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quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Suicídio não é escolha, mas um ato de desespero imerso numa grande dor

Entrevista especial com Karen Scavacini

Psicóloga analisa os casos entre jovens e diz que o tema é pouco abordado. Falar e educar as pessoas sobre saúde e equilíbrio mental, numa sociedade que exige alta performance, pode ser um caminho

João Vitor Santos (30 setembro 2022)

Desde 2015, a campanha Setembro Amarelo tem chamado atenção para os riscos e fatores que podem levar ao suicídio. A ideia é trabalhar, ao longo de setembro, na prevenção e identificação de fatores de riscos, como é feito para outras doenças como diabetes, câncer e problemas vasculares em outros meses do ano. No entanto, esse esforço ainda parece ser pouco, justamente porque ainda não se encara a saúde mental com a seriedade que requer, e a consequência de seu desequilíbrio pode levar a doenças como depressão, fatores de risco ao suicídio.

“As pessoas ainda têm uma visão de que suicídio é uma escolha e que a pessoa está consciente, tendo uma escolha livre. Alguém que está inundado de dor e sofrimento não tem uma escolha livre, não é assim que funciona”, aponta a psicóloga Karen Scavacini, ao reconhecer que o tema ainda é tabu atualmente.

Para ela, é preciso ter clareza do que estamos falando. “O suicídio é um ato desesperado, imerso em sofrimento e dor, de alguém que não vê outra forma de acabar com sua dor e não tem esperança, ela está cega para ver caminhos. O que causa essa cegueira é a dor, e nessa dor pode haver diversos fatores”, explica, na entrevista concedida via áudios de WhatsApp enviados ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU. Além disso, reforça que precisamos trabalhar na prevenção, o que não é fácil diante a inabilidade de se tratar do tema, mesmo nas redes de saúde pública e privada. “Temos ainda uma visão muito intervencionista. Algo é feito quando ocorre um quadro com sinais muito claros e, ainda assim, olhe lá… Ainda é difícil conseguir vagas para internação e tratamento, e até mesmo para consultas e atendimentos”, constata.

Recentemente, o que tem chamado atenção são tanto casos de distúrbios na saúde mental de jovens como casos de suicídios. Karen reconhece que esses parecem ter mais fragilidades e dificuldades de lidar com medos, traumas e frustrações. “A leitura que faço é que os jovens estão lidando de um modo mais delicado com relação ao sofrimento e à saúde mental. E a falta de diálogo não tem contribuído para que eles saibam onde buscar ajuda. Mesmo que vão buscar ajuda, é difícil que consigam essa ajuda por conta do tabu e, também, pela lotação dos serviços de saúde mental”, diz.

É por isso que a profissional aposta na informação, pois crê que o tema deva ser tratado na escola, entre familiares e amigos e mesmo no ambiente de trabalho e rede de assistência em saúde. Embora o desequilíbrio na saúde mental e o suicídio ocorram pelo que chama de “quebra-cabeça de fatores”, Karen reconhece que muito está relacionado com os modos como temos levado a vida. Por isso, mesmo com relação aos jovens, ela sugere que nos questionemos: “O que a sociedade tem cobrado? Qual é o papel desses jovens hoje? Que papel o sofrimento tem?”

Ela vê que muito de nosso adoecimento está relacionado com um modo de viver, em que é preciso fazer para ter e isso cada vez mais, numa sociedade do sucesso e da alta performance. “A própria visão de empreendedorismo, essa ideia de que você tem que ter a força de fazer, lutar, o próprio discurso coaching da força da mente, isso é muito complicado em termos de saúde mental, em termos de quanto as pessoas estão chegando no burnout e ultrapassando todos os limites em nome de um sucesso”, avalia.

Karen Scavacini

Psicóloga e psicoterapeuta, mestre em saúde pública na área de promoção de saúde mental e prevenção do suicídio pelo Instituto Karolinska, da Suécia. Também é doutora em psicologia pela Universidade de São Paulo – USP e idealizadora e cofundadora do Instituto Vita Alere.

Confira a entrevista.

IHU – Como a senhora define o suicídio? Como enfrentá-lo diante a sociedade e dos modos de vida atuais?

Karen Scavacini – O suicídio é um ato desesperado, imerso em sofrimento e dor, de alguém que não vê outra forma de acabar com sua dor e não tem esperança. Ela está cega para ver caminhos. O que causa essa cegueira é a dor e, nessa dor, pode haver diversos fatores que influenciam, como a sociedade, a economia, também a depressão, a ansiedade, o desespero. Temos que ter muito diálogo, muita educação, união e saber pedir ajuda no momento necessário. E não só pedir ajuda, mas saber onde tem essa ajuda.

IHU – Tratar do suicídio atualmente ainda é um tabu?

Karen Scavacini – A morte ainda é um tabu no Brasil. As pessoas não falam sobre morte e finitude. Isso tem mudado com o tempo, em alguns espaços esse diálogo tem acontecido. Porém, o suicídio ainda entra como o maior dos tabus. As pessoas ainda têm uma visão de que o suicídio é uma escolha e que a pessoa está consciente, tendo uma escolha livre. Alguém que está inundado de dor e sofrimento não tem uma escolha livre, não é assim que funciona. Temos muitos mitos com relação a expressões como “quem fala, não faz [o suicídio]”, “é frescura”, “falta de coragem” e até “falta de Deus no coração”.

E há, ainda, um outro ponto que é o fato de que as pessoas acham que não podemos falar sobre isso, pois se falarmos produziríamos mais casos. E essa vai ser a lógica do tabu: não podemos falar sobre a questão, quando, na verdade, sabemos que se falarmos poderemos ajudar muitas pessoas. Ou seja, ainda não temos educação sobre o tema. Nas escolas ainda falta muito. Precisamos falar sobre a morte, assim como em programas de TV, reportagens, trazer isso de diversas formas. Podemos, por exemplo, falar de perdas, de mortes, como também do suicídio.

O suicídio é um ato desesperado, imerso em sofrimento e dor, de uma pessoa que não vê outra forma de acabar com sua dor e não tem esperança. Ela está cega para ver caminhos 
IHU – Essa dificuldade de tratar da temática do suicídio teria relação com a dificuldade que se tem para, ainda antes, abordar a saúde mental?

Karen Scavacini – Com certeza, embora tenhamos visto que a partir da pandemia as pessoas têm falado mais de saúde mental. Foi preciso perder a saúde mental para poder dar atenção para ela. Ainda assim, abordar a saúde mental, de maneira que traga ações de promoção de saúde mental, ainda é algo incomum. Ou fica só na autoajuda, ou só no tratamento medicamentoso.

Então, precisamos falar de saúde mental de uma forma mais ampla e, dentro da questão de saúde mental, falar do suicídio. Quando falamos de bem-estar, saúde mental, transtornos mentais e suicídio, estamos falando de uma linha de ações de cuidado, em diversos níveis, supernecessários.

IHU – Na sua avaliação, os sistemas públicos e privados de saúde no Brasil têm dado a devida atenção à saúde mental, especialmente nos primeiros sinais de desequilíbrios do paciente?

Karen Scavacini – Não, de forma alguma. Temos ainda uma visão muito intervencionista. Algo é feito quando ocorre um quadro com sinais muito claros e, ainda assim, olhe lá… Ainda é difícil conseguir vagas para internação e tratamento, e até mesmo para consultas e atendimentos. E não temos perguntas nem testes para avaliar indícios de desequilíbrios no paciente.
O suicídio vai ser sempre multifatorial, a saúde mental é uma parte dessas questões porque a gente tem também as questões sociais, econômicas, casos situacionais tecnológicos, familiares e laborais que também vão influenciar a saúde mental 
IHU – Um desequilíbrio da saúde mental pode levar a casos de suicídios? Como isso ocorre e por quê?

Karen Scavacini – O suicídio vai ser sempre multifatorial, a saúde mental é uma parte dessas questões porque a gente tem também as questões sociais, econômicas, casos situacionais tecnológicos, familiares e laborais que também vão influenciar a saúde mental. E esse quebra-cabeça pode levar ao suicídio. É claro que alguém que está com a saúde mental equilibrada muito dificilmente pensará em suicídio.

É necessário um sofrimento, um sofrimento intenso, não é só um desequilíbrio. Estamos falando, no caso do suicídio, de uma dor intensa, de não conseguir ver outra saída que não seja a morte. E, aí, é quase que como um curto-circuito que dá na saúde mental, onde não se tem a capacidade de ver outras possibilidades.
As pessoas ainda têm uma visão de que o suicídio é uma escolha e que a pessoa está consciente, tendo uma escolha livre. Alguém que está inundado de dor e sofrimento não tem uma escolha livre, não é assim que funciona 
IHU – Nesse mês de setembro, dedicado à prevenção de suicídio, a senhora tem insistido em falar do aumento de casos entre jovens de 15 a 19 anos. Que aumento é esse? Que leitura a senhora faz desses números?

Karen Scavacini – Como podemos perceber a partir dos dados do Ministério da Saúde [abaixo], nossos maiores índices são de idosos, mas temos percebido um aumento nessa faixa etária dos jovens também em termos de números, embora não chegue a ser nosso maior índice. Agora, em termos de aumento, ele tem sido expressivo.

Percebemos que os jovens têm chegado a esse desespero existencial em grande número. O jovem ainda tem um comportamento que vai ser mais impulsivo. Temos visto que lidar com o sofrimento e frustração tem sido algo difícil e desafiador para essa geração. E temos a pandemia no meio disso que deixa os jovens ainda mais vulneráveis.

A leitura que faço é que os jovens estão lidando de um modo mais delicado com relação ao sofrimento e à saúde mental. E a falta de diálogo não tem contribuído para que eles saibam onde buscar ajuda. Mesmo que vão buscar ajuda, é difícil que consigam essa ajuda por conta do tabu e, também, pela lotação dos serviços de saúde mental.
Os jovens estão lidando de uma forma mais delicada com relação a sofrimento e saúde mental. E a falta de diálogo não tem contribuído para que eles saibam onde buscar ajuda
IHU – Em que medida a pandemia provocou um efetivo aumento de casos e que levou à agudização de um problema que já vinha existindo, mas pais, famílias, escola e sociedade não conseguiam enxergar?

Karen Scavacini – Vimos que a pandemia teve um maior impacto na saúde mental dos jovens por conta do isolamento, pela falta de sociabilização nesse período superimportante da vida. Não houve um aumento efetivo de casos de suicídio. Inclusive, há situações em que houve diminuições de casos, isso em certos países. A exceção foi o Japão, que teve um aumento considerável de casos com mulheres.

É claro que já tínhamos casos de saúde mental, já tínhamos um problema na própria prevenção e, agora, estamos sendo exacerbados. Não é algo novo, é algo que piorou com a vivência de um estresse absurdo que foi a pandemia. Ainda é muito difícil de enxergar a questão, muitos locais só param para pensar quando há um caso de suicídio. Mas precisamos ter esse olhar mais preventivo.
O que a sociedade tem cobrado? Qual é o papel desses jovens hoje? Que papel o sofrimento tem? 
IHU – Por que os jovens dessa geração parecem mais vulneráveis a desequilíbrios de saúde mental e ao suicídio?

Karen Scavacini – Já falei um pouco sobre isso antes, mas, sim, eles nos parecem mais vulneráveis no trato com suas dores, com suas frustrações e isso tem sido percebido. E, aí, podemos pensar que está também dentro de um problema geral, mas não só isso. Precisamos pensar como a sociedade tem lidado com esses jovens e nos questionarmos: O que a sociedade tem cobrado? Qual é o papel desses jovens hoje? Que papel o sofrimento tem? E, claro, levar em conta que a forma de encarar os problemas está muito diferente.

IHU – Pensando nesses casos de suicídios de outras faixas etárias, podemos afirmar que a sociedade atual tempo está doente? Como podemos compreender o que tem nos trazido até esse ponto?

Karen Scavacini – É, percebemos que entre os idosos houve um aumento de casos. O suicídio é uma representação, a resposta para tempos de sofrimento, de não ver outras possibilidades. Sem dúvida nenhuma, não há uma nação que esteja salva. Quanto mais adoecida estiver – e não falo somente em saúde mental, mas social também –, maior será a possibilidade de um aumento no número de casos. Quando vemos toda a polarização que existe hoje, o aumento da violência, a LGBTQfobia, tudo tem contribuído para o estado atual.

Não tenho dúvida que estamos falando mais sobre assuntos que antes não falávamos, e as redes sociais também ajudaram a trazer esse debate, ajudando que grupos de pertencimento possam se formar. Mas, ao mesmo tempo, assim como dá voz como um instrumento para pessoas que se ajudem, também dá voz para pessoas que trazem violências. E, enquanto sociedade, precisamos aprender a lidar com essas violências que já acontecem, mas que agora estão sendo expressas de uma outra forma. A falta de sentido na vida, a falta de esperança também são outros pontos que levamos em consideração.

IHU – Lógicas da sociedade neoliberal, do desempenho, do sucesso e do empreendedorismo de si impactam a saúde mental dos sujeitos?

Karen Scavacini – Com certeza há o impacto dessas lógicas, pois, se você tem que fazer para ter, tem que ter sucesso para ser feliz, você é medido pelo seu desempenho, acreditando em tudo que está nas redes, no sentido de que está tudo bem, feliz e fazendo coisas legais o tempo inteiro. A própria visão de empreendedorismo, essa ideia de que precisamos ter a força de fazer, lutar, o próprio discurso coaching da força da mente, isso é muito complicado em termos de saúde mental, em termos de quanto as pessoas estão chegando no burnout e ultrapassando todos os limites em nome de um sucesso, desempenho. Com certeza isso tudo vai impactar e vai levar as pessoas muito além de seus limites.
A própria visão do empreendedorismo, essa ideia de que precisamos ter a força de fazer, lutar, o próprio discurso coaching da força da mente, isso é muito complicado em termos de saúde mental
IHU – A vida em comunidade vem se transformando, e não apenas em decorrência da pandemia. A tecnologia e as redes têm mudado as formas de estarmos juntos e vivermos em comunidade. Como essa transformação incide sobre o ser humano, um ser social e do contato? Pode se ter aí uma questão de fundo para o aumento dos problemas de saúde mental e suicídios?

Karen Scavacini – Com certeza mudou a forma como se vive em comunidade, mas imagine se não tivéssemos a tecnologia durante a pandemia. Talvez, fosse muito mais difícil lidar com o afastamento e o isolamento. Então, acho que a tecnologia é positiva em muitos momentos e ela tem nos ajudado em muitas coisas. Para a nova geração, a forma de se comunicar e usar a tecnologia é outra, pelo menos para pessoas como eu, ainda da era analógica, que temos esse tipo de comparação.

A tecnologia mudou, sim, a forma de viver em comunidade, o contato entre as pessoas e isso pode ser um pano de fundo para problemas de saúde mental se a pessoa está mais vulnerável. Essa pessoa precisará aprender a lidar com a sociedade digital e não digital, isso hoje é fundamental. Não temos mais como separar, não temos como falar que é um mundo virtual porque quando ele nos impacta no dia a dia, nas nossas emoções, nos nossos sentimentos, ele é tão real quanto qualquer outro.

Não acho que temos que olhar para a tecnologia como um fator que contribui para o aumento de casos de suicídios. Hoje, colocamos a tecnologia com mais um fator. E, talvez, para algumas pessoas, ela seja um gatilho em alguns momentos, talvez seja uma peça maior no seu quebra-cabeça de sofrimento. Mas não vai ser a única.

IHU – Qual o lugar da religiosidade e da fé na busca por uma saúde mental na sociedade de hoje?

Karen Scavacini – A religiosidade, a religião, a espiritualidade no geral são grandes fatores de proteção do suicídio, no pertencimento, na esperança, em acreditar em algo maior. Por isso, costuma ser algo muito bom, muito protetivo. Em alguns casos, pode ser fator de risco quando, por exemplo, um jovem LGBTQIA+ é expulso de sua família e de seu grupo de pertencimento por conta da religião. Isso é muito sério.

A sociedade não tem vivido esses espaços de fé e religiosidade e, talvez, uma parte da sociedade tem vivido em espaços onde se fala muito de pecado. A saúde mental não é levada em consideração ou, quando a pessoa tem uma questão de saúde mental, é porque não está rezando muito. Então, precisa haver muito mais conscientização entre os líderes religiosos para as questões de saúde mental, para as questões de suicídio. É preciso saber fazer esse acolhimento para entender que estamos lidando com o sofrimento e, muitas vezes, com transtornos mentais. E aí o tratamento não é só religioso.
Precisamos ter muito mais a conscientização de líderes religiosos para as questões de saúde mental, para as questões de suicídio, saber fazer esse acolhimento para entender que a gente está lidando com o sofrimento

IHU – Segundo dados do Ministério da Saúde, o Rio Grande do Sul é um dos estados líderes em suicídios. Como a senhora interpreta essa realidade?

Karen Scavacini – A questão do suicídio tem muita relação com a cultura, muito mais machista de ter que resolver tudo sozinho, de não poder pedir ajuda. Sabemos que há muito mais casos no interior do que na capital. Tem também uma relação com a forma como esses negócios familiares e agrícolas tem acontecido. Dívidas, aumento de uso de álcool e drogas também são outros fatores, assim como questões conjugais. Há também uma herança europeia, no sentido de cultura, que pode ter relação com esse aumento. São explicações para essa situação do Rio Grande do Sul.

IHU – Deseja acrescentar algo?

Karen Scavacini – Gostaria de acrescentar alguns canais onde as pessoas podem buscar ajuda. Existe o Centro de Valorização da Vida – CVV, acessível de diversas formas, inclusive pelo telefone 188.

Tem o Mapa Saúde Mental, um mapeamento nacional dos locais de atendimento em saúde mental no país.

Tem o Podefalar.org, que é do Unicef para jovens dos 13 a 24 anos também terem primeiros socorros emocionais. E estamos com dois cursos gratuitos, um se chama Bem-estar digital para ajudar profissionais da área da saúde a lidarem com a vida digital de seus pacientes também em períodos de vulnerabilidade. E o Programa Apoiar, feito para qualquer pessoa aprender a lidar com o suicídio. Ele também está disponível através do Instituto Sul-América.

Fonte: www.ihu.unisinos.br/622601-suicidio-nao-e-escolha-mas-um-ato-de-desespero-imerso-numa-grande-dor-entrevista-especial-com-karen-scavacini

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Especialistas alertam sobre os “6Ds”, sinais de alerta para saúde mental dos jovens

Valber Dias, psiquiatra, fala sobre a maneira de identificar algum tipo de problema psicológico e de que forma as famílias, em geral, podem se atentar diante disso.

“Especificamente para o suicídio, existem aqueles que são os sinais de alerta, os 6Ds: sinais de desespero, desesperança, delírio, desamparo, depressão ou, a presença de dependência química ou abuso de substância”, pontuou.

Dias fala também sobre formas de garantir a saúde mental dos jovens, especialmente durante este período de pandemia e isolamento social. “O suicídio é algo que pode ser prevenido com os fatores que temos de proteção. O mais importante deles é a autoestima”, disse.

Entre esses fatores estão ter bom suporte familiar e laços sociais bem estabelecidos. “Ter um propósito para a vida ou exercer algum tipo de espiritualidade; cuidar da saúde mental e trabalhar a questão da resiliência”.

Vicente Ramatis, também psiquiatra, alerta os familiares sobre perceber comportamentos que apresentem um distúrbio claramente fora da curva, seja introvertido ou até mesmo exagerado.

“Para esses casos, o primeiro fator pode ser um quadro esquizofrênico ou um quadro bipolar. O importante é fazer uma prevenção prévia. Procure uma ajuda profissional, não espere a situação se agravar”.

Para as pessoas que não procuraram ajuda psiquiátrica, por medo de tornarem-se dependentes de remédios, Ramatis orienta: 

A pessoa que sente receio pode estar perdendo tempo, porque as medicações podem melhorar a qualidade de vida em todos os aspectos. Hoje em dia são poucos os medicamentos que podem criar dependência. Saia desses pré-conceitos e achismos é necessário. O importante é procurar ajuda, sair da zona de conforto e não deixar que o pior acontecer. Comece o tratamento sempre na fase inicial e não se preocupe com a opinião de ninguém.

Procure ajuda!

O Centro de Valorização da Vida (CVV) presta apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo de forma voluntária e gratuita todas as pessoas que querem e precisam conversar. O CVV mantém total sigilo sobre tudo o que é conversado por telefone, e-mail e chat 24h.

Ligação gratuita de todo o país: 188

Fonte: https://eshoje.com.br/especialistas-alertam-sobre-os-6ds-sinais-de-alerta-para-saude-mental-dos-jovens/

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Alerta: o Brasil na contramão...

Suicídios caem no mundo, mas crescem no Brasil


Paulo Ritter (9 outubro 2019)

No dia 9 de setembro, véspera do Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, a Organização Mundial de Saúde (OMS) publicou um relatório com dados alarmantes. No dia seguinte, lançou, com dois parceiros internacionais, a campanha “40 segundos de ação”, cujo ponto culminante será no Dia Mundial da Saúde Mental, em 10 de outubro, com o foco este ano justamente na prevenção do suicídio.

Os dados do relatório foram amplamente divulgados pela grande mídia. A cada ano, quase 800 mil pessoas se suicidam no planeta – uma morte a cada 40 segundos.  O suicídio foi a segunda principal causa de morte entre os jovens de 15 a 29 anos, atrás apenas dos acidentes de trânsito. Apesar desses números, entre 2010 e 2016 a taxa global caiu 9,8%, mas a região das Américas registrou um aumento de 6%, relacionado segundo a OMS ao acesso a armas de fogo. Parte do declínio da taxa mundial se deve ao fato de mais países terem investido em estratégias de prevenção.

Na contramão da tendência mundial, o suicídio no Brasil aumentou 7% de 2010 a 2016 – último ano da pesquisa da OMS. Entre os adolescentes o aumento foi ainda maior. Segundo uma pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), a taxa nesse grupo etário, nas grandes cidades brasileiras, aumentou 24% entre 2006 e 2015.  Em 2016, 32 pessoas se suicidaram por dia em nosso país – uma morte a cada estarrecedores 45 minutos –, ou seja, mais brasileiros se mataram naquele ano do que morreram de doenças como AIDS e câncer.

O suicídio está intimamente ligado aos quadros depressivos. Ainda segundo a OMS, 5,8% da população brasileira sofriam de transtornos depressivos em 2015 – um total de 11,5 milhões de brasileiros. O Brasil foi o país com o maior número de deprimidos na América Latina e o segundo nas Américas, atrás somente dos Estados Unidos

O suicídio está intimamente ligado aos quadros depressivos. Ainda segundo a OMS, 5,8% da população brasileira sofriam de transtornos depressivos em 2015 – um total de 11,5 milhões de brasileiros. O Brasil foi o país com o maior número de deprimidos na América Latina e o segundo nas Américas, atrás somente dos Estados Unidos, com 5,9% de deprimidos. Em relação aos transtornos de ansiedade, frequentemente associados às depressões, nosso país foi recordista mundial em 2015, com 9,3% da população apresentando algum transtorno desse tipo, totalizando 18,6 milhões de pessoas ansiosas.

Essas questões dizem respeito ao campo da saúde mental – expressão cara ao contexto brasileiro. Esse campo de atuação profissional e assistência à saúde surgiu a partir da Reforma Psiquiátrica brasileira, iniciada na década de 80, quando o modelo assistencial em psiquiatria passou a ser reconfigurado em suas linhas fundamentais. O modelo tradicional baseado na figura do médico e no hospital psiquiátrico – modelo hospitalocêntrico – passou gradativamente a dar lugar aos chamados serviços substitutivos de base territorial. Foi nesse contexto que surgiram os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), as Residências Terapêuticas, os Consultórios de Rua etc. –, serviços de saúde espalhados pelas cidades que formam uma rede de cuidados direcionada às pessoas com transtornos psíquicos graves.

A Reforma Psiquiátrica brasileira é reconhecida internacionalmente como uma experiência rica e pujante, exitosa na substituição de uma visão estritamente médica da loucura por uma visão mais complexa e plural. Com a mudança do modelo assistencial, a loucura deixou de ser uma questão exclusiva da psiquiatria e passou a ser objeto de outros saberes. O campo da saúde mental, portanto, criado a partir da Reforma Psiquiátrica, comporta múltiplos saberes: psicologia, psicanálise, psiquiatria, assistência social, justiça, antropologia, sociologia, artes, cultura etc.

Como tantas outras políticas públicas no Brasil, a Reforma Psiquiátrica também está sendo desconstruída nos últimos anos. O movimento progressista, articulado com a defesa dos direitos humanos em seus vários aspectos, tem sido desmantelado ostensivamente pela chamada “Nova” Política de Saúde Mental. O grande hospital psiquiátrico – o manicômio – voltou à cena, assim como as comunidades terapêuticas passaram a receber dinheiro público a partir deste ano. Estas, similares aos manicômios, voltadas para a dependência química, em sua absoluta maioria estão ligadas a grupos religiosos e preconizam um tratamento baseado na abstinência, na contramão dos avanços mundiais.

Diante do crescimento do suicídio e dos números recordes relativos aos quadros depressivos e ansiosos, podemos perguntar como a assistência pública de saúde no Brasil está enfrentando esses desafios. Os quadros de depressão e ansiedade – como os demais quadros psíquicos – não são como doenças naturais, enraizadas no organismo e independentes do contexto cultural, necessitam, portanto, de estratégias complexas de enfrentamento de suas causas.

Uma das faces mais agudas da depressão é o sentimento de desesperança, no qual o futuro não vale mais a pena. Já a ansiedade é um dos nomes da angústia, aquele afeto próximo do medo que nos invade em situações de perigo, como uma espécie de excesso intraduzível em palavras. Só mais alguns passos, portanto, e podemos entender nossas primeiras posições em relação ao suicídio e aos quadros depressivos e ansiosos.

Freud costumava dizer que a cura em psicanálise vinha pelo amor, no sentido pleno dessa palavra, no sentido de pulsão de vida, dos laços que nos unem aos outros e ao trabalho. Uma análise, portanto, deveria ser capaz de restabelecer a capacidade de trabalhar e amar do sujeito. Atingido esse objetivo, ela poderia ser concluída. Ora, trabalhar e amar ainda são possíveis no Brasil de hoje?

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no Brasil há atualmente cerca de 13 milhões de desempregados. Os números de subutilizados e desalentados – que simplesmente desistiram de procurar emprego – atingiram o recorde de toda a série histórica da pesquisa, iniciada em 2012; a informalidade também é a maior já registrada. Esses números indicam que um em cada quatro brasileiros em condições de trabalhar está desempregado, trabalhando menos horas do que gostaria ou desistiu de procurar emprego. Não à toa, alguns estudos indicam que vivemos a maior fuga de cérebros da nossa história. Se não há esperança no futuro, melhor ir procurá-lo em outro lugar.

Restaria o amor, constitutivo dos laços que nos unem aos outros, à família, aos amigos, aos parceiros amorosos. Basta, no entanto, uma rápida olhada no noticiário diário ou nas redes sociais para descrermos também desse caminho.

Diante dessa situação, não admira que os números relativos ao suicídio, à depressão e aos transtornos ansiosos estejam nas alturas. Para enfrentá-los, precisamos de políticas públicas de saúde que entendam a complexidade desse fenômeno e, sobretudo, a complexidade do campo da saúde mental. Não será retornando a uma visão exclusivamente médica dos problemas psíquicos que diminuiremos esses números.

Fonte: https://projetocolabora.com.br/ods3/suicidios-caem-no-mundo-mas-crescem-no-brasil/