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segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Entre fatos desconcertantes e a esperança que se renova (mesmo!)...

Um raio-x dos casos e das ações de prevenção ao suicídio no Brasil

Números mostram que mortes por suicídio aumentaram 2,3%, mas ações para mudar o cenário estão em desenvolvimento

Clara Cerioni 20/9/2018

Em 2016, o Brasil registrou 11.433 mortes por suicídio. O índice é 2,3% maior em comparação com o ano anterior, quando foram registradas 11.178 mil vítimas.

No entanto, é possível que esses números sejam maiores. Segundo Fátima Marinho, diretora da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, há um “subdiagnóstico” de 20% em mortes por suicídio no país.

CVV contra o suicídio (Tânia Rego/Agência Brasil)
A estimativa leva em conta casos de “intenção não determinada”, quando não se sabe se foi um acidente ou realmente uma decisão premeditada de tirar a própria vida.

Os dados foram apresentados pelo Ministério da Saúde, nesta quinta-feira (20), durante uma entrevista coletiva em Brasília.

Para fazer o levantamento, o órgão federal usa o banco de informações do Instituto Médico Legal e boletins policiais de todos os estados brasileiros.

De acordo com Luiz Scocca psiquiatra no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP) 97% das pessoas que se suicidam nos dias de hoje têm alguma doença mental.

“Isso mostra que é necessário tratarmos das doenças da mente, como depressão e transtornos de personalidade. O suicídio é um problema de saúde pública e as ações de prevenção são essenciais”, explica.

Quem são as vítimas

Os registros mostram que a população masculina tem uma maior taxa de mortalidade nos casos de suicídio.

Entre os homens, tirar a própria vida é a terceira causa com mais vítimas no país (atrás de violência e acidentes de trânsito), com um crescimento de 20% nos últimos dez anos. Entre as mulheres, é a oitava.

Já a população feminina é a que mais apresenta tentativas de suicídio, mas a que tem menor mortalidade.

“As mulheres tentam, mas não necessariamente querem morrer. Há uma questão familiar, onde a mãe tem um papel fundamental na estrutura e isso é determinante para elas”, explica Fátima.

No entanto, a especialista afirma que é preciso analisar mais profundamente todas as variáveis para compreender com mais precisão esse cenário.

Por distribuição de idade, os jovens são as principais vítimas. A faixa etária com maior número de casos se estende entre 15 e 29 anos.

Já em relação a raça, a população branca é a que mais morre. Em média são 5,9 casos por 100 mil habitantes. Entre os negros e pardos, o índice médio é de 4,7 para 100 mil habitantes.

Em dez anos, estados do Norte e do Nordeste apresentaram um crescimento expressivo de casos de suicídio.

Entre as mulheres, houve alta no Amazonas (88,3%), Rondônia (65,5%) e Alagoas (45,8%). Já entre os homens, o aumento foi em Rondônia (120%), Maranhão (58,8%) e Piauí (48,8%).

Suicídio entre indígenas dispara

A morte de indígenas por suicídio no Brasil é a que mais preocupa os agentes de saúde do governo. A média de casos mortais por 100 mil habitantes chegou a 15,2 no levantamento de 2016. Além disso, os adolescentes, de 10 a 15 anos, representam 40% dessa estimativa.

Na coletiva, Luana Kumaruara, presidente distrital do Conselho Local de Saúde Indígena, explicou que determinantes sociais são fatores responsáveis pela alta taxa de suicídio nesses povos. “A violência, os estigmas e os preconceitos que os indígenas sofrem são algumas das causas.”

Ela afirmou que hoje há 10 mil agentes fazendo a prevenção do suicídio em praticamente todas as aldeias do Brasil. “Todos eles são indígenas e vivem nos territórios”, finalizou.

Ações de prevenção

Recentemente, o Ministério da Saúde liberou 6,5 milhões de reais para desenvolver pesquisas e ações de prevenção ao suicídio.

O dinheiro tem sido distribuído em pesquisas sobre risco de suicídio em pessoas portadoras do vírus do HIV, projetos na área de prevenção no SUS e atendimento humanizado para pessoas que tentaram tirar a vida.

Além disso, Rio Grande do Sul, Amazonas, Piauí, Mato Grosso do Sul e Roraima receberam, cada um, um incentivo de 1,4 milhão de reais para desenvolver ações de prevenção, porque as taxas de suicídio nessas regiões se descolam do restante dos estados.

A gratuidade das ligações para o Centro de Valorização da Vida (CVV) também surtiu efeito positivo. Em 2017, o centro recebeu 2 milhões de ligações de brasileiros em busca de ajuda. O número é o dobro do registrado em 2016.

Para Luiz Scocca da USP, falar sobre o assunto é uma das melhores atitudes para auxiliar quem tem pensamentos suicidas. “O medo e o tabu sobre o tema está acabando. É preciso falar disso, na mídia, claro que com seus cuidados, nas famílias e nas escolas”, conclui.

*Caso você — ou alguém que você conheça — precise de ajuda, ligue 188, para o CVV – Centro de Valorização da Vida, ou acesse o site. O atendimento é gratuito, sigiloso e não é preciso se identificar.

Fonte: https://exame.abril.com.br/brasil/um-raio-x-dos-casos-e-das-acoes-de-prevencao-ao-suicidio-no-brasil/

sábado, 23 de dezembro de 2017

Aumento exponencial no registro de tentativas de suicídio em Pelotas-RS

Com mudança no protocolo, registro de tentativas de suicídio aumenta 910% este ano em Pelotas
Secretaria de Saúde da cidade registrou 192 tentativas de suicídio até o final de outubro. Em 2016, foram 19
Com mudanças na forma de tratar os registros de tentativas de suicídio, Pelotas, no sul do Estado, viu aumentar significativamente a quantidade de notificações de casos na cidade. Em 2016, foram registrados 19 casos de pessoas que tentaram colocar fim à própria vida; em 2017, até o final de outubro, o número aumentou 910%, chegando a 192 tentativas. Com um controle maior desses registros, o objetivo da prefeitura, através da Secretaria de Saúde, é entender melhor o problema a fim de encontrar soluções adequadas.

Desde julho, os serviços de saúde de Pelotas passaram a dedicar mais atenção às tentativas de suicídio, questionando se muitos dos casos de lesões que passavam para atendimento se deviam mesmo a acidentes. Na cidade, os casos são mais frequentes entre os jovens, mas também houve aumento considerável nos registros envolvendo adultos e idosos.

— Temos tentado fazer eventos de conscientização, promover palestras em escolas e prestar esclarecimentos à população, sempre colocando os serviços da Secretaria Municipal da Saúde à disposição — relata Gicelma Kaster, coordenadora de Saúde Mental em Pelotas.

Sabe-se, porém, que os números podem ser ainda maiores, já que muitos casos acabam não indo para atendimento e, assim, não são registrados. Gicelma explica que está sendo realizado um estudo aprofundado sobre as tentativas de suicídio na cidade, em parceria com a Vigilância Epidemiológica.

— Com certeza ainda hoje, como antes, há uma subnotificação. Muitas vezes o familiar chega e não diz, ou não sabe dizer, que aquele acidente foi uma tentativa de suicídio. Mas realmente os números estão aumentando, o que nos preocupa — afirma Maria Regina Reis Gomes, chefe do departamento de Vigilância Epidemiológica da prefeitura de Pelotas.

Coordenador do Comitê de Prevenção do Suicídio da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul (APRS), Rafael Moreno Ferro Araújo informa que, em média, na estatística mundial, para cada suicídio registrado há entre 10 e 40 tentativas. Com cerca de 11,5 suicídios para cada 100 mil habitantes em 2016, Pelotas fica acima da taxa do Rio Grande do Sul (10) e próxima da taxa mundial (11). A cidade registrou 38 suicídios em 2016 e 36 até o final de novembro deste ano.

O psiquiatra explica que uma portaria publicada pelo Ministério da Saúde em 2014 tornou compulsória a notificação de tentativas de suicídio, mas que nem todas as secretarias de saúde e hospitais adotam a regra de maneira adequada.

No início do próximo ano, a prefeitura de Pelotas vai aderir à campanha Janeiro Branco, que planeja mobilizar a sociedade em favor da saúde mental.

Fonte: https://gauchazh.clicrbs.com.br/comportamento/noticia/2017/12/com-mudanca-no-protocolo-registro-de-tentativas-de-suicidio-aumenta-910-este-ano-em-pelotas-cjbidutmc02r101lszbimgkr3.html

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Registrar corretamente tentativas de suicídio ajudará no atendimento

“Após uma tentativa de suicídio iremos receber a notificação no sistema e realizaremos uma busca para saber qual o acompanhamento que a pessoa precisará”, ressalta a enfermeira Hélcia Regina Lima Gonçalves

Roseane Pinheiro | 16/7/2017

A coordenadora do Núcleo de Vigilância de Doenças Não Transmissíveis (DANT’S), Hélcia Regina Lima Gonçalves, defende que é necessário intensificar a cooperação entre as instituições de saúde para a prevenção do suicídio em Imperatriz. Entre os procedimentos está a correta utilização da ficha de notificação compulsória para que possam conhecer a realidade dos casos na cidade.

A enfermeira informa que o núcleo trabalha com todas as patologias não transmissíveis.  Para mapear os procedimentos, é adotada uma ficha de notificação compulsória que identifica as agressões que podem ser autoprovocadas, como o suicídio, ou interpessoais, a violência entre pessoas ou grupos. A entrevista foi concedida ao projeto Coletivas, da disciplina de Técnicas de Reportagem, do Curso de Jornalismo.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o suicídio é uma problema de saúde pública. O Brasil ocupa o indesejável oitavo lugar no ranking de países com maior número de suicídios. Como a sra. vê o suicídio, de acordo com sua vivência na área da saúde?

Hélcia Regina Lima Gonçalves – O suicídio existe desde que o mundo é mundo. Esse fenômeno vem crescendo a cada dia. Hoje, mais de um milhão de pessoas, morre ou tenta morrer por suicídio no mundo e acaba sendo a décima causa de morte no nosso país. São muitas pessoas morrendo. Enquadramos o suicídio em diversas situações, mas vamos falar de duas vertentes: a positiva e a negativa. Para quem quer cometer esse ato é um pensamento positivo, mas, para nossa cultura, o pensamento suicida é negativista, principalmente porque nossa cultura é muito influenciada pala religião, somos em maioria cristãos e, por essa vertente religiosa, vamos ter o suicídio como um ato negativista. Mas para alguns estudiosos, inclusive jornalistas,  é um pensamento positivo.  E o principal pensamento positivo que a pessoas tem: “Eu vou resolver meus problemas”. Como? Com a morte.

Mas nós trabalhamos o suicídio como uma questão negativa, podemos apontar diversas causas. Uma delas é que pessoas que pensa e comete suicídio estaria teoricamente em estado de depressão e a depressão é a grande patologia do nosso século. Vários problemas de saúde vêm da depressão e o suicídio é um deles.

A ficha de notificação compulsória é recente, antes a mesma era somente preenchida pelos médicos, hoje em dia qualquer profissional de saúde que socorreu a vítima tanto no atendimento público quanto no privado é obrigado a preencher e depois encaminhar ao DANT’S (Doenças de Agravo Não Transmissíveis). Após chegar até vocês, qual o processo?

Hélcia Regina Lima Gonçalves – Após uma tentativa de suicídio iremos receber a notificação no sistema e  realizaremos uma busca para saber qual o acompanhamento que a pessoa precisará. A própria ficha possui um espaço especificando o órgão em que a pessoa pode ser encaminhada. Se for criança ao Conselho Tutelar, se for mulher à Delegacia da Mulher ou clínicas, hospitais, posto de saúde, entre outras instituições. Então buscaremos saber se tal pessoa possui algum acompanhamento, não somente no núcleo, mas na atenção básica de forma geral.

Uma das maiores benfeitorias dessa fixa de notificação compulsória é a identificação e recolhimento de dados de pacientes que tentaram suicídio e encaminhamento para a ajuda necessária. Você acha que em Imperatriz essas notificações estão ocorrendo corretamente e está sendo possível atender a população?

Hélcia Regina Lima Gonçalves – Sendo bem realista, ainda estamos iniciando o processo de atendimento à população. Nós estamos começando o processo de ampliação dos nossos atendimentos e conscientização dos profissionais da área de saúde agora. Temos parcerias com órgãos das mais diversas especialidades, pois não envolve só o suicídio, como, por exemplo: Secretária de Trânsito, a Delegacia da Mulher, as UPA’S (Unidade de Pronto Atendimento), o Socorrão, Socorrinho e hospitais privados, onde temos maior dificuldade. Existem tentativas de suicídio e um número considerável nas classes média e alta, mas não conseguimos identificar com clareza, pois são atendidos em hospitais particulares e pedem sigilo e tem esse direito. Só pode fazer a visita, independente se a rede de atendimento é pública ou privada, se a pessoa permitir e, se caso seja tentativa de suicídio, pois se houver óbito, a família é obrigada a nos receber. Tem um sistema que precisa ser fechado com esses dados de forma adequada, o que chamamos de “investigação de óbito”. Eu costumo dizer que ainda é uma situação subnotificada em Imperatriz. Identificam esses casos através do preenchimento da ficha, daí essas notificações vão até a gente, se não for, muitas vezes ninguém fica sabendo.

O suicídio é provocado por uma junção de diversos fatores. De acordo com os dados levantados, quais são as principais causas que levam uma pessoa a cometer suicídio na cidade?

Hélcia Regina Lima Gonçalves –  Diversos fatores mesmo, o suicídio pode estar ligado à depressão, uma questão financeira negativa, às situações de morte, perda de emprego recentemente, casos de divórcio ou perdeu um grande amor. A questão amorosa influencia muito e gera depressão, principalmente em jovens e adultos, entre outros fatores.

Nesse sistema de notificação existe uma classificação para registrar se houve reincidência em casos de suicídio?

Hélcia Regina Lima Gonçalves – Temos na ficha um espaço que pergunta se é a primeira vez que a pessoa tenta o suicídio ou se já e consecutivo e será marcado o caso da pessoa. Se for consecutivo a gente pensa: “poxa, essa pessoa não está tendo uma ajuda necessária”. Então fazemos um atendimento para ela o mais rápido possível. Quando eu falo em descentralização para as unidades é porque não conseguimos ir à casa de todos que precisam de ajuda em Imperatriz. Até porque não atuamos somente em Imperatriz, recebemos notificações de várias outras cidades mais próximas, incluindo os estados do Pará e Tocantins, pois essas cidades trazem o paciente para o atendimento aqui nos hospitais municipais.

Pode acontecer de um funcionário da saúde não preencher essa ficha ou não preencher de forma correta? E sem tem alguma punição nesses casos?

Hélcia Regina Lima Gonçalves – Não existe. O profissional irá receber uma notificação para esclarecer o porquê do não preenchimento da ficha. Não haverá punições ou advertências, mas uma orientação dos responsáveis do setor para que possa acontecer a execução dessa tarefa de forma correta. Essa é somente uma das diversas fichas que existem para serem preenchida naquele lugar, por aquela pessoa. Quando você exerce uma função, adquire várias obrigações e você não deve deixar de fazer nenhuma dela se forem suas. Qualquer profissional de saúde pode fazer o preenchimento da ficha do paciente. É claro que logo que der entrada é necessário que se priorize a vida, mas antes desse paciente receber alta, esse procedimento tem que ser realizado. Caso a nossa instituição seja comunicada, mesmo se for um caso que não foi notificado antes, iremos assistir esse paciente da mesma forma. Muitas vezes os parentes, vizinhos ou agentes de saúde nos procuram e, por fim, nos dirigimos até a residência para realizar o atendimento.

A rede pública de saúde tem que trabalhar em parceria de forma coesa. Quais desses parceiros seria o principal?

Hélcia Regina Lima Gonçalves – Os postos de saúde são de suma importância na identificação de ideação suicida. Nos bairros estão os postos de saúde com médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e agentes de saúde. Eles estão mais próximos da população. Os agentes de saúde é aquele indivíduo que sempre está na sua casa. De alguma forma, ele vai participar da sua vida, ouvindo, observando o que circunda. É chamado de “fofoqueiro”, sempre querendo saber da vida das pessoas, mas na verdade ele quer saber é da saúde da população. O agente de saúde vai visitar e tentar entrar nesse aspecto. Por quê? Vai proporcionar o tipo de ajuda que a pessoa está necessitando e a encaminhará para o atendimento certo.

Como é feita a abordagem com uma pessoa que tentou o suicídio?

Hélcia Regina Lima Gonçalves – Nós não podemos ser tendenciosos, em hipótese alguma. Não podemos envolver aspectos religiosos. Eu tenho a minha, ele (paciente) tem a dele, que pode até ser a mesma minha, mas não podemos envolver esse aspecto de nenhuma forma, definindo o que é certo ou errado. Nós devemos descobrir o porquê de tal atitude para fazero encaminhamento mais adequado. Nem todos os praticantes de suicídio possuem problemas mentais, diferente do que a maioria das pessoas pensa. As doenças mentais são diversas e temos que ter cuidado ao analisar cada caso. Por exemplo, tem pessoas que fazem a auto-mutilação, porém não é considerado tentativa de suicídio. A pessoa se corta toda ou decepa partes do corpo, mas não quer provocar sua morte. Ela está agredindo, se violentando e se mutilando, mas nem por isso quer se matar.

Qual e a relação entre álcool, drogas e o suicídio?

Hélcia Regina Lima Gonçalves – Os jovens tendem a ir mais para o lado das drogas ilícitas, no início. Alguns procuram para se sentirem melhor, outros, por outro lado, procuram porque já conhecem e sabem que vai “deprimir” seu sistema nervoso central. Entre os jovens e adolescentes, o que mais intensifica o desejo de se suicidar é o uso de álcool, seguido das drogas ilícitas. O uso de álcool está tão livre, porque, mesmo estando lá escrito “proibido a venda de álcool para menores de 18 anos”, vemos muitos jovens de ambos os sexos bebendo livremente.  Nossa forma de nos vestir confunde, os adultos se vestem como adolescentes e os adolescentes se vestem como adultos e não sabemos mais a idade cronológica das pessoas. Por isso você senta em uma mesa de bar, toma uma bebida e ninguém te pede um documento para confirma tua idade, no Brasil ainda é assim. Em outros países, só é possível entrar em bares se apresentarmos documentos de identidade. E, por isso, o alcoolismo tem crescido muito e o suicídio junto, visto que é um dos fatores agravantes.  Isso não quer dizer que vou ficar bêbado e vou querer me suicidar. Algumas vezes sim, outras não.

Qual o perfil das pessoas que tentam o suicídio em Imperatriz, segundo os registros oficiais?

Hélcia Regina Lima Gonçalves – É mais comum entre mulheres de classe média, na faixa etária entre 13 a 35 anos. As pessoas tentam se suicidar de diversas formas, geralmente por pesticidas, que não é somente remédios para rato. (...) Só no ano passado em Imperatriz, tivemos um registro de 32 tentativas de suicídios entre mulheres, destas 22 dos casos foi por envenenamento e 2 intoxicações medicamentosa, apenas 2 por arma de fogo e 1 óbito, ou seja, das 32 tentativas, somente oito casos não foram por tentativa de envenenamento. Já no mês de março deste ano, tivemos 23 tentativas de suicídios e dois óbitos, números que precisam ser combatidos com urgência.

Sua experiência na área da saúde lhe garante uma percepção mais aguçada para notar quando uma pessoa esta precisando de ajuda. Como você faz essa identificação do paciente?

Hélcia Regina Lima Gonçalves – Como enfermeira, recebemos muitas pessoas e podemos perceber pela fala, no momento do atendimento, que ela está enfrentando alguma situação que pode levar ao suicídio. Quando a pensar diz: “eu quero sumir por um tempo”; “quero dormir e não acordar mais”; “quero dormir por três dias”, é preciso ficar atento, principalmente pessoas mais próximas como filho, pais e amigos, independente da idade. A pessoa pode estar com algum problema grave. Para você pode não ser, mas para ela sim. Temos que pensar da seguinte forma: somos indivíduos diferentes, mesmo que passemos pelo mesmo problema, cada um vai agir de uma forma diferente. Então todos nós devemos ficar atentos principalmente para as pessoas mais próximas da gente, assim podemos ajudá-las a tempo.

http://www.imperatriznoticias.com.br/noticias/capa/registrar-corretamente-tentativas-de-suicidio-ajudara-no-atendimento/

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Ecos do 28º Congresso Brasileiro de Psiquiatria em Fortaleza

Para especialistas, suicídios no Brasil são subnotificados

Segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria, a cada dia 24 pessoas se suicidam no Brasil. Porém, a própria instituição reconhece que esse número provavelmente não corresponde à realidade. “O Brasil está muito atrasado em termos de suicidologia. Os dados são precários. As taxas divulgadas são provavelmente maiores”, explicou Carlos Eduardo Estellita-Lins, médico e coordenador do Grupo de Pesquisa de Prevenção do Suicídio, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), durante o último dia do 28° Congresso Brasileiro de Psiquiatria, ocorrido semana passada na cidade de Fortaleza.

Segundo o especialista, são procedimentos importantes na tentativa de se evitar um suicídio: não deixar o paciente ficar muito tempo sozinho, proibi-lo de dirigir, proibi-lo de usar máquinas e ferramentas, não deixá-lo andar sozinho no metrô e em vias públicas, não deixá-lo acessar locais altos, entre outros.

“Os métodos para o suicídio variam de um país para o outro. Porém, os mais comuns, inclusive no Brasil, são enforcamento, armas de fogo e envenenamento”, disse Carlos. Segundo ele, há uma alta prevalência de suicídio também no começo do tratamento para depressão, motivada pelo efeito dos antidepressivos.

Ele ainda explicou que os médicos devem ter um rigor maior quando o paciente já tentou se matar mais de uma vez. “As chances de alguém tentar se suicidar, depois de já ter tentado alguma vez e ter fracassado, é muito grande. E, provavelmente, ele irá utilizar um método diferente”, disse.

Quando questionado se o paciente com risco de tentar suicídio precisa ser internado, o médico disse que sim. Porém, argumentou que é preciso antes avaliar a qualidade da internação e que o tratamento precisa continuar depois que a internação acabe. Segundo ele, a internação compulsória está sendo discutida no país, a exemplo da Inglaterra, onde o paciente de risco grave de suicido é internado à força, independente da vontade da sua família.

Carlos explicou que cada suicídio afeta entre seis e dez pessoas. E que a mídia possui um grande papel nesses casos, devendo agir com muita responsabilidade. “Se por um lado, o suicídio pode ser contagioso, por outro, o silêncio sobre os casos tende a ser mais danoso para a sociedade. A própria Organização Mundial de Saúde possui um protocolo para a divulgação de suicídios. Nele a instituição sugere: evitar sensacionalismo, detalhes do ato, enfatizar que o suicídio pode ter como causa uma depressão e que esta pode ser prevenida e tratada, entre outros”, disse.

A psiquiatra Ivete Contieri Ferraz explicou que o suicídio é contagiante, por isso muitas pessoas que são expostas a ele têm vontade de fazer o mesmo – fato agravado, quando a vitima é alguma celebridade. “A mídia tem um grande papel nesses casos. Ela deve noticiar sim, mas com racionalização e entendimento dos motivos que levaram àquela morte. A sua condição de impactar, é um ótimo momento para educar”, acredita.

Ela ainda disse que as pessoas mais suscetíveis a sofrer influência de um suicídio são jovens, mulheres e pessoas com transtornos depressivos.

Os especialistas afirmaram que o suicídio é uma tema diretamente relacionado às políticas públicas e que deve ser articulado com todas as esferas do poder, instituições não governamentais, Organizações não governamentais (ONGs) e universidades. “Como suicídio tem, muitas vezes, algum transtorno mental como causa, é importante que os psiquiatras também participem da discussão dessas políticas”, aconselhou Carlos.

Jornal do Brasil (Agência Notisa)
http://www.jb.com.br/ciencia-e-tecnologia/noticias/2010/11/05/para-especialistas-suicidios-no-brasil-sao-subnotificados/