Mostrando postagens com marcador As 13 Razões. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador As 13 Razões. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Suicídio entre os jovens: dramas que se multiplicam...

Suicídio entre jovens: "Ele se despediu de todo mundo e ninguém acreditou"...

Luiza Souto, Universa (23 agosto 2019)

A filha da frentista Ceumi Bender, 31, tentou se matar no ano passado, aos 13 anos. O sobrinho da professora de português *Carolina da Silva, 32, vinha avisando que tiraria a própria vida desde os 6 anos. E o fez, aos 15.

"Desde muito novo, ele falava: 'Tia, a minha vida é ruim demais, não tem sentido viver'", diz *Carolina, que vive em Belo Horizonte (MG) e pediu para não ter seu nome identificado.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta o suicídio como a segunda principal causa de morte de pessoas entre 15 e 29 anos. No Brasil, os casos aumentaram 65%, entre pessoas com idade de 10 a 14 anos, e 45% na faixa de 15 a 19 anos, de 2000 a 2015. A informação, com dados do Ministério da Saúde, é da última edição do Mapa da Violência, publicada em 2017.

O tema volta às rodas de conversa nesta sexta (23), com a estreia da terceira temporada da série americana "13 Reasons Why", da Netflix. O programa gerou polêmica desde a estreia, em 2017, já que a trama gira em torno das razões que levaram a adolescente Hannah Baker (Katherine Langford) a cometer suicídio. Um estudo divulgado recentemente nos Estados Unidos apontou um pico no número de jovens americanos que tiram a própria vida nos 30 dias seguintes ao lançamento da série. Diante de uma série de críticas, em junho, a Netflix decidiu remover imagens explícitas da primeira temporada, que mostram como a personagem principal se mata.

Em um manual de prevenção ao suicídio, a OMS (Organização Mundial da Saúde) orienta profissionais de saúde a evitar descrições detalhadas dos métodos usados. Eles podem servir de gatilho para quem está em sofrimento emocional. A frentista Ceumi Bender acredita que de tanto olhar tutoriais sobre como se matar --sim, isso existe na internet-- sua única filha decidiu tomar uma atitude extrema.

 "Começou com afastamento" 


A filha de Ceumi cresceu em Francisco Beltrão (PR), sem a presença do pai. A família se separou quando ela tinha cinco anos. No início de 2018, lembra Ceumi, a menina que gostava de se maquiar e cozinhar se afastou da família e dos amigos e mal falava com as pessoas. A mãe logo descobriu feridas em seu braço e a levou a uma psicóloga. A filha disse que fazia isso porque andava irritada e prometeu não se machucar mais.

Na mesma época, a adolescente decidiu que queria ter mais contato com o pai e pediu para morar um tempo na casa dele, em Santa Catarina. Ceumi fala que a experiência não durou nem três meses. A menina voltou mais magra e triste:

"Ela reclamava que o pai era duro, a obrigava a comer toda a comida do prato ainda que não quisesse, e lhe tirou o celular. E chegou a falar para o avô que tinha vontade de morrer porque ninguém gostava dela".

A garota voltou para casa em julho. Crismou-se na Igreja Católica num domingo. Na quarta seguinte, passou o dia inteiro ao celular, e Ceumi decidiu que iria pedir o aparelho e a senha da filha para vasculhar tudo. Faria isso no dia seguinte. Antes de dormirem, comeram pipoca. Pela manhã, a encontrou inconsciente:

"Depois que tudo aconteceu, vi que ela entrava em sites que ensinavam métodos de suicídio. E outras imagens de adolescentes feridos, compartilhando automutilação. Não tive coragem de assistir a tudo"


A adolescente ficou duas semanas em coma induzido. Ao todo, passou 40 dias internada. Saiu com a fala e os movimentos de braços e pernas prejudicados. Levou oito meses para voltar a andar. Também não se recorda de muitos momentos da vida, incluindo os do dia da tragédia.

Hoje, aos 14 anos, a garota consegue frequentar a escola, mas recebe atenção especial de uma professora auxiliar. Os amigos foram desaparecendo, e Ceumir diz que a menina sofre bullying e é constantemente chamada dos mais variados nomes devido às sequelas.

A escola, que é pública, nunca procurou a mãe para conversar sobre o que houve. Enquanto isso, a prefeitura ajuda com uma psicóloga, que as duas visitam uma vez por semana. Também oferece fisioterapia e aulas de canto e artesanato. A menina precisaria ainda de uma fonoaudióloga, que a mãe não tem condições de pagar.

As duas também se consultam com um psiquiatra: a menina toma remédio para controle de humor, e a mãe, para ansiedade. Dormem a maior parte do tempo juntas.

"Tem sido muito difícil, porque até hoje moramos na mesma casa e toda hora me lembro de tudo. Minha filha está igual a um bebê e anda muito envergonhada. Os amigos não a convidam mais para a casa deles e sinto preconceito até comigo. Falam, por exemplo, que eu deveria esconder as cicatrizes dela. Tenho muito medo que ela tente de novo. O que faço agora, e o que todo pai deveria seguir, é prestar mais atenção, pegar o celular, sentar mais junto."

Possíveis gatilhos


Numa pesquisa sobre lesões autoprovocadas por adolescentes, feita em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, em 2018, a socióloga Dayse Miranda identificou o bullying e a perda trágica de um ente querido como algumas das razões que levam jovens a tentarem se matar.

A pesquisadora do Gepesp (Grupo de Estudo e Pesquisa em Suicídio e Prevenção), que surgiu de uma parceria da UERJ com a Polícia Militar do Rio, perguntou, de forma anônima, a 1.279 estudantes de 9 a 15 anos se, em algum momento, eles pensaram ou tentaram o suicídio e a automutilação. Do total, 288 responderam "sim" para uma dessas situações. Uma parte deles tentou se matar (12%). Outros praticaram automutilações sem intenção suicida (8%) ou tiveram pensamentos suicidas (3%).

Duque de Caxias tem uma das maiores taxas de homicídios do estado do Rio de Janeiro, segundo o Atlas da Violência. E a pesquisa mostra justamente que o sofrimento emocional da maioria desses jovens está diretamente ligado a esse cenário.

"Esses jovens têm um problema muito grande com a violência doméstica e com a morte. Ver corpos, ter contato com a violência faz parte do dia a dia deles", diz Dayse.

Mas ela destaca que esses gatilhos são característicos desse grupo ao qual teve acesso. É muito difícil chegar a um padrão quando falamos no problema da juventude em geral.

"O gatilho da pessoa de Caxias não é o mesmo do jovem do Leblon, na zona sul, embora a dor da depressão seja a mesma. O que dispara o sofrimento varia segundo o grupo socioeconômico e cultural."

Falta de amparo do poder público


Na série da Netflix, por exemplo, a personagem Hannah não vivia num local violento, marcado por tiroteios, mas enfrentou bullying, rejeição e estupro. A crise amorosa está entre os fatores mais citados por jovens na pesquisa de Dayse, porque, ela diz, o adolescente tem muita dificuldade em lidar com o rompimento:

"Entrevistei uma menina que, aos quatro anos, perdeu o irmão. Ela desenvolveu sintomas de estresse pós- traumático, mas nunca foi tratada. Quando ficou grávida, aos 13, foi abandonada pelo namorado e começou a se automutilar".


A pesquisa serviu de piloto para um programa que visa habilitar pessoas na prevenção de violências autoprovocadas no ambiente escolar. O problema, diz a pesquisadora, é a falta de amparo do poder público.

"A família que tem um jovem passando por problemas emocionais precisa fazer parte de um plano de prevenção. Mas, quando o aluno tiver uma crise, por exemplo, mandamos para onde? Caxias não tem medicamento, nem psiquiatra."

"Precisamos ouvi-los mais"


A escola pública onde o sobrinho da professora de português *Carolina da Silva estudou não soube lidar com os rompantes de agressão do adolescente, nas palavras dela. Ele se matou em abril, aos 15 anos.

A vida do garoto foi marcada por violência e abandono: a mãe o entregou à avó paterna quando ele tinha nove meses de vida. O pai o visitava e o agredia às vezes.

Carolina morava no fundo da casa onde o adolescente vivia. Ela descreve o menino como uma pessoa carente demais, e que carregava uma tristeza muito grande por não ter uma mãe. A mulher, viciada em drogas, aparecia para visitá-lo, às vezes, quando estava sóbria.

Na escola e na rua, o garoto era agressivo. Batia e apanhava dos colegas do sexto ano. Passou então a ver um psicólogo. Por isso, acabou sendo chamado de louco e estranho pelos colegas. Quando ele revidava o bullying, os professores colocavam o garoto de castigo.

Em casa, a avó tirava o celular e os jogos eletrônicos para tentar corrigi-lo, enquanto a tia buscava dar conselhos, animá-lo.

"Uma semana antes do suicídio, ele foi à casa de todo mundo se despedir. Beijou e abraçou a todos. Mas ninguém desconfiou". 


Carolina chora. Agora, a atenção ficou redobrada em casa. Ela tem um casal de filhos adolescentes. "A gente hoje vive tão refém de redes sociais e do trabalho que esquece um pouco da casa, da família. Passei a dar mais atenção para meu filho, a perguntar como ele está se sentindo. Na escola, quando peço para os alunos escreverem uma redação, muitos relatam violência doméstica e eu encaminho à direção da escola. Precisamos ouvi-los mais."

Em vídeo comovente, mãe, pai e filha (Aline Oliveira) contam tentativa de suicídio da adolescente.
Em vídeo comovente, mãe, pai e filha contam tentativa de suicídio da menina... - Veja mais em https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2019/08/23/sao-muitas-as-razoes-para-o-suicidio-disse-que-faria-e-ninguem-acreditou.htm?cmpid=copiaecola
Em vídeo comovente, mãe, pai e filha contam tentativa de suicídio da menina... - Veja mais em https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2019/08/23/sao-muitas-as-razoes-para-o-suicidio-disse-que-faria-e-ninguem-acreditou.htm?cmpid=copiaecola
vídeo comovente, mãe, pai e filha contam tentativa de suicídio da menina... - Veja mais em https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2019/08/23/sao-muitas-as-razoes-para-o-suicidio-disse-que-faria-e-ninguem-acreditou.htm?cmpid=copiaecola

Para pedir ajuda, o Ministério da Saúde oferece o serviço de ligações para o CVV (Centro de Valorização da Vida), que auxilia na prevenção do suicídio e dá atenção a pessoas que sofrem de ansiedade e depressão. Para falar com um voluntário treinado para esse tipo de situação, basta discar o número 188 pelo telefone. A assistência também é prestada pessoalmente, por e-mail ou chat no site (cvv.org.br).

Fonte: www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2019/08/23/sao-muitas-as-razoes-para-o-suicidio-disse-que-faria-e-ninguem-acreditou.htm

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Suicídio e adolescência. Excelente texto de Arnaldo Cheixas!!

O problema do suicídio entre adolescentes

O assunto está em voga nos últimos tempos; confira sintomas, mitos e como ajudar nesses casos

Arnaldo Cheixas

O debate sobre o suicídio entre adolescentes tem sido destacado nos meios de comunicação em função do controverso jogo “blue whale” (baleia azul), sobre o qual ainda há poucas certezas. Existem casos recentes de suicídios e de tentativas de suicídio que parecem estar associados ao jogo.

Baleia Azul

Ao que parece, curadores anônimos convidam adolescentes a participar do jogo por meio das redes sociais. Depois de aceitar participar, o adolescente passaria a receber sucessivos desafios envolvendo assistir a filmes de terror durante a madrugada e automutilação – dentre outros –, culminando com o desafio derradeiro de tirar a própria vida. Os adolescentes seriam coagidos a manter a participação até o fim sob ameaças dos curadores de que, em caso de desistência, males seriam praticados contra seus familiares.

Casos foram registrados em vários países, inclusive no Brasil. Aqui a investigação tem sido conduzida principalmente pela Delegacia de Repressão a Crimes de Informática do Rio de Janeiro mas há investigações paralelas feitas pelas polícias de outros estados. Por enquanto não se sabe a extensão do problema e é importante aguardar os resultados preliminares da investigação policial. De qualquer modo, os casos apurados por jornalistas de diversos veículos realmente aconteceram e estão sendo investigados. Todo o resto são boatos e conjecturas. E, independentemente disso, o problema da morte auto-imposta é real e nessas horas é melhor não subestimar os riscos de uma onda de suicídios entre adolescentes.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (O.M.S.), a cada quarenta segundos em média uma pessoa tira a própria vida em algum lugar do planeta. Foram quase um milhão de casos registrados em 2012, ano de referência dos dados do relatório mais recente do órgão internacional, publicado em 2014.

O suicídio é a segunda causa global de mortalidade de adolescentes e adultos jovens (de 15 a 29 anos), atrás apenas dos acidentes de carro. Embora no Brasil a maior incidência esteja na faixa etária seguinte, de 30 a 39 anos, ela também é alta entre adolescentes, de modo que o problema não deve ser subestimado e exige atenção permanente no país, devendo envolver em suas ações os próprios adolescentes, os pais, a escolas e os governos.

13 Reasons Why

À luz desse cenário preocupante, a Netflix estreou a série 13 Reasons Why. Uma tradução livre do título pode ser Treze Motivos Pelos Quais – o número treze em inglês traz uma associação direta com a adolescência. A série conta a história de Hannah, uma adolescente que, antes de cometer suicídio, grava em fitas cassete treze razões que a levaram a tirar a própria vida. Os núcleos explicativos para o suicídio são o bullying e a incompreensão dos adultos sobre o sofrimento de Hannah.

Como é sabido que a publicidade de casos de suicídio pode fazer com que outras pessoas o executem logo após a divulgação – fenômeno conhecido como efeito Werther –, a série gera sim preocupação. O suicídio da personagem Hannah Baker é envolto em bastante romantismo, desde a beleza da maior parte das personagens até o próprio fato de que a protagonista, mesmo morta, continua presente na vida dos demais por conta dos áudios deixados com sua voz. Esse aspecto particularmente atiça uma fantasia muito presente no discurso de quem tem ideação suicida, que é a expectativa de que sua morte fará com que as pessoas que lhe magoaram sofram e de certo modo paguem pelo mal praticado.

Um dado interessante é que a série da Netflix fez aumentar a quantidade de pessoas que estão entrando em contato com o Centro de Valorização da Vida, um serviço gratuito voltado para a prevenção do suicídio. Mas ainda é difícil saber se esta notícia é boa ou ruim.

Como psicólogo não posso deixar de olhar com preocupação o fato de o suicídio ser apresentado de forma tão romantizada na TV mas não se pode negar que os produtores de 13 Reasons Why foram corajosos ao trazer o tema de forma tão aberta. Um efeito positivo inegável é a repercussão que tem feito com que o tema seja discutido. Se se trata apenas de comoção passageira ou se produzirá avanços na prevenção, só o tempo dirá. Por enquanto não podemos deixar passar a oportunidade de conversar a respeito.

Fatores de risco para o suicídio

A seguir os elementos mais comuns na vida de pessoas que se suicidaram e que servem como sinais de alerta:

   – Presença de perturbações mentais (presentes em 90% dos casos).
   – Stress social.
   – Grandes perdas (ente querido, emprego, patrimônio…).
   – Abuso no passado, físico ou emocional.
   – Desesperança em relação à própria vida.
   – Sensação de desamparo, impossibilidade de agir sobre os problemas.
   – Exposição ao suicídio de alguém conhecido ou famoso.
   – Dificuldades sexuais.
   – Doença e dor.
   – Acesso facilitado aos meios necessários para se suicidar.
   – Acontecimentos violentos (guerra, desastres, golpes de estado).
   – Repertório pobre para enfrentamento de problemas.
   – Problemas familiares.

Fatores de proteção

Os elementos que significam menor risco de suicídio são:

   – Existência de apoio da família e de uma rede de amizade sólida.
   – Presença de crenças.
   – Envolvimento na comunidade.
   – Vida social satisfatória.
   – Acesso aos serviços de saúde existentes.

Os avisos que aparecem antes de uma tentativa de suicídio

Na maioria dos casos de suicídio, há alguns sinais que antecedem a ação e que podem ajudar quem está perto a prestar apoio e até evitar que a tragédia de fato aconteça. Aqui estão eles:

   – Falta de interesse pelo próprio bem-estar.
   – Mudanças de comportamento.
   – Declínio da produtividade.
   – Alterações no sono e na alimentação.
   – Tentativa de ficar em dia com pendências pessoais e de fazer as pazes com desafetos.
   – Interesse incomum em como os outros se sentem.
   – Preocupação com temas de morte e violência.
   – Súbita melhoria no humor após uma depressão.
   – Promiscuidade repentina ou aumentada.
   – Dificuldade em lidar com problemas.
   – Pressão negativa dos colegas/bullying.
   – Família disfuncional.
Mitos sobre o suicídio

Os mitos mais comuns e que geram confusão e preconceito são os seguintes:

    “Quem fala em suicídio não se mata porque na verdade só quer chamar a atenção.” Errado. A maioria dos suicidas falaram sobre essa possibilidade antes de se matar efetivamente. Na verdade o suicida muda de ideia frequentemente.
    “Suicídio é sempre um ato impulsivo e acontece sem aviso.” Errado. O suicídio normalmente é elaborado aos poucos ao longo do tempo.
    “Suicidas querem mesmo morrer e estão decididos, não havendo nada que se possa fazer para persuadi-los a mudar de ideia.” Errado. A maioria manifesta ambivalência.
    “Quando alguém sobrevive a uma tentativa, está fora de perigo.” Errado. Ao menos uma tentativa prévia ocorre na maioria dos casos que se efetivam. O período logo após uma tentativa é especialmente perigoso.
    “Conversar sobre suicídio é o mesmo que dar ideia.” Errado. Discutir o tema em todos os níveis ajuda alguém com ideação suicida a mudar de ideia e procurar ajuda.
    “Crianças não se suicidam.” Errado. Embora a incidência seja menor do que em qualquer outra fase da vida, crianças se suicidam sim e deve haver atenção permanente quanto a esse risco.

Como ajudar o adolescente que fala em suicídio

Durante uma crise de ideação suicida é importante oferecer suporte com tranquilidade. Não se deve julgar o desejo do outro de interromper a própria vida mas sim procurar escutar com atenção as razões que o motivam para tal. Nesse ponto é importante saber reconhecer e respeitar a escolha que resulta dos elementos apresentados mas sem jamais aceitar a escolha como algo normal.

A pessoa com ideação suicida deve ser estimulada a se abrir e a compartilhar o que pensa e o que sente. O foco do ouvinte deve permanecer no momento atual; falar sobre o passado ou o futuro só aumenta a ansiedade e reforça os sentimentos de frustração. Nesse sentido, deve-se evitar conselhos amplos. As sugestões e conselhos devem se concentrar no aqui e agora.

O ponto mais importante sobre a ajuda a um adolescente com ideação suicida talvez seja o quanto é possível não atrapalhá-lo. E a forma mais desastrosa de atrapalhar um adolescente potencialmente suicida é julgá-lo, estigmatizando-o em seu sofrimento. Frases como “Eu na sua idade fazia assim e assado…” devem ser evitadas fortemente.

Finalmente, é importante discretamente restringir o acesso da pessoa aos meios de praticar o suicídio porque, em um momento de dúvida, a disponibilidade dos meios pode fazer toda a diferença entre a vida e a morte.

Alguns apontamentos

Ainda que os efeitos da depressão sobre o cérebro sejam muito similares para qualquer pessoa do ponto de vista da fisiologia dos neurotransmissores, o tratamento que funciona para um não necessariamente funciona para outro. A melhor conduta deve ser determinada pelos profissionais de saúde sempre em conjunto com o paciente e com os familiares, respeitando-se as particularidades de cada caso.

Embora 60% dos suicidas estivessem deprimidos, o fator principal que os levou ao ato (quando há registro) foi a sensação de desesperança, muito mais do que a depressão em si. Isso se confirma pelos casos de suicídio em que não havia evidência de depressão mas sim a desesperança, a sensação de que a própria vida não tem sentido.

O consumo de álcool e outras drogas deve preocupar particularmente durante a adolescência porque é sinal de que algo não vai bem na vida do adolescente. A substância química, de modo geral, preenche um vazio que normalmente tem a ver com frustrações prévias. Três quartos das crianças e adolescentes com ideação suicida não conseguem falar com um adulto a respeito. Nesse sentido, os professores têm papel chave na vigilância porque eles têm uma posição privilegiada, uma vez que não são tão distantes do adolescente a ponto de não gerar confiança (como um estranho) e nem tão próximos a ponto de gerar desconfiança, vergonha e medo (como os pais).

Adolescentes são mais vulneráveis que adultos porque a pouca experiência com a vida, combinada com seu foco no aqui e agora, os atrapalha na hora de avaliar as consequências de seus atos. Ainda assim, o sofrimento é muito forte com as questões que angustiam um adolescente em risco (bullying, perdas, violência etc). Isso tudo acontecendo num ambiente social virtual, no qual tudo tem velocidade espantosa. Às vezes, é difícil para um adulto entender as expectativas e as angústias vivenciadas pelos adolescentes no ambiente virtual uma vez que esse ambiente não fez parte da adolescência dos adultos de hoje.

Um dado motivador é que, de acordo com o citado relatório da O.M.S., o número absoluto de suicídios caiu globalmente 9% de 2000 para 2012, a despeito do aumento populacional. Isto significa que as políticas de prevenção estão avançando.

Embora o Brasil faça parte de um seleto grupo de países que possuem informações confiáveis sobre o suicídio, tal precisão informativa ainda não se converteu em políticas que permitam a redução de ocorrências trágicas em consonância com a média global. Este é, portanto, o desafio diante do qual estamos. Debater incessantemente o problema é o primeiro passo a ser adotado. Nesse sentido, que o burburinho gerado pelo seriado 13 Reasons Why sirva como gatilho para nos impulsionar para ações concretas de prevenção.

Finalmente…vale registrar aqui que, se você precisa de ajuda neste momento, o CVV atende gratuitamente e de forma completamente anônima por meio do número 141.

Fonte: http://vejasp.abril.com.br/blog/terapia/suicidio-adolescente/

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Curitiba registra tentativas de suicídio e alerta para 'jogo' da Baleia Azul

A Secretaria Municipal da Saúde de Curitiba alerta pais e responsáveis por crianças e adolescentes e os profissionais da educação e saúde em relação ao “jogo” Baleia Azul, que propõe 50 desafios aos participantes e sugere o suicídio como última etapa. Nesta madrugada, a rede municipal de saúde registrou cinco tentativas de suicídio entre adolescentes entre 13 e 17 anos, que foram atendidos e encaminhados para acompanhamento em Centro de Atenção Psicossocial (Caps). Em todos os casos, havia sinais de automutilação e ingestão de medicamentos.

Ainda não há confirmação se os casos têm relação com o jogo. Os casos serão investigados. Além disso, serão desenvolvidas atividades de prevenção ao suicídio nas escolas com estudantes adolescentes, faixa etária alvo do jogo. A ação envolve as secretarias municipal e estadual de Educação.

No "jogo" Baleia Azul, os adolescentes relatam receber mensagens em redes sociais com tarefas a serem cumpridas. Nas conversas, um grupo de organizadores, chamados "curadores", propõe 50 desafios macabros aos adolescentes, como fazer fotos assistindo a filmes de terror, automutilar-se desenhando baleias com instrumentos afiados no corpo e ficar doente.

O Baleia Azul começou como “fake news” (notícia falsa) divulgada por um veículo de comunicação estatal da Rússia e se espalhou a partir de 2015. Mesmo sendo fake news, a notícia gerou um contágio, principalmente entre os jovens. De acordo com especialistas, o jogo não existia, mas com a grande repercussão da notícia, pode ter passado a existir.

“Orientamos que pais e responsáveis conversem com os adolescentes e fiquem atentos a sinais de isolamento, perda de vínculo familiar e quadros de automutilação”, diz o secretário municipal da Saúde de Curitiba, João Carlos Baracho. De acordo com o Baracho, os postos de saúde são a porta de entrada no sistema para aquelas famílias que precisam de ajuda. Caso seja necessário, o posto pode direcionar para atendimento de saúde mental em Caps ou outro serviço especializado, de acordo com a gravidade do caso.

Seriado

No mesmo sentido, a Secretaria Municipal da Saúde faz um alerta em relação ao seriado 13 Reasons Why. Os episódios, exibidos pela plataforma de streamming Netflix, contam a história de uma garota que deixa fitas cassetes explicando as razões que a levaram a cometer suicídio.

De acordo com a Associação Paranaense de Psiquiatria (APPSIQ), obras de ficção que simbolizam a vida real podem contribuir para fomentar discussões de temas importantes. A entidade manifestou satisfação em constatar que o seriado que trata de bullying, depressão e suicídio entre adolescentes tenha provocado alta de 170% nos acessos ao Centro de Valorização da Vida (CVV), que há 55 anos atua na prevenção do suicídio no Brasil.

Segundo a APPSIQ, porém, “a série 13 Reasons Why peca por não abordar a questão do adoecimento mental da personagem, não provocar diálogos sobre como o desfecho dela poderia ser evitado e, principalmente, por dar a impressão de que buscar ajuda é inefetivo.”

A APPSIQ critica também a “glamourização” do suicídio, a utilização do autoextermínio como instrumento de vingança e o fato de atrelar a ideia de suicídio à culpabilização. A entidade alerta, ainda, em relação ao efeito Werther – termo científico pelo qual a publicidade de um caso notável serve de estímulo para novas ocorrências, contribuindo para a difusão do método, apologia ou idealização do ato. 

De acordo com a coordenadora de Saúde Mental da Secretaria Municipal da Saúde, Flávia Adachi, os pais e responsáveis não precisam efetivamente proibir o adolescente de assistir à série, mas devem preferencialmente assistir junto e conversar sobre o assunto. “Pode perguntar ao filho se ele conhece alguém que já passou por aquelas situações ou se ele efetivamente já passou por aquilo, tentando deixar um canal aberto franco de diálogo”, aconselha.

A psicóloga Maria Cristina Barreto, que trabalha na Saúde Mental da secretaria, na área técnica da infância e adolescência, explica que essa fase da vida é de grande vulnerabilidade. “O jogo Baleia Azul tem o componente do ‘desafio’. Os adolescentes gostam de desafio, romper limites, desafiar autoridade”, conta ela. “Já a série afeta mais o adolescente que vivencia alguma situação de maior sofrimento, tornando-o suscetível a influências que podem colocá-lo em situação de risco. Então, precisamos ficar atentos a todos os perfis”, diz.

Fonte: www.bemparana.com.br/noticia/498482/curitiba-registra-tentativas-de-suicidio-e-alerta-para-jogo-da-baleia-azul