segunda-feira, 8 de junho de 2020

Acolhimento profissional gratuito em saúde mental

A notícia


Apenas 20 dias depois de ser criado, o site Mapa da Saúde Mental já recebeu mais de 24 mil acessos de pessoas que buscam atendimento psicológico gratuito. O portal orienta os interessados a encontrar grupos de profissionais que fazem atendimento online ou presencial.
 
Até o momento, o site dispõe de mais de 100 contatos para atendimento gratuito, específicos para o período da pandemia do novo coronavírus. No mapa online é possível encontrar profissionais e grupos de apoio disponíveis virtualmente. Há também uma seção chamada mapa presencial onde estão endereços e telefones de serviços de atendimento, mostrados de acordo com a localização do usuário.

A iniciativa foi desenvolvida pelo Instituto Vita Alere, que atua na promoção da saúde mental e na prevenção ao suicídio. A ação conta com apoio do Google, do Centro de Valorização da Vida (CVV), da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio, International Association for Suicide Prevention e SaferNet.

Fonte: https://planetaosasco.com/destaques/96582-site-com-orientacoes-sobre-saude-mental-teve-24-mil-acessos-em-20-dias

A iniciativa



Equipe de psicólogos e profissionais da área saúde e educação, mestres e doutores que atuam em pesquisa, desenvolvimento de programas, treinamentos, capacitação e educação, além de atendimento e acolhimento especializado em saúde mental, automutilação, prevenção e posvenção do suicídio.

Para acessar clique: https://mapasaudemental.com.br

sábado, 6 de junho de 2020

Influenciador positivo. Palavras confortam, salvam!

Prefeito de Osasco posta mensagem contra suicídio: “não jogue a toalha”
































O prefeito de Osasco, Rogério Lins, publicou um texto, nesta quinta-feira (4), contra o suicídio. “O índice de suicídio tem aumentado a cada ano, pessoas que sofrem dores na alma tão intensas que desistem da vida, jogam a toalha”, diz um trecho da mensagem publicada nos stories do Facebook.

O texto aponta para o momento em que o mundo vive a pandemia de covid-19 e outros problemas, com referências bíblicas. “Realmente vivemos dias onde os sonhos e ideias têm se perdido em meio à maldade, à violência e à corrupção. A vida de Davi é um exemplo de esperança, pois ele passou por muitas situações angustiantes, sofrimentos, injustiças, mas não jogou a toalha porque olhava para Deus e suas promessas”, diz outro trecho da mensagem publicada por Lins.

Especialistas alertam que o período pós-pandemia de Covid-19 poderá apontar para o aumento dos problemas de saúde mental, como depressão, bipolaridade, ansiedade crônica e, consequentemente, do número de mortes por suicídio no Brasil.

Segundo a diretora da Associação Brasileira de Estudo e Prevenção do Suicídio (Abeps), Soraya Carvalho, características da pandemia, como o isolamento social, a alta letalidade do vírus, a facilidade do contágio e o excesso de notícias sobre a doença – incluindo as falsas, podem provocar nas pessoas três causas principais do suicídio, que são o desespero, o desamparo e a desesperança.

“O suicídio é um ato radical, uma resposta ao real, uma saída pra dor de existir. Quando a pessoa diz que não há mais esperança, o risco de suicídio é maior”, declarou Carvalho em debate na Câmara dos Deputados, na terça-feira (2).

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a cada 40 segundos, uma pessoa comete suicídio no mundo. Um estudo da Universidade Federal de São Paulo revela que o suicídio no Brasil é a terceira causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos. Segundo Soraya, são 12 mil mortes por suicídio no Brasil por ano, sendo 1 a cada 35 minutos.

A deputada Leandre (PV-PR) afirmou, no debate realizado por videoconferência, que o isolamento social prolongado, mesmo sendo necessário, pode levar a situações críticas diante da realidade mais precária de algumas pessoas. “Uma coisa é conviver com o tédio, outra é conviver em um lugar sem ter o que comer”, disse. “Muitas secretarias de saúde dos municípios estão sendo demandadas por pessoas que estão tentando suicídio”, completou a parlamentar, que fez um alerta para um possível aumento nesses casos.

Busque ajuda

No Brasil, o Centro de Valorização da Vida (CVV) promove apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo chamadas gratuitamente, sob sigilo, por meio do telefone 188, chat e e-mail, disponíveis no site. O CVV é formado por profissionais da saúde, entidades especializadas e pessoas que se dispõem a ajudar.

Devido a pandemia o serviço também sofreu algumas alterações e está com a equipe de voluntários reduzida, mas os atendimentos continuam diariamente. “O isolamento social e suas consequências nas relações e emoções podem acarretar uma maior procura no serviço”, alerta a instituição, que convida pessoas que estejam em condições de ajudar para integrar o time que se disponibiliza para conversar, oferecer atenção e acolhimento.

Na rede pública de saúde é possível buscar ajuda por meio de psicólogos, psiquiatras e terapeutas ocupacionais, geralmente nas Unidades Básicas de Saúde. Também há atendimento para pessoas que apresentam transtornos mentais mais severos e persistentes e suporte terapêutico para as famílias, por meio do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS).

Com informações da Agência Câmara de Notícias

Fonte: www.visaooeste.com.br/prefeito-de-osasco-posta-mensagem-contra-suicidio-nao-jogue-a-toalha/

sexta-feira, 5 de junho de 2020

A enfermeira-anjo é de Portugal, mas todo o assunto nos interessa!

Enfermeira algarvia na linha da frente contra o suicídio

Bruno Filipe Pires (4 junho 2020)

Carolina Marques, 45 anos, enfermeira do serviço de Pedopsiquiatria da unidade de Faro do Centro Hospitalar e Universitário do Algarve (CHUA), é voluntária, desde abril, numa linha de prevenção nacional, lançada pelo Núcleo de Estudos do Suicídio (NES). Objetivo é salvar vidas.

O vírus da COVID-19 ataca a saúde física e, sobretudo, tem provocado um aumento significativo e generalizado do sofrimento psicológico de muitas pessoas, de todas as faixas etárias e extratos sociais.

Por isso, em abril, durante o confinamento e em pleno estado de Emergência, o Núcleo de Estudos do Suicídio (NES), do Hospital de Santa Maria, lançou uma resposta especializada para todo o país.

Uma resposta específica para quem se sente triste, com pensamentos negativos ou ideias de morte.

Carolina Marques, enfermeira algarvia que está na linha da frente, considera que a altura excecional que vivemos exige ultrapassar o tabu social que tem remetido esta problemática para o silêncio.


«A maior parte das pessoas, até os profissionais de saúde, abordam o tema com receio. Mas este trabalho de prevenção do suicídio não pode ser feito com medo. Tem de ser feito de uma forma realista. Quando se aborda alguém, temos de perguntar com clareza, se tem pensamentos de morte, se tem ideação ou plano suicida. São coisas diferentes, mas é assim que se avalia a gravidade da situação. Se estivermos com rodeios, o que acontece é que a pessoa não se sente compreendida», começa por explicar ao barlavento Carolina Marques, enfermeira especialista em saúde mental.

«A verdade é que o tema suicídio, se até aqui não era falado, hoje está nas redes sociais, em todo o lado. A ideia já está interiorizada nos jovens, nos adultos, até nos mais pequenos. Temos de perguntar: já pensaste em morrer? E se sim, já pensaste como? É duro, mas tem de ser. Tem de ser criada empatia, para que o outro diga o que realmente sente», explica.

«É como nas automutilações. Quem o faz está dentro do contexto de risco, mas não quer dizer que irá cometer suicídio, embora seja um fator de risco. As automutilações têm a ver com uma grande dor emocional que a pessoa sente e que é aliviada pela dor física. Quando se avalia alguém, temos de perceber se há antecedentes dessas práticas de agressão ao próprio corpo, porque é provável que continue. Se abordarmos a questão com rodeios, não conseguimos avaliar, nem fazer uma intervenção», acrescenta.

Carolina Marques trabalha na equipa de Pedopsiquiatria da unidade de Faro do Centro Hospitalar e Universitário do Algarve (CHUA), que durante alguns anos, contou com a colaboração da psicóloga Patrícia Romão, uma das maiores especialistas na problemática do suicídio.

«Foi a pessoa que me fez interessar. Durante a crise da COVID-19, com o isolamento e a saúde mental das pessoas a agravar-se, as situações a piorar, o acesso à ajuda nos centros de saúde limitado, a Drª Patrícia Romão perguntou-me se eu queria participar» no projeto do NES, associação científica sem fins lucrativos e com estatuto de utilidade pública já com 33 anos de existência.

A linha conta com profissionais de norte a sul de Portugal. Carolina Marques é, neste momento, a única enfermeira do Algarve envolvida, devido à sua experiência profissional e formação. Mas qualquer pessoa no país que precise de ajuda, basta enviar um email ([email protected]).

«Todos os meses é feita uma escala que divide o trabalho pela equipa do projeto. Todos os dias somos três a quatro pessoas em alerta, divididas por localização geográfica, de forma a se fazerem os encaminhamentos», explica. E todos os emails têm resposta, e se o remetente concordar, será, de seguida, contactado por telefone.

A enfermeira reconhece que «há de facto algumas situações graves», e se não surgem mais pedidos de ajuda é talvez porque esta linha de apoio ainda não está muito divulgada.

As folgas do seu trabalho são sacrificadas em prol deste projeto. É voluntariado, mas também altruísmo. Chega a ficar de alerta duas vezes por semana, das 9 às 21 horas, colocando a família em segundo plano.

«O que desgasta é o sofrimento do outro. Mas este é um trabalho que salva vidas. E numa altura com esta, acredito que tem de haver uma sensibilidade», remata.

Profissionais estão preocupados


A enfermeira Carolina Marques refere que há eventos de vida dolorosos que podem ser precipitantes do suicídio, como a perda de saúde, roturas afetivas, desemprego, entre outros, levando aos sentimentos de desesperança. Nunca há apenas um motivo isolado, mas sim um conjunto de situações na vida de cada um que a determinada altura poderá levar ao desejo de morrer.

«Momentos de angústia, temos todos nós. O problema é quando chega a desesperança, que é a falta de esperança num dia melhor».

Por vezes, o sistema também pode falhar na deteção. «Imagine alguém que tomou comprimidos a mais. Se não for bem esclarecida a causa da ida à urgência e depois tiver alta, se calhar, nós que trabalhamos esta problemática nunca chegamos a saber o que aconteceu. Assim, essa pessoa fica em risco, pois não terá acompanhamento» adequado.

Também nem sempre quem tenta quer mesmo pôr termo à vida. «Recordo o caso recente de uma senhora que se divorciou. Tinha vontade de morrer e fez uma intoxicação medicamentosa. Será que queria mesmo morrer? Não queria. Foi um ato de desespero. É preciso falar e escutar muito as pessoas para se perceber. Às vezes, só precisam de atenção. As mulheres têm muito este registo. Há uma diferença entre géneros. Tanto que os métodos escolhidos, estatisticamente, são diferentes. Os homens escolhem sobretudo métodos mais letais», distingue.

Por outro lado, a enfermeira não esconde que os profissionais de saúde estão muito preocupados, até porque os casos de ideação suicida estão a aumentar, sobretudo nas novas gerações.

«Há quatro ou cinco anos tivemos na Pedopsiquiatria uma adolescente que tentou o suicídio. Se tivesse ido para casa, haveria fortes probabilidades de voltar a tentar. Concordámos um internamento e fez psicoterapia. Há cerca de três semanas, veio parar outra vez à urgência, já adulta e reconheceu-me».

Na verdade, «em termos oficiais, ela já não me pertence, enquanto doente, mas dei-lhe o meu email e temos trocado mensagens. Basta dizer olá e as pessoas sentem-se um pouco mais agarradas à vida. Ela diz-me: ontem não tive bons pensamentos, mas é tão bom perceber que você gosta de mim. Ou seja, bastam estas pequenas coisas» para apaziguar a grande carência afetiva que existe sobretudo neste momento.

«Também há miúdos querem afastar a dor, querem desaparecer. Na infância ainda não há maturidade para perceber o que de facto é morrer, mas na adolescência já o sabem», esclarece.
«Todos temos um pouco de culpa»

Falando em contexto de vida pessoal, também esta profissional de saúde já perdeu um amigo querido. «Ainda hoje me pergunto como é que eu não consegui perceber que ele ia morrer? Lembro-me de o ver com uma depressão, já mais para o psicótico. Certo domingo tivemos entre amigos. Ele despediu-se de algumas pessoas. Eu tive de sair mais cedo. Ainda hoje pergunto-me porque não se despediu de mim, porque eu teria percebido. Como é que não fez luz a alguém que ele estava efetivamente a despedir-se?», recorda.

Mais uma vez, é uma questão cultural, mas também religiosa. «Ninguém quer falar sobre a morte. Toda a circunstância é dolorosa, não gostamos de pensar na tristeza. Há confissões religiosas que não vêm a discussão do tema com bons olhos, porque num suicídio ninguém vai para o céu. Isto mexe com as nossas ressonâncias. É algo que nos assusta. Quando alguém se suicida fica um aberto. As questões ficam por responder. É uma falha da sociedade, porque todos reconhecemos que também temos alguma culpa».

A pandemia é apenas mais uma crise. O quotidiano moderno também não ajuda. «Os miúdos vão com poucos meses para o infantário, passam pouco tempo de qualidade com os pais, não é feita uma boa vinculação. Antes havia famílias alargadas, em que os avós estavam presentes. Hoje as crianças vão crescendo num vazio enorme e na correria dos dias».

Trabalho de retaguarda ajuda famílias


Num dia de trabalho normal no serviço de Pedopsiquiatria do Hospital de Faro, neste contexto da pandemia, a enfermeira Carolina Marques acompanha vários casos à distância.

«Apenas uma minoria tem apoio. Imagine o que é uma criança hiperativa fechada num apartamento. Tem que haver uma contenção de toda a família. Havendo este trabalho de monitorização direta e de acompanhamento, são dadas às famílias estratégias de adaptação à crise, facilitando a sua adaptação e evitando descompensações das patologias e consequentes idas à urgência. Agora, também é verdade que a pedopsiquiatria não tem uma retaguarda de crise numa situação grave. As crianças que precisam de internamento vão para o Hospital de D. Estefânia, em Lisboa. Precisavam de um internamento no Algarve», considera.

E mais. «Em termos de consulta, há apenas um pedopsiquiatra para toda a região. É muito pouco. Como é que as crianças de Aljezur ou de Silves conseguem vir a Faro fazer uma psicoterapia semanal? É muito difícil ou impossível». Ainda em relação à linha de apoio do NES, a voluntária sublinha que daquele lado estão «pessoas que se envolvem e que gostam de dar e cuidar dos outros».

Como pedir ajuda?


Como é que se motiva alguém a dar um sinal de alarme se já está com ideias suicidas? «Há sintomas e todos temos de estar atentos. Por exemplo, alterações de sono e alimentação. O isolamento, consumo de drogas ou álcool. Nos jovens vai havendo um desinvestimento na escola, nas rotinas», explica a enfermeira Carolina Marques, voluntária num projeto nacional de prevenção do suicídio.

A linha do NES está disponível para todas as idades. Até pode ser um um terceiro a contactar. «Sim, já aconteceu. Pode ser um pai, um vizinho, um amigo. Como é que ajudamos as pessoas? Se tiver ou conhecer pessoas com determinados sintomas como por exemplo depressão ou desesperança, sentimento de inutilidade ou pensamentos relacionados com suicídio ou morte» deve contactar, sem hesitar, por email ([email protected]).

Fonte: www.barlavento.pt/destaque/enfermeira-algarvia-na-linha-da-frente-contra-o-suicidio



sexta-feira, 29 de maio de 2020

Medicamentos em falta, risco ampliado para doentes mentais

Falta de medicamento para transtorno bipolar é calamidade


Fábio Reis

Desde o início deste ano, pacientes com transtorno bipolar estão com dificuldade de encontrar carbonato de lítio nas farmácias e serviços públicos de São Paulo e de diversas outras partes do país. A substância tem efeito protetor contra as crises de depressão grave ou mania (euforia) que caracterizam a doença, além de ter papel essencial na prevenção do suicídio.

A ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria) diz que a situação é "calamitosa" e que está cobrando respostas da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), além de apoio de órgãos de controle e fiscalização da saúde. A instituição explica que o carbonato de lítio não pode ser substituído para muitos pacientes, "sob pena do possível agravamento dos quadros psiquiátricos e consequente aumento do número de casos de suicídios no Brasil, da procura por serviços de emergência, além da necessidade maior de internações em um cenário de escassez de leitos".

Reclamações de médicos e pacientes nos Caps (Centros de Apoio Psicossocial) e UBSs (Unidades Básicas de Saúde) têm sido frequentes. Nesta quinta-feira (5), a Prefeitura de São Paulo informou, por meio da Secretaria Municipal da Saúde, que o Carbonato de Lítio 300 mg está em falta devido a ausência de matéria-prima dos fabricantes. "Há um processo aberto para compra emergencial pela administração municipal, onde as empresas interessadas em participar devem apresentar suas propostas até o dia 10 de março", acrescentou.

A Abrata (Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos) tem recebido mensagens de pacientes de todas as regiões do país desde meados de janeiro, primeiro sobre a falta do carbonato de lítio ER de 450 mg, e depois sobre o de 300 mg. A associação não chegou a fazer um levantamento, mas garante que foram inúmeras as reclamações, telefonemas e comentários nos grupos de pacientes e de familiares. "Circulam nesses grupos presenciais cerca de 90 pessoas por semana. E praticamente 100% delas fazem uso do carbonato de lítio", declara a vice-presidente Neila Campos.

A tradutora Lilia Loman, que utiliza o medicamento há 28 anos, procura lítio nas farmácias das principais redes de São Paulo, sem sucesso, há cerca de um mês. Apesar de ter contatado diversas vezes o SAC do fabricante do Carbolitium, da Eurofarma, e ter sido informada que o de 300 mg estava disponível, ela não havia conseguido nada até esta quinta-feira (5). Em uma das ocasiões, recebeu a indicação de uma farmácia que tinha apenas uma caixa, mas logo descobriu que estava reservada para outro comprador. Lilia também não encontra genérico, nem similares de outros laboratórios (Carlit e Litcar).

"A busca tornou-se uma parte indesejável da rotina, não só minha, mas também de familiares e amigos", reclama. Ela ainda tem algumas unidades do remédio, "mas sem previsão de quando essa falta realmente durará, a preocupação é enorme". A única vez que ficou sem o carbonato de lítio foi durante a gravidez, há dez anos: "Foi um período extremamente difícil, uma recaída após muitos meses de estabilidade, com sintomas exacerbados pela falta de medicamento", recorda. Ela teve insônia, depressão, ímpetos de agressividade até ideações suicidas.

O que dizem os laboratórios

Rastrear a origem do problema não é nada fácil. A reportagem entrou em contato com os três laboratórios que comercializam o carbonato de lítio (Eurofarma, Hipolabor e Biolab), e dois deles esclarecem que a escassez recente se deve à dificuldade de aquisição de matéria-prima junto ao fabricante de insumos, cujo nome não é revelado.

A Eurofarma confirma o desabastecimento do Carbolitium CR 450 mg, mas diz que a produção havia sido retomada e que os estabelecimentos de todo o país começariam a ser abastecidos em março. A empresa enfatiza que existem outras alternativas terapêuticas no mercado, como o Carbolitium 300 mg. "A classe médica está sendo comunicada e é importante que o paciente procure seu médico de confiança para efetuar a substituição e ajustes posológicos necessários". Assim como Lilia Loman, a reportagem ligou para algumas farmácias da capital, como Onofre e Ultrafarma, e não encontrou o produto de 300 mg, nem da Eurofarma, nem de outros laboratórios.

Também procurada, a Hipolabor, de Minas Gerais, disse que "a previsão é de que todos os medicamentos necessários sejam fornecidos até o mês de abril. Ainda neste mês, a meta é produzir 20 milhões de doses e, até o fim do próximo mês, devem ser produzidas mais 30 milhões de doses".

Já a Biolab Genéricos, que diz abastecer principalmente a rede privada, afirma que não está com problemas de produção de carbonato de lítio. "Pelo contrário, a empresa triplicou sua oferta de produtos genéricos em fevereiro de 2020 em relação ao mesmo mês do ano passado: 22 mil caixas de 50 unidades (fev 19) e 69 mil caixas de 50 unidades (fev 20)", mencionou na nota, destacando que o crescimento de oferta ocorreu "mesmo em função do explosivo aumento dos custos de matéria-prima, que são dolarizados".

A reportagem recebeu apenas algumas pistas sobre o problema de abastecimento: foi informada de que a matéria-prima do medicamento carbonato de lítio é nacional, vem de um único fornecedor, e que os laboratórios estão proibidos de importar de outros países.

O que diz a Anvisa?

A Agência esclarece que não há um instrumento legal que impeça laboratórios farmacêuticos de retirarem medicamentos do mercado. Mas explica que a regulamentação exige que as empresas comuniquem a descontinuação definitiva ou temporária da fabricação ou importação de medicamentos com pelo menos 180 dias de antecedência. Quando o problema é decorrente de algum imprevisto, a comunicação deve ocorrer em no máximo 72 horas, e o desrespeito à norma resulta em penalidades.

Após consultar o banco de dados sobre o carbonato de lítio, a Anvisa informa que não havia nenhuma notificação, mas lembrou que o mercado de medicamentos apresenta flutuações relativas a procedimentos de importação, estocagem, cadeia de distribuição etc, o que pode afetar os pontos de venda. Veja o que diz o restante da nota enviada pela agência:
"De acordo com nossos bancos de dados havia estoque do medicamento nas distribuidoras em 01/2020. Diante da denúncia, a ANVISA notificou o laboratório para esclarecimentos. Em resposta, o laboratório informou que, por ser um produto de alta rotatividade, não existia naquele momento estoque disponível, e esclareceu que as ações operacionais para retomada da produção estavam avançadas para que o reabastecimento do mercado ocorresse no mês de março de 2020. Informou, também, que o medicamento Carbolitium CR® (carbonato de lítio) 450 mg 30 comprimidos de liberação prolongada está passando por um desabastecimento momentâneo, em função de intercorrências no processo produtivo. No entanto, existem alternativas terapêuticas no mercado, como Carbolitium® 300 mg. A classe médica está sendo comunicada para que os tratamentos não sejam prejudicados. Estamos orientando os pacientes que procuram a Anvisa sobre esse tema que entrem em contato com o médico para o ajuste da medicação até que a situação se normalize. Diante de informação de que a empresa não notificou a descontinuação, foram tomados os procedimentos administrativos para apuração da irregularidade apontada."
Para a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), que também denuncia a falta não só de lítio, mas também do antidepressivo cloridrato de imipramina, os medicamentos não estão sendo produzidos pelos laboratórios privados e, infelizmente, ainda não existem nos laboratórios do governo brasileiro. "O desabastecimento ou a descontinuação desses medicamentos, que não possuem patente e são muito baratos, se produzidos pelo governo custariam centavos para a comercialização, configura crise na assistência médica, com risco de recaídas imediatas de graves transtornos mentais", opina a instituição, em carta divulgada à imprensa.

O farmacêutico e bioquímico Dirceu Raposo de Mello, que presidiu a Anvisa de 2005 a 2010, também defende que o governo aproveite a estrutura dos laboratórios públicos para corrigir casos de escassez gerados pela falta de interesse das farmacêuticas em drogas que, com o passar do tempo e aumento da concorrência, deixam de gerar lucro ou até causam prejuízo. "Quando há essa situação será que não vale a pena internalizar a produção?", provoca.

O ex-presidente da Anvisa cita outros cenários parecidos e perigosos, como a recente falta de penicilina benzatina, fármaco antigo que ainda hoje é usado para combater a sífilis, inclusive em recém-nascidos. Apenas quatro laboratórios produzem a substância para o mundo todo, justamente por ser antiga e barata. Isso coloca o Brasil, bem como outros países, em situação de extrema vulnerabilidade numa época em que autoridades apontam o aumento descontrolado dessa infecção sexualmente transmissível (IST).

"Penicilina da saúde mental"

O psicoterapeuta e instrutor de educação médica Mark Ruffalo, da Universidade da Flórida Central, nos EUA, é um dos profissionais que compara o carbonato de lítio ao antibiótico que revolucionou a história da medicina. Embora as propriedades terapêuticas da água rica em sais de lítio sejam conhecidas desde a Grécia antiga, foi só perto dos anos de 1950 que o tratamento para a então chamada "doença maníaco-depressiva" foi descoberto. Os estudos com o lítio, segundo Ruffalo, precederam os primeiros fármacos usados em psiquiatria.

O instrutor conta que as taxas de prescrição do lítio são baixas nos EUA em comparação com outros países, o que ele atribui, em grande parte, à falta de interesse econômico: "O lítio é muito barato, mesmo para quem não tem seguro saúde. Como as farmacêuticas nunca puderam patentear o lítio, elas nunca investiram em marketing [para a droga]; por isso, os médicos, hoje, são muito mais propensos a prescrever antipsicóticos e estabilizadores de humor de segunda geração, altamente propagandeados".

Outra questão apontada por alguns estudos sobre a baixa prescrição nos EUA é que o carbonato de lítio exige conhecimento dos médicos, exames prévios e monitoramento contínuo do paciente. É preciso testar os níveis na substância no sangue do paciente com regularidade, pois qualquer excesso pode ter efeito tóxico, em especial sobre a tireoide ou os rins. Isso sem contar efeitos colaterais como náuseas e tremores, que atrapalham a adesão.

Apesar de todos os riscos, o efeito parece milagroso para alguns pacientes. "Não acredito em Deus, mas acredito no lítio", resume a escritora norte-americana Jaime Lowie, em um dos artigos publicados sobre a luta para controlar os episódios de mania do transtorno diagnosticado aos 16 anos. Jaime tomou o medicamento por mais de duas décadas, mas foi obrigada a parar porque o uso prolongado afetou sua função renal. A impressão que dá, ao ler seus textos, é que nem a ameaça alterou sua admiração pelo lítio. "De fato, eu considerei continuar, mesmo sabendo que acabaria precisando de um transplante de rim", confirma.

No livro Mental - Lithium, Love, and Losing my Mind (Mental - Lítio, Amor e Perdendo a Cabeça, em tradução livre), ela não fala apenas sobre transtorno bipolar, mas também traz informações sobre o elemento por trás do remédio que lhe trouxe estabilidade. Para fazer a pesquisa, consultou médicos, visitou o Salar de Uyuni, na Bolívia (que concentra metade das reservas de lítio do mundo), conheceu fábricas de bateria na América e spas que oferecem banhos em águas com doses extras do mineral. Jaime também lamenta a atual falta de interesse na droga. "Há pesquisas que mostram que o lítio poderia ser útil para demência e Parkinson, mas é muito difícil obter financiamento para testar se isso é verdade ou não porque não há margem de lucro", comenta.

A escritora, hoje, está bem, mas avisa que levou cerca de nove meses tentando diferentes estabilizadores de humor até se adaptar ao atual. Tratamentos psiquiátricos costumam envolver mais de uma droga, por isso é preciso haver um ajuste fino que leve em conta resposta, interações e efeitos colaterais. Encontrar a combinação certa, em parceria com o psiquiatra, sempre leva tempo e exige paciência. Uma alquimia que não deveria ser ameaçada por questões econômicas.

Fonte: https://pfarma.com.br/noticia-setor-farmaceutico/saude/5514-falta-medicamento-transtorno-bipolar.html

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Saúde mental em pauta nestes tempos pandêmicos. Uma ação exemplar!

Instituto lança mapa da saúde mental com serviços gratuitos em todo o Brasil - Saúde Mental

Sílvia Haidar (14 maio 2020)

O instituto Vita Alere, que desenvolve projetos e pesquisas relacionados à saúde mental, lançou na segunda-feira (11) um site que mostra onde e como buscar serviços gratuitos de psicologia e psiquiatria.

A iniciativa, que teve apoio técnico do Google, traz um mapa virtual, com contatos para atendimento online, e um mapa presencial, com endereços de Caps (Centro de Atenção Psicossocial), Caism (Centro de Atenção Integrada à Saúde Mental ), hospitais psiquiátricos, ONGs e clínicas de faculdades.

O site também indica o atendimento de acordo com o tipo de paciente: para o público em geral, para profissionais da saúde e para grupos específicos, como pessoas que perderam parentes e amigos por Covid-19, idosos, gestantes e adolescentes.

Karen Scavacini, psicóloga e fundadora do Vita Alere, conta que o mapa seria lançado daqui a alguns meses, mas a equipe decidiu antecipar a estreia devido à pandemia do novo coronavírus e à maior busca por atendimento psicológico durante a quarentena.

Para facilitar qual tipo de ajuda buscar, o site tem um guia que explica como funciona o tratamento com um psicólogo, o que faz um psiquiatra, em quais situações se deve procurar um hospital psiquiátrico, por exemplo.

“A gente fala para as pessoas procurarem ajuda, mas nem sempre elas sabem onde buscar essa ajuda e qual tipo de ajuda elas precisam”, observa Karen.

A psicóloga conta que nos próximos dias será publicada uma lista com os principais sintomas de cada transtorno mental. “Obviamente, a ideia não é fazer um diagnóstico, mas orientar o público sobre um psicoeducação mesmo. Para que as pessoas que se identifiquem com alguns sintomas saibam que ações elas podem tomar”, diz.

O site também traz dicas de segurança digital para quem procura atendimento online.

Fundado em 2013, o Vita Alere tem foco em educação socioemocional, prevenção e posvenção do suicídio e autolesão. “Posvenção é todo o trabalho que a gente faz específico para pessoas que perderam amigos e parentes por suicídio”, explica.

O mapa da saúde mental, lançado pelo instituto, tem apoio do CVV (Centro de Valorização da Vida), da Abeps (Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio), do IASP (International Association for Suicide Prevention) e da SaferNet.

Acesse o mapa da saúde mental em mapasaudemental.com.br.

Fonte: https://saudemental.blogfolha.uol.com.br/2020/05/14/instituto-lanca-mapa-da-saude-mental-com-servicos-gratuitos-em-todo-o-brasil/

terça-feira, 12 de maio de 2020

Saúde mental e coronavírus

Preocupação com a saúde mental é um dos principais reflexos do coronavírus


Angústia, insegurança, medo e solidão não são palavras ou emoções novas no vocabulário humano


Roberta Pinheiro (Correio Braziliense) em 11 maio 2020

Como nomear aquele aperto no peito? Como entender as noites maldormidas? Como explicar o choro fora de hora? Como encaixar esse quebra-cabeça de emoções? Diante da desconhecida covid-19 e dos impactos e desdobramentos da doença que surgem a cada dia, identificar e lidar com os sentimentos tornaram-se demandas coletivas. A preocupação com a saúde mental está entre os principais reflexos da pandemia do novo coronavírus e a escuta dessas vozes se faz ainda mais relevante.


Criado há mais de 50 anos, o Centro de Valorização da Vida (CVV) presta um serviço, voluntário e gratuito, de apoio emocional e prevenção do suicídio para todas as pessoas que querem e precisam conversar sob total sigilo e anonimato. Ao todo, são 3 milhões de atendimentos por ano no Brasil.

Porta-voz nacional do centro e voluntária em Brasília há nove anos, Leila Herédia relata que o número de ligações, neste período de distanciamento social, não variou. “Mas as pessoas estão falando mais de temas ligados à pandemia, como a angústia, a solidão, o medo da morte, a preocupação com pessoas que queria estar perto, mas não se pode estar em contato, o fato de estar privado de determinadas atividades, a própria tensão que vive no dia a dia, a incerteza com o futuro”, detalha.

Na percepção de Leila, as conversas ficaram mais longas. “Minha impressão é de que as pessoas sentem mais vontade de falar”, pontua. Apesar de ser uma situação coletiva e um problema comum, que o mundo todo enfrenta, o foco do CVV está no sentimento individual. “Cada pessoa vai sentir de uma forma. Nosso foco é no que a pessoa está vivendo. Está sendo mais difícil, por que ela está sentindo medo? O CVV permite o desabafo para que a pessoa consiga lidar melhor com os sentimentos”, afirma.

A porta-voz destaca que os atendimentos do centro em momento algum substituem a terapia ou o acompanhamento médico. “Não existe nenhum tipo de aconselhamento. É uma espécie de pronto-socorro emocional. Não vamos substituir médico ou terapeuta, vamos agir no aqui e no agora”, esclarece. Ao falar e conversar, é possível reorientar as ideias e perceber, dentro de cada um, como enfrentar as situações. “À medida que a pessoa vai falando, ela busca recursos internos para passar por uma determinada situação, dá nome aos sentimentos, ajuda a esvaziar e a liberar aquele efeito de panela de pressão”, comenta Leila.

Angústia, insegurança, medo e solidão não são palavras ou emoções novas no vocabulário humano. Contudo, a partir do momento que a pessoa está passando por uma situação diferente e tendo que lidar com esses sentimentos, é tudo novidade. “Conversamos do momento atual, do que estamos vivendo. Cada dor é única”, afirma a voluntária.

Adaptação

Em todo o Brasil, o CVV atua com mais de 4 mil voluntários distribuídos em mais de 100 postos. Neste período de enfrentamento ao novo coronavírus, o serviço se organizou também para atender aos voluntários e viabilizar outras formas de atendimento, como o remoto, seguindo todas as orientações das autoridades internacionais. As palestras presenciais, bem como as capacitações, foram suspensas.

A equipe de voluntários do Distrito Federal promove reuniões semanais, agora mantidas de forma virtual, para manter um contato mais próximo e conseguir sustentar essa forma de cuidado coletivo.

"As pessoas estão falando mais de temas ligados à pandemia, como a angústia, a solidão, o medo da morte, a preocupação com pessoas que queria estar perto, mas não se pode estar em contato” Leila Herédia, porta-voz nacional do CVV

Como ligar: chamada gratuita, 24 horas, pelo número 188

Informações no site www.cvv.org.br

 

Ponto a ponto

Com Guilherme Spadini, psiquiatra da Faculdade de Medicina da USP e professor e líder da área de terapia da The School of Life

 

Comunicar os sentimentos

Às vezes, a gente subestima o poder que a comunicação tem. Comunicar tem várias funções. Quando a gente tenta comunicar, a gente se obriga a prestar atenção, é um exercício de investigação interna. A nossa própria consciência é uma forma de conversa com a gente mesmo, é o nosso pensamento falando. Vamos passando pela vida, por emoções, por ideias. Além disso, quando você dá nome para as coisas, quando você chama aquela sensação de tristeza, de ansiedade, de medo, de preocupação, fica mais fácil. Ela fica mais familiar e você acessa com mais familiaridade. É como nomear um bicho selvagem que você domestica, se apropriando dele. Você está domesticando aquele sentimento.

 

Desenvolver a calma

Você não tem como mudar o mundo, só tem como mudar a sua atitude. Temos uma ideia, meio inocente, de otimismo. De achar que as coisas vão acontecer do jeito que a gente quer. Em uma situação como a pandemia, na qual o pessimismo está generalizado, o estranhamento nos libera para olhar para aquilo que a gente pode controlar: as nossas emoções. É o que chamamos de pessimismo universal. O mundo não está a meu favor. Se você tiver isso como expectativa, você sai mais preparado para enfrentar a vida de uma maneira mais calma.

 

Dicas

Existem muitas técnicas possíveis e algumas se tem falado em exaustão, como meditar, manter a rotina, ter contato com pessoas e não deixar o isolamento te manter realmente isolado. Diria para, regularmente, a pessoa sentar e fazer um download do que está em sua cabeça, sem compromisso, sem tema. Pode ser em desenho, música. Do jeito que a pessoa melhor se expressar. É um hábito com evidências científicas do quanto acalma.

 

Angústia coletiva

O interessante de estar todo mundo falando sobre isso é que ajuda a desenvolver técnicas para lidar com a dificuldade. Pessoas muito ansiosas, que já têm uma tendência a lidar de maneira negativa, acham que o mundo é uma ameaça, que está todo mundo contra elas e, por isso,  sofrem tanto. Agora, todo mundo sofre. Ao viver o sofrimento sozinho, fica mais difícil  enxergar os mecanismos e as razões que levam as pessoas a sofrerem tanto. Elas se projetam no mundo externo. Nesse momento, no qual as coisas externas são comuns, todo mundo está tendo que olhar o seu jeito de lidar com as coisas. É uma situação que tira a nossa ilusão de controle.

Fonte: www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2020/05/11/interna_cidadesdf,853387/saude-mental-e-um-dos-principais-reflexos-do-coronavirus.shtml

domingo, 19 de abril de 2020

Ansiedade e quarenta: meios de amenizar...

Como combater a ansiedade durante o período de isolamento social

Rita Pinto

Para quem sofre com ansiedade, é difícil quando não conseguimos controlar o que se passa à nossa volta. O desafio está em conseguir controlar a forma como nos sentimos e reagimos face ao que se passa à nossa volta. It’s easier said than done, como dizem em Terras de Sua Majestade: é fácil dizê-lo, menos fácil fazê-lo, mas é nesse controlo do nosso bem-estar que está o poder. E ainda que isto seja um conselho para a vida, que podemos replicar em qualquer contexto no qual possamos sentir-nos pouco no comando, durante este período de pandemia e isolamento social recomendado, devemos cuidar da nossa saúde mental, da mesma forma que estamos a tentar proteger a nossa saúde física.

É compreensível que haja muito medo e incerteza em torno da disseminação do COVID-19. São várias as publicações e entidades preocupadas em passar uma mensagem de conforto para aqueles que se têm sentido mais ansiosos, desorientados ou frustrados não só com a gravidade das notícias, mas com a situação de quarentena e isolamento social.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) emitiu um comunicado onde salienta a importância de não desvalorizar quem sofre com ansiedade ou outras doenças psicológicas e psiquiátricas numa altura como esta. No Instagram, a Associação Nacional de Estudantes de Psicologia juntou uma lista de seis conselhos para nos ajudar a lidar com as nossas preocupações durante o período de quarentena, ao mesmo tempo que nos mantemos alertas, por nós e pelos nossos. Também a Fundação Americana para Prevenção do Suicídio usou as redes sociais para partilhar cinco dicas para nos ajudar a cuidar da nossa saúde mental perante momentos de maior ansiedade. A Wired compilou a sua lista de recomendações neste artigo e Katie Heaney, jornalista do The Cut, conta aqui a sua experiência para continuar as suas sessões de psicoterapia numa cidade de quarentena, onde somos aconselhados a ficar em casa.

Porque no Shifter sabemos bem o que é a ansiedade e como em certos momentos nos pode tocar a todos, e porque queremos fazer da promoção da saúde mental uma das nossas prioridades editoriais, reunimos também uma série de dicas para te ajudarem a controlar o stress num momento em que é perfeitamente legítimo que te sintas stressado. É importante saberes que não estás sozinho na tua ansiedade. A alteração das tuas rotinas e a imprevisibilidade de tudo o que envolve esta pandemia podem justificar esse sentimento. Mas reduzir a ansiedade e focares-te naquilo que podes realmente controlar não só tornará este momento difícil mais suportável, como também contribuirá para te manteres saudável. Reconhece a dificuldade do contexto e pensa que, apesar da necessidade de distanciamento social físico, estás conectado a milhões de outras pessoas que compartilham da tua ansiedade e medo.
Mantém-te informado mas não fiques obcecado

Experimenta determinar uma frequência para verificares as notícias que te ajudarão a manteres-te actualizado em relação ao que se está a passar, sem que isso se torne a única coisa em que pensas. Uma vez por dia, num horário predeterminado, por exemplo, pode ser um bom ponto para começar.⁣ Dito isto, limita a tua exposição a notícias de fontes oficiais e credíveis. Grande parte da nossa ansiedade pode originar na percepção de perigo decorrente da informação que tem vindo a aparecer nos jornais e noticiários. Por isso, encara o teu direito a manteres-te informado com seriedade, mas protege-te, privilegiando fontes como a Direção-Geral de Saúde ou a OMS.
⁣Segue as orientações como elas são dadas, sem pânicos

Não vale mesmo a pena entrar em pânico. Não vale de nada ser mais extremo que as recomendações das entidades competentes. Faz o que te ajudar a sentir mais seguro sim, mas a longo prazo, levar tudo ao exagero pode começar a agir contra ti se não conseguires manter esses padrões lá em cima ou se outras pessoas não estiverem a agir de acordo com as medidas que criaste para ti. Além disso, tenta manter em mente que este período de isolamento é uma medida de responsabilidade social. Apesar de ser difícil, tenta equilibrar a tua segurança e necessidades com as necessidades da restante população.
Concentra-te no que te faz bem

Mantém o foco naquilo que liberta espaço na tua mente ou te ajuda a construir a tua reserva de energia. ⁣Neste período de isolamento e quebra de rotinas, é importante, por exemplo, manteres os teus hábitos de sono saudáveis. Com a ausência de horários, não deixes que os momentos de descanso se desregulem. Tenta aproveitar o tempo para realizares actividades de que gostas e que te ajudam a sentires-te conectado e que, no período de aulas ou trabalho, não costumas conseguir. Lê livros, vê séries e filmes, pinta, escreve. Faz o que te apetecer, com tempo e calma. Tomar decisões desse género e concentrares-te nas pequenas coisas do dia-a-dia pode ainda ajudar-te a focares-te naquilo que está sob o teu controlo. Escolher colocar creme no corpo depois do banho ou decidir com que caneta vais escrever no teu diário são pequenas-grandes oportunidades de assumir o controlo.
⁣Tenta manter a tua rotina e o contacto com quem importa

Arranja formas de manter a tua rotina habitual dentro do possível, aproveitando para adicionar actividades de que gostas. Se for difícil estabelecer objectivos para o dia, podes tentar criar um horário onde estabeleces algumas tarefas ou processos. Quando acordares, obriga-te a levantar, tomar banho e vestir. Isso vai ajudar-te a sentires que te manténs activo, apesar da mudança de rotina. O mesmo acontece com os teus amigos e família. Apesar do período de quarentena, procura manter um contacto regular com as pessoas que são importantes para o teu bem-estar. Falar com as pessoas de quem gostamos e em quem confiamos ajuda-nos sempre a superar os sentimentos de ansiedade. Aproveita as vantagens das redes sociais e das videochamadas e sê criativo! Se não puderes estar no sofá a ver uma série com um amigo, vejam a mesma ao mesmo tempo e comentem-na, enquanto falam ao telemóvel. Ou então junta toda a gente numa espécie de festa virtual, onde cada um curte em sua casa e comunicam por vídeo. ⁣⁣

E, como sempre, procura ajuda se precisares. Há muitas entidades competentes, como por exemplo, a SOS Voz Amiga, a oferecer ajuda e os seus serviços às quais podes sempre concorrer. Não estás sozinho com a tua ansiedade e o isolamento social não tem de ser solitário.

Fonte: https://shifter.sapo.pt/2020/03/ansiedade-periodo-de-isolamento-social/