sexta-feira, 29 de maio de 2020

Medicamentos em falta, risco ampliado para doentes mentais

Falta de medicamento para transtorno bipolar é calamidade


Fábio Reis

Desde o início deste ano, pacientes com transtorno bipolar estão com dificuldade de encontrar carbonato de lítio nas farmácias e serviços públicos de São Paulo e de diversas outras partes do país. A substância tem efeito protetor contra as crises de depressão grave ou mania (euforia) que caracterizam a doença, além de ter papel essencial na prevenção do suicídio.

A ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria) diz que a situação é "calamitosa" e que está cobrando respostas da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), além de apoio de órgãos de controle e fiscalização da saúde. A instituição explica que o carbonato de lítio não pode ser substituído para muitos pacientes, "sob pena do possível agravamento dos quadros psiquiátricos e consequente aumento do número de casos de suicídios no Brasil, da procura por serviços de emergência, além da necessidade maior de internações em um cenário de escassez de leitos".

Reclamações de médicos e pacientes nos Caps (Centros de Apoio Psicossocial) e UBSs (Unidades Básicas de Saúde) têm sido frequentes. Nesta quinta-feira (5), a Prefeitura de São Paulo informou, por meio da Secretaria Municipal da Saúde, que o Carbonato de Lítio 300 mg está em falta devido a ausência de matéria-prima dos fabricantes. "Há um processo aberto para compra emergencial pela administração municipal, onde as empresas interessadas em participar devem apresentar suas propostas até o dia 10 de março", acrescentou.

A Abrata (Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos) tem recebido mensagens de pacientes de todas as regiões do país desde meados de janeiro, primeiro sobre a falta do carbonato de lítio ER de 450 mg, e depois sobre o de 300 mg. A associação não chegou a fazer um levantamento, mas garante que foram inúmeras as reclamações, telefonemas e comentários nos grupos de pacientes e de familiares. "Circulam nesses grupos presenciais cerca de 90 pessoas por semana. E praticamente 100% delas fazem uso do carbonato de lítio", declara a vice-presidente Neila Campos.

A tradutora Lilia Loman, que utiliza o medicamento há 28 anos, procura lítio nas farmácias das principais redes de São Paulo, sem sucesso, há cerca de um mês. Apesar de ter contatado diversas vezes o SAC do fabricante do Carbolitium, da Eurofarma, e ter sido informada que o de 300 mg estava disponível, ela não havia conseguido nada até esta quinta-feira (5). Em uma das ocasiões, recebeu a indicação de uma farmácia que tinha apenas uma caixa, mas logo descobriu que estava reservada para outro comprador. Lilia também não encontra genérico, nem similares de outros laboratórios (Carlit e Litcar).

"A busca tornou-se uma parte indesejável da rotina, não só minha, mas também de familiares e amigos", reclama. Ela ainda tem algumas unidades do remédio, "mas sem previsão de quando essa falta realmente durará, a preocupação é enorme". A única vez que ficou sem o carbonato de lítio foi durante a gravidez, há dez anos: "Foi um período extremamente difícil, uma recaída após muitos meses de estabilidade, com sintomas exacerbados pela falta de medicamento", recorda. Ela teve insônia, depressão, ímpetos de agressividade até ideações suicidas.

O que dizem os laboratórios

Rastrear a origem do problema não é nada fácil. A reportagem entrou em contato com os três laboratórios que comercializam o carbonato de lítio (Eurofarma, Hipolabor e Biolab), e dois deles esclarecem que a escassez recente se deve à dificuldade de aquisição de matéria-prima junto ao fabricante de insumos, cujo nome não é revelado.

A Eurofarma confirma o desabastecimento do Carbolitium CR 450 mg, mas diz que a produção havia sido retomada e que os estabelecimentos de todo o país começariam a ser abastecidos em março. A empresa enfatiza que existem outras alternativas terapêuticas no mercado, como o Carbolitium 300 mg. "A classe médica está sendo comunicada e é importante que o paciente procure seu médico de confiança para efetuar a substituição e ajustes posológicos necessários". Assim como Lilia Loman, a reportagem ligou para algumas farmácias da capital, como Onofre e Ultrafarma, e não encontrou o produto de 300 mg, nem da Eurofarma, nem de outros laboratórios.

Também procurada, a Hipolabor, de Minas Gerais, disse que "a previsão é de que todos os medicamentos necessários sejam fornecidos até o mês de abril. Ainda neste mês, a meta é produzir 20 milhões de doses e, até o fim do próximo mês, devem ser produzidas mais 30 milhões de doses".

Já a Biolab Genéricos, que diz abastecer principalmente a rede privada, afirma que não está com problemas de produção de carbonato de lítio. "Pelo contrário, a empresa triplicou sua oferta de produtos genéricos em fevereiro de 2020 em relação ao mesmo mês do ano passado: 22 mil caixas de 50 unidades (fev 19) e 69 mil caixas de 50 unidades (fev 20)", mencionou na nota, destacando que o crescimento de oferta ocorreu "mesmo em função do explosivo aumento dos custos de matéria-prima, que são dolarizados".

A reportagem recebeu apenas algumas pistas sobre o problema de abastecimento: foi informada de que a matéria-prima do medicamento carbonato de lítio é nacional, vem de um único fornecedor, e que os laboratórios estão proibidos de importar de outros países.

O que diz a Anvisa?

A Agência esclarece que não há um instrumento legal que impeça laboratórios farmacêuticos de retirarem medicamentos do mercado. Mas explica que a regulamentação exige que as empresas comuniquem a descontinuação definitiva ou temporária da fabricação ou importação de medicamentos com pelo menos 180 dias de antecedência. Quando o problema é decorrente de algum imprevisto, a comunicação deve ocorrer em no máximo 72 horas, e o desrespeito à norma resulta em penalidades.

Após consultar o banco de dados sobre o carbonato de lítio, a Anvisa informa que não havia nenhuma notificação, mas lembrou que o mercado de medicamentos apresenta flutuações relativas a procedimentos de importação, estocagem, cadeia de distribuição etc, o que pode afetar os pontos de venda. Veja o que diz o restante da nota enviada pela agência:
"De acordo com nossos bancos de dados havia estoque do medicamento nas distribuidoras em 01/2020. Diante da denúncia, a ANVISA notificou o laboratório para esclarecimentos. Em resposta, o laboratório informou que, por ser um produto de alta rotatividade, não existia naquele momento estoque disponível, e esclareceu que as ações operacionais para retomada da produção estavam avançadas para que o reabastecimento do mercado ocorresse no mês de março de 2020. Informou, também, que o medicamento Carbolitium CR® (carbonato de lítio) 450 mg 30 comprimidos de liberação prolongada está passando por um desabastecimento momentâneo, em função de intercorrências no processo produtivo. No entanto, existem alternativas terapêuticas no mercado, como Carbolitium® 300 mg. A classe médica está sendo comunicada para que os tratamentos não sejam prejudicados. Estamos orientando os pacientes que procuram a Anvisa sobre esse tema que entrem em contato com o médico para o ajuste da medicação até que a situação se normalize. Diante de informação de que a empresa não notificou a descontinuação, foram tomados os procedimentos administrativos para apuração da irregularidade apontada."
Para a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), que também denuncia a falta não só de lítio, mas também do antidepressivo cloridrato de imipramina, os medicamentos não estão sendo produzidos pelos laboratórios privados e, infelizmente, ainda não existem nos laboratórios do governo brasileiro. "O desabastecimento ou a descontinuação desses medicamentos, que não possuem patente e são muito baratos, se produzidos pelo governo custariam centavos para a comercialização, configura crise na assistência médica, com risco de recaídas imediatas de graves transtornos mentais", opina a instituição, em carta divulgada à imprensa.

O farmacêutico e bioquímico Dirceu Raposo de Mello, que presidiu a Anvisa de 2005 a 2010, também defende que o governo aproveite a estrutura dos laboratórios públicos para corrigir casos de escassez gerados pela falta de interesse das farmacêuticas em drogas que, com o passar do tempo e aumento da concorrência, deixam de gerar lucro ou até causam prejuízo. "Quando há essa situação será que não vale a pena internalizar a produção?", provoca.

O ex-presidente da Anvisa cita outros cenários parecidos e perigosos, como a recente falta de penicilina benzatina, fármaco antigo que ainda hoje é usado para combater a sífilis, inclusive em recém-nascidos. Apenas quatro laboratórios produzem a substância para o mundo todo, justamente por ser antiga e barata. Isso coloca o Brasil, bem como outros países, em situação de extrema vulnerabilidade numa época em que autoridades apontam o aumento descontrolado dessa infecção sexualmente transmissível (IST).

"Penicilina da saúde mental"

O psicoterapeuta e instrutor de educação médica Mark Ruffalo, da Universidade da Flórida Central, nos EUA, é um dos profissionais que compara o carbonato de lítio ao antibiótico que revolucionou a história da medicina. Embora as propriedades terapêuticas da água rica em sais de lítio sejam conhecidas desde a Grécia antiga, foi só perto dos anos de 1950 que o tratamento para a então chamada "doença maníaco-depressiva" foi descoberto. Os estudos com o lítio, segundo Ruffalo, precederam os primeiros fármacos usados em psiquiatria.

O instrutor conta que as taxas de prescrição do lítio são baixas nos EUA em comparação com outros países, o que ele atribui, em grande parte, à falta de interesse econômico: "O lítio é muito barato, mesmo para quem não tem seguro saúde. Como as farmacêuticas nunca puderam patentear o lítio, elas nunca investiram em marketing [para a droga]; por isso, os médicos, hoje, são muito mais propensos a prescrever antipsicóticos e estabilizadores de humor de segunda geração, altamente propagandeados".

Outra questão apontada por alguns estudos sobre a baixa prescrição nos EUA é que o carbonato de lítio exige conhecimento dos médicos, exames prévios e monitoramento contínuo do paciente. É preciso testar os níveis na substância no sangue do paciente com regularidade, pois qualquer excesso pode ter efeito tóxico, em especial sobre a tireoide ou os rins. Isso sem contar efeitos colaterais como náuseas e tremores, que atrapalham a adesão.

Apesar de todos os riscos, o efeito parece milagroso para alguns pacientes. "Não acredito em Deus, mas acredito no lítio", resume a escritora norte-americana Jaime Lowie, em um dos artigos publicados sobre a luta para controlar os episódios de mania do transtorno diagnosticado aos 16 anos. Jaime tomou o medicamento por mais de duas décadas, mas foi obrigada a parar porque o uso prolongado afetou sua função renal. A impressão que dá, ao ler seus textos, é que nem a ameaça alterou sua admiração pelo lítio. "De fato, eu considerei continuar, mesmo sabendo que acabaria precisando de um transplante de rim", confirma.

No livro Mental - Lithium, Love, and Losing my Mind (Mental - Lítio, Amor e Perdendo a Cabeça, em tradução livre), ela não fala apenas sobre transtorno bipolar, mas também traz informações sobre o elemento por trás do remédio que lhe trouxe estabilidade. Para fazer a pesquisa, consultou médicos, visitou o Salar de Uyuni, na Bolívia (que concentra metade das reservas de lítio do mundo), conheceu fábricas de bateria na América e spas que oferecem banhos em águas com doses extras do mineral. Jaime também lamenta a atual falta de interesse na droga. "Há pesquisas que mostram que o lítio poderia ser útil para demência e Parkinson, mas é muito difícil obter financiamento para testar se isso é verdade ou não porque não há margem de lucro", comenta.

A escritora, hoje, está bem, mas avisa que levou cerca de nove meses tentando diferentes estabilizadores de humor até se adaptar ao atual. Tratamentos psiquiátricos costumam envolver mais de uma droga, por isso é preciso haver um ajuste fino que leve em conta resposta, interações e efeitos colaterais. Encontrar a combinação certa, em parceria com o psiquiatra, sempre leva tempo e exige paciência. Uma alquimia que não deveria ser ameaçada por questões econômicas.

Fonte: https://pfarma.com.br/noticia-setor-farmaceutico/saude/5514-falta-medicamento-transtorno-bipolar.html

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Saúde mental em pauta nestes tempos pandêmicos. Uma ação exemplar!

Instituto lança mapa da saúde mental com serviços gratuitos em todo o Brasil - Saúde Mental

Sílvia Haidar (14 maio 2020)

O instituto Vita Alere, que desenvolve projetos e pesquisas relacionados à saúde mental, lançou na segunda-feira (11) um site que mostra onde e como buscar serviços gratuitos de psicologia e psiquiatria.

A iniciativa, que teve apoio técnico do Google, traz um mapa virtual, com contatos para atendimento online, e um mapa presencial, com endereços de Caps (Centro de Atenção Psicossocial), Caism (Centro de Atenção Integrada à Saúde Mental ), hospitais psiquiátricos, ONGs e clínicas de faculdades.

O site também indica o atendimento de acordo com o tipo de paciente: para o público em geral, para profissionais da saúde e para grupos específicos, como pessoas que perderam parentes e amigos por Covid-19, idosos, gestantes e adolescentes.

Karen Scavacini, psicóloga e fundadora do Vita Alere, conta que o mapa seria lançado daqui a alguns meses, mas a equipe decidiu antecipar a estreia devido à pandemia do novo coronavírus e à maior busca por atendimento psicológico durante a quarentena.

Para facilitar qual tipo de ajuda buscar, o site tem um guia que explica como funciona o tratamento com um psicólogo, o que faz um psiquiatra, em quais situações se deve procurar um hospital psiquiátrico, por exemplo.

“A gente fala para as pessoas procurarem ajuda, mas nem sempre elas sabem onde buscar essa ajuda e qual tipo de ajuda elas precisam”, observa Karen.

A psicóloga conta que nos próximos dias será publicada uma lista com os principais sintomas de cada transtorno mental. “Obviamente, a ideia não é fazer um diagnóstico, mas orientar o público sobre um psicoeducação mesmo. Para que as pessoas que se identifiquem com alguns sintomas saibam que ações elas podem tomar”, diz.

O site também traz dicas de segurança digital para quem procura atendimento online.

Fundado em 2013, o Vita Alere tem foco em educação socioemocional, prevenção e posvenção do suicídio e autolesão. “Posvenção é todo o trabalho que a gente faz específico para pessoas que perderam amigos e parentes por suicídio”, explica.

O mapa da saúde mental, lançado pelo instituto, tem apoio do CVV (Centro de Valorização da Vida), da Abeps (Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio), do IASP (International Association for Suicide Prevention) e da SaferNet.

Acesse o mapa da saúde mental em mapasaudemental.com.br.

Fonte: https://saudemental.blogfolha.uol.com.br/2020/05/14/instituto-lanca-mapa-da-saude-mental-com-servicos-gratuitos-em-todo-o-brasil/

terça-feira, 12 de maio de 2020

Saúde mental e coronavírus

Preocupação com a saúde mental é um dos principais reflexos do coronavírus


Angústia, insegurança, medo e solidão não são palavras ou emoções novas no vocabulário humano


Roberta Pinheiro (Correio Braziliense) em 11 maio 2020

Como nomear aquele aperto no peito? Como entender as noites maldormidas? Como explicar o choro fora de hora? Como encaixar esse quebra-cabeça de emoções? Diante da desconhecida covid-19 e dos impactos e desdobramentos da doença que surgem a cada dia, identificar e lidar com os sentimentos tornaram-se demandas coletivas. A preocupação com a saúde mental está entre os principais reflexos da pandemia do novo coronavírus e a escuta dessas vozes se faz ainda mais relevante.


Criado há mais de 50 anos, o Centro de Valorização da Vida (CVV) presta um serviço, voluntário e gratuito, de apoio emocional e prevenção do suicídio para todas as pessoas que querem e precisam conversar sob total sigilo e anonimato. Ao todo, são 3 milhões de atendimentos por ano no Brasil.

Porta-voz nacional do centro e voluntária em Brasília há nove anos, Leila Herédia relata que o número de ligações, neste período de distanciamento social, não variou. “Mas as pessoas estão falando mais de temas ligados à pandemia, como a angústia, a solidão, o medo da morte, a preocupação com pessoas que queria estar perto, mas não se pode estar em contato, o fato de estar privado de determinadas atividades, a própria tensão que vive no dia a dia, a incerteza com o futuro”, detalha.

Na percepção de Leila, as conversas ficaram mais longas. “Minha impressão é de que as pessoas sentem mais vontade de falar”, pontua. Apesar de ser uma situação coletiva e um problema comum, que o mundo todo enfrenta, o foco do CVV está no sentimento individual. “Cada pessoa vai sentir de uma forma. Nosso foco é no que a pessoa está vivendo. Está sendo mais difícil, por que ela está sentindo medo? O CVV permite o desabafo para que a pessoa consiga lidar melhor com os sentimentos”, afirma.

A porta-voz destaca que os atendimentos do centro em momento algum substituem a terapia ou o acompanhamento médico. “Não existe nenhum tipo de aconselhamento. É uma espécie de pronto-socorro emocional. Não vamos substituir médico ou terapeuta, vamos agir no aqui e no agora”, esclarece. Ao falar e conversar, é possível reorientar as ideias e perceber, dentro de cada um, como enfrentar as situações. “À medida que a pessoa vai falando, ela busca recursos internos para passar por uma determinada situação, dá nome aos sentimentos, ajuda a esvaziar e a liberar aquele efeito de panela de pressão”, comenta Leila.

Angústia, insegurança, medo e solidão não são palavras ou emoções novas no vocabulário humano. Contudo, a partir do momento que a pessoa está passando por uma situação diferente e tendo que lidar com esses sentimentos, é tudo novidade. “Conversamos do momento atual, do que estamos vivendo. Cada dor é única”, afirma a voluntária.

Adaptação

Em todo o Brasil, o CVV atua com mais de 4 mil voluntários distribuídos em mais de 100 postos. Neste período de enfrentamento ao novo coronavírus, o serviço se organizou também para atender aos voluntários e viabilizar outras formas de atendimento, como o remoto, seguindo todas as orientações das autoridades internacionais. As palestras presenciais, bem como as capacitações, foram suspensas.

A equipe de voluntários do Distrito Federal promove reuniões semanais, agora mantidas de forma virtual, para manter um contato mais próximo e conseguir sustentar essa forma de cuidado coletivo.

"As pessoas estão falando mais de temas ligados à pandemia, como a angústia, a solidão, o medo da morte, a preocupação com pessoas que queria estar perto, mas não se pode estar em contato” Leila Herédia, porta-voz nacional do CVV

Como ligar: chamada gratuita, 24 horas, pelo número 188

Informações no site www.cvv.org.br

 

Ponto a ponto

Com Guilherme Spadini, psiquiatra da Faculdade de Medicina da USP e professor e líder da área de terapia da The School of Life

 

Comunicar os sentimentos

Às vezes, a gente subestima o poder que a comunicação tem. Comunicar tem várias funções. Quando a gente tenta comunicar, a gente se obriga a prestar atenção, é um exercício de investigação interna. A nossa própria consciência é uma forma de conversa com a gente mesmo, é o nosso pensamento falando. Vamos passando pela vida, por emoções, por ideias. Além disso, quando você dá nome para as coisas, quando você chama aquela sensação de tristeza, de ansiedade, de medo, de preocupação, fica mais fácil. Ela fica mais familiar e você acessa com mais familiaridade. É como nomear um bicho selvagem que você domestica, se apropriando dele. Você está domesticando aquele sentimento.

 

Desenvolver a calma

Você não tem como mudar o mundo, só tem como mudar a sua atitude. Temos uma ideia, meio inocente, de otimismo. De achar que as coisas vão acontecer do jeito que a gente quer. Em uma situação como a pandemia, na qual o pessimismo está generalizado, o estranhamento nos libera para olhar para aquilo que a gente pode controlar: as nossas emoções. É o que chamamos de pessimismo universal. O mundo não está a meu favor. Se você tiver isso como expectativa, você sai mais preparado para enfrentar a vida de uma maneira mais calma.

 

Dicas

Existem muitas técnicas possíveis e algumas se tem falado em exaustão, como meditar, manter a rotina, ter contato com pessoas e não deixar o isolamento te manter realmente isolado. Diria para, regularmente, a pessoa sentar e fazer um download do que está em sua cabeça, sem compromisso, sem tema. Pode ser em desenho, música. Do jeito que a pessoa melhor se expressar. É um hábito com evidências científicas do quanto acalma.

 

Angústia coletiva

O interessante de estar todo mundo falando sobre isso é que ajuda a desenvolver técnicas para lidar com a dificuldade. Pessoas muito ansiosas, que já têm uma tendência a lidar de maneira negativa, acham que o mundo é uma ameaça, que está todo mundo contra elas e, por isso,  sofrem tanto. Agora, todo mundo sofre. Ao viver o sofrimento sozinho, fica mais difícil  enxergar os mecanismos e as razões que levam as pessoas a sofrerem tanto. Elas se projetam no mundo externo. Nesse momento, no qual as coisas externas são comuns, todo mundo está tendo que olhar o seu jeito de lidar com as coisas. É uma situação que tira a nossa ilusão de controle.

Fonte: www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2020/05/11/interna_cidadesdf,853387/saude-mental-e-um-dos-principais-reflexos-do-coronavirus.shtml

domingo, 19 de abril de 2020

Ansiedade e quarenta: meios de amenizar...

Como combater a ansiedade durante o período de isolamento social

Rita Pinto

Para quem sofre com ansiedade, é difícil quando não conseguimos controlar o que se passa à nossa volta. O desafio está em conseguir controlar a forma como nos sentimos e reagimos face ao que se passa à nossa volta. It’s easier said than done, como dizem em Terras de Sua Majestade: é fácil dizê-lo, menos fácil fazê-lo, mas é nesse controlo do nosso bem-estar que está o poder. E ainda que isto seja um conselho para a vida, que podemos replicar em qualquer contexto no qual possamos sentir-nos pouco no comando, durante este período de pandemia e isolamento social recomendado, devemos cuidar da nossa saúde mental, da mesma forma que estamos a tentar proteger a nossa saúde física.

É compreensível que haja muito medo e incerteza em torno da disseminação do COVID-19. São várias as publicações e entidades preocupadas em passar uma mensagem de conforto para aqueles que se têm sentido mais ansiosos, desorientados ou frustrados não só com a gravidade das notícias, mas com a situação de quarentena e isolamento social.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) emitiu um comunicado onde salienta a importância de não desvalorizar quem sofre com ansiedade ou outras doenças psicológicas e psiquiátricas numa altura como esta. No Instagram, a Associação Nacional de Estudantes de Psicologia juntou uma lista de seis conselhos para nos ajudar a lidar com as nossas preocupações durante o período de quarentena, ao mesmo tempo que nos mantemos alertas, por nós e pelos nossos. Também a Fundação Americana para Prevenção do Suicídio usou as redes sociais para partilhar cinco dicas para nos ajudar a cuidar da nossa saúde mental perante momentos de maior ansiedade. A Wired compilou a sua lista de recomendações neste artigo e Katie Heaney, jornalista do The Cut, conta aqui a sua experiência para continuar as suas sessões de psicoterapia numa cidade de quarentena, onde somos aconselhados a ficar em casa.

Porque no Shifter sabemos bem o que é a ansiedade e como em certos momentos nos pode tocar a todos, e porque queremos fazer da promoção da saúde mental uma das nossas prioridades editoriais, reunimos também uma série de dicas para te ajudarem a controlar o stress num momento em que é perfeitamente legítimo que te sintas stressado. É importante saberes que não estás sozinho na tua ansiedade. A alteração das tuas rotinas e a imprevisibilidade de tudo o que envolve esta pandemia podem justificar esse sentimento. Mas reduzir a ansiedade e focares-te naquilo que podes realmente controlar não só tornará este momento difícil mais suportável, como também contribuirá para te manteres saudável. Reconhece a dificuldade do contexto e pensa que, apesar da necessidade de distanciamento social físico, estás conectado a milhões de outras pessoas que compartilham da tua ansiedade e medo.
Mantém-te informado mas não fiques obcecado

Experimenta determinar uma frequência para verificares as notícias que te ajudarão a manteres-te actualizado em relação ao que se está a passar, sem que isso se torne a única coisa em que pensas. Uma vez por dia, num horário predeterminado, por exemplo, pode ser um bom ponto para começar.⁣ Dito isto, limita a tua exposição a notícias de fontes oficiais e credíveis. Grande parte da nossa ansiedade pode originar na percepção de perigo decorrente da informação que tem vindo a aparecer nos jornais e noticiários. Por isso, encara o teu direito a manteres-te informado com seriedade, mas protege-te, privilegiando fontes como a Direção-Geral de Saúde ou a OMS.
⁣Segue as orientações como elas são dadas, sem pânicos

Não vale mesmo a pena entrar em pânico. Não vale de nada ser mais extremo que as recomendações das entidades competentes. Faz o que te ajudar a sentir mais seguro sim, mas a longo prazo, levar tudo ao exagero pode começar a agir contra ti se não conseguires manter esses padrões lá em cima ou se outras pessoas não estiverem a agir de acordo com as medidas que criaste para ti. Além disso, tenta manter em mente que este período de isolamento é uma medida de responsabilidade social. Apesar de ser difícil, tenta equilibrar a tua segurança e necessidades com as necessidades da restante população.
Concentra-te no que te faz bem

Mantém o foco naquilo que liberta espaço na tua mente ou te ajuda a construir a tua reserva de energia. ⁣Neste período de isolamento e quebra de rotinas, é importante, por exemplo, manteres os teus hábitos de sono saudáveis. Com a ausência de horários, não deixes que os momentos de descanso se desregulem. Tenta aproveitar o tempo para realizares actividades de que gostas e que te ajudam a sentires-te conectado e que, no período de aulas ou trabalho, não costumas conseguir. Lê livros, vê séries e filmes, pinta, escreve. Faz o que te apetecer, com tempo e calma. Tomar decisões desse género e concentrares-te nas pequenas coisas do dia-a-dia pode ainda ajudar-te a focares-te naquilo que está sob o teu controlo. Escolher colocar creme no corpo depois do banho ou decidir com que caneta vais escrever no teu diário são pequenas-grandes oportunidades de assumir o controlo.
⁣Tenta manter a tua rotina e o contacto com quem importa

Arranja formas de manter a tua rotina habitual dentro do possível, aproveitando para adicionar actividades de que gostas. Se for difícil estabelecer objectivos para o dia, podes tentar criar um horário onde estabeleces algumas tarefas ou processos. Quando acordares, obriga-te a levantar, tomar banho e vestir. Isso vai ajudar-te a sentires que te manténs activo, apesar da mudança de rotina. O mesmo acontece com os teus amigos e família. Apesar do período de quarentena, procura manter um contacto regular com as pessoas que são importantes para o teu bem-estar. Falar com as pessoas de quem gostamos e em quem confiamos ajuda-nos sempre a superar os sentimentos de ansiedade. Aproveita as vantagens das redes sociais e das videochamadas e sê criativo! Se não puderes estar no sofá a ver uma série com um amigo, vejam a mesma ao mesmo tempo e comentem-na, enquanto falam ao telemóvel. Ou então junta toda a gente numa espécie de festa virtual, onde cada um curte em sua casa e comunicam por vídeo. ⁣⁣

E, como sempre, procura ajuda se precisares. Há muitas entidades competentes, como por exemplo, a SOS Voz Amiga, a oferecer ajuda e os seus serviços às quais podes sempre concorrer. Não estás sozinho com a tua ansiedade e o isolamento social não tem de ser solitário.

Fonte: https://shifter.sapo.pt/2020/03/ansiedade-periodo-de-isolamento-social/

terça-feira, 17 de março de 2020

CVV vai à praça: escuta, abraços, acolhimento

Metrobus promove 'plantão de escuta' do CVV nos Terminais do Eixo Anhanguera


Um serviço diferente estará disponível para os passageiros do transporte coletivo na tarde desta terça-feira (10/03/2020). Aqueles que quiserem tirar suas dúvidas sobre o trabalho do CVV ou simplesmente ter aquele papo agradável na espera do próximo ônibus poderão entrar em contatos com voluntários do “Plantão de Escuta” que estará no Terminal Praça da Bíblia à partir das 16h. A ação continua no Terminal do Dergo, na manhã da próxima sexta-feira (13/03).


A equipe do CVV irá atender à todos os interessados em tirar suas dúvidas ou conversarem sobre os mais variados temas. Aproximadamente 15 mil pessoas passam pelos Terminais neste período. A alta circulação de pessoas no horário é um fator positivo para o desenvolvimento da ação, segundo o voluntário Fernando Tolentino, que explica alguns detalhes da ação.

“O ‘plantão de escuta’ já é realizado em várias capitais do Brasil, utilizando espaços públicos para falar sobre o tema com pessoas. Em São Paulo, por exemplo, é realizado no Metrô da cidade”, pontua. “Colocamos uma pequena mesa no local e esperamos as pessoas nos abordam para iniciar um assunto”, explica.

Não é a primeira vez que uma ação como essa é realizada nos Terminais do Eixo Anhanguera. “Em setembro, em decorrência do Setembro Amarelo, o CVV esteve trabalhando voluntariamente dentro de alguns espaços no Eixo Anhanguera. Abrimos para que voltassem sempre que quisessem e agora em virtude do Mês da Mulher, eles retornam ao Praça da Bíblia para mais um dia de ação”, explicou Paulo Cezar Reis, presidente da Metrobus.

Sobre o CVV

O CVV presta serviço voluntário e gratuito de prevenção do suicídio e apoio emocional para todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo. Os cerca de 3 milhões de atendimentos anuais são realizados por 3.000 voluntários em mais de 110 postos de atendimento pelo telefone 188 (sem custo de ligação), ou pelo www.cvv.org.br via chat, e-mail ou carta. A entidade realiza também ações presenciais, como palestras, Curso de Escutatória e grupos de apoio a sobreviventes do suicídio – GASS (https://www.cvv.org.br/cvv-comunidade/).

Fonte: https://altairtavares.com.br/metrobus-promove-plantao-de-escuta-do-cvv-nos-terminais-do-eixo-anhanguera/

sexta-feira, 13 de março de 2020

Formação de agentes para prevenção ao suicídio: uma experiência da Igreja Católica

Igreja de Campo Grande trabalha na formação de agentes para prevenção ao suicídio


O projeto, que compreende cursos de capacitação à distância e Ministério da Escuta, ainda está em fase embrionária, adianta o arcebispo de Campo Grande, Dom Dimas Lara Barbosa. O objetivo, porém, é motivar ainda mais pra uma Igreja Samaritana, como inspira a Campanha da Fraternidade deste ano no Brasil.

Andressa Collet (Cidade do Vaticano)

O Ginásio Poliesportivo Dom Bosco, em Campo Grande, recebeu cerca de 5 mil fiéis neste domingo (1/3/2020) para a missa de abertura oficial da Campanha da Fraternidade. Neste ano, o tema é inspirado na parábola do Bom Samaritano, narrada no Evangelho de Lucas, para motivar as pessoas a ter compaixão e a agir.

Dom Dimas Lara Barbosa, arcebispo de Campo Grande, que presidiu a celebração,  encorajou as comunidades a olhar para as periferias existenciais, como sempre insiste o Papa Francisco, e agir concretamente através das diversas atividades das pastorais sociais.

“A nossa opção foi incentivar a cada comunidade, a cada paróquia, a escolher uma das pastorais sociais – ou mais, se preferirem – de acordo com a realidade de cada uma delas. Nós temos pastorais sociais já bem desenvolvidas, como é o caso da Pastoral da Criança, do Menor, da Saúde, Carcerária, da Pessoa Idosa. E nós queremos, então, que essas pastorais possam ser mais focadas e desenvolvidas nas diversas comunidades e paróquias. Que cada comunidade possa, segundo o lema da Campanha da Fraternidade, parar, ver, sentir compaixão e cuidar daqueles que mais precisam.”
Formar multiplicadores na prevenção ao suicídio

Na capital do Mato Grosso do Sul, em nível diocesano, a Igreja vai promover ações de prevenção ao suicídio. Uma delas é a promoção  de cursos de capacitação, inclusive como o modelo de Educação à Distância, para formar agentes que trabalhem na prevenção ao suicídio, dando continuidade ao projeto iniciado ainda em 2018.

“Como projeto diocesano, nós queremos dar continuidade a um trabalho já iniciado na Campanha de 2018 que tratou da superação da violência. Naquela ocasião, nós havíamos montado 11 grupos de trabalho pensando na superação da violência contra a criança, contra a mulher, contra a pessoa idosa, a questão do narcotráfico, do crime organizado, a violência contra os povos indígenas, a violência racial e um grupo particularmente novo na nossa região ganhou corpo que é o que pretendia trabalhar a prevenção contra o suicídio, que hoje é praticamente uma epidemia mundial. O Mato Grosso do Sul, até recentemente, tinha o segundo lugar no Brasil em índices percentuais; agora diminuiu um pouco, passou para terceiro lugar, mas, mesmo assim, o índice ainda é muito muito alto. Então, 2018, nós tivemos a oportunidade de promover vários cursos de prevenção ao suicídio, inclusive contando com a participação do pastor Reis, da Igreja Batista, que há 17 anos já realiza esse tipo de formação na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Uma pessoa muito aberta ao ecumenismo, que está cedendo todo o material que acumulou durante todos esses anos. Ele também é capelão-bombeiro. De modo que agora nós queremos incentivar ainda mais na formação de agentes que possam estar trabalhando e sendo multiplicadores na prevenção do suicídio. E mais ainda: nós queremos criar um curso de Educação à Distância, modelo EaD, portanto, para formar pessoas que possam estar colaborando nessa prevenção ao suicídio em qualquer canto do Brasil que assim desejarem. Esse curso, naturalmente, será aberto a qualquer pessoa que queira. A prevenção de suicídio não é típica de católicos.”


Ministério da Escuta 24h por dia

A Arquidiocese está implementando a Pastoral Prevenção ao Suicídio. Quem quiser participar como voluntário, pode se inscrever em link disponível no próprio site, onde se encontra também endereço de e-mail e contato telefônico para outras informações.

Os suicídios, segundo especialidades no tema, são mais do que fatalidades. Pesquisas acadêmicas revelam que pelo menos 90% dos adolescentes que se matam têm algum tipo de problema mental que varia da depressão, a principal causa para suicídios nessa faixa etária, passando pela ansiedade, violência ou vício em drogas. O Ministério da Escuta, um serviço de acolhida também a esses problemas, será criado em Campo Grande, como antecipa Dom Dimas.

“Mas, queremos dar também uma matriz, um rosto especificamente católico e cristão para o Ministério da Escuta que nós pretendemos criar. Já estamos também com a grade bastante avançada e a ideia é ter centros de referência onde as pessoas possam encontrar ali, voluntários que, 24 horas por dia, estarão disponíveis para ouvir a qualquer um que venha simplesmente para desabafar, para falar das suas angústias. Naturalmente essas pessoas terão que ter feito o curso de prevenção ao suicídio, mas elas vão além, porque elas deverão ouvir também pessoas que tenham problemas familiares, violência doméstica e muitas outras coisas que não estão levando necessariamente a uma ideia à ação suicida, mas podem estar levando a angústias muito sérias, simplesmente por não terem com quem partilhar."
Ainda é um projeto embrionário, mas com a graça de Deus queremos dar passos significativos. Queremos nós mesmos nos tornarmos uma Igreja Samaritana para levar outros a parar, ver, compadecer-se e cuidar de quem precisa.
Fonte: www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2020-03/pastoral-prevencao-ao-suicidio-campo-grande-dom-dimas.html

quinta-feira, 12 de março de 2020

Carnaval e prevenção do suicídio: experiência em Belo Horizonte

Valorização da Vida no cortejo: o desafio de se abordar a Prevenção do Suicídio no carnaval em BH  

Um breve relato sobre a luta pela vida e a prevenção do suicídio!


Cristiane Santos de Souza Nogueira (3 março 2020)

O suicídio é um fenômeno que perpassa a história da humanidade, sendo considerado na atualidade como um problema de saúde pública. Desde 2003 a OMS instituiu o dia 10 de setembro como sendo o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio. No Brasil, a campanha do setembro amarelo se iniciou em 2015 e tem ganhado força a cada ano. Tendo como slogan “Falar é a melhor solução” objetiva-se promover e ampliar espaços de sobre suicídio, sensibilizando a população para as questões do adoecimento mental e desconstruindo mitos que impedem que as pessoas busquem ajuda diante da dor emocional.

No entanto é importante que tais temas possam ser abordados durante todas as épocas do ano, uma vez os índices de adoecimento psíquico da população crescem no mundo todo e que é preciso conscientizar as pessoas para que aprendam a reconhecer e respeitar o sofrimento mental da mesma forma que reconhecem e respeitam o sofrimento e o adoecimento do corpo.

Em novembro de 2019 uma das organizadoras de um bloco de carnaval de Belo Horizonte fez contato com o Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais solicitando orientações sobre como abordar a questão da prevenção do suicídio visto ser o tema escolhido pelo bloco para o cortejo de 2020.

Em sua 9ª edição, o bloco que desde 2012 carnavaliza BH levantando as bandeiras do amor, da diversidade, da alegria, do respeito e demarcando o posicionamento contra qualquer tipo de preconceito e manifestação de ódio, definiu ter como tema o SETEMBRO AMARELO “para lembrar as pessoas que a vida de cada um é muito importante".

Queremos dobrar nosso recado de afeto e trazer um tema que é por muitos ignorado. Avalia-se como uma atitude responsável do bloco buscar suporte profissional para levar esse tema para as ruas, demonstrando ter consciência sobre a necessidade se falar de maneira correta sobre um tema tão delicado. Nas chamadas para as atividades eu foram realizadas conjuntamente entre CRP e Bloco de carnaval, marca-se o convite para falar sobre o tema e para a responsabilidade de cada um na prevenção do suicídio e valorização da vida.

“É um tema tranquilo para ser tratado? NÃO! Qualquer um pode falar sobre? TAMBÉM NÃO! Para dar a devida seriedade e respeito ao assunto, contamos com o apoio do Conselho Regional de Psicologia … que já faz ações de prevenção ao suicídio e irá colaborar com a gente”.

"Na próxima segunda-feira, 13/01, vamos ter uma roda de conversa sobre Valorização da Vida. É muito importante que a banda vá em peso para saber mais do tema e conseguir levar uma mensagem da forma mais respeitosa possível”.

Ainda que não haja consenso entre a própria categoria da Psicologia, sobre os efeitos de campanhas e ações que envolvem a sociedade no tocante ao fenômeno do suicídio o CRP avaliou ser pertinente ofertar as orientações e suporte necessário para realização do cortejo, não podendo recuar ou se eximir desse debate, visto que a categoria profissional tem sido cada vez mais demandada no enfrentamento do suicídio.

Foi realizada uma reunião na sede do CRP para primeiros alinhamentos e definições em dezembro de 2019, com a primeira orientação norteadora: em se tratando de carnaval, o tema seria abordado pela Valorização da Vida, buscando formas de se passar a mensagem da prevenção do suicídio com leveza e da forma lúdica que a ocasião comporta.

O primeiro encontro, em janeiro de 2020, aconteceu em forma de roda de conversa, onde se buscou refletir sobre o fenômeno do suicídio considerando os aspectos epidemiológicos, demográficos, intrapessoais (transtornos mentais e comorbidades psiquiátricas), mas principalmente os aspectos interpessoais.

Ao discutir características do modo de vida contemporâneo foi possível deslocar o comportamento suicida dos fenômenos da patologização e medicalização da vida, reconhecendo que a nossa forma de viver comporta elementos que fazem sofrer o ser humano e que o comportamento suicida pode se apresentar como expressão da dor intensa e sofrimento emocional insuportável, estando presente ou próximo de cada pessoa que ali podia se expressar. Buscou-se desconstruir mitos sobre o fenômeno do suicídio, apresentando fatores de risco e de proteção, legitimando que as pessoas são capazes de reconhecer sinais de sofrimento emocional, mas que para isso é preciso investir mais na convivência, na disponibilidade de escutar sem julgamento e de ofertar apoio e suporte emocional.

Reiterou-se que é preciso fortalecer as redes de apoio, ofertar canais e ferramentas de apoio, legitimar a importância de se buscar ajuda profissional quando necessário e de construir saídas locais, mapeando os recursos e dispositivos disponíveis nos territórios de pertencimento.

O segundo encontro se deu em formato de oficina abordando Valorização da Vida, contando com a colaboração da conselheira do CRP e de uma jornalista que contextualizou a chita enquanto tecido de resistência subversiva, resistência político afetiva na história do Brasil desde a colonização.  O bloco não usa abadás ou fantasias, sendo instituído o uso da chita para confecção de roupas e adereços para seus integrantes.

A jornalista ao citar Walter Benjamin e sua obra “a história dos vencidos”, fala da chita em sua cesura, fazendo um recorte na história e demonstrando o descontínuo do tecido do povo. 

Originalmente da Índia, a Chintz foi levada para a Europa no século XVI por Vasco da Gama, sendo um tecido nobre e tão caro quanto a seda. Suas cores e figuras acompanham e interpretam a cultura local, sofrendo alterações pelos países por onde passa.

Considerada mais que um tecido, um padrão, amplamente usado na decoração, na porcelana e na impressão de tecidos nobres, a Chita chega ao Brasil no século XVII, havendo uma proibição de sua produção pela coroa de Portugal, uma vez que os nobres só podiam comprar tecidos da Europa. Tal proibição não impediu que os escravos produzissem o tecido em teares escondidos, sendo usado também pelos os índios, passando a ser considerado no Brasil como pano de pobre, dos rejeitados enquanto em Portugal se realiza concursos de vestido de chita.

Para os africanos que aqui estavam, a chita era um tecido carregado de memória afetiva, por a resistência em continuar tecendo. Os inconfidentes se vestiam de chita quando protestavam nas ruas da antiga Villa Rica, hoje Ouro Preto nas Minas Gerais.  Assim passa a ter a conotação de subversão e no século XIX vem nova ordem de proibição de qualquer tecido em MG, que teve a primeira grande industria dedicada à produção de chita.


“O não conformismo nas roupas tende naturalmente a expressar o não conformismo em ideias sociais e políticas”. (Flugel)

Contextualizando a chita, a essência do bloco estava colocada. Assim, como a Valorização da Vida seria a tônica da abordagem da prevenção do suicídio no cortejo de carnaval, definiu-se pelo uso de chitas em cor amarela, tecidos com girassol e do próprio girassol como símbolo para 2020. Tornou-se oportuno também contextualizar sobre o uso da cor amarela e do girassol como símbolos da campanha da prevenção do suicídio no Brasil e no mundo.

POR QUE O GIRASSOL?

Setembro: início da primavera, estação das flores e da esperança. Pesquisas comprovaram que pessoas que moram em lugares bruscos, com pouco Sol, podem desenvolver tendências à Depressão.

Assim, o girassol é a flor da campanha da Prevenção do Suicídio justamente por acompanhar a alegria e a vitalidade da luz solar.

Nos campos, em dias nublados, os girassóis se voltam uns para os outros, buscando a energia em cada um.

Não ficam murchinhos, nem de cabeça baixa. Olham uns para os outros … Erguidos, lindos.

Nos ensinam que olhar para o outro, pode fazer toda diferença em nossas vidas, afinal a convivência é nossa força motriz. Seu miolo gera centenas de sementes, que produzem tantos outros novos girassóis! Semear esperança e muitos afetos é para o ser humano, sentido de vida!

Se não temos sol todos os dia, temos uns aos outros…
Que sejamos girassóis todos os dias!!!

Nesse segundo encontro abordou-se algumas atitudes e falas que devem ser evitadas ao se abordar o tema, ressaltou-se a importância da escuta ativa e de se apontar canais de ajuda e construção de saídas para pessoas que apresentem sinais de dor e sofrimento emocional. Depois de um brain storm coletivo, de frases, palavras e ideias com os presentes, foram selecionadas frases de impacto a serem usadas no cortejo:

    – Aguente firme, Você não está só!

    – Você tem o poder de dizer ‘não é assim que minha história termina’

    – Pare e respire, há opções melhores, e muitas pessoas que te amam

    – Mesmo que as coisas estejam difíceis, sua vida importa; você é uma luz brilhante em um mundo escuro, então, aguente firme.

    Valorizar a vida é…

    É ligar quando sentir saudades.

    É não ignorar um pedido de ajuda.

    É ouvir sem julgar.

    É respeitar as escolhas e vontades.

    É dizer que ama.

A comunicação entre a COMORG e a conselheira referência do CRP se manteve ativa para troca de ideias, construção de frases, mensagens e estratégias a serem usadas no cortejo. Através da revisão da playlist, definiu-se momentos de marcação sobre o tema durante o trajeto. Foi construído um release, um texto que foi disponibilizado a todos os integrantes do bloco, para que todos se preparassem para possíveis interpelações e questionamentos que pudessem surgir, antes, durante e após o cortejo, visto ser uma atitude ousada e polêmica um bloco de carnaval que abordar a prevenção do suicídio.

“O bloco do Batiza, com suas chitas que espalham resistência e empatia pelo carnaval de BH decidiu abordar a valorização da vida no seu cortejo de 2020. O tema da prevenção do suicídio ainda é polêmico, envolvido em muitos mitos e julgamentos morais e muitas pessoas têm medo de falar sobre o assunto. É preciso disseminar a mensagem de que a vida vale a pena, de existem razões para viver. É desconstruir as ideias em torno do sofrimento emocional, levando a sociedade a respeitar e reconhecer a dor da alma da mesma forma que reconhece a dor do corpo.

Dessa forma, as pessoas irão parar de esconder sua dor interna, falando e recebendo orientação, procurando ajuda profissional se for necessário. O suicídio é um problema de saúde pública no mundo inteiro, sendo o final de um processo de sofrimento insuportável.

Estima-se que 90% dos casos sejam evitáveis mas para seu enfrentamento é preciso o envolvimento de todos os atores sociais, que auxiliem as pessoas que sofrem de desesperança, de desamparo, de desespero a construírem saídas e alternativas para a vida. As pessoas podem aprender a reconhecer sinais e sintomas da dor emocional que não é visível aos olhos e só pode ser identificada através da convivência, das relações.

Precisamos de mais afetos e menos telas. De mais trocas e acolhimento e menos individualismo. É possível aprender a ofertar apoio, a ofertar escuta e acolhimento. Para isso, é preciso encarar as ameaças com seriedade, ajudar a pessoa a avaliar a situação, explorando soluções e dando orientações concretas para preservar a vida.

Para tanto, é preciso antes de tudo, procurar compreender (sem juízo de valor), ofertar disponibilidade de escuta sem repressões e sem ser invasivo, apontando canais de apoio como o CVV,  serviços e profissionais de saúde mental.  FALAR É A MELHOR SOLUÇÃO E A CONVIVÊNCIA É A MELHOR SOLUÇÃO, se acreditamos e valorizamos a vida! Sejamos boas energias! Sejamos girassóis!” Vamos amarelar nossas chitas e as ruas por onde passarmos.

BLOCO DO BATIZA

Outras ações estavam planejadas para o cortejo como entrega de adesivos e de sementes de girassóis com frases de esperança, porém, com os problemas vivenciados pelos blocos de BH, às vésperas do início do carnaval, com

As repercussões resultaram em comprovar que é possível abordar a temática com seriedade e responsabilidade, através de orientações técnicas e com embasamento científico, em contextos diversos, com leveza e transmitindo mensagem de esperança. Pensando que as saídas devem ser locais, que as micro políticas podem operar transformações…

Essa experiência buscou efetivar a encomenda inicialmente formulada ao CRP, conjugando a essência do bloco com suas a chitas, com o amarelo do girassol na perspectiva da Valorização da Vida e da Prevenção do Suicídio, de forma lúdica, propiciando a sensibilização sem mobilizar resistências e defesas frente a um tema que toca a todos de forma tão profunda. Um cortejo de carnaval como resistência e subversão aos processos de medicalização e patologização, para uma aposta de vivencias afetivas, de fortalecimento de vínculos, do estreitamento dos laços de convivência. Uma aposta nas tecnologias leves, na melhoria da qualidade de vida das pessoas, que só é possível pelas relações, afinal o ser humano é ser gregário, que se abastece da luz, do calor e da energia de outros seres humanos.

Texto e Fotografia:
Cristiane Santos de Souza Nogueira,
Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais
Especial para os Jornalistas Livres

Edição da matéria:
Leonardo Koury Martins, Jornalistas Livres

Fonte: https://jornalistaslivres.org/valorizacao-da-vida-no-cortejo-o-desafio-de-se-abordar-a-prevencao-do-suicidio-no-carnaval-em-bh/