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quinta-feira, 3 de outubro de 2019

InspiraAção - um site a serviço da vida

Plataforma oferece orientação para quem está com a saúde mental vulnerável

Pedro Ezequiel (Jornal da USP) (2 outubro 2019)

Entender as angústias e sofrimentos que sentimos, ajudar quem está passando por depressão ou mesmo profissionais interessados em informações científicas sobre saúde mental. O site InspiraAção traz conteúdos sobre cuidado, apoio e bem-estar para a vida. As informações são baseadas em pesquisas e artigos publicados ou reunidos por especialistas da USP.


"A ideia foi criar um propósito diferente das postagens que tem na internet. Não só para quem precisa da ajuda, mas também para quem quer ajudar", explica Kelly Graziani, professora da EERP (Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto) da USP (Universidade de São Paulo).

Ela coordenou a criação do site desenvolvido em parceria entre o CEPS (Centro de Educação em Prevenção e Posvenção do Suicídio) e o LEPS (Laboratório de Estudos e Pesquisa em Prevenção e Posvenção do Suicídio), ambos da USP.

A plataforma conta com artigos de pesquisadores e professores envolvidos com a área de estudos da saúde mental. Há espaço para a publicação de histórias que inspiram e dão apoio à jornada de cuidados. O acesso a leituras dos textos e ensaios científicos é aberto. Mas, para publicar ou realizar enquetes (sempre de maneira anônima para dar segurança), é necessário fazer um cadastro.

"É uma produção de conteúdo e organização da participação social também. Damos segurança para quem vai postar alguma história. E tudo que criamos no site passa pela análise de especialistas, para evitar os 'conteúdos pró-suicidas'", comenta Aline Conceição, pesquisadora da USP e colaboradora do InspirAção.

O público tem acesso a cartilhas e e-books com orientações para profissionais e para pessoas da comunidade que queiram ajudar de alguma maneira. Há ainda vídeos, filmes e notícias sobre prevenção ao suicídio.

Camila Corrêa, pesquisadora da USP e colaboradora no projeto, destaca que é preciso ter respeito, cuidado e responsabilidade para lidar com a dor do outro. "Entender o suicídio no âmbito social e desestigmatizar como ele é visto hoje. O que fazemos no InspirAção é conhecimento teórico e científico alinhado ao conhecimento prático."

Nos próximos meses, será lançado o Plano de Gestão de Crise. Uma ferramenta individual para a própria pessoa, amigos e familiares identificarem sensores que levam a crises.

A pessoa será atendida no momento em que tiver uma crise que pode desencadear uma situação suicida. Pelo site, serão respondidas questões que foram formuladas através de conhecimentos da literatura médica. No final, serão oferecidos nomes e telefones de profissionais do sistema de saúde e também atividades de psicoeducação. Quem buscar a ajuda não precisará se identificar.

Bruna Marques, aluna de Enfermagem da USP, colabora com o site e explica como é feita a escolha da informação disponível no site. "Cada participante pesquisa uma temática. Depois, dividimos com o grupo e discutimos. É um conhecimento científico para ter contato com a plataforma."

O que é posvenção?


Cuidar de quem perdeu alguém. Esse é o papel da posvenção. No site, o público também tem acesso a informações sobre o acolhimento de quem perdeu alguém através do suicídio.

Segundo a professora Kelly, o termo ainda é pouco usado aqui no Brasil. Mas tem que ser mais difundido. "A proposta é auxiliar no luto pós-suicídio. É uma dor extremamente complicada. As pessoas sentem muito e pensam que não se pode fazer mais nada. Mas é o contrário."

Existe um risco nessa situação de gerar problemas de saúde mental para o núcleo de pessoas da família e de amigos. "A posvenção vem para recomeçar. Para ajudar a redescobrir uma vivência mais saudável para elas. E tem que ser de uma maneira humanizada e acessível", conta a professora da EERP.

O IntegrAção envolve pesquisadoras de doutorado e mestrado, além da graduação. O site foi construído com apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).

Divulgar, aprender e entender


A estudante de Enfermagem da USP Isabelle Wengler e a pesquisadora da USP Larissa Castelo participam da divulgação da plataforma. Elas contam que, no Instagram do IntegrAção, há tutoriais para explicar o cadastro e o login do site. "É mais acessível. Tivemos algumas devolutivas de alguns grupos, no sentido de ver as diferentes faixas etárias demonstrando interesse e curiosidade para acessar o conteúdo."

A escolha da internet como principal canal de comunicação foi feita a partir de monitoramentos feitos no Laboratório de Estudos e Pesquisa em Prevenção e Posvenção do Suicídio. Eles identificaram blogs e postagens nas redes sociais de pessoas com quadros de depressão e conteúdo sobre o assunto.

No entanto, as informações contêm uma série de elementos negativos, como o estigma em relação à doença e a falta de um apoio real no mundo virtual.

"Fizemos estudos no Twitter, por exemplo. Vimos postagens de riscos e o comportamento suicida, muitas vezes. Essas postagens ganham uma potencialização no ambiente virtual, gerando um novo conteúdo nocivo a quem lê", conta a professora Kelly.

Segundo a colaboradora Danielle Maria Nogueira, entre junho e setembro, foram mais de 4 mil acessos ao IntegrAção de locais como São Paulo, Canadá, Espanha, Estados Unidos, Japão e Portugal. "A intenção é essa: criar multiplicadores envolvidos com a prevenção. E o site, para nós da academia, é de ampliar o horizonte. Chegar até a comunidade."

Você pode seguir o IntegrAção no Instagram: @inspiracaoleps, no Twitter do Laboratório de Estudos e Pesquisa em Prevenção e Posvenção do Suicídio (LEPS), no Facebook ou entrar em contato através do e-mail cepsusp@gmail.com do Centro de Educação em Prevenção e Posvenção do Suicídio (CEPS).

Fonte: www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2019/10/02/plataforma-oferece-orientacao-para-quem-esta-com-a-saude-mental-vulneravel.htm

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Uma notícia que merece aplauso, mas que mostra o atraso da área da saúde na prevenção do suicídio...

Por meio deste blog, há pouco mais de um ano, um médico recém-formado me contactou para solicitar indicação de bibliografia para as ocorrências de crise suicida.

Em resumo, depois de 6 anos de graduação e talvez algum(ns) curso(s) complementar(es) este médico (que representa grande parte dos médicos recém-formados do Brasil) NÃO sabia como lidar, em um caso de emergência, com um paciente em crise suicida.

Neste caso específico, ele fez o que pode, mas não tinha certeza se havia procedido segundo algum protocolo (que ele suspeitava existir).

Recomendei-lhe o clássico Crise suicida: avaliação e manejo, do Neury José Botega, como leitura básica, obrigatória.

Felizmente (a despeito do longo atraso) nos chega esta boa notícia, aí abaixo:

Disciplina inédita na USP de Ribeirão Preto vai capacitar enfermeiros a atuar na prevenção do suicídio

Módulo optativo voltado a alunos de graduação no interior de São Paulo começa a ser ministrado em agosto. Em 6 anos, Brasil registrou 62,8 mil casos de suicídio, aponta Ministério da Saúde.

Universidade de São Paulo acaba de lançar uma nova disciplina sobre prevenção do comportamento suicida na Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (SP). Considerada pela instituição como pioneira no Brasil, a iniciativa visa capacitar alunos da graduação a identificar e prevenir situações de risco de suicídio de pacientes e combater o preconceito.

Intitulada de "Introdução à Prevenção e Posvenção do Suicídio", a disciplina optativa começará a ser ministrada em agosto, com previsão de término em novembro. A enfermagem da USP também pretende oferecer cursos e palestras ao público em geral.

A proposta foi apresentada pela professora doutora do curso de enfermagem, Kelly Graziani Giacchero Vedana, após perceber a necessidade de os alunos aprofundarem o conhecimento sobre suicídio e desmistificarem as dificuldades de abordagem enfrentadas no meio profissional.

“Os alunos tinham interesse, porém, com a formação do generalista, a gente passa mais brevemente sobre esses assuntos mais especializados. Também com o fato de que os profissionais de saúde, no geral, têm bastante dificuldade em lidar com o tema, vi que a melhor alternativa seria a de criar uma disciplina”, disse.

Com uma média nacional de 5,5 mortes por 100 mil habitantes, o Brasil registrou entre 2011 e 2016 62.804 ocorrências de suicídio. As situações mais recorrentes envolveram homens - 79% dos casos - e foram concretizadas por enforcamento - 62%. Somente no Estado de São Paulo, no mesmo período, foram 8.585 suicídios.

Além das mortes concretizadas, entre 2011 e 2016 ocorreram em todo país outras 48.204 tentativas, em 69% delas praticadas por mulheres. Um terço das vítimas tentou o suicídio mais de uma vez.

Avaliação de risco

No plano estabelecido para a disciplina em Ribeirão, os alunos terão a oportunidade de desenvolver competências para avaliar o potencial de suicídio, reconhecer fatores de risco e proteção, identificar necessidades de saúde e elaborar ações de cuidado voltadas para o indivíduo e familiares.

Segundo Kelly, a disciplina será útil tanto para a prevenção do suicídio, em casos de risco, quanto em situações de menor potencial.

“Se os profissionais estiverem mais aptos para rastrear esse risco e tiverem um acompanhamento desses casos, provavelmente teremos mais chances de prevenção. Acreditamos que a maioria dos casos de suicídio sejam preveníveis”, completa.

Para a professora, preparar o profissional para identificar os casos também é necessário para que haja a prevenção e o apoio pósvenção, ou seja, a assistência ao paciente depois da tentativa e à família após o suicídio consumado.

“Hoje em dia temos um leque bem variado de profissionais que atuam nessa área da saúde e todos precisam estar preparados para essas situações, porque muitas vezes as pessoas vão expressar pedidos de ajuda que podem não ser muito claros em diferentes setores da comunidade, nem sempre será com esses profissionais da saúde”, analisa.

Desafios

Um dos grandes desafios enfrentados pelos profissionais que lidam com as tentativas de suicídio está ligado ao próprio comportamento e aos sentimentos que podem surgir durante o atendimento ao paciente.

Kelly explica que uma das principais questões é o bloqueio relacionado às emoções, crenças e aos mitos relacionados ao suicídio, porque esse é um tema bastante complexo.

“O suicídio é um os grandes mistérios com que a gente lida na saúde mental. O que se destaca é a dificuldade também de saber avaliar riscos, de identificar alguns padrões, mas também saber reconhecer a individualidade dos casos, porque isso é bem desafiador”, comenta.

Com a disciplina específica, a professora acredita que o conhecimento adquirido pelos alunos da enfermagem será expandido para outras regiões do país.

“Nossos alunos vão para várias regiões do país e, muitas vezes, numa posição de poder modificar a política, as ações e várias questões de serviço de saúde. Temos a intenção, tanto na disciplina, quanto por meio de outras ações é tornar os alunos multiplicadores, acreditamos que isso pode ter um efeito positivo sobre várias pessoas que nem conhecemos,”, completa Kelly.

Fonte: https://g1.globo.com/sp/ribeirao-preto-franca/noticia/disciplina-inedita-na-usp-de-ribeirao-preto-vai-capacitar-enfermeiros-a-atuar-na-prevencao-do-suicidio.ghtml