre a sancionada "Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio", publicada no Diário Oficial da União no dia 29 de abril (segunda-feira).

Trata-se da lei n. 13.819/19.

Transcrevemos abaixo o que foi noticiado no site Migalhas, tradicional jornal virtual do mundo jurídico.
De acordo com a norma, a política deverá ser implementada pelos entes federativos e tem como objetivos a promoção da saúde mental, a prevenção da violência autoprovocada, a garantia de acesso à atenção psicossocial das pessoas em sofrimento psíquico agudo ou crônico, entre outros.

A lei define como formas de violência autoprovocada o suicídio consumado, a tentativa de suicídio e os atos de automutilação, provocados com ou sem intenção suicida.

A norma determina que estabelecimentos de saúde públicos e privados deverão notificar de forma compulsória, às autoridades sanitárias e ao conselho tutelar, os casos suspeitos ou confirmados de violência autoprovocada.

A lei 13.819/19 é originária do PL 10.331/18, de autoria do ex-deputado Federal e atual ministro da Cidadania Osmar Terra. O texto foi aprovado pelo plenário do Senado no último dia 3 de abril, sob o nome PL 1.902/19.

Durante a votação da matéria, o autor do parecer na CCJ do Senado, senador Marcos Rogério, afirmou que, em virtude de estímulos existentes da internet, as práticas de automutilação têm crescido nos últimos anos. O relator afirmou ainda que o texto está em consonância com portaria do ministério da Saúde sobre o tema.

A lei 13.819/19 entra em vigor 90 dias após sua publicação.
A pergunta que se faz é se a referida norma está aquém do que o desejado.

Para responder a esta questão é importante lermos o que está dito no artigo Suicídio: saindo da sombra em direção a um Plano Nacional de Prevenção, de autoria de Neury José Botega, do Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria, Faculdade de Ciências Médicas, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

É possível que da ideia original do "plano nacional de prevenção do suicídio" pouco tenha restado.

Aguardemos os especialistas dizerem algo. Por ora, o silêncio constrange!

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

II Congresso Brasileiro de Prevenção de Suicídio em breve!


Promoção: Associação Brasileira de Estudos e Prevenção de Suicídio

Algumas  das conferências

Automutilação sem intenção suicida (ASIS): desafios diante do aumento da prevalência do fenômeno no Brasil e no mundo.
Jennifer Muelehnkamp (Estados Unidos)

Um plano nacional para prevenir suicídios: desafios e recursos 
Quirino Cordeiro, Ministério da Saúde

Autodestruição humana: aspectos psicodinâmicos
Roosevelt Cassorla (SP)

Convidada especial:
Jennifer Muelehnkamp
Professora Assistente de Psicologia na Universidade de Wisconsin-Eau Claire e clínica licenciada para o tratamento de comportamento suicida e auto-mutilação sem intenção suicida (ASIS). Publicou mais de 40 artigos de pesquisa e capítulos de livros sobre auto-mutilação, suicídio e outros transtornos relacionados. Associada fundadora e Presidente da Sociedade Internacional para os Estudos de Auto-Mutilação (ISSS).

Para saber mais: www.abeps.org.br/Congresso2018

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Alerta! Automutilação pode acontecer dentro de sua casa

Crianças e adolescentes disfarçam machucados, mas estão se cortando para fugir de angústias emocionais.

Virgínia Martin - 10/1/2018 

A cena pode parecer comum: jovens usando camisas de manga comprida em pleno calor ou adolescentes com os braços enfaixados. O que poucos sabem é que por “de baixo dos panos” existe uma dor silenciosa, manifestada em mutilações pelo corpo. Trata-se da automutilação sem intenção suicida, um comportamento destrutivo e sorrateiro que tem se estendido pela população do país.

No Brasil, os estudos sobre automutilação ainda são escassos. A saúde pública brasileira ainda não se deu conta da importância de analisar esse fenômeno, já considerado um problema de saúde pública em outros países, como Estados Unidos, Canadá, Alemanha e Austrália.

Existem vários métodos usados por quem pratica a Automutilação Sem Intenção Suicida (ASIS): queimadura, corte, bater alguma parte do corpo, arranhão, machucar feridas já existentes, quebrar um osso e amputar um membro. Os dois últimos são vistos como casos mais graves, em decorrência de surto psicótico. O método mais predominante no mundo, inclusive no Brasil, são cortes em alguma região do corpo, geralmente, nos braços, pernas e barriga. Infelizmente, a maioria dos pais sequer percebe que os filhos estão se cortando com lâminas de barbear, canivetes ou outros objetos cortantes.

– Dou palestras em todo o Brasil sobre o tema Defesa da Infância e passei também a abordar a automutilação. Pesquisei e conclui que mais de 30% dos jovens e adolescentes que se mutilam são evangélicos e estão dentro das igrejas. É comum, enquanto estou falando, ver jovens e adolescentes se levantarem chorando para vir me entregar suas lâminas – alerta Damares Regina Alves, que trabalha como assessora jurídica da Frente Parlamentar em Defesa da Família e Apoio à Vida, no Senado Federal.

Damares conta que, em 2016, foi procurada por um grupo de pais, cujos filhos estavam se mutilando. Outros filhos haviam se suicidado. Ela se surpreendeu com as fotos que exemplificavam as mutilações e o drama de crianças e adolescentes de todas as idades. Sem conseguir mais dormir devido ao forte impacto, Damares trabalhou para fundar o Movimento Brasil Sem Dor, que promove palestras e seminários sobre o tema em todo o país a fim de conscientizar professores, educadores, policiais, conselheiros tutelares, médicos, pais, líderes religiosos entre outros.

– Os pais procuravam o Senado Federal na busca de uma legislação mais rígida para punir quem incita ou ajuda crianças e a se machucarem. E também cobravam a criação de políticas públicas de prevenção e combate a automutilação – lembra Damares.

A partir dessas reivindicações, uma pesquisa foi feita nas escolas da cidade de Brasília. O estudo, elaborado pelo Senado, revelou que, dentre os alunos das escolas pesquisadas, no mínimo, cinco crianças ou adolescentes estavam se mutilando. Após audiências públicas e debates, ficou clara a urgência de uma ação efetiva do governo, que deu origem a Comissão Parlamentar de Inquérito, a CPI dos Maus-tratos de Crianças e Adolescentes, presidida pelo senador Magno Malta.


A cartilha orienta pais e professores, disponível desde dezembro de 2017

A assessora ainda destaca que conheceu mais de 70 grupos de Whatsapp com o nome “Anjos Suicidas”. No ilimitado espaço virtual, crianças, jovens e adolescentes, usam e abusam do aplicativo para contar suas experiências e aprender a como se machucar. Detalhe: muitos pais ignoram que seus filhos estejam naqueles grupos.

– Conversei com muitos adolescentes que confessaram a razão das mutilações. Muitos deles disseram que se cortam em virtude da ausência familiar – destaca.

Quando um indivíduo pratica a ASIS, ele se baseia em uma série de motivações. O pesquisador canadense, Dr. David Klonsk, criou uma escala em que lista 13 motivações citadas pelos entrevistados. Entre elas, as duas mais prevalentes no mundo são: o alívio de uma dor emocional (angústia) e a autopunição. Como não conseguem lidar com a dor emocional, a dor física se faz mais “fácil” de suportar do que a angústia, como se fosse uma “transferência” dessa dor subjetiva para uma mais concreta, no próprio corpo.

Para o dr. Carlos Henrique de Aragão Neto, psicólogo clínico, membro da International Society for the Study of Self-Injury (ISSS), da International Association for Suicide Prevention (IASP) e da Associação Brasileira para Estudos e Prevenção do Suicídio (ABEPS), é preciso urgentemente elaborar trabalhos científicos de epidemiologia para saber a dimensão do problema, suas características no Brasil e assim desenvolver planos de prevenção e de tratamento que possam alcançar toda a população, não só aqueles que podem pagar por um serviço particular.

– A ASIS ocorre em todas as classes sociais, com todas as raças. Nesse sentido, foi muito importante desenvolvermos uma cartilha por meio da iniciativa da CPI dos Maus-tratos a Crianças e Adolescentes do Senado Federal. Se a distribuição for bem-feita, teremos um material didático para pais e professores sobre o tema – diz o estudioso, também autor da cartilha sobre Automutilação, lançada em dezembro pela CPI.

Nos últimos três anos, dr. Aragão Neto, por observação clínica, viu os casos de jovens com ASIS aumentarem estupidamente. E decidiu desenvolver sua tese de doutorado, relacionando à ASIS com o comportamento suicida.

O motivo é que uma parte desses que praticam ASIS seguirão para o comportamento suicida, caso não sejam ajudados e tratados – lamenta o especialista, com formação em Luto, mestre em Antropologia e doutorando em Psicologia Clínica e Cultura.

Segundo a Drª. Marisa Lobo, psicóloga clínica, pós-graduada em Saúde Mental e Filosofia em Direitos Humanos, a ASIS é um comportamento perigoso que pode levar a infecções graves ou até a morte. Mesmo que não exista conscientemente a intenção de suicídio, o ato pode tirar a vida, dependendo da intensidade ou periculosidade da autoagressão. E pode ser, sim, decorrente de uma dor emocional, de um modismo ou de um transtorno real psicológico.

– Temos sempre que analisar o contexto. De qualquer forma não pode ser considerado normal alguém se machucar propositadamente nem pode ser visto como algo passageiro ou como modismo, pois não é. O mutilado não consegue aliviar a tensão, o estresse emocional e se corta para que a dor física alivie a emocional. E apesar dessa pessoa estar consciente de suas lesões e cicatrizes, busca escondê-las dos outros – explica a psicóloga.

Outro fator que deve ser investigado está relacionado à associação entre dor e prazer. O comportamento autodestrutivo constantemente carrega uma carga de prazer associado, muito comum de ser encontrado em masoquistas. Pessoas que se automutilam podem ter sido submetidas à relação entre dor e alívio; o que gerou um forte condicionamento mental
que faz com que a dor seja o gatilho para a percepção do prazer. Quem se automutila pode ter passado por um período de estresse após um internamento, por exemplo, e desenvolvido esse comportamento de defesa.

– Parece confuso para o leitor entender isso, mas a psique humana é complexa e pode, por associação, condicionar a dor física com o alívio da dor emocional. A pessoa também pode associar e condicionar um castigo físico sofrido na infância a um pedido de desculpas, esclarece.

Entre motivos diversos, vale considerar que adolescentes e jovens também se automutilam por pressão de amigos em um contexto de competição, de jogo, como o da “Baleia Azul” e até mesmo como exibicionismo. Entre meninas, é comum compararem suas marcas nos punhos e nas pernas.

Principalmente na escola, existem muitas cobranças e muitos conflitos geradores de dor emocional, que atingem valores e expectativas dos estudantes. Se não dão conta disso, podem tentar aliviar seus tormentos por meio de autoagressão.


“O mutilado não consegue aliviar a tensão, o estresse emocional e se corta para que a dor física alivie a emocional”, explica Marisa Lobo

Drª. Marisa adverte que, segundo experiência em consultório, a realidade tem demonstrado que muitos daqueles que se automutilam padecem de desrespeito e falta de atenção de gestores de educação. Para a igreja, falta conhecimento em lidar com algo que é entendido como afronta à fé. Para a escola, conflitos ligados à religião cristã não são objetos de preocupação. Enquanto isso, a prática aumenta, se fortifica e se banaliza. E a sociedade se debilita diante do óbvio: há muitos adolescentes e jovens precisando de ajuda. Não se pode desistir deles!

O QUE FAZER

– Reconhecer que este mal existe e que é necessário encará-lo de frente e com coragem.

– Evitar resolver o problema com desespero, gritos ou punindo ainda mais os jovens e os adolescentes que praticam a autolesão. Não adianta usar violência, frases de efeito ou catequeses. Quem está em sofrimento grave necessita de acolhimento, uma boa escuta (sem preconceitos e com atenção plena) e ajuda para conseguir tratamentos com profissionais da saúde.

– Diante de qualquer sinal de sofrimento, mudanças de comportamento, isolamento, apatia dos jovens, procurar um espaço mais privado com tempo necessário para uma conversa, no sentido de perguntar o quê está acontecendo e como pode ajudar.

– Mostrar preocupação, não desqualificar o sofrimento alheio, se mostrar disponível, são atitudes que ajudarão muito aqueles que estão perdidos em seus sofrimentos e não possuem um repertório de habilidades emocionais e sociais para enfrentar certos traumas.

– Com ajuda necessária da rede de apoio social (pais, amigos, escola, igreja) e dos profissionais de saúde, é possível sair desse quadro e ter uma melhor qualidade de vida.

– O mais eficaz é associar psicoterapia e medicação. A psicoterapia, nestes casos, tem como um dos objetivos ajudar o paciente a identificar outras formas de lidar com frustrações que sejam mais eficazes do que seu comportamento.

– Não há ainda uma medicação específica indicada para que o paciente pare de se mutilar. Entretanto, a medicação pode ser indicada para alívio dos sintomas depressivos e ansiosos, para diminuir a compulsividade e para ajudar a resistir a vontade de se machucar.

– Família e escola devem colaborar na identificação e no entendimento do conflito a fim de convencer a pessoa a buscar ajuda voluntariamente. Caso contrário, uma vida pode estar correndo risco de ter um fim trágico.

PERFIL DOS MUTILADOS

– Geralmente, tendem a ter grandes dificuldades para se expressar verbal ou emocionalmente.

– São tímidos, não conseguem falar sobre suas angústias, têm dúvidas, questionamentos, conflitos. Não conseguem chorar ou desabafar diante de outras pessoas.

– Não possuem amor-próprio, têm sentimentos de menos-valia, se acham incapazes, um fracasso.

– Não conseguem conviver com os demais.

– Embora não demonstrem, são muito sensíveis, têm complexo de inferioridade.

– Preferem se afastar para não gerar decepções nas pessoas.

– Aos poucos, vão se isolando e gerando em si mais dor.

REALIDADE NO CONTEXTO RELIGIOSO

– A Igreja terá que aprender a lidar com esses jovens e adolescentes em sofrimento. Terá que contextualizar suas mensagens e seus ensinamentos, pois está diante de mais um novo e agressivo desafio.

– Será urgente elaborar uma orientação específica que possa auxiliar pastores e líderes de ministérios de adolescentes e de jovens.

ESTUDOS

– O conceito de Automutilação Sem Intenção Suicida (ASIS) é derivado do inglês Nonsuicidal Self-Injury (NSSI), cuja definição é: “dano intencional a uma parte do corpo, sem intenção suicida e para propósitos não validados socialmente” (Klonsky et al, 2011; Nock & Favazza, 2009).

– A prevalência da ASIS aumentou nas últimas três décadas, principalmente nas populações de adolescentes e adultos jovens (Klonsk, et al., 2011; Scoliers, et al.,2009).

– As evidências em estudos internacionais apontam uma relação importante entre automutilação e comportamento suicida (Guerreiro & Sampaio, 2013; Muehlenkamp
& Gutierrez, 2007; Whitlock et al., 2012).

– Em amostras comunitárias de adolescentes (12 e 18 anos), a prevalência da automutilação foi estimada em 18% (Muehlenkamp, ​​Claes, Havertape e Plener, 2012).

– A mesma pesquisa indica que a ASIS tende a ocorrer primeiro durante a adolescência com idade média de início entre 14 e 15 anos (Baetens, Claes, Muehlenkamp, ​​Grietens e Onghena, 2011; Heath, Toste, Nedecheva e Charlebois, 2009).

Fonte: https://pleno.news/comportamento/alerta-automutilacao-pode-acontecer-dentro-de-sua-casa.html

sábado, 18 de julho de 2015

Ponto e vírgula

Projeto Semicolon 


Pessoas no mundo inteiro estão tatuando um “ponto e vírgula” em seus braços, como forma de apoio ao projeto “Semicolon”.

Fundado em 2013 por Amy Bleuel, o movimento é uma homenagem a seu pai, levado pelo suicídio.

Amy tatuou o símbolo que ganhou projeção internacional e foi muito além do que ela previa, representando uma inspiração para todos aqueles que sofrem de depressão, problemas de saúde mental, vícios, auto-mutilação e pensamentos suicidas.

O Ponto e Vírgula representa um objetivo, acreditar que isso não é o fim, mas sim um novo começo.

Um ponto e vírgula é usado quando o autor poderia ter escolhido
 terminar sua frase, mas escolheu não terminar. 
O autor é você e a frase é a sua vida. 
Amy Bleuel

Fontes de pesquisa e cópia:
minhamaetemdepressao.wordpress.com/2015/07/08/project-semicolon/
www.movirs.com.br/_conteudo/2015/07/canais/lifestyle/comportamento/185555-como-tatuagens-de-ponto-e-virgula-chamam-atencao-para-o-combate-a-depressao.html