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domingo, 14 de novembro de 2021

A saúde mental da criança e do adolescente no pós-pandemia - desafios e consequências futuras

Medos, incertezas e traumas - como seguir em frente no cenário pós-pandêmico?

Mais do que nunca, hoje se faz necessário um debate profundo sobre os impactos negativos que a pandemia já causou, vem causando e as consequências que ainda virão, relacionadas principalmente na saúde mental da população mais jovem.

O impacto negativo para a saúde mental das crianças e adolescentes é também por causa da quebra de rotina e a vida social das escolas, pela experiência do isolamento social e/ou pela perda de familiares, além da dificuldade do acesso à assistência e tratamento da saúde mental, com o fechamento e a paralisação dos serviços de saúde, restando apenas o atendimento virtual.

Segundo a Dra. Gesika Amorim crianças entre 2 a 4 anos de idade perderam, praticamente, dois anos do início de suas vidas, são crianças que não conviveram em sociedade, elas não sabem brincar com outras crianças, não conviveram em família e, em muitas situações, não aprenderam a cumprir regras e ordens. São crianças que não tiveram infância, sem acesso a nossa realidade antes da pandemia, elas conhecem uma realidade completamente anômala, principalmente aquelas crianças que vivem fechadas em apartamentos. O impacto acontecerá também com a volta às aulas, quando essas crianças serão vistas de fora, pelos professores e por outras pessoas. E esse será um outro momento, um novo capítulo, e certamente haverá uma explosão de diagnósticos de transtornos de neurodesenvolvimento, algo que já vínhamos falando tempos atrás.

Com um evento tão adverso em uma escala global, sendo ainda considerada um fator de estresse e violência, a pandemia quebrou o ciclo do desenvolvimento das crianças, seja através de alterações na arquitetura cerebral, alterações imunológicas e hormonais.

Ainda sobre os impactos negativos, consideramos o estresse parental e social que pode prejudicar o crescimento e desenvolvimento da criança; o estresse crônico vai comprometer o desenvolvimento. Com relação aos jovens e jovens adultos, também temos que levar em conta o aumento dos casos de suicídio.

“Os adolescentes, na faixa de 12 a 16 anos de idade, ficaram dois anos em casa, em uma fase em que a socialização é muito importante na formação de tribos e grupos, e isso não aconteceu. Esses adolescentes ficaram dentro de casa convivendo online, no mundo virtual. A consequência é que agora temos uma juventude que não sabe lidar com o embate, não sabem trabalhar o emocional. Estamos tendo um “boom” de adolescentes com transtornos comportamentais, transtornos de humor e quadros depressivos, isso porque estes, não conhecem as emoções ruins e também não sabem viver em sociedade – Diz a Dra. Gesika Amorim, que continua: - “ No meu trabalho tenho visto uma quantidade muito grande de meninos e crianças, com quadros de automutilação, com transtornos depressivos e tentativas de suicídio, isso porque qualquer negativa, qualquer falta de sucesso na vida real é uma experiência extremamente dolorosa para eles. São crianças que ficaram dois anos dentro de casa e desaprenderam, ou perderam, uma fase de grande aquisição e desenvolvimento da própria cidadania, por isso elas não sabem lidar com o mundo real, não foram preparadas, não sabem nem ao menos nomear o que estão sentindo – explicou a especialista.

Qual a solução para enfrentar os atuais desafios?

Acesso ao atendimento e ao tratamento com qualidade deve ser prioridade para que a situação da saúde mental em nosso país seja de fato transformada, afirma a Dra. Gesika, que vem constantemente repetindo isso desde o início da pandemia a toda imprensa. “O tratamento precisa vir às público, tornar-se mais acessível à todos. Outro ponto é o tratamento de transtornos mentais para a prevenção do suicídio, pois falar apenas, não resolve. Os jovens não procuram tratamento. Eles não têm nenhuma iniciativa. Eles só procuram quando veem que um outro jovem da mesma turma, algum amigo, conhecido, que tenha alguma identificação, procurou por algum tratamento.”- explica.

Em primeiro lugar precisamos nos adaptar ao novo, à essa nova realidade que se apresentou para todos nós. E precisamos ensinar aos jovens a reconhecer as próprias emoções. Precisamos ensinar aos pais a serem pais, porque hoje eles se encontram perdidos. Diferentes de nós, que aprendemos a enfrentar as dificuldades e a viver a nossa verdade e liberdade, as novas gerações não sabem lidar com a adversidade, não aprenderam a lutar. Uma geração que não sofreu e, de repente, perdeu tudo o que tinha. Seu mundo deixou de ser cor de rosa. Outra coisa importante é a quebra do preconceito. É preciso trazer a discussão para a mídia, discutir o adoecimento que esses jovens estão passando. E também precisamos vencer as barreiras do preconceito do tratamento de saúde mental - finaliza a Dra. Gesika Amorim.

Dra Gesika Amorim é Mestre em Educação médica, com Residência Médica em Pediatria, Pós Graduada em Neurologia e Psiquiatria, com formação em Homeopatia Detox (Holanda), Especialista em Tratamento Integral do Autismo. Possui extensão em Psicofarmacologia e Neurologia Clínica em Harvard. Especialista em Neurodesenvolvimento e Saúde Mental; Homeopata, Pós Graduada em Medicina Ortomolecular - (Medicina Integrativa), dentre outros títulos.

Fonte: www.segs.com.br/saude/318996-a-saude-mental-da-crianca-e-do-adolescente-no-pos-pandemia-desafios-e-consequencias-futuras

domingo, 10 de outubro de 2021

Serviços de saúde mental sofreram interrupções em 60% dos países das Américas em 2021, diz OMS

Diego Suárez, do El Comercio de Perú/GDA* (10 outubro 2021)

LIMA — Há um ano, Carissa Etienne, diretora da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), emitiu uma mensagem forte: a pandemia da Covid-19 estava causando uma crise de saúde mental nas Américas em uma escala nunca vista antes.

Hoje, quando se comemora a luta global contra esses tipos de doença, as perspectivas continuam preocupantes. No entanto, não é tarde para tomar as medidas necessárias e evitar que a pandemia deixe uma marca indelével na saúde mental da população.

Impacto significativo

Estudos nacionais da Argentina, Brasil, Canadá, México, Peru e Estados Unidos documentaram altas taxas de transtornos psicológicos, ansiedade e depressão na população em geral. Da mesma forma, uma pesquisa realizada pela empresa Ipsos nos países mencionados, assim como na Colômbia e no Chile, revelou que, em média, 12% dos adultos sofreram uma deterioração significativa de sua saúde emocional e mental.

Em relação aos menores de idade, a ansiedade e a depressão representam quase 50% dos transtornos mentais em crianças e jovens entre 10 e 19 anos na América Latina e no Caribe, segundo o levantamento “Situação Mundial da Infância 2021” do Unicef (fundo das Nações Unidas para a infância e a juventude). Deve-se notar que, antes da pandemia, mais de uma em cada sete crianças e adolescentes no mundo sofria de transtorno mental e 46 mil cometiam suicídio anualmente. Hoje, a situação se agravou, indica o relatório.

Aumentos no uso de álcool e de substâncias também foram relatados. Da mesma forma, registros de telefonemas para linhas diretas, relatórios policiais e outros prestadores de serviços indicam um aumento nos casos relatados de violência doméstica, particularmente abuso infantil e violência contra as mulheres.

— As condições de saúde mental causam grandes deficiências nas Américas. Um terço de todas as deficiências por doença na região se deve a problemas de saúde mental — afirma Renato Oliveira e Souza, chefe da Unidade de Saúde Mental da região na Opas.

Mas, apesar desses números, o investimento dos governos continua insuficiente. Segundo o especialista, estima-se que os países das Américas destinem apenas 2% de seus orçamentos totais de saúde pública à saúde mental, e quase 61% desse montante é direcionado a hospitais psiquiátricos, que muitas vezes são locais de desrespeito aos direitos humanos.

A isso devem ser adicionados dois outros grandes problemas, que ocorrem desde antes da pandemia. O primeiro é a lacuna de tratamento (a porcentagem de pessoas que precisam de cuidados, mas não são tratadas): para algumas condições de saúde mental e de uso de substâncias, essa lacuna chega a quase 80%. O segundo é a carência de pessoal especializado: estima-se que haja 10,3 trabalhadores em saúde mental para cada 100 mil habitantes.

— Aconselhamos que o orçamento para saúde mental seja de no mínimo 5% ou 6%, mas depende das necessidades de cada país. O importante não é apenas aumentar o investimento, mas também que os recursos cheguem à comunidade, ou seja, integrar os serviços de saúde mental à atenção básica, que é o primeiro contato da pessoa com os serviços gerais de saúde — explica Oliveira e Souza.

Serviços interrompidos

Não há dúvida de que a pandemia aumentou o número de pessoas com novas doenças mentais ou agravou condições pré-existentes, como esquizofrenia, tendências suicidas ou vícios. No entanto, também fez com que os serviços de saúde mental e apoio psicossocial parassem de funcionar temporariamente ou tivessem seu pessoal reduzido. Segundo levantamento da Organização Mundial da Saúde (OMS), esses tipos de serviços sofreram interrupções em 60% dos países das Américas em 2021.

— Quando analisamos o estado dos diferentes serviços de saúde durante a pandemia, os atendimentos de saúde mental são os que receberam o maior impacto. Eles foram encerrados, como parte de medidas de proteção pública, ou muitas vezes os profissionais que ali trabalhavam foram transferidos em resposta rápida à emergência da Covid-19. A realidade é que, quando os serviços de saúde mental são mais necessários, eles têm o pior desempenho. É verdade que existem boas iniciativas para combater esse problema, como a grande expansão dos serviços por meio da internet ou do telefone, mas também sabemos que não atingem a todos — diz Oliveira e Souza.

Uma mudança completa

É provável que a pandemia da Covid-19 tenha efeitos adversos duradouros sobre a saúde mental e o bem-estar das pessoas e que continue a exercer pressão prolongada sobre os serviços especializados. Para o especialista da Opas, é essencial que os países priorizem a saúde mental agora, não apenas para responder aos problemas atuais, mas também para evitar que continuem ou piorem.

— É necessário que os países mudem seus sistemas de saúde mental, que muitas vezes são baseados em hospitais psiquiátricos. Os serviços precisam ser voltados para a comunidade. A situação melhorou, existem mais serviços comunitários de saúde mental, mas a cobertura ainda é muito baixa. Há um trabalho muito grande que temos em andamento com os países para garantir uma grande expansão dos serviços de saúde mental à comunidade —, declara Oliveira e Souza.

Alcançar essa meta também implicaria em quatro eixos principais: liderança política de alto nível e investimento adequado (cada dólar investido em saúde mental produz um retorno de quatro dólares); uma abordagem intersetorial (incluindo estados, sociedade civil, instituições acadêmicas, etc.); avanços na integração da saúde mental em todos os serviços de saúde, promoção e prevenção nas demais áreas da saúde e sociais; e uso das lições aprendidas durante a pandemia para investir em novas tecnologias.

Suicídios alto nas Américas

Quando a Opas avaliou seu Plano de Ação de Saúde Mental 2015-2020, observou um progresso notável em áreas como a redução da função dos hospitais psiquiátricos e o desenvolvimento de programas de prevenção. No entanto, a taxa regional apresentou números muito negativos.

Na região, quase 100 mil pessoas morrem por suicídio a cada ano. Entre 2000 e 2019, a taxa de suicídio por idade nas Américas aumentou 17%, enquanto a taxa global e as taxas para todas as outras regiões da OMS diminuíram.

— O aumento da taxa regional de suicídio é um fator importante que nos fará dar maior ênfase à colaboração técnica com os Estados-membros, no sentido de aumentar o apoio aos seus planos nacionais de prevenção do suicídio. A redução dos suicídios é realmente uma área em que estamos piorando como região e temos que nos esforçar mais —, afirma Oliveira e Souza.

A Opas destaca que entre as principais medidas de prevenção do suicídio estão a limitação do acesso a meios para cometer suicídio (como a armas de fogo), identificação precoce, manejo e monitoramento das pessoas afetadas por pensamentos e comportamentos suicidas, bem como promoção de habilidades socioemocionais.

Embora seja verdade que ainda há muito trabalho a ser feito e pouco a comemorar no Dia Mundial da Saúde Mental, é de extrema importância fazer um apelo à união e à eliminação das desigualdades. Saúde mental de qualidade é um direito humano.

*O Grupo de Diarios América (GDA), ao qual pertence O GLOBO, é uma rede de veículos líderes em seus países fundada em 1991, que promove os valores democráticos, a imprensa independente e a liberdade de expressão na América Latina através do jornalismo de qualidade.

Fonte: https://oglobo.globo.com/saude/bem-estar/servicos-de-saude-mental-sofreram-interrupcoes-em-60-dos-paises-das-americas-em-2021-diz-oms-25230601