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quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Ecos do 28º Congresso Brasileiro de Psiquiatria em Fortaleza

Para especialistas, suicídios no Brasil são subnotificados

Segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria, a cada dia 24 pessoas se suicidam no Brasil. Porém, a própria instituição reconhece que esse número provavelmente não corresponde à realidade. “O Brasil está muito atrasado em termos de suicidologia. Os dados são precários. As taxas divulgadas são provavelmente maiores”, explicou Carlos Eduardo Estellita-Lins, médico e coordenador do Grupo de Pesquisa de Prevenção do Suicídio, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), durante o último dia do 28° Congresso Brasileiro de Psiquiatria, ocorrido semana passada na cidade de Fortaleza.

Segundo o especialista, são procedimentos importantes na tentativa de se evitar um suicídio: não deixar o paciente ficar muito tempo sozinho, proibi-lo de dirigir, proibi-lo de usar máquinas e ferramentas, não deixá-lo andar sozinho no metrô e em vias públicas, não deixá-lo acessar locais altos, entre outros.

“Os métodos para o suicídio variam de um país para o outro. Porém, os mais comuns, inclusive no Brasil, são enforcamento, armas de fogo e envenenamento”, disse Carlos. Segundo ele, há uma alta prevalência de suicídio também no começo do tratamento para depressão, motivada pelo efeito dos antidepressivos.

Ele ainda explicou que os médicos devem ter um rigor maior quando o paciente já tentou se matar mais de uma vez. “As chances de alguém tentar se suicidar, depois de já ter tentado alguma vez e ter fracassado, é muito grande. E, provavelmente, ele irá utilizar um método diferente”, disse.

Quando questionado se o paciente com risco de tentar suicídio precisa ser internado, o médico disse que sim. Porém, argumentou que é preciso antes avaliar a qualidade da internação e que o tratamento precisa continuar depois que a internação acabe. Segundo ele, a internação compulsória está sendo discutida no país, a exemplo da Inglaterra, onde o paciente de risco grave de suicido é internado à força, independente da vontade da sua família.

Carlos explicou que cada suicídio afeta entre seis e dez pessoas. E que a mídia possui um grande papel nesses casos, devendo agir com muita responsabilidade. “Se por um lado, o suicídio pode ser contagioso, por outro, o silêncio sobre os casos tende a ser mais danoso para a sociedade. A própria Organização Mundial de Saúde possui um protocolo para a divulgação de suicídios. Nele a instituição sugere: evitar sensacionalismo, detalhes do ato, enfatizar que o suicídio pode ter como causa uma depressão e que esta pode ser prevenida e tratada, entre outros”, disse.

A psiquiatra Ivete Contieri Ferraz explicou que o suicídio é contagiante, por isso muitas pessoas que são expostas a ele têm vontade de fazer o mesmo – fato agravado, quando a vitima é alguma celebridade. “A mídia tem um grande papel nesses casos. Ela deve noticiar sim, mas com racionalização e entendimento dos motivos que levaram àquela morte. A sua condição de impactar, é um ótimo momento para educar”, acredita.

Ela ainda disse que as pessoas mais suscetíveis a sofrer influência de um suicídio são jovens, mulheres e pessoas com transtornos depressivos.

Os especialistas afirmaram que o suicídio é uma tema diretamente relacionado às políticas públicas e que deve ser articulado com todas as esferas do poder, instituições não governamentais, Organizações não governamentais (ONGs) e universidades. “Como suicídio tem, muitas vezes, algum transtorno mental como causa, é importante que os psiquiatras também participem da discussão dessas políticas”, aconselhou Carlos.

Jornal do Brasil (Agência Notisa)
http://www.jb.com.br/ciencia-e-tecnologia/noticias/2010/11/05/para-especialistas-suicidios-no-brasil-sao-subnotificados/

sábado, 30 de outubro de 2010

Ecos do 28º Congresso Brasileiro de Psiquiatria em Fortaleza

Índice de suicídios no Brasil é problema de saúde pública, diz especialista

Guilherme Genestreti

No Brasil, 25 pessoas se matam por dia, fazendo do país o 11º colocado no ranking mundial de suicídios, segundo dados da Organização Mundial da Saúde.

As informações foram divulgadas pelo psiquiatra Neury José Botega, professor da Unicamp, durante a 28ª edição do Congresso Brasileiro de Psiquiatria, que escolheu a prevenção do suicídio como um dos temas principais. O encontro, em Fortaleza, vai até sábado (30).

"A questão do suicídio é realmente um problema de saúde pública porque temos um alto índice de pessoas que estão passando por muito sofrimento e que poderiam ter sido ajudadas caso não tivessem se matado", afirmou à Folha.

Segundo ele, os dados de suicídio podem ser ainda maiores do que os divulgados oficialmente, já que não é raro que muitos casos acabem recebendo outra caracterização na certidão de óbito: "O medo de não receber o dinheiro do seguro pode fazer com que muitas famílias pressionem os médicos a atestar falência múltipla dos órgãos em vez de suicídio".

Botega afirma que o aumento dos casos de depressão e de consumo de álcool e drogas são sinais preocupantes e que podem justificar o aumento dos índices de suicídio, principalmente entre adultos jovens: "São pessoas entre os 25 e os 40 anos que estão numa fase produtiva da vida. A competitividade e a solidão nas grandes cidades são alguns dos pacotes de alta tensão social que favorecem a uma sensação de desamparo e aumentam as formas alternativas de sentir prazer, como recorrer às drogas e ao álcool."

Segundo ele, os sinais de que alguém está cogitando tirar a própria vida não podem ser ignorados: "Aqui não vale a máxima do 'cão que ladra não morde'. Muitas vezes a pessoa dá sinais, fala até mesmo vagamente em se matar, mas acaba não sendo levada a sério".

ESTRATÉGIA

O psiquiatra apresentou no congresso dados de uma pesquisa internacional realizada pela OMS de que ele participou, comparando estratégias de prevenção ao suicídio.

Ao todo, foram analisadas 1.867 pessoas que tentaram o suicídio em cinco cidades do mundo. Após terem alta do hospital, metade delas recebeu o tratamento usual --mero encaminhamento a um serviço de saúde-- e a outra metade teve um acompanhamento intensivo, com entrevistas motivacionais e contatos telefônicos periódicos por 18 meses.

Ao final do experimento, apenas 0,2% das pessoas que receberam acompanhamento intensivo chegaram a praticar o suicídio, taxa dez vezes menor do que no grupo que recebeu o tratamento usual.

"O contato telefônico periódico criava uma rede de apoio e ajudava a pessoa que já tinha tentado se matar a ressignificar o que havia acontecido na vida dela", diz.