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segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Um "precisamos falar sobre isso" amadurecido e ampliado...

Já "passou na televisão", ficou pelo Youtube e há o link, no final desta postagem, para acesso às palestras  


Café Filosófico CPFL apresenta série sobre suicídio entre crianças e jovens na TV Cultura

Primeiro episódio vai ao ar neste domingo, 09/5, com Neury Botega, que também assina a curadoria da série. Programa é exibido nas noites de domingo da TV Cultura – às 19 horas

O Café Filosófico CPFL estreia neste domingo (9), na TV Cultura, a série “Vidas que seguem ou acabam – o suicídio entre crianças e jovens”. Com curadoria do psiquiatra Neury Botega, a série quebra o tabu sobre o assunto e aborda o crescente número de mortes entre adolescentes e jovens adultos. Traz, ainda, reflexões sobre o porquê tantas pessoas têm desistido de viver e sobre os caminhos para prevenção de um fenômeno tão complexo quanto o suicídio. A série é inédita, composta por cinco episódios que contam com a participação de Neury Botega, de José Manoel Bertolote, Berenice Rheinheimer e Leandro de Lajonquière.

“É uma série que toca muito as pessoas. Durante as gravações, eu vi pessoas emocionadas: pais, mães, amigos, namorados e até adolescentes que buscavam um apoio ou uma alternativa para si ou para ajudar alguém ao seu redor. Contamos com um time de especialistas incríveis para lidar com um tema tão sensível. Vale a pena conferir cada episódio”, explica a produtora executiva do Instituto CPFL, Gabriela Gallo.

No episódio de estreia, Neury Botega defende que é preciso falar sobre suicídio, reafirmando que discutir o tema é uma forma de prevenção. “É mostrar que a vida tem alternativas, sempre. Se o suicídio sempre foi tratado como tabu, é preciso dizer também que ele sempre esteve presente nas sociedades. E a nossa atual enfrenta uma triste realidade: a desesperança de muitos adolescentes que acabam tirando a própria vida”, explica.

O programa vai ao ar aos domingos, pela TV Cultura, às 19 horas.

Confira as datas das exibições:

09/5: Porque é preciso falar de suicídio, com Neury Botega

16/5: Políticas públicas na prevenção ao suicídio, com José Manoel Bertolote

23/5: Suicídio e comportamento suicida entre jovens, com Berenice Rheinheimer

30/5: Crianças de hoje, diferentes das de antes?, com Leandro de Lajonquière

06/6: Precisamos falar ainda mais sobre suicídio, com Neury Botega e José Manoel Bortolote


Fonte: https://institutocpfl.org.br/cafe-filosofico-cpfl-apresenta-serie-sobre-suicidio-entre-criancas-e-jovens-na-tv-cultura/



domingo, 26 de maio de 2019

Suicídio e o público LGBTI+

Psicólogo fala abertamente sobre o suicídio entre o público LGBTI+

Comecemos da raiz: a primeira coisa que perpassa nossa mente quando nos deparamos com um ser humano que se suicidou, é o seu presumível descontentamento pela vida; a sensação de vazio inexplicável que, inevitavelmente, o transportou para o padecimento melancólico.

Alguns psicanalistas afirmam que o problema advém de uma depressão tão profunda, que chega perfurar a alma e dissipa qualquer esperança que aquele ser poderia ter no amanhã. Tudo isso é muito mais pungente do que uma melancolia niilista e uma ‘falta de sentido na vida’.

No livro Crise suicida, de Neury José Botega, o autor assevera: “Na crise suicida há a exacerbação de uma doença mental existente, ou uma turbulência emocional que, sucedendo um acontecimento doloroso, é vivenciada como um colapso existencial”. Assim, retornando há um passado bem remoto, precisamente em 1895, Freud já preceituava um esboço do que seria esse padecimento melancólico supratranscrito. Em suma, há uma perda total da vida pulsional do sujeito. Utiliza-se assim, a expressão ‘ferida aberta’, para caracterizar o luto e a melancolia.

Nesse sentido, é preciso ser diligente ao tratar deste assunto. As doenças da alma são sempre vistas como triviais, quando na verdade podem ser fatais.

(...)

O suicídio no campo intersubjetivo

– Segundo Botega, a avaliação do risco do suicídio só pode ser concretizada se, antes de qualquer coisa, percebemos que a pessoa diante de nós poderá se matar. Isso é perturbador para todos os profissionais da saúde. Para alguns, beira o aterrorizante.

Saindo um pouco da esfera filosófica e adentrando um campo mais científico, existem várias especificidades e contextos que podem acentuar essa ‘tendência ao suicídio’. Fatores sociais, empíricos, dificuldade de autoaceitação, orientação sexual. Desse modo, quanto tratamos especialmente de LGBTI+, delineamos uma realidade muito delicada, marcada por preconceitos e conflitos.

Muitos LGBTs são rechaçados de casa; tornam-se motivo de zombaria no trabalho e nas ruas, lidam com situações conflitantes, religiosas e até homofobia interna: a famosa ‘vergonha de si mesmo’. Um caso notório e recente, foi de um menino de 15 anos que sofria bullying homofóbico na escola em Huntsville, no Alabama e se suicidou, no último dia 19 de abril. A dor psicológica é individual, mas o suicídio é sempre uma dor plural. Assim, o suicídio é, por excelência, um sofrimento que permanece vivo. Dito isso, não dá para tratar essa assunto como brincadeira ou fase, mas sim com o máximo de escrúpulo e seriedade.

Perguntas

Ante o exposto, conversamos com o psicólogo Felipe Gonçalves, psicoterapeuta pessoal e de casais. Ele está se especializando em Direito homoafetivo e de gênero. Fizemos a ele algumas perguntas pertinentes sobre a temática. O intento é aclarar esse assunto que, infelizmente, ainda é tratado como tabu e permanece submerso.

Em relação ao Brasil dá os primeiros passos acerca da prevenção do suicídio, foi perguntado se Felipe já atendeu muitos LGBts que passam por este dilema.
”Atuo como psicólogo clínico com foco nas questões da sexualidade e da população LGBT, sendo também consultor em diversidades, numa empresa que presta serviços para área educacional e corporativa.  Nos mais variados ambientes, LGBTs ainda enfrentam preconceitos e dificuldades na garantia dos seus direitos humanos básicos. Quando buscam e aderem à psicoterapia, ao longo do processo relatam o desamparo vivido na família, na escola e religião, as inúmeras barreiras no acesso ao mercado de trabalho, enfim, na sociedade como um todo. É quase impossível ser LGBT e não internalizar todas essas mensagens negativas impostas socialmente desde a mais tenra infância. Em meios às lutas, também precisamos elaborar os lutos”.
Assim, acerca de qual seria o maior propulsor do suicídio em LGBTS, Felipe foi enfático: 
“O preconceito contra pessoas LGBTs é algo estrutural em nossa sociedade. A família representa, na maioria das vezes, o primeiro e núcleo de socialização do sujeito. É na família, sejam quais forem os arranjos existentes, que podemos vivenciar experiências de amor, de proteção e cuidado, como também experiências de abandono, desamor e rejeição. A escola também colabora reproduzindo os modelos impostos na sociedade, através da normatividade dos corpos e vivências. A religião também pode contribuir significativamente para a manutenção das crenças de normatividades das identidades de gêneros e/ou orientações afetivo-sexuais. Esses fatores inter-relacionados podem contribuir significativamente desde a ideação suicida ao suicídio”.
Saúde Pública

Mais enfaticamente na década de 1990, considerou-se o suicídio como um problema a ser enfrentado também no âmbito da saúde pública.  Em relação a políticas públicas com ênfase na prevenção do suicídio, Felipe acredita que seria uma medida extremamente importante: 
“As políticas públicas afirmativas para a população LGBT são extremamente importantes para garantia dos direitos e equidade social com os demais grupos. Precisamos convidar as famílias, a escola e a religião para esse debate, possibilitando espaço de escuta, acolhimento e pertencimento. Precisamos rediscutir os modelos de masculinidades tóxicas em nossa sociedade. A vivência dessas masculinidades é um dos fatores que colaboram para o comportamento suicida em homens, pois desde pequenos, são ensinados a não expressarem suas emoções, na famosa crença de “homem não chora”, e portanto, não lida com suas emoções, dificultando a construção de redes de apoio”.
Ademais, segundo livro ‘Crise suicida’, de Neury José Botega. “O comportamento suicida é todo ato pelo qual um indivíduo causa lesão a si mesmo, a partir do pensamento de autodestruição. Faz isso por meio de ameaças, gestos, tentativa e, por fim, o suicídio”. Dito isso, Felipe foi indagado sobre como identificar quando um paciente apresenta esta ‘tendência ao suicídio’. Ele respondeu: 
“O comportamento suicida caracteriza-se desde a ideação suicida, passando pelo planejamento, tentativa de suicídio e propriamente o suicídio consumado. Existem diversos mitos relacionados ao suicídio que são mantidos em nossa sociedade, o que dificulta na prevenção no cuidado. Os sinais de alertas podem ocorrer tanto através dos comportamentos verbais, como também dos não verbais. O indivíduo pode manifestar, por exemplo, nostalgia e falta de planos, dificuldade em lidar com a esperança, humor depressivo, desapego aos objetos pessoais significativos, isolamento social, comportamentos autodestrutivos, entre outros sinais significativamente relevantes”.
‘Cura gay’

Por fim, sobre o projeto ‘cura gay’ corroborar no aumento da incidência de suicídio em LGBTs, o especialista respondeu: 
“Sim, colaborariam para a incidência de suicídio entre LGBTs.

Primeiramente, não há cura para o que não é doença. Lutamos há anos para despatologização da homossexualidade e das identidades trans. Esses projetos conservadores corroboram no aumento do sofrimento das pessoas LGBTs, o que pode contribuir ainda mais para o comportamento suicida.
A resolução do Conselho Federal de Psicologia n. 1/99 de 22 de março de 1999, diz:
 “Art. 3° – os psicólogos não exercerão qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas, nem adotarão ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados.
Parágrafo único – Os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades.” Essas são as normas e condutas que profissionais da Psicologia precisam adotar na atuação ética profissional”.
Fonte: https://observatoriog.bol.uol.com.br/destaque/2019/05/suicidio-psicologo-fala-abertamente-sobre-o-suicidio-entre-o-publico-lgbti

quarta-feira, 1 de maio de 2019

A "Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio" é sancionada, mas a cobertura jornalística sobre é pífia...

Há um constrangedor silêncio sobre a sancionada "Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio", publicada no Diário Oficial da União no dia 29 de abril (segunda-feira).

Trata-se da lei n. 13.819/19.

Transcrevemos abaixo o que foi noticiado no site Migalhas, tradicional jornal virtual do mundo jurídico.
De acordo com a norma, a política deverá ser implementada pelos entes federativos e tem como objetivos a promoção da saúde mental, a prevenção da violência autoprovocada, a garantia de acesso à atenção psicossocial das pessoas em sofrimento psíquico agudo ou crônico, entre outros.

A lei define como formas de violência autoprovocada o suicídio consumado, a tentativa de suicídio e os atos de automutilação, provocados com ou sem intenção suicida.

A norma determina que estabelecimentos de saúde públicos e privados deverão notificar de forma compulsória, às autoridades sanitárias e ao conselho tutelar, os casos suspeitos ou confirmados de violência autoprovocada.

A lei 13.819/19 é originária do PL 10.331/18, de autoria do ex-deputado Federal e atual ministro da Cidadania Osmar Terra. O texto foi aprovado pelo plenário do Senado no último dia 3 de abril, sob o nome PL 1.902/19.

Durante a votação da matéria, o autor do parecer na CCJ do Senado, senador Marcos Rogério, afirmou que, em virtude de estímulos existentes da internet, as práticas de automutilação têm crescido nos últimos anos. O relator afirmou ainda que o texto está em consonância com portaria do ministério da Saúde sobre o tema.

A lei 13.819/19 entra em vigor 90 dias após sua publicação.
A pergunta que se faz é se a referida norma está aquém do que o desejado.

Para responder a esta questão é importante lermos o que está dito no artigo Suicídio: saindo da sombra em direção a um Plano Nacional de Prevenção, de autoria de Neury José Botega, do Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria, Faculdade de Ciências Médicas, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

É possível que da ideia original do "plano nacional de prevenção do suicídio" pouco tenha restado.

Aguardemos os especialistas dizerem algo. Por ora, o silêncio constrange!

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Padre Lício publica livro sobre prevenção do suicídio

Filho de suicida, padre lança livro sobre o tema

O menino tinha 13 anos, estava entrando na adolescência, quando o pai, Elias Pereira Vale, se matou. A notícia chegou disfarçada. Disseram que ele, militar e músico da Polícia Militar do Estado de São Paulo, havia sido atropelado por um caminhão. Foi a versão que o menino, agora padre Lício de Araújo Vale, de 60 anos, carregou até os 18 anos, quando lhe contaram a verdade.

"No dia 28 de abril de 1970, sem falar nada a ninguém, meu pai beijou minha mãe e saiu de casa para trabalhar. No caminho, jogou-se debaixo de um caminhão", escreveu padre Lício, ao contar a história no livro E Foram Deixados Para Trás, uma reflexão sobre o fenômeno do suicídio, quem será lançado nesta sexta-feira, 23 [de fevereiro de 2018], na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, pelas Edições Loyola.

Sacerdote desde 1983, o autor foi secretário executivo do setor Regional Sul da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e atualmente é pároco da igreja da Sagrada Família de Vila Praia, na Penha, em São Paulo.

O luto pelo suicídio do pai resultou em anos de sofrimento e revolta para padre Lício. "Por quê?", perguntava-se ele, como todos os parentes de uma pessoa que se mata, ao se sentirem abandonados, deixados para trás. Sua lembrança: "Meu pai, que nunca havia tentado o suicídio antes, era um homem muito sensível, bondoso, generoso, porém alcoólatra. Começou a beber compulsivamente por volta dos 25 anos e, sob efeito do álcool, transformava-se num homem agressivo e violento. Minha mãe contava que, antes de eu nascer, ele chegava em casa bêbado e, não poucas vezes, quebrava tudo. Porém, nunca bateu nela. Bateu violentamente em mim uma única vez, para eu não mais esquecer, quando eu tinha 7 anos, porque numa brincadeira de criança xinguei a professora da escola com um palavrão".

Padre Lício foi convidado a escrever o livro depois de participar de uma entrevista na Rede Vida de Televisão na noite de 9 de setembro de 2016, véspera do Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. Ao saber do tema, já no estúdio da emissora, ele disse que estava feliz por estar ali, porque era filho de um suicida. "Meu pai tirou a própria vida, quando eu tinha 13 anos de idade", contou ao amigo e apresentador Dalcides Biscalquin, antes do programa. Mais tarde, após anos de terapia, revelou que sua mãe também tentou o suicídio. Ela era bipolar e tomou uma caixa de comprimidos.

A reflexão sobre o suicídio do pai e sobre as consequências da perda dele para a família é mais do que um socorro de autoajuda para pessoas que enfrentam a mesma situação. Padre Lício incorpora sua experiência ao trabalho pastoral, lembrando como superou ou ainda tenta superar uma tragédia pessoal. Inicialmente odiou o gesto do pai e demorou a perdoá-lo por ele se ter matado abandonando aqueles que o amavam. A terapia foi importante nessa caminhada, mas o que parece ter sido essencial foi a busca de uma explicação na misericórdia divina.

"Várias pessoas que tiveram casos de suicídio na família recorreram a mim, como relato no livro", disse padre Lício ao jornal "O Estado de S. Paulo". Os personagens aparecem com nomes fictícios, mas as circunstâncias são narradas com detalhes. "Uma vez, fui chamado antes da polícia e vi o corpo de um suicida que se enforcou dependurado no quarto", revela o padre.

Em suas pesquisas, que incluíram especialistas na área da saúde, dados estatísticos mundiais sobre o suicídio e depoimentos de pessoas atingidas, padre Lício ouviu líderes religiosos sobre o comportamento de suas religiões em relação ao suicida. Sem exceção, católicos, protestantes, judeus, muçulmanos, budistas, umbandistas e seguidores do candomblé condenam o suicídio, mas mantêm uma atitude de compreensão e misericórdia, ao analisar o gesto de quem se mata. Antes destinados automaticamente à condenação do fogo eterno, os suicidas já não discriminados como décadas atrás, quando eram sepultados em alas isoladas dos cemitérios.

http://hojeemdia.com.br/primeiro-plano/filho-de-suicida-padre-lan%C3%A7a-livro-sobre-o-tema-1.600924/e-foram-deixados-para-tr%C3%A1s-1.600932

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Preconceito e dificuldade em falar de suicídio são obstáculos à prevenção


Paula Moura
Colaboração para o UOL 
08/12/2015

Doenças mentais estão presentes em 90% dos casos de suicídio, segundo o estudo mais atual da OMS (Organização Mundial da Saúde), realizado em 2002. Já a ABP (Associaçã
o Brasileira de Psiquiatria) fala em quase 100% dos casos estarem relacionadas a doenças mentais. Entre essas doenças, os transtornos de humor - depressão e transtorno bipolar (alternância entre estado depressivo e de euforia) - lideram as mortes, com 35,8%. Entretanto, o preconceito e a dificuldade em falar no tema ainda são entraves para a prevenção.

"A depressão muda a visão de mundo, a pessoa deixa de acreditar na possibilidade de melhora, não vê luz no fim do túnel", explica Neury Botega, professor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e autor de pesquisa que mostra que 17% da população já pensou em suicídio no Brasil. "Quando, além da depressão há o desespero, surge uma dor psíquica insuportável, vista como interminável. A ideia de suicídio, antes assustadora, pode passar a ser vista como uma saída para cessar a dor."

Cerca de 25% da população brasileira já teve um ou mais transtornos mentais ao longo da vida, diz a ABP. Já a OMS estima que 350 milhões de pessoas de todas as idades (4,7% da população mundial) sofrem de depressão em todo o mundo. Devido à alta abrangência da doença, a depressão é a doença mental mais associada ao suicídio, diz a ABP. "Infelizmente, há pessoas que ainda igualam a depressão – uma doença – às tristezas que podem surgir no dia a dia. São coisas completamente diferentes. Há sim um estigma, e o estigma dificulta a decisão de buscar ajuda", lembra Botega. Ainda de acordo com a ABP, cerca de 50% a 60% das pessoas que se suicidaram nunca consultaram um profissional de saúde mental.

Mas isso não quer dizer que todos os deprimidos vão cometer suicídio, enfatiza Alexandrina Meleiro, professora da USP (Universidade de São Paulo) e coordenadora da Comissão de Estudos e Prevenção de Suicídio da ABP. São necessários diversos fatores conjuntos para se chegar ao suicídio -- problemas financeiros, como a perda do emprego; problemas conjugais, como uma separação; dificuldades relacionadas à aceitação da orientação sexual pela pessoa e pela sociedade; no caso de adolescentes, o desarranjo familiar é decisivo, além do modo que a pessoa leva a vida (se leva tudo para o extremo, 8 ou 80), por exemplo.

Na entrega do Oscar deste ano, a documentarista Dana Perry ofereceu o prêmio ao filho que se suicidou aos 15 anos e tinha transtorno bipolar. "Nós precisamos falar em alto e bom tom sobre o suicídio", disse em seu discurso ao ganhar a estatueta por um documentário sobre atendimento telefônico de prevenção ao suicídio para veteranos de guerra e suas famílias. Logo após o discurso, o apresentador da cerimônia, Neil Patrick Harris, fez uma piada sobre o vestido de Dana, talvez por não saber o que dizer diante do tema. Na mesma cerimônia, o roteirista Graham Moore revelou que tentou se matar aos 16 anos e ofereceu o prêmio aos jovens que sentem que são diferentes e que não se encaixam. "Sim, você se encaixa. Continue diferente. E quando estiver aqui, passe a mensagem adiante".

Fator genético

Há também o fator genético: pessoas com pais que se suicidaram têm quatro vezes mais chances de desenvolver comportamento suicida, explica Alexandrina. Mas ela diz que se a pessoa se cuida, não passa grandes traumas ou estresses, é possível levar uma vida normal mesmo tendo pais que se mataram.

A professora diz que, em casos de suicídio, observa-se a redução da produção de serotonina, o que prejudica as sinapses entre neurônios, pois essa substância é um neurotransmissor que regula o humor. "Se estamos felizes, é sinal de que os neurônios estão funcionando convenientemente. Esse equilíbrio faz com que tenhamos vontade de fazer as coisas", explica. "Se por motivos externos ou biológicos a produção de neurotransmissores cai, os receptores não recebem a informação, e a pessoa fica desanimada, de mau humor, nem consegue realizar qualquer outra atividade com prazer."

Humberto Correa, vice-presidente da Associação Latinoamericana de Suicidologia, salienta: "tem o componente genético, tem a vulnerabilidade social, mas precisa ter um gatilho", diz. Segundo ele, os gatilhos para pessoas deprimidas podem ser uma situação estressante como separação conjugal, perda de trabalho, morte de pessoa próxima, entre outros.

Álcool e drogas são fatores de risco

No mundo, o abuso de álcool e drogas é responsável por 22,4% das mortes; transtornos de personalidade (como borderline, antissocial e psicopatia) ocorrem em 11,6% dos casos; esquizofrenia, em 10, 6%. "Se há uma combinação de dois fatores, como transtorno de humor e abuso de substâncias, o risco aumenta", diz Alexandrina.

O álcool e drogas são perigosos porque atuam como depressores do sistema nervoso, o que pode favorecer a tomada de atitude de tirar a própria vida. Por outro lado, pessoas deprimidas podem fazer uso dessas substâncias para tomar coragem de praticar o suicídio.

O psiquiatra Teng Cheng Tung, professor da USP, lembra que as chamadas drogas de abuso - o que inclui o álcool -  lesionam o cérebro, e isso pode fazem com que uma pessoa desenvolva algum problema psiquiátrico; além disso aqueles que já têm momentos depressivos e pensamentos suicidas podem ganhar a impulsividade ao consumir drogas. "As drogas aumentam a impulsividade, especialmente o álcool e a cocaína, que são usados para obter estados de euforia." O médico explica que a maior parte dos suicídios e tentativas de suicídio são atos impulsivos. No caso da maconha e outras drogas, Tung diz que o uso crônico também pode trazer impulsividade.

É preciso melhorar a formação de médicos

Se por um lado 800 mil pessoas morrem por ano em suicídios no mundo (0,01% da população mundial), a maioria dos casos pode ser prevenida com condições mínimas de oferta de ajuda voluntária ou profissional e com o tratamento das doenças mentais, dizem os especialistas. Tratar a doença psiquiátrica de base é essencial, diz Tung. "Pode ser só alcoolismo, alcoolismo associado à depressão, só depressão etc. A psicoterapia é fundamental, assim como a prevenção de curto prazo, que é o Centro de Valorização da Vida (CVV)." Para os médicos, os melhores resultados são obtidos com o uso de medicamentos combinados com psicoterapia.

O preconceito e o estigma são os maiores obstáculos à prevenção do suicídio. O tabu em torno do tema leva a diagnósticos subestimados e medo de abordagem do tema por pessoas próximas. "É preciso melhorar o diagnóstico psiquiátrico e também a formação dos médicos que não são psiquiatras. Muitas vezes, os pacientes se sentem mais à vontade para falar com outros profissionais da saúde", diz Tung. Segundo a ABP, 80% das pessoas que se suicidaram procuraram um médico não-psiquiatra um mês antes de morrer.

Grupos mais vulneráveis

Além disso, é necessário dar maior atenção às pessoas que já tentaram o suicídio uma vez, pois a chance de voltar a tentá-lo é de 50%, alertam os médicos. "Para quem já tentou uma vez, procurar ajuda psiquiátrica e/ou psicológica [deve ser] o mais rápido possível", diz Correa. Uma crise suicida dura de minutos a horas e é muito importante socorrer a pessoa rapidamente.

Os chamados "sobreviventes do suicídio", ou seja, parentes e amigos de alguém que faleceu por essa causa, também devem receber tratamento e apoio. "Eles precisam trabalhar para no futuro não virem a repetir o comportamento em um momento de dificuldade", diz Alexandrina. Pessoas de 15 a 29 anos e acima de 70 anos também estão entre os casos de maior número de mortes. 


http://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2015/12/08/o-preconceito-e-o-estigma-sao-os-maiores-obstaculos-a-prevencao-do-suicidio.htm

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Suicídio. Tragédia silenciosa

"Estima-se que o número de tentativas de suicídio supere o de mortes em pelo menos dez vezes; é possível evitar uma parcela desses óbitos", escreve Neury José Botega, professor titular do Departamento de Psicologia Médica e psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), representante nacional na Associação Internacional de Prevenção do Suicídio e coordenador da Comissão de Prevenção de Suicídio da Associação Brasileira de Psiquiatria, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, 06-12-2010.

Eis o artigo.

Diariamente, 25 pessoas põem fim a suas vidas no Brasil. Foram 9.090 suicídios oficialmente registrados em 2008. Para cada óbito, no mínimo cinco ou seis pessoas próximas ao falecido foram profundamente afetadas. O impacto do suicídio na vida das pessoas e da nação é silenciado pela sociedade.

Nos meios de comunicação há orientação, discutível quando adotada em termos absolutos, de não se noticiar suicídio. Silencioso, ele resta à margem das tragédias nacionais. Mas é possível evitar uma parcela dessas mortes.

Numa escala mundial, nosso coeficiente de mortalidade por suicídio é relativamente baixo: 5,4 mortes em cada 100 mil habitantes, ao longo de um ano. Esse índice cresceu 30% nos últimos 25 anos.

O coeficiente é uma média nacional e esconde importantes contrastes. Em algumas cidades, os índices equiparam-se aos de países do Leste Europeu. Ademais, como somos um país populoso, atingimos o décimo lugar mundial em número total de suicídios, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

No espectro do comportamento autoagressivo, o suicídio é a ponta de um iceberg. Estima-se que o número de tentativas supere o de mortes em pelo menos dez vezes. Um inquérito populacional elaborado pela OMS e levado a cabo por pesquisadores daUnicamp apurou que, em cada cem habitantes da cidade de Campinas, 17 já haviam pensado seriamente em pôr fim à vida e três efetivamente tentaram o suicídio.

A causa de um suicídio é invariavelmente mais complexa do que um acontecimento recente que salta à vista e que é tomado como explicação rápida para o ocorrido.

A perda do emprego ou o rompimento de um relacionamento amoroso geralmente são os fatores precipitantes. Na maioria das vezes, pessoas que põem fim à vida sofrem de um transtorno mental subjacente (fator predisponente) que aumenta a vulnerabilidade para o suicídio. Depressão e dependência de álcool são os mais frequentes.

Recentemente, nossa sociedade vem-se abrindo para discutir o tema-tabu. O suicídio passou a ser enfrentado na arena da saúde pública. Um exemplo disso é a parceria firmada entre a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e a Rede Globo, a partir da qual inserções de 30 segundos entram na programação da televisão.

Há, hoje, considerável informação a respeito do que, em vários países, deu certo em prevenção.

Exemplo recente foi um estudo realizado em serviços médicos de vários países, entre os quais o Hospital de Clínicas da Unicamp, que acompanhou, desde o atendimento em um pronto-socorro, 1.867 pessoas que tentaram o suicídio.

Metade delas, após sorteio, foi acompanhada por meio de telefonemas periódicos. Após 18 meses, o número de suicídios nesse grupo foi, comparativamente, dez vezes menor. Com os telefonemas, a tentativa de suicídio deixou, assim, de ser um pedaço de história a ser esquecido ou silenciado.

Em agosto de 2006, o Ministério da Saúde publicou as diretrizes que orientariam umPlano Nacional de Prevenção do Suicídio. O plano ainda não saiu. É preciso transformar as diretrizes em ações assistenciais baseadas em evidências científicas, as quais, por sua vez, poderão orientar novas políticas de prevenção e estratégias de atendimento.

Na área da saúde, isso constitui um desejado círculo virtuoso entre política, assistência e pesquisa, que não é simples de ser alcançado.

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=39039

sábado, 30 de outubro de 2010

Ecos do 28º Congresso Brasileiro de Psiquiatria em Fortaleza

Índice de suicídios no Brasil é problema de saúde pública, diz especialista

Guilherme Genestreti

No Brasil, 25 pessoas se matam por dia, fazendo do país o 11º colocado no ranking mundial de suicídios, segundo dados da Organização Mundial da Saúde.

As informações foram divulgadas pelo psiquiatra Neury José Botega, professor da Unicamp, durante a 28ª edição do Congresso Brasileiro de Psiquiatria, que escolheu a prevenção do suicídio como um dos temas principais. O encontro, em Fortaleza, vai até sábado (30).

"A questão do suicídio é realmente um problema de saúde pública porque temos um alto índice de pessoas que estão passando por muito sofrimento e que poderiam ter sido ajudadas caso não tivessem se matado", afirmou à Folha.

Segundo ele, os dados de suicídio podem ser ainda maiores do que os divulgados oficialmente, já que não é raro que muitos casos acabem recebendo outra caracterização na certidão de óbito: "O medo de não receber o dinheiro do seguro pode fazer com que muitas famílias pressionem os médicos a atestar falência múltipla dos órgãos em vez de suicídio".

Botega afirma que o aumento dos casos de depressão e de consumo de álcool e drogas são sinais preocupantes e que podem justificar o aumento dos índices de suicídio, principalmente entre adultos jovens: "São pessoas entre os 25 e os 40 anos que estão numa fase produtiva da vida. A competitividade e a solidão nas grandes cidades são alguns dos pacotes de alta tensão social que favorecem a uma sensação de desamparo e aumentam as formas alternativas de sentir prazer, como recorrer às drogas e ao álcool."

Segundo ele, os sinais de que alguém está cogitando tirar a própria vida não podem ser ignorados: "Aqui não vale a máxima do 'cão que ladra não morde'. Muitas vezes a pessoa dá sinais, fala até mesmo vagamente em se matar, mas acaba não sendo levada a sério".

ESTRATÉGIA

O psiquiatra apresentou no congresso dados de uma pesquisa internacional realizada pela OMS de que ele participou, comparando estratégias de prevenção ao suicídio.

Ao todo, foram analisadas 1.867 pessoas que tentaram o suicídio em cinco cidades do mundo. Após terem alta do hospital, metade delas recebeu o tratamento usual --mero encaminhamento a um serviço de saúde-- e a outra metade teve um acompanhamento intensivo, com entrevistas motivacionais e contatos telefônicos periódicos por 18 meses.

Ao final do experimento, apenas 0,2% das pessoas que receberam acompanhamento intensivo chegaram a praticar o suicídio, taxa dez vezes menor do que no grupo que recebeu o tratamento usual.

"O contato telefônico periódico criava uma rede de apoio e ajudava a pessoa que já tinha tentado se matar a ressignificar o que havia acontecido na vida dela", diz.