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sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Preconceito com tratamentos de saúde mental ainda é entrave para combate ao suicídio

“O preconceito em torno do tema suicídio é um dos principais fatores que corroboram para o crescimento dos números, especialmente de homens, que têm mais dificuldade em pedir ajuda que as mulheres. O primeiro passo é deixar de lado essa falácia de que uma terapia é “frescura” ou “mi mi mi”. Desmistificar a área da saúde mental. As pessoas precisam cada vez mais de ajuda profissional. E elas podem e merecem esse tratamento. E no caso da tentativa propriamente dita, a forma de acolhimento por parte dos profissionais tem se mostrado eficaz até em evitar uma provável reincidência”, afirmou Diógenes Martins Munhoz, major do Corpo de Bombeiros de São Paulo e diretor da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção ao Suicídio e idealizador do curso e da técnica de abordagem técnica “A tentativa de suicídio”, que tem várias publicações sobre o tema da suicidologia, durante o lançamento do Fórum Paranaense de Prevenção e Pósvenção promovido pela Comissão de Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Paraná.

Ele explicou o tema pelo prisma da urgência e emergência, que é o atendimento a pessoas que tentaram o suicídio. Após dez anos de estudos, em 2015 lançou o curso, que considera uma nova ferramenta para auxiliar na humanização desse atendimento, que envolve uma gama de profissionais: bombeiros, trabalhadores do SAMU, da urgência e emergência, policiais militares, socorristas, enfermeiros, médicos, que acabam atendendo a um número muito grande de pessoas que tentam suicídio no Brasil. “Antes de desenvolvermos essa técnica, buscávamos como tática distrair essa pessoa no momento da abordagem. E não importava quem era esse tentante. Só pensávamos em fazer com que desistisse. Mas e depois?“, contou.

Foi com o pensamento de dar condições para que esse tentante (como são chamadas as pessoas que tentam suicídio) desistisse definitivamente da ideia, que surgiu essa forma de abordagem humanizada, como o acolhimento. Hoje, Corpos de Bombeiros de 19 estados utilizam. Com isso, Diógenes afirmou que em São Paulo, por exemplo, houve queda de 23% nas ocorrências que resultavam em mortes dos tentantes. “Nós mostramos a essa pessoa como ela é fundamental para sua família, para a sociedade, lançando mão de técnicas de psicologia, psiquiatria, e áreas afins”.

A pandemia e o suicídio

Também palestrou a psicóloga e especialista no tema, Karen Scavacini que, entre outros títulos, e funções, faz parte da diretoria da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio, é doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela USP e mestre em saúde pública e mental em prevenção ao suicídio, pelo Institute Karolinska, da Suécia. O tema trazido aos participantes do encontro foi “Suicídio e Pandemia”.  “Lembro que o suicido tem relações com muitos fatores: relações sociais, culturais, econômicas, psicológicas e situacionais e a pandemia se tornou um destes fatores, como dentro do comportamento suicida”, indicou.

A especialista faz parte de uma organização internacional que abrange 41 países que estuda os números da Covid-19 e a relação da pandemia com os casos de suicídio. O objetivo é utilizar estratégias de prevenção antes e depois que a situação melhorar ou se resolver.  

Alguns fatores como o isolamento social, estresse dos profissionais de saúde e o distanciamento físico podem ter contribuído para o crescimento dos casos. “O impacto tem sido muito grande, inclusive com a desativação de serviços psiquiátricos, o que comprometeu o tratamento de pessoas propensas ao suicídio”, ressaltou.

Pesquisas apontam que alunos que se afastaram das escolas, o impacto da economia, desemprego e o luto também podem influenciar o comportamento suicida, que está ligado a uma situação de desamparo e desesperança.

Em relação aos números, Karen diz que ainda é cedo para que se tenha resultados práticos. Porém, segundo um estudo feito em diversos países, demonstrou que as tentativas não costumam ocorrer durante a crise, mas depois dela. Mas adiantou: em alguns destes países houve até redução ao longo desses quase dois anos. Caso da Austrália e Inglaterra, por exemplo. “Uma das conclusões do estudo é que isso vem ocorrendo em países com poder aquisitivo mais alto e com o fato dos tentantes estarem em casa com suporte familiar. Por outro lado, a mesma análise apontou que os números aumentaram entre mulheres, em alguns casos, pelo fato de que elas acabaram sobrecarregaras ao longo da pandemia”, avaliou.

Uma cartilha confeccionada a pedido da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) sobre prevenção ao suicídio pode ser acessada no site portal.fiocruz.br.

Questionamentos 

O público que assistiu o evento fez questionamentos e considerações aos palestrantes na parte final da audiência.  Entre os temas, os principais foram análises das ações governamentais frente à saúde mental, consideradas insuficientes; aumento de suicídios entre adolescentes devido ao Bullying; a ausência de diálogo e até a solidão; o papel da mídia no enfrentamento (equivocado, em muitos casos); a falta de preparo, até mesmo de profissionais que atuam na área; a discussão do tema durante todo o ano, não somente em datas específicas; o combate, a prevenção e o acompanhamento ostensivos, inclusive após uma tentativa de suicídio; e formas de abordagem próprias com equipes preparadas, como foi relatado que ocorre na Polícia Militar do Paraná.  Sugestões feitas serão utilizadas para transformarem em ações do Fórum.

O fórum 

O Fórum Paranaense de Prevenção e Pósvenção do Suicídio tem o objetivo de manter o debate permanente sobre o suicídio, propondo projetos para a geração de políticas públicas e provocar a discussão em toda a comunidade sobre ações que contribuam para a prevenção. “O Fórum vai funcionar como um canal de comunicação entre a população e o poder público, com participação dos segmentos do Poder Público estadual e municipal, sindicatos, movimentos sociais, redes da sociedade civil, familiares e cidadãos interessados na temática, estudantes e juventude, faculdades e universidades, entre outros. O objetivo é garantir a participação dos Conselhos Municipal e Estadual da Saúde, além de outros conselhos. Também será fundamental a participação de gestores, comunidade, além dos profissionais de outras áreas que não sejam da saúde: Assistência social, cultura, meio ambiente, já que as políticas públicas deverão ser feitas em interação com as outras políticas do estado e de municípios”, explicou Thais Diniz, assessora da Comissão de Direitos Humanos.

Como objetivos iniciais, o Fórum pretende mapear os órgãos representativos que atuam no tema, eleger uma equipe de trabalho e montar um plano de ação para o Fórum Estadual de Prevenção e Combate ao Suicídio. “Temos a intenção de promover eventos que vão acontecer durante todo o ano e em setembro, em razão do Setembro Amarelo, debater e reforçar a discussão em torno do tema e os seus efeitos para a população”, reforçou Thais.

Essa formação vem sendo debatida desde a audiência pública proposta pela ONG Decida Viver, de Maringá, em 2020. “Lembro que estamos no ano do centenário de nascimento de Paulo Freire, que dizia: no Brasil, manter a esperança viva é um ato revolucionário. E é o que nós estamos fazendo nesse momento. Lidar com um ato de suicídio marca a vida de qualquer pessoa”, observou o deputado Tadeu Veneri (PT), que preside a Comissão e conduziu a audiência. Ele também citou trechos de uma poesia do inglês John Donne: “Morremos um pouco a cada morte que presenciamos”. Isso serve um pouco para nós, porque cada vez que alguém que conhecemos nos deixa, nós também nos deixamos nele. E aqui temos vários especialistas que falam sobre isso”, completou.

 “Criar um Fórum como este é ressignificar a vida e representa um compartilhamento tanto das dores como do conhecimento. É um passo importantíssimo de valorização da vida e um descanso na loucura da vida, que só tem sentido se for vivida coletivamente", finalizou Veneri.

Composição do Fórum – Tomaram posse como integrantes do Fórum, a psicóloga, especialista em Psicologia da Saúde, mestre em Psicologia Clínica, doutoranda, idealizadora e fundadora do Comitê de Prevenção e Pósvenção ao Suicídio da Secretaria Municipal de Saúde de Maringá, membro da diretoria da Associação Brasileira de Estudos sobre Prevenção do Suicídio, pós-graduanda em Traumas, Cuidados Paliativos e Processos Autodestrutivos, Raquel Antoniassi, como coordenadora; como secretária-geral,  Regina Aparecida de Paula, graduada em Geografia e Direito, pós-graduanda em Direito Eleitoral, professora da rede municipal de Maringá, assessora parlamentar e idealizadora da ONG Decida Viver e como vice coordenadora,  a psicóloga Tatiane Lori Alvim, coordenadora da ONG Decida Viver,  pós-graduanda em Traumas, formada em Tanatologia, mediadora da Comunicação Não-violenta, responsável técnica do Projeto Lutar e idealizadora do Projeto Sentido de Vida.

www.jornaldafronteira.com.br/preconceito-com-tratamentos-de-saude-mental-ainda-e-entrave-para-combate-ao-suicidio/

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Preconceito e dificuldade em falar de suicídio são obstáculos à prevenção


Paula Moura
Colaboração para o UOL 
08/12/2015

Doenças mentais estão presentes em 90% dos casos de suicídio, segundo o estudo mais atual da OMS (Organização Mundial da Saúde), realizado em 2002. Já a ABP (Associaçã
o Brasileira de Psiquiatria) fala em quase 100% dos casos estarem relacionadas a doenças mentais. Entre essas doenças, os transtornos de humor - depressão e transtorno bipolar (alternância entre estado depressivo e de euforia) - lideram as mortes, com 35,8%. Entretanto, o preconceito e a dificuldade em falar no tema ainda são entraves para a prevenção.

"A depressão muda a visão de mundo, a pessoa deixa de acreditar na possibilidade de melhora, não vê luz no fim do túnel", explica Neury Botega, professor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e autor de pesquisa que mostra que 17% da população já pensou em suicídio no Brasil. "Quando, além da depressão há o desespero, surge uma dor psíquica insuportável, vista como interminável. A ideia de suicídio, antes assustadora, pode passar a ser vista como uma saída para cessar a dor."

Cerca de 25% da população brasileira já teve um ou mais transtornos mentais ao longo da vida, diz a ABP. Já a OMS estima que 350 milhões de pessoas de todas as idades (4,7% da população mundial) sofrem de depressão em todo o mundo. Devido à alta abrangência da doença, a depressão é a doença mental mais associada ao suicídio, diz a ABP. "Infelizmente, há pessoas que ainda igualam a depressão – uma doença – às tristezas que podem surgir no dia a dia. São coisas completamente diferentes. Há sim um estigma, e o estigma dificulta a decisão de buscar ajuda", lembra Botega. Ainda de acordo com a ABP, cerca de 50% a 60% das pessoas que se suicidaram nunca consultaram um profissional de saúde mental.

Mas isso não quer dizer que todos os deprimidos vão cometer suicídio, enfatiza Alexandrina Meleiro, professora da USP (Universidade de São Paulo) e coordenadora da Comissão de Estudos e Prevenção de Suicídio da ABP. São necessários diversos fatores conjuntos para se chegar ao suicídio -- problemas financeiros, como a perda do emprego; problemas conjugais, como uma separação; dificuldades relacionadas à aceitação da orientação sexual pela pessoa e pela sociedade; no caso de adolescentes, o desarranjo familiar é decisivo, além do modo que a pessoa leva a vida (se leva tudo para o extremo, 8 ou 80), por exemplo.

Na entrega do Oscar deste ano, a documentarista Dana Perry ofereceu o prêmio ao filho que se suicidou aos 15 anos e tinha transtorno bipolar. "Nós precisamos falar em alto e bom tom sobre o suicídio", disse em seu discurso ao ganhar a estatueta por um documentário sobre atendimento telefônico de prevenção ao suicídio para veteranos de guerra e suas famílias. Logo após o discurso, o apresentador da cerimônia, Neil Patrick Harris, fez uma piada sobre o vestido de Dana, talvez por não saber o que dizer diante do tema. Na mesma cerimônia, o roteirista Graham Moore revelou que tentou se matar aos 16 anos e ofereceu o prêmio aos jovens que sentem que são diferentes e que não se encaixam. "Sim, você se encaixa. Continue diferente. E quando estiver aqui, passe a mensagem adiante".

Fator genético

Há também o fator genético: pessoas com pais que se suicidaram têm quatro vezes mais chances de desenvolver comportamento suicida, explica Alexandrina. Mas ela diz que se a pessoa se cuida, não passa grandes traumas ou estresses, é possível levar uma vida normal mesmo tendo pais que se mataram.

A professora diz que, em casos de suicídio, observa-se a redução da produção de serotonina, o que prejudica as sinapses entre neurônios, pois essa substância é um neurotransmissor que regula o humor. "Se estamos felizes, é sinal de que os neurônios estão funcionando convenientemente. Esse equilíbrio faz com que tenhamos vontade de fazer as coisas", explica. "Se por motivos externos ou biológicos a produção de neurotransmissores cai, os receptores não recebem a informação, e a pessoa fica desanimada, de mau humor, nem consegue realizar qualquer outra atividade com prazer."

Humberto Correa, vice-presidente da Associação Latinoamericana de Suicidologia, salienta: "tem o componente genético, tem a vulnerabilidade social, mas precisa ter um gatilho", diz. Segundo ele, os gatilhos para pessoas deprimidas podem ser uma situação estressante como separação conjugal, perda de trabalho, morte de pessoa próxima, entre outros.

Álcool e drogas são fatores de risco

No mundo, o abuso de álcool e drogas é responsável por 22,4% das mortes; transtornos de personalidade (como borderline, antissocial e psicopatia) ocorrem em 11,6% dos casos; esquizofrenia, em 10, 6%. "Se há uma combinação de dois fatores, como transtorno de humor e abuso de substâncias, o risco aumenta", diz Alexandrina.

O álcool e drogas são perigosos porque atuam como depressores do sistema nervoso, o que pode favorecer a tomada de atitude de tirar a própria vida. Por outro lado, pessoas deprimidas podem fazer uso dessas substâncias para tomar coragem de praticar o suicídio.

O psiquiatra Teng Cheng Tung, professor da USP, lembra que as chamadas drogas de abuso - o que inclui o álcool -  lesionam o cérebro, e isso pode fazem com que uma pessoa desenvolva algum problema psiquiátrico; além disso aqueles que já têm momentos depressivos e pensamentos suicidas podem ganhar a impulsividade ao consumir drogas. "As drogas aumentam a impulsividade, especialmente o álcool e a cocaína, que são usados para obter estados de euforia." O médico explica que a maior parte dos suicídios e tentativas de suicídio são atos impulsivos. No caso da maconha e outras drogas, Tung diz que o uso crônico também pode trazer impulsividade.

É preciso melhorar a formação de médicos

Se por um lado 800 mil pessoas morrem por ano em suicídios no mundo (0,01% da população mundial), a maioria dos casos pode ser prevenida com condições mínimas de oferta de ajuda voluntária ou profissional e com o tratamento das doenças mentais, dizem os especialistas. Tratar a doença psiquiátrica de base é essencial, diz Tung. "Pode ser só alcoolismo, alcoolismo associado à depressão, só depressão etc. A psicoterapia é fundamental, assim como a prevenção de curto prazo, que é o Centro de Valorização da Vida (CVV)." Para os médicos, os melhores resultados são obtidos com o uso de medicamentos combinados com psicoterapia.

O preconceito e o estigma são os maiores obstáculos à prevenção do suicídio. O tabu em torno do tema leva a diagnósticos subestimados e medo de abordagem do tema por pessoas próximas. "É preciso melhorar o diagnóstico psiquiátrico e também a formação dos médicos que não são psiquiatras. Muitas vezes, os pacientes se sentem mais à vontade para falar com outros profissionais da saúde", diz Tung. Segundo a ABP, 80% das pessoas que se suicidaram procuraram um médico não-psiquiatra um mês antes de morrer.

Grupos mais vulneráveis

Além disso, é necessário dar maior atenção às pessoas que já tentaram o suicídio uma vez, pois a chance de voltar a tentá-lo é de 50%, alertam os médicos. "Para quem já tentou uma vez, procurar ajuda psiquiátrica e/ou psicológica [deve ser] o mais rápido possível", diz Correa. Uma crise suicida dura de minutos a horas e é muito importante socorrer a pessoa rapidamente.

Os chamados "sobreviventes do suicídio", ou seja, parentes e amigos de alguém que faleceu por essa causa, também devem receber tratamento e apoio. "Eles precisam trabalhar para no futuro não virem a repetir o comportamento em um momento de dificuldade", diz Alexandrina. Pessoas de 15 a 29 anos e acima de 70 anos também estão entre os casos de maior número de mortes. 


http://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2015/12/08/o-preconceito-e-o-estigma-sao-os-maiores-obstaculos-a-prevencao-do-suicidio.htm