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domingo, 23 de outubro de 2022

Especialistas norte-americanos recomendam rastreio da ansiedade a partir dos 8 anos e da depressão a partir dos 12

Naomi Thomas, do CNN (22 outubro 2022)
 
Entre 2016 e 2019, cerca de 5,8 milhões de crianças foram diagnosticadas com ansiedade e aproximadamente 2,7 milhões foram diagnosticadas com depressão no Estados Unidos

Pela primeira vez, o Grupo de Trabalho dos Serviços Preventivos dos EUA (USPSTF) recomendou o rastreio da ansiedade em crianças a partir dos 8 anos.

Nas suas recomendações finais, publicadas na terça-feira, na revista médica JAMA, o Grupo de Trabalho também apela ao rastreio da depressão em crianças a partir dos 12 anos, em conformidade com as recomendações de 2016.

Ambos os conjuntos de recomendações se aplicam a crianças que não têm uma doença de saúde mental diagnosticada e que não apresentam sintomas reconhecidos de ansiedade ou depressão.

Os membros ponderaram recomendações para o rastreio do risco de suicídio em crianças e adolescentes, mas não existem evidências suficientes sobre os seus perigos e benefícios.

“O Grupo de Trabalho analisou as evidências sobre o rastreio da ansiedade, da depressão e do risco de suicídio para prestar aos profissionais dos cuidados primários orientações sobre como podem apoiar a saúde mental das crianças e dos adolescentes”, afirmou Martha Kubik, membro do Grupo e professora da School of Nursing do College of Health and Human Services, na George Mason University, num comunicado de imprensa. “Felizmente, o rastreio da ansiedade e da depressão em crianças mais velhas consegue identificar estes quadros para que as crianças e os adolescentes possam receber os cuidados de que necessitam”.

O USPSTF é um grupo de especialistas médicos e em prevenção de doenças independentes cujas recomendações ajudam a orientar as decisões dos médicos.

De acordo com a Agência americana de prevenção e controlo de doenças (US Centers for Disease Control and Prevention), entre 2016 e 2019, cerca de 5,8 milhões de crianças foram diagnosticadas com ansiedade e aproximadamente 2,7 milhões foram diagnosticadas com depressão.

“O Estudo Nacional de Saúde Infantil de 2018-2019 [National Survey of Children’s Health (NSCH)] verificou que 7,8% das crianças e dos adolescentes com idades dos 3 aos 17 anos tinham um distúrbio de ansiedade atual”, afirma a nova recomendação. “Os distúrbios de ansiedade na infância e na adolescência estão associados a uma maior probabilidade de distúrbio de ansiedade ou depressão no futuro”.

Além da ausência de evidências relativas ao rastreio do risco de suicídio, o USPSTF afirmou que não dispõe de evidências suficientes para elaborar uma recomendação para o rastreio da ansiedade em crianças com 7 anos ou menos ou para o rastreio da depressão em crianças com 11 anos ou menos.

“O Grupo de Trabalho preocupa-se profundamente com a saúde mental de todas as crianças e adolescentes. Infelizmente, existem lacunas nas evidências fundamentais relativamente ao rastreio da ansiedade e da depressão em crianças mais pequenas e ao rastreio do risco de suicídio em todos os jovens”, afirmou Lori Pbert, psicóloga clínica e professora na Chan Medical School da Universidade de Massachusetts, num comunicado de imprensa. “Apelamos a que seja realizada mais investigação nestas áreas críticas para que possamos fornecer aos profissionais de saúde formas baseadas em evidências para manterem os seus pacientes jovens saudáveis”.

O USPSTF também referiu que não encontrou evidências sobre os intervalos de rastreio adequados para a depressão ou para a ansiedade.

No mês passado, o Grupo de Trabalho publicou recomendações preliminares que, pela primeira vez, afirmavam que deveriam ser efetuados rastreios da ansiedade em adultos com menos de 65 anos.

Nessa ocasião, Pbert disse à CNN que foi dada prioridade a uma recomendação relativa à ansiedade “devido à sua importância na saúde pública, principalmente com o maior destaque que tem sido dado à saúde mental nos últimos anos, a nível nacional”.

Num editorial publicado juntamente com as novas recomendações para as crianças, na terça-feira, os médicos do Ann and Robert H. Lurie Children’s Hospital, Weill Cornell Medicine e da Universidade de Cincinnati afirmaram que o relatório de evidências fornecido com as recomendações não oferece orientações específicas ou acionáveis sobre como o rastreio deve ocorrer em contextos de cuidados primários e que existem questões pendentes relativamente ao rastreio.

No entanto, “embora sejam necessários esforços de investigação futura para resolver as lacunas no conjunto de evidências, as evidências disponíveis parecem sustentar que se avance com a implementação do rastreio e do tratamento de distúrbios de ansiedade em contextos de cuidados primários pediátricos”, escreveram.

Chamam a isto “muito boas notícias”, afirmando que a maioria dos distúrbios psiquiátricos, incluindo os distúrbios de ansiedade, começam durante a infância e a adolescência.

“O rastreio em contexto de cuidados primários pediátricos é importante para a identificação precoce e permite um tratamento mais precoce e eficaz para reduzir o sofrimento, a incapacidade e a morbilidade associados a um atraso no reconhecimento e no tratamento”, afirmou.

Noutro editorial publicado na terça-feira, na revista JAMA, o Dr. Oscar Bukstein do Boston Children’s Hospital abordou as recomendações relativas à depressão e ao risco de suicídio: “O comportamento suicida encontra-se entre as emergências médicas mais críticas para os adolescentes” e o rastreio do suicídio é a “pedra angular da prevenção do suicídio”.

“Não se trata de uma coincidência que o USPSTF tenha considerado evidências para o rastreio do suicídio e da depressão no mesmo Relatório de evidências e Revisão sistemática atualizados”, escreveu. “Dada a relevância da depressão como fator de risco para o comportamento suicida e o valor do rastreio da depressão, conforme sustentado pela recomendação do USPSTF, o rastreio do suicídio no âmbito do rastreio da depressão poderia cumprir ambas as tarefas de rastreio ao mesmo tempo”.

Bukstein também afirmou que as recomendações do Grupo de Trabalho sugerem que existem muito mais perguntas a fazer que podem ser respondidas com as evidências atuais.

Fonte: https://cnnportugal.iol.pt/ansiedade/ansiedade-criancas/especialistas-norte-americanos-recomendam-rastreio-da-ansiedade-a-partir-dos-8-anos-e-da-depressao-a-partir-dos-12/20221022/634ed8e20cf26256cd3b34c9

sábado, 9 de outubro de 2021


Pandemia de Covid-19 provoca aumento global em distúrbios de ansiedade e depressão

Lucas Rocha e Leonardo Lopes da CNN São Paulo (9 outubro 2021)

A pandemia de Covid-19 provocou o aumento global em distúrbios como a depressão e a ansiedade. É o que revela um estudo publicado no periódico científico The Lancet nesta sexta-feira (8). Segundo a pesquisa, foram 53 milhões de novos casos de depressão e 76 milhões de ansiedade em 2020.

Os números representam altas de 28% e de 26%, respectivamente, no período analisado. Entre os grupos mais afetados estão as mulheres e os jovens. Países mais atingidos pela pandemia também tiveram os maiores aumentos nos registros desses distúrbios.

Autor principal do estudo, o pesquisador Damian Santomauro, da Universidade de Queensland, nos Estados Unidos, ressaltou que, mesmo antes da pandemia, os sistemas de atenção à saúde mental na maioria dos países apresentavam falhas históricas como a falta de recursos e de organização para a oferta de serviços.

Segundo o especialista, as descobertas do estudo destacam a necessidade do fortalecimento dos sistemas de saúde mental para absorver a demanda crescente dos transtornos de depressão e ansiedade em todo o mundo.

“Promover o bem-estar mental, direcionar os fatores que contribuem para a saúde mental precária que foram agravados pela pandemia e melhorar o tratamento para aqueles que desenvolvem um transtorno mental devem ser fundamentais para os esforços para melhorar os serviços de apoio”, afirmou o pesquisador em um comunicado.

Para a psicóloga Karen Scavacini, da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio (ABEPS), a ampliação no acesso pela população de serviços gratuitos especializados em saúde mental é essencial para o acompanhamento da tendência de alta dos distúrbios.

Precisamos ter um olhar de políticas públicas para encontrar soluções que alcancem o país como um todo. Desde o fortalecimento dos CAPS [Centros de Atenção Psicossocial], com o auxílio aos profissionais e ampliação das equipes que atuam nesses serviços. Vamos ter uma demanda maior que precisa ter o atendimento”, afirmou.

Sobre o estudo

O estudo publicado na Lancet avalia os impactos globais da pandemia no transtorno depressivo maior e transtornos de ansiedade, quantificando a prevalência e a carga dos transtornos por idade, sexo e localização em 204 países e territórios em 2020.

Os pesquisadores realizaram uma revisão sistemática da literatura para identificar dados de pesquisa populacional publicados entre 1º de janeiro de 2020 e 29 de janeiro de 2021. Usando uma ferramenta de meta-análise, os dados de estudos foram usados ​​para estimar as mudanças na prevalência dos distúrbios de acordo com os diferentes indicadores populacionais.

A análise indicou que o aumento da taxa de infecção por Covid-19 e a redução do movimento de pessoas foram associados ao aumento da prevalência dos transtornos, sugerindo que os países mais afetados pela pandemia em 2020 tiveram os maiores aumentos na prevalência dos transtornos.

Na ausência da pandemia, as estimativas do modelo sugerem que teria havido 193 milhões de casos de depressão (2.471 casos por 100 mil habitantes) globalmente em 2020. No entanto, a análise mostrou 246 milhões de casos (3.153 por 100 mil habitantes), um aumento de 28% (mais 53 milhões de casos). Mais de 35 milhões dos casos adicionais foram em mulheres, em comparação com cerca de 18 milhões em homens.

Em relação à ansiedade, as estimativas sugerem que teria havido 298 milhões de casos de transtornos associados à condição (3.825 por 100 mil habitantes) em todo o mundo em 2020, se a pandemia não tivesse acontecido. A análise indica que houve uma estimativa de 374 milhões de casos (4.802 por 100 mil habitantes) no ano passado, um aumento de 26% (mais 76 milhões de casos). Quase 52 milhões dos casos adicionais foram em mulheres, em comparação com cerca de 24 milhões em homens.

Saiba onde procurar ajuda especializada

A especialista da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio afirma que além do investimento nos serviços de saúde, é preciso garantir que a população saiba como ter acesso ao atendimento.

Para ela, ainda existe uma perspectiva estigmatizada dos distúrbios da mente como fraqueza ou loucura. Além disso, o acesso ao tratamento também pode ser prejudicado diante da falta de conhecimento da disponibilidade de serviços gratuitos ou com preços acessíveis.

Para driblar essa dificuldade, ela criou o site Mapa da Saúde Mental, que permite a consulta de locais que oferecem esse tipo de atendimento.

“Precisamos diminuir os preconceitos, mostrando que a saúde mental não é frescura e que existe tratamento disponível. Além de reduzir o estigma da figura do psiquiatra e do psicólogo, que ainda estão muito ligadas à loucura ou a algo que é impossível de se pagar, e ajudar com que as pessoas conheçam os serviços existentes”, disse.

O site Mapa da Saúde Mental, também conta com uma lista de serviços voltados especificamente para as mulheres, incluindo atendimentos voluntários ou com preços acessíveis, de forma online e presencial, em todas as regiões do Brasil.

O Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) conta com um projeto e serviço chamado “Apoiar”, que realiza o atendimento online para pessoas de todas as idades. Em 2020, foram atendidas 1.532 pessoas em todo o Brasil.

“Nesse grupo, temos muitos jovens e adolescentes que realizam psicoterapia online, com a participação de mais de 500 terapeutas voluntários. O que temos visto é que o isolamento foi pior do que a pandemia para eles. O afastamento dos amigos e da escola tornou os adolescentes muito desmotivados para a vida”, afirma Leila Tardivo, coordenadora do projeto e professora do Instituto de Psicologia da USP.

O que explica o impacto maior sobre as mulheres

A sobrecarga de trabalho, a mediação de conflitos familiares e o aumento da violência doméstica são fatores que fazem com que o fardo da pandemia pese mais para as mulheres em relação aos homens. Segundo Scavacini, isso pode explicar também a maior incidência de distúrbios como depressão e ansiedade entre elas.

“O acúmulo de atividades que a mulher teve durante a pandemia explica uma boa parte dos casos de distúrbios. Desde ter que dar conta dos filhos na aula online, o próprio trabalho online e das coisas de dentro de casa, tudo ao mesmo tempo. Esse foi um fator da exaustão feminina e da falta de apoio”, afirma.

A psicóloga afirma que o aumento dos distúrbios, tanto em mulheres quanto em jovens, também pode ser associado ao abuso de álcool e à consequente elevação dos casos de agressão à mulher registrados durante a pandemia.

De acordo com dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou, diante do isolamento social, 1.350 casos de feminicídio em 2020 – um a cada seis horas e meia. O índice é 0,7% maior em comparação ao total de 2019.

Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), o aumento da notificação de casos de ansiedade, depressão, medo, tédio e incerteza foi acompanhado da elevação no consumo de álcool. Uma pesquisa feita pela Opas em 33 países e dois territórios das Américas apontou que 42% dos entrevistados no Brasil relatou alto consumo de álcool durante a pandemia.

Os dados foram coletados entre maio e junho de 2020, por um questionário respondido online. Ao todo, mais de 23 mil pessoas com idade acima de 18 anos responderam às questões relacionadas à Covid-19.

O peso da pandemia para os jovens

A pesquisa divulgada na Lancet corrobora os resultados de diversas análises que apontam que a pandemia impacta de forma significativa a saúde mental de crianças e adolescentes.

Segundo um estudo do Conselho Nacional da Juventude (Conjuve), seis a cada 10 jovens relataram ter sentido ansiedade e feito uso exagerado de redes sociais durante a pandemia. Além disso, 51% afirmaram ter sentido exaustão ou cansaço e 40% tiveram insônia ou distúrbios de peso.

Uma outra pesquisa, da Universidade de Calgary, no Canadá, apontou que a depressão e a ansiedade entre os jovens dobraram em comparação aos níveis pré-pandêmicos. A análise revisou 29 estudos com um total de mais de 80 mil participantes em todo o mundo, com idades entre 4 e 17 anos e idade média de 13 anos.

De acordo com os especialistas, o aumento da incidência dos distúrbios em jovens e crianças está associado principalmente ao isolamento social, adotado de forma preventiva à transmissão da Covid-19, a perda de objetivos e metas, devido às incertezas impostas pela pandemia, o afastamento escolar, com o fechamento das instituições, e dificuldades financeiras vivenciadas pelas famílias neste período.

“O jovem ainda está maturando seu sistema emocional. De forma diferente do adulto e do idoso que já têm mais capacidade emocional para lidar com as coisas. Além de estar em uma época em que esse contato social é fundamental para o desenvolvimento, e ser privado disso, o jovem também tem menos ferramentas para lidar com os fatores de estresse”, afirma Karen.

Para o psiquiatra e psicanalista Edson Guimarães Saggese, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o nível do impacto para a saúde mental de crianças e adolescentes com o fechamento das escolas ainda permanece incerto.

“Houve uma perda do contato com os colegas. A escola não é um lugar onde só se desenvolvem atividades didáticas e de aprendizagem, é um lugar de contatos afetivos. Para jovens e adolescentes esses contatos são especialmente importantes por que é uma idade em que as pessoas precisam ampliar o seu mundo, é o momento em que jovens e adolescentes constroem um novo mundo extra familiar”, afirmou.

O papel da escola

A professora da USP, Leila Tardivo, afirma que o retorno às atividades escolares também tem sido um momento difícil para alunos, educadores e gestores do ensino. “Os alunos perderam aula, perderam conteúdo e não têm interesse. Perder perspectivas e projetos de vida é algo muito preocupante. Esse efeito aconteceu de forma intensa entre os jovens”, disse.

Para os especialistas, as escolas são ambientes favoráveis para a abertura ao diálogo sobre as experiências vividas ao longo da pandemia e para a elaboração de sentimentos como o luto, a perda e as frustrações.

É importante fazer grupos de conversa e deixar os alunos falarem. Vamos ouvi-los sobre o que aconteceu e como eles estão se sentindo diante de tudo isso. O sentido da vida cada um tem que ter o seu, mas é possível ajudar dando amparo, apoio, escuta e acolhida para que eles redescubram esse sentido”, afirma Leila.

Como é possível minimizar os impactos da pandemia

Diante de diagnósticos de distúrbios da mente, como a depressão e a ansiedade, a busca por atendimento especializado é fundamental para prevenir o agravamento dos transtornos. Além disso, contar com uma rede de apoio, como familiares e amigos, também contribui para minimizar os impactos nocivos da pandemia de Covid-19 para a saúde mental.

A escuta é uma coisa muito importante, especialmente para mulheres, crianças e adolescentes. Ter um canal de comunicação, ou seja, a possibilidade de falar e alguém escutar. E escutar significa uma coisa ampla: escutar sem preconceito, sem receitas prontas, é algo que valoriza muito”, disse Saggese.

Técnicas de autocuidado também podem trazer benefícios para a saúde da mente. Segundo a psicóloga Karen Scavacini, o primeiro passo é buscar reconhecer quais são os gatilhos emocionais para cada indivíduo. Gatilhos, neste sentido, são as situações que disparam reações emocionais negativas, como a ansiedade, por exemplo.

“É importante identificar o que deixa a pessoa mais nervosa, ansiosa ou triste, e perceber o que muda tanto no corpo, como na emoção ou no comportamento quando ela não está bem. Ela começa a dormir menos, está mais nervosa, ansiosa, com menos paciência? Para cada pessoa isso pode ser diferente”, explica.

A especialista explica que, a partir disso, o próximo passo é buscar compreender o que é feito que pode melhorar ou piorar cada situação. “Por exemplo, melhorar a situação: fazer um exercício físico, tentar ter uma boa noite de sono, tomar um banho relaxante e fazer coisas que lhe deem prazer. Coisas que podem piorar: descontar no uso de álcool, entrar numa rede social e ficar comparando a vida com a de outras pessoas, arrumar briga ou ser mais agressivo, coisas que não são saudáveis”, acrescenta.

Por fim, a psicóloga recomenda o estabelecimento de uma rede de apoio, ou seja, pessoas com as quais se pode contar nas mais diversas situações, seja para ouvir um desabafo, para ajudar com a rotina da casa ou o cuidado com os filhos.

Fonte: www.cnnbrasil.com.br/saude/pandemia-de-covid-19-provoca-aumento-global-em-disturbios-de-ansiedade-e-depressao/

 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Pesquisa sobre popularidade e os discursos sobre as doenças no Brasil e em Portugal

Pesquisa mostra diferenças entre buscas online sobre saúde mental feitas no Brasil e em Portugal - Saúde Mental

 Sílvia Haidar

Um estudo divulgado nesta quinta-feira (18), elaborado pela subdivisão Health+Life da agência SA365, revela aumento nas pesquisas relacionadas à saúde mental em redes sociais e mecanismos de busca no Brasil e em Portugal durante o ano passado, quando começou a pandemia da Covid-19.

No Brasil, as pesquisas sobre ansiedade saltaram de 246 mil pontos, em novembro de 2019, para 370 mil pontos, na escala Google, entre os meses de abril a julho de 2020. Esse fenômeno foi acompanhado por uma diminuição na procura por termos ligados à depressão no mesmo período, com queda de 370 mil para 280 mil.

A metodologia utilizada do estudo se baseia na netnografia, que pode ser compreendida como um modelo de pesquisa etnográfica com enfoque maior nas comunidades digitais. Para isso, foram utilizados dados de popularidade do Google Trends, postagens no Twitter e monitoramento de grupos no Facebook e de comunidades no Instagram.

O objetivo do levantamento foi entender a popularidade e os discursos em relação às doenças mentais tanto no Brasil como em Portugal.

A indicação de que pessoas possam estar mais ansiosas, mas, ao mesmo tempo, sendo menos diagnosticadas com depressão chamou a atenção dos pesquisadores, já que uma das possíveis explicações pode estar no receio das pessoas em relação à Covid-19, que deixariam de procurar ajuda médica da forma adequada devido à pandemia.

“Vemos com ceticismo essa queda nas buscas sobre depressão, especialmente porque outros indicadores apresentaram aumento no mesmo período”, afirma Renata Assumpção, gerente da divisão Health+Life.

Também houve uma retração na romantização destes problemas de saúde (textos com apelo emocional e relatando casos pessoais), com um interesse maior por parte dos usuários em aspectos mais concretos como sintomas, diagnósticos e causas.

Manifestações físicas como falta de ar e pressão alta, comumente relacionadas à Covid-19, também apareceram associadas a outras buscas sobre doenças mentais.

Os dados do estudo mostram a importância do universo digital como rede de apoio neste momento. “Entendemos como relevante a atuação da indústria e de influenciadores para facilitar o diagnóstico e encaminhar as pessoas para o cuidado de um médico”, diz Renata.

A popularidade do debate sobre ansiedade vinha apresentando um crescimento orgânico desde 2015, sem variações bruscas. Um cenário semelhante também foi observado nas pesquisas relacionadas à depressão até 2019, já que antes da pandemia esta era a doença mais citada pelos usuários de redes sociais e mecanismos de busca nos dois países.

Essa predominância podia ser muita vezes explicada por fatores como o Setembro Amarelo (campanha de prevenção do suicídio) ou ainda devido a relatos de influenciadores como o humorista Whinderson Nunes, que falou abertamente sobre sofrer de depressão, declaração que foi amplamente divulgada pela imprensa.

No período pré-pandemia, também era notável uma romantização do debate sobre saúde mental. Textos que ganhavam repercussão maior nas principais plataformas sociais como Instagram e Facebook possuíam um forte apelo emocional, com poucas informações sobre sintomas e tratamento. Além disso, havia uma profusão de comentários condenatórios ao suicídio, tratando a questão como desvio de caráter ou “falta de Deus”.

Já durante a pandemia, os debates passaram a ser menos atrelados a postagens sobre depressão e mais associados a comentários sobre casos concretos. No entanto, foi registrada uma diferença entre os públicos brasileiro e português: a repercussão midiática no país europeu direcionou a atenção para o debate de saúde pública, com enfoque maior nos sintomas. Isso diferiu do que se observou no Brasil, onde a cobertura da imprensa se concentrou mais nas histórias e relatos das celebridades em questão.


https://saudemental.blogfolha.uol.com.br/2021/02/18/pesquisa-mostra-diferencas-entre-buscas-online-sobre-saude-mental-feitas-no-brasil-e-em-portugal/

domingo, 19 de abril de 2020

Ansiedade e quarenta: meios de amenizar...

Como combater a ansiedade durante o período de isolamento social

Rita Pinto

Para quem sofre com ansiedade, é difícil quando não conseguimos controlar o que se passa à nossa volta. O desafio está em conseguir controlar a forma como nos sentimos e reagimos face ao que se passa à nossa volta. It’s easier said than done, como dizem em Terras de Sua Majestade: é fácil dizê-lo, menos fácil fazê-lo, mas é nesse controlo do nosso bem-estar que está o poder. E ainda que isto seja um conselho para a vida, que podemos replicar em qualquer contexto no qual possamos sentir-nos pouco no comando, durante este período de pandemia e isolamento social recomendado, devemos cuidar da nossa saúde mental, da mesma forma que estamos a tentar proteger a nossa saúde física.

É compreensível que haja muito medo e incerteza em torno da disseminação do COVID-19. São várias as publicações e entidades preocupadas em passar uma mensagem de conforto para aqueles que se têm sentido mais ansiosos, desorientados ou frustrados não só com a gravidade das notícias, mas com a situação de quarentena e isolamento social.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) emitiu um comunicado onde salienta a importância de não desvalorizar quem sofre com ansiedade ou outras doenças psicológicas e psiquiátricas numa altura como esta. No Instagram, a Associação Nacional de Estudantes de Psicologia juntou uma lista de seis conselhos para nos ajudar a lidar com as nossas preocupações durante o período de quarentena, ao mesmo tempo que nos mantemos alertas, por nós e pelos nossos. Também a Fundação Americana para Prevenção do Suicídio usou as redes sociais para partilhar cinco dicas para nos ajudar a cuidar da nossa saúde mental perante momentos de maior ansiedade. A Wired compilou a sua lista de recomendações neste artigo e Katie Heaney, jornalista do The Cut, conta aqui a sua experiência para continuar as suas sessões de psicoterapia numa cidade de quarentena, onde somos aconselhados a ficar em casa.

Porque no Shifter sabemos bem o que é a ansiedade e como em certos momentos nos pode tocar a todos, e porque queremos fazer da promoção da saúde mental uma das nossas prioridades editoriais, reunimos também uma série de dicas para te ajudarem a controlar o stress num momento em que é perfeitamente legítimo que te sintas stressado. É importante saberes que não estás sozinho na tua ansiedade. A alteração das tuas rotinas e a imprevisibilidade de tudo o que envolve esta pandemia podem justificar esse sentimento. Mas reduzir a ansiedade e focares-te naquilo que podes realmente controlar não só tornará este momento difícil mais suportável, como também contribuirá para te manteres saudável. Reconhece a dificuldade do contexto e pensa que, apesar da necessidade de distanciamento social físico, estás conectado a milhões de outras pessoas que compartilham da tua ansiedade e medo.
Mantém-te informado mas não fiques obcecado

Experimenta determinar uma frequência para verificares as notícias que te ajudarão a manteres-te actualizado em relação ao que se está a passar, sem que isso se torne a única coisa em que pensas. Uma vez por dia, num horário predeterminado, por exemplo, pode ser um bom ponto para começar.⁣ Dito isto, limita a tua exposição a notícias de fontes oficiais e credíveis. Grande parte da nossa ansiedade pode originar na percepção de perigo decorrente da informação que tem vindo a aparecer nos jornais e noticiários. Por isso, encara o teu direito a manteres-te informado com seriedade, mas protege-te, privilegiando fontes como a Direção-Geral de Saúde ou a OMS.
⁣Segue as orientações como elas são dadas, sem pânicos

Não vale mesmo a pena entrar em pânico. Não vale de nada ser mais extremo que as recomendações das entidades competentes. Faz o que te ajudar a sentir mais seguro sim, mas a longo prazo, levar tudo ao exagero pode começar a agir contra ti se não conseguires manter esses padrões lá em cima ou se outras pessoas não estiverem a agir de acordo com as medidas que criaste para ti. Além disso, tenta manter em mente que este período de isolamento é uma medida de responsabilidade social. Apesar de ser difícil, tenta equilibrar a tua segurança e necessidades com as necessidades da restante população.
Concentra-te no que te faz bem

Mantém o foco naquilo que liberta espaço na tua mente ou te ajuda a construir a tua reserva de energia. ⁣Neste período de isolamento e quebra de rotinas, é importante, por exemplo, manteres os teus hábitos de sono saudáveis. Com a ausência de horários, não deixes que os momentos de descanso se desregulem. Tenta aproveitar o tempo para realizares actividades de que gostas e que te ajudam a sentires-te conectado e que, no período de aulas ou trabalho, não costumas conseguir. Lê livros, vê séries e filmes, pinta, escreve. Faz o que te apetecer, com tempo e calma. Tomar decisões desse género e concentrares-te nas pequenas coisas do dia-a-dia pode ainda ajudar-te a focares-te naquilo que está sob o teu controlo. Escolher colocar creme no corpo depois do banho ou decidir com que caneta vais escrever no teu diário são pequenas-grandes oportunidades de assumir o controlo.
⁣Tenta manter a tua rotina e o contacto com quem importa

Arranja formas de manter a tua rotina habitual dentro do possível, aproveitando para adicionar actividades de que gostas. Se for difícil estabelecer objectivos para o dia, podes tentar criar um horário onde estabeleces algumas tarefas ou processos. Quando acordares, obriga-te a levantar, tomar banho e vestir. Isso vai ajudar-te a sentires que te manténs activo, apesar da mudança de rotina. O mesmo acontece com os teus amigos e família. Apesar do período de quarentena, procura manter um contacto regular com as pessoas que são importantes para o teu bem-estar. Falar com as pessoas de quem gostamos e em quem confiamos ajuda-nos sempre a superar os sentimentos de ansiedade. Aproveita as vantagens das redes sociais e das videochamadas e sê criativo! Se não puderes estar no sofá a ver uma série com um amigo, vejam a mesma ao mesmo tempo e comentem-na, enquanto falam ao telemóvel. Ou então junta toda a gente numa espécie de festa virtual, onde cada um curte em sua casa e comunicam por vídeo. ⁣⁣

E, como sempre, procura ajuda se precisares. Há muitas entidades competentes, como por exemplo, a SOS Voz Amiga, a oferecer ajuda e os seus serviços às quais podes sempre concorrer. Não estás sozinho com a tua ansiedade e o isolamento social não tem de ser solitário.

Fonte: https://shifter.sapo.pt/2020/03/ansiedade-periodo-de-isolamento-social/