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sexta-feira, 29 de maio de 2020

Medicamentos em falta, risco ampliado para doentes mentais

Falta de medicamento para transtorno bipolar é calamidade


Fábio Reis

Desde o início deste ano, pacientes com transtorno bipolar estão com dificuldade de encontrar carbonato de lítio nas farmácias e serviços públicos de São Paulo e de diversas outras partes do país. A substância tem efeito protetor contra as crises de depressão grave ou mania (euforia) que caracterizam a doença, além de ter papel essencial na prevenção do suicídio.

A ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria) diz que a situação é "calamitosa" e que está cobrando respostas da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), além de apoio de órgãos de controle e fiscalização da saúde. A instituição explica que o carbonato de lítio não pode ser substituído para muitos pacientes, "sob pena do possível agravamento dos quadros psiquiátricos e consequente aumento do número de casos de suicídios no Brasil, da procura por serviços de emergência, além da necessidade maior de internações em um cenário de escassez de leitos".

Reclamações de médicos e pacientes nos Caps (Centros de Apoio Psicossocial) e UBSs (Unidades Básicas de Saúde) têm sido frequentes. Nesta quinta-feira (5), a Prefeitura de São Paulo informou, por meio da Secretaria Municipal da Saúde, que o Carbonato de Lítio 300 mg está em falta devido a ausência de matéria-prima dos fabricantes. "Há um processo aberto para compra emergencial pela administração municipal, onde as empresas interessadas em participar devem apresentar suas propostas até o dia 10 de março", acrescentou.

A Abrata (Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos) tem recebido mensagens de pacientes de todas as regiões do país desde meados de janeiro, primeiro sobre a falta do carbonato de lítio ER de 450 mg, e depois sobre o de 300 mg. A associação não chegou a fazer um levantamento, mas garante que foram inúmeras as reclamações, telefonemas e comentários nos grupos de pacientes e de familiares. "Circulam nesses grupos presenciais cerca de 90 pessoas por semana. E praticamente 100% delas fazem uso do carbonato de lítio", declara a vice-presidente Neila Campos.

A tradutora Lilia Loman, que utiliza o medicamento há 28 anos, procura lítio nas farmácias das principais redes de São Paulo, sem sucesso, há cerca de um mês. Apesar de ter contatado diversas vezes o SAC do fabricante do Carbolitium, da Eurofarma, e ter sido informada que o de 300 mg estava disponível, ela não havia conseguido nada até esta quinta-feira (5). Em uma das ocasiões, recebeu a indicação de uma farmácia que tinha apenas uma caixa, mas logo descobriu que estava reservada para outro comprador. Lilia também não encontra genérico, nem similares de outros laboratórios (Carlit e Litcar).

"A busca tornou-se uma parte indesejável da rotina, não só minha, mas também de familiares e amigos", reclama. Ela ainda tem algumas unidades do remédio, "mas sem previsão de quando essa falta realmente durará, a preocupação é enorme". A única vez que ficou sem o carbonato de lítio foi durante a gravidez, há dez anos: "Foi um período extremamente difícil, uma recaída após muitos meses de estabilidade, com sintomas exacerbados pela falta de medicamento", recorda. Ela teve insônia, depressão, ímpetos de agressividade até ideações suicidas.

O que dizem os laboratórios

Rastrear a origem do problema não é nada fácil. A reportagem entrou em contato com os três laboratórios que comercializam o carbonato de lítio (Eurofarma, Hipolabor e Biolab), e dois deles esclarecem que a escassez recente se deve à dificuldade de aquisição de matéria-prima junto ao fabricante de insumos, cujo nome não é revelado.

A Eurofarma confirma o desabastecimento do Carbolitium CR 450 mg, mas diz que a produção havia sido retomada e que os estabelecimentos de todo o país começariam a ser abastecidos em março. A empresa enfatiza que existem outras alternativas terapêuticas no mercado, como o Carbolitium 300 mg. "A classe médica está sendo comunicada e é importante que o paciente procure seu médico de confiança para efetuar a substituição e ajustes posológicos necessários". Assim como Lilia Loman, a reportagem ligou para algumas farmácias da capital, como Onofre e Ultrafarma, e não encontrou o produto de 300 mg, nem da Eurofarma, nem de outros laboratórios.

Também procurada, a Hipolabor, de Minas Gerais, disse que "a previsão é de que todos os medicamentos necessários sejam fornecidos até o mês de abril. Ainda neste mês, a meta é produzir 20 milhões de doses e, até o fim do próximo mês, devem ser produzidas mais 30 milhões de doses".

Já a Biolab Genéricos, que diz abastecer principalmente a rede privada, afirma que não está com problemas de produção de carbonato de lítio. "Pelo contrário, a empresa triplicou sua oferta de produtos genéricos em fevereiro de 2020 em relação ao mesmo mês do ano passado: 22 mil caixas de 50 unidades (fev 19) e 69 mil caixas de 50 unidades (fev 20)", mencionou na nota, destacando que o crescimento de oferta ocorreu "mesmo em função do explosivo aumento dos custos de matéria-prima, que são dolarizados".

A reportagem recebeu apenas algumas pistas sobre o problema de abastecimento: foi informada de que a matéria-prima do medicamento carbonato de lítio é nacional, vem de um único fornecedor, e que os laboratórios estão proibidos de importar de outros países.

O que diz a Anvisa?

A Agência esclarece que não há um instrumento legal que impeça laboratórios farmacêuticos de retirarem medicamentos do mercado. Mas explica que a regulamentação exige que as empresas comuniquem a descontinuação definitiva ou temporária da fabricação ou importação de medicamentos com pelo menos 180 dias de antecedência. Quando o problema é decorrente de algum imprevisto, a comunicação deve ocorrer em no máximo 72 horas, e o desrespeito à norma resulta em penalidades.

Após consultar o banco de dados sobre o carbonato de lítio, a Anvisa informa que não havia nenhuma notificação, mas lembrou que o mercado de medicamentos apresenta flutuações relativas a procedimentos de importação, estocagem, cadeia de distribuição etc, o que pode afetar os pontos de venda. Veja o que diz o restante da nota enviada pela agência:
"De acordo com nossos bancos de dados havia estoque do medicamento nas distribuidoras em 01/2020. Diante da denúncia, a ANVISA notificou o laboratório para esclarecimentos. Em resposta, o laboratório informou que, por ser um produto de alta rotatividade, não existia naquele momento estoque disponível, e esclareceu que as ações operacionais para retomada da produção estavam avançadas para que o reabastecimento do mercado ocorresse no mês de março de 2020. Informou, também, que o medicamento Carbolitium CR® (carbonato de lítio) 450 mg 30 comprimidos de liberação prolongada está passando por um desabastecimento momentâneo, em função de intercorrências no processo produtivo. No entanto, existem alternativas terapêuticas no mercado, como Carbolitium® 300 mg. A classe médica está sendo comunicada para que os tratamentos não sejam prejudicados. Estamos orientando os pacientes que procuram a Anvisa sobre esse tema que entrem em contato com o médico para o ajuste da medicação até que a situação se normalize. Diante de informação de que a empresa não notificou a descontinuação, foram tomados os procedimentos administrativos para apuração da irregularidade apontada."
Para a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), que também denuncia a falta não só de lítio, mas também do antidepressivo cloridrato de imipramina, os medicamentos não estão sendo produzidos pelos laboratórios privados e, infelizmente, ainda não existem nos laboratórios do governo brasileiro. "O desabastecimento ou a descontinuação desses medicamentos, que não possuem patente e são muito baratos, se produzidos pelo governo custariam centavos para a comercialização, configura crise na assistência médica, com risco de recaídas imediatas de graves transtornos mentais", opina a instituição, em carta divulgada à imprensa.

O farmacêutico e bioquímico Dirceu Raposo de Mello, que presidiu a Anvisa de 2005 a 2010, também defende que o governo aproveite a estrutura dos laboratórios públicos para corrigir casos de escassez gerados pela falta de interesse das farmacêuticas em drogas que, com o passar do tempo e aumento da concorrência, deixam de gerar lucro ou até causam prejuízo. "Quando há essa situação será que não vale a pena internalizar a produção?", provoca.

O ex-presidente da Anvisa cita outros cenários parecidos e perigosos, como a recente falta de penicilina benzatina, fármaco antigo que ainda hoje é usado para combater a sífilis, inclusive em recém-nascidos. Apenas quatro laboratórios produzem a substância para o mundo todo, justamente por ser antiga e barata. Isso coloca o Brasil, bem como outros países, em situação de extrema vulnerabilidade numa época em que autoridades apontam o aumento descontrolado dessa infecção sexualmente transmissível (IST).

"Penicilina da saúde mental"

O psicoterapeuta e instrutor de educação médica Mark Ruffalo, da Universidade da Flórida Central, nos EUA, é um dos profissionais que compara o carbonato de lítio ao antibiótico que revolucionou a história da medicina. Embora as propriedades terapêuticas da água rica em sais de lítio sejam conhecidas desde a Grécia antiga, foi só perto dos anos de 1950 que o tratamento para a então chamada "doença maníaco-depressiva" foi descoberto. Os estudos com o lítio, segundo Ruffalo, precederam os primeiros fármacos usados em psiquiatria.

O instrutor conta que as taxas de prescrição do lítio são baixas nos EUA em comparação com outros países, o que ele atribui, em grande parte, à falta de interesse econômico: "O lítio é muito barato, mesmo para quem não tem seguro saúde. Como as farmacêuticas nunca puderam patentear o lítio, elas nunca investiram em marketing [para a droga]; por isso, os médicos, hoje, são muito mais propensos a prescrever antipsicóticos e estabilizadores de humor de segunda geração, altamente propagandeados".

Outra questão apontada por alguns estudos sobre a baixa prescrição nos EUA é que o carbonato de lítio exige conhecimento dos médicos, exames prévios e monitoramento contínuo do paciente. É preciso testar os níveis na substância no sangue do paciente com regularidade, pois qualquer excesso pode ter efeito tóxico, em especial sobre a tireoide ou os rins. Isso sem contar efeitos colaterais como náuseas e tremores, que atrapalham a adesão.

Apesar de todos os riscos, o efeito parece milagroso para alguns pacientes. "Não acredito em Deus, mas acredito no lítio", resume a escritora norte-americana Jaime Lowie, em um dos artigos publicados sobre a luta para controlar os episódios de mania do transtorno diagnosticado aos 16 anos. Jaime tomou o medicamento por mais de duas décadas, mas foi obrigada a parar porque o uso prolongado afetou sua função renal. A impressão que dá, ao ler seus textos, é que nem a ameaça alterou sua admiração pelo lítio. "De fato, eu considerei continuar, mesmo sabendo que acabaria precisando de um transplante de rim", confirma.

No livro Mental - Lithium, Love, and Losing my Mind (Mental - Lítio, Amor e Perdendo a Cabeça, em tradução livre), ela não fala apenas sobre transtorno bipolar, mas também traz informações sobre o elemento por trás do remédio que lhe trouxe estabilidade. Para fazer a pesquisa, consultou médicos, visitou o Salar de Uyuni, na Bolívia (que concentra metade das reservas de lítio do mundo), conheceu fábricas de bateria na América e spas que oferecem banhos em águas com doses extras do mineral. Jaime também lamenta a atual falta de interesse na droga. "Há pesquisas que mostram que o lítio poderia ser útil para demência e Parkinson, mas é muito difícil obter financiamento para testar se isso é verdade ou não porque não há margem de lucro", comenta.

A escritora, hoje, está bem, mas avisa que levou cerca de nove meses tentando diferentes estabilizadores de humor até se adaptar ao atual. Tratamentos psiquiátricos costumam envolver mais de uma droga, por isso é preciso haver um ajuste fino que leve em conta resposta, interações e efeitos colaterais. Encontrar a combinação certa, em parceria com o psiquiatra, sempre leva tempo e exige paciência. Uma alquimia que não deveria ser ameaçada por questões econômicas.

Fonte: https://pfarma.com.br/noticia-setor-farmaceutico/saude/5514-falta-medicamento-transtorno-bipolar.html

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Entrevista com o dr. Jan A. Fawcett: transtorno bipolar e suicídio

Avaliando o risco de suicídio em pacientes com transtorno bipolar: entrevista com o especialista Dr. Jan A. Fawcett

Nota do editor: O suicídio é um resultado devastador da depressão e pacientes com transtorno bipolar passam mais tempo deprimidos do que os maníacos. Médicos que tratam pessoas com esta doença mental devem utilizar todas as ferramentas a sua disposição para prevenir o suicídio, já que trabalham com o paciente e com a família para estabilizar o humor e melhorar a função.

Dr. Jan A. Fawcett, professor de psiquiatria da University of New Mexico School of Medicine em Albuquerque, dedicou sua carreira ao estudo de transtornos do humor e suicídio. Nesta entrevista com Jessica Gould do Medscape, Dr. Fawcett fornece aos médicos os recentes conhecimentos sobre avaliação e tratamento do risco de suicídio em pacientes com transtorno bipolar.

Medscape: O que você acha que os médicos deveriam considerar quando avaliam o risco de suicídio em pacientes com transtorno bipolar?

Dr. Jan A. Fawcett: Os médicos devem saber que, em média, nos Estados Unidos, um suicídio ocorre a cada 30 tentativas. Em pacientes bipolares, a média é de um suicídio para cada três tentativas, o que confirma o maior risco de suicídio em pacientes com transtorno bipolar: suas tentativas são dez vezes mais letais.

Já que o comportamento suicida é muito mais provável de resultar em morte em pacientes bipolares quando comparados com o público em geral, deve-se ser tão cuidadoso quanto possível com esses pacientes. A primeira coisa que os médicos precisam saber é o atual estado do paciente e se o mesmo apresenta alguma ideação suicida.

Se o paciente vem tendo ideação suicida, o médico deve inquirir sobre planos suicidas específicos fazendo perguntas como, "Você já tentou se suicidar? Você tem pensado sobre isso? Você tem planejado isso?" Muitas pessoas têm uma ideação suicida vaga, mas não como muitos que têm planos específicos. Algumas pessoas ensaiam planos em sua mente e essa é uma situação muito séria.

Você também precisa saber se o paciente está gravemente agitado. Os pacientes bipolares muitas vezes apresentam estados de humor mistos, nos quais estão deprimidos e maníacos ao mesmo tempo. Em outras palavras, não estão eufóricos como muitos dos pacientes maníacos, eles estão irritáveis e têm energia aumentada. Esta é uma situação particularmente de risco para um paciente bipolar.

Medscape: Por que o estado bipolar misto impõe tamanho risco?

Dr. Fawcett: O estado bipolar misto, especificamente em relação à rapidez das mudanças de estado de humor, é difícil de monitorar. Você não pode tratar a depressão dos pacientes com antidepressivos porque pode induzir mudança cíclica de humor. Ainda que o paciente possa mostrar uma melhora inicial, o curso do paciente pode se deteriorar em estados mistos ou transtorno bipolar de ciclagem rápida. E a energia aumentada e a impulsividade de um estado misto combinado com a dor e a desesperança da depressão criam uma situação na qual a probabilidade de comportamento suicida aumenta. Estes são estados instáveis que devem ser prevenidos.

A outra questão, que está de acordo com algumas questões de minha própria pesquisa, é se o paciente está sofrendo de ansiedade grave, tal como representado por pensamentos ansiosos que o paciente não consegue controlar. Isto pode ser um sério fator de risco para suicídio. Em um estudo recente com 32.000 prontuários de pacientes bipolares,[2] o maior fator de risco para suicídio foi ser do sexo masculino e ter transtorno de ansiedade comórbido, comparado a ser jovem e ter um transtorno relacionado ao uso de droga, que são preditivos de tentativas de suicídio, mas não necessariamente suicídio.

Medscape: Quais são os desafios inerentes para medicar pacientes com transtorno bipolar que podem correr risco de suicídio?

Dr. Fawcett: Os pacientes deprimidos com transtorno bipolar normalmente não lembram muito bem de suas manias. Por isso, algumas vezes é difícil colher a história de uma mania anterior, porque os pacientes esquecem ou acreditam que estavam normais durante o episódio de mania. Se você tratar tais pacientes com um antidepressivo, pode piorar suas condições, colocando-os sob maior risco, caso desenvolvam humor cíclico ou estado misto. Isto é uma coisa que faz com que o tratamento de depressão em um paciente bipolar seja mais complicado quando comparado ao paciente unipolar. A outra situação desafiadora é o paciente com agitação presente ou ciclagem rápida de humor que tem que estar mais estável antes que você possa tratar sua depressão.

Medscape: Em um artigo de 2005 que você escreveu para Medscape, você disse que "certas formas de psicoterapia, particularmente terapia comportamental dialética, e talvez terapia cognitivo-comportamental e terapia interpessoal podem reduzir o risco de suicídio a longo prazo." Por favor explique isso.

Dr. Fawcett: Quando estiver avaliando pacientes com transtorno bipolar em relação ao risco de suicídio, o médico deve ter duas questões em mente. A primeira é o risco de curto prazo, que requer o tratamento da ansiedade do paciente ou da gravidade de seus ciclos de humor. Isto deve ser tratado, como discutido nesta entrevista, com medicações que possam reduzir rapidamente a ansiedade e agitação. Este não é o caso em que o paciente precisa de psicoterapia. Em controle de risco de longo prazo, no entanto, estas terapias podem ser eficazes. A terapia comportamental dialética pode ajudar pessoas com comportamento impulsivo e impulsos destrutivos, e é particularmente útil para pessoas com transtornos de personalidade, que tendem a materializar seus conflitos ao invés de pensar ou falar sobre eles. A terapia cognitivo-comportamental auxilia no estado de desesperança, que está relacionado com suicídio e o sentimento de que nada vai melhorar. A taxa de redução de suicídio é maior em pacientes bipolares que se mantêm em tratamento medicamentoso por seis meses ou mais.

Medscape: Qual é sua maior esperança em relação ao tratamento de pacientes bipolares que estão em risco de suicídio?

Dr. Fawcett: Bem, eu acredito que o reconhecimento crescente da importância da ansiedade como um sintoma passível de tratamento, visando a reduzir os riscos de suicídio, é muito importante. Isto emergiu apenas nos últimos 5-7 anos, com estudos mostrando um risco maior de comportamento suicida em pacientes com transtornos de ansiedade comórbidos. Ao mesmo tempo, Greg Simon mostrou que o suicídio, não apenas tentativas de suicídio, estava relacionado com ansiedade. Sintomas de ansiedade grave podem requerer tratamento adicional com clonazepam ou medicações antipsicóticas de segunda geração, que têm sido eficazes na redução de ansiedade grave e agitação quando administradas em conjunto com outras medicações para estabilização do humor.

Medscape: Qual é o maior desafio que os médicos enfrentam para reduzir o suicídio e o risco de suicídio entre pacientes com transtorno bipolar?

Dr. Fawcett: Bom, o desafio é obter informações para poder avaliar o risco imediato de um paciente em relação ao suicídio, que é uma avaliação difícil de fazer. Todo estudo que tentou determinar preditores de suicídio chegou à conclusão de que não há preditores - ao menos não estatisticamente significantes - que possam dizer ao médico que um paciente vai cometer suicídio. Precisamos de muito mais informações em relação ao que faria o suicídio ser altamente previsto para um futuro imediato. Eu acredito que isto ajudaria muito aos médicos.

Você não pode superdiagnosticar o transtorno bipolar, mas você também não pode ignorá-lo. O médico deve saber se um paciente tem história de comportamento ou plano suicidas. Se o paciente apresenta ansiedade significante, o médico deve saber disso também, e focar o fato no tratamento, já que os antidepressivos e estabilizadores do humor, sozinhos, não auxiliam nisso.
Até o momento, é uma batalha muito penosa diagnosticar e intervir para prevenir suicídio em uma sociedade livre, na qual os pacientes têm escolhas e, devido à depressão, desesperança e desânimo, podem desistir das possibilidades de recuperação. Esta é provavelmente a tarefa mais difícil dos médicos. Estamos perdendo pessoas, precisamos encontrar meios de tratá-las. É um desafio constante.

Esta entrevista foi publicada em colaboração com NARSAD, The Mental Health Research Association.

Referências bibliográficas

Baldessarini RJ, Pompili M, Tondo L. Suicide in bipolar disorder: risks and management. CNS Spectr. 2006;11:465-471. Abstract

Simon GE, Hunkeler E, Fireman B, Lee JY, Savarino J. Risk of suicide attempt and suicide death in patients treated for bipolar disorder. Bipolar Disord. 2007; 9:526-530. Abstract

Fawcett JA. Suicide and bipolar disorder. Medscape Psychiatry & Mental Health. 2005; 10. Available at: http://www.medscape.com/viewarticle/510318_6 Accessed December 9, 2007.

Informação sobre as autoras: Entrevistadora: Jessica E. Gould, BA, escreve sobre medicina como freelancer, Washington, DC. Entrevistado: Dr. Jan A. Fawcett, professor de psiquiatria, University of New Mexico School of Medicine.

Fonte: IPEMED - Instituto de Pesquisa e Ensino Médico do Estado de Minas Gerais
http://www.ipemed.com.br/ipemed_news.php?new=16

sexta-feira, 10 de abril de 2009

O filme, o livro, uma vida que poderia ter sido salva...

Giovanna Cantarelli postou em seu blog (9 out 2007) uma interessante análise sobre Ian Curtis, conhecido roqueiro que suicidou-se na década de 1980.

O jornal espanhol Público.es publicou esta semana (8 abril 2009) uma reportagem sobre o vocalista britânico, retomando o tema.

Destacaremos, pois, o que é dito nas duas matérias sobre a vida que poderia ter sido salva, se...:

Where will it end?

Vendo o filme "Control" e, principalmente, lendo o livro "Touching From a Distance" (escrito pela viúva Deborah Curtis), não é difícil perceber que a depressão de Ian Curtis, vocalista do bom e velho Joy Division, vinha de longa data. Independentemente da epilepsia. Impressionante o quanto o sistema de saúde do interior da Inglaterra naqueles meados da década de setenta me pareceu uma bela bosta. Porque qualquer psiquiatra de botequim (de pub da esquina, no caso) seria capaz de fazer esse diagnóstico.


É claro que falar agora, depois do acontecido, parece muito fácil. Você ouve "New Dawn Fades" com o Galvão Bueno berrando "eu já sabia" por cima da música.

Mas dá uma baita sensação de desperdício. Serotonina, menina, tem vitamina! Umas doses de fluoxetina, um toque de paroxetina, umas gotas de fluvoxamina e voilà! Ian Curtis poderia ainda estar entre nós.

Fonte: http://www.interney.net/blogs/dama/2007/10/09/where_will_it_end/

Ian não assumiu sua doença
por Jesús Rocamora

Conforme relata Deborah a este jornal, escrever a biografia "me ajudou a colocar as coisas em ordem e me deu a oportunidadse de falar com outras pessoas sobre o que havia ocorrido. (...) desde que o livro foi publicado, tenho pesquisado mais sobre o trastorno bipolar e sinto que entendo melhor o que Ian passou".

No livro, Deborah deixa entrever seu pouco conhecimento sobre as drogas e sobre a própria doença de Ian. Poderia ter sido evitado o trágico final? "Não sei o que mudaria se eu tivesse, na ocasião, mais conhecimento sobre drogas, epilepsia ou depressão. É muito difícil ajudar alguém com essas doenças, sem contar que antigamente havia menos apoio para se tratar estas enfermidades. Lutei muito para ajudá-lo. O que eu sei é que teria sido mais fácil se o próprio Ian e sua família houvessem assumido as doenças: poderíamos ter trabalhado juntos para superar as dificuldades".

Fonte: http://www.publico.es/culturas/217374/ian/asumio/enfermedad

Além, pois, de reconhecermos o quanto o tratamento médico, psicológico ou psiquiátrico poderia ter evitado essas e outras tragédias envolvendo depressão e suas tantas faces, podemos entrever, mesmo que superficialmente, o quanto o luto processado pela viúva de Ian, ao escrever o livro, a auxiliou a livrar-se de uns tantos pesos mortos... 

sábado, 3 de janeiro de 2009

Notícia sobre prevenção do suicídio (dez/2008)


Palestras debatem fatores associados aos suicídios
A chegada do Natal dispara um alerta entre psiquiatras e psicólogos

A chegada do Natal dispara um alerta entre psiquiatras e psicólogos. É neste período do ano que podem ocorrer suicídios entre pessoas que possam ter algum transtorno psicológico crônico ou estar passando por algum sério distúrbio desta natureza. Um fórum realizado na sexta, 5, e ontem, no auditório da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual do Piauí, pôs em debate os fatores relacionados às causas do suicídio e sua prevenção.

Na manhã do sábado, o palestrante do evento foi o médico psiquiatra cearense Fábio Souza, de Fortaleza. O tema abordado por ele foi o "Suicídio na Adolescência". Em sua explanação, Fábio apresentou um painel sobre problemas físicos e psicológicos que possam levar alguém a tirar a própria vida.

Segundo ele, o transtorno bipolar aliado à depressão é um dos fatores de alto risco. A depressão é um dos fatores que está intimamente ligada ao suicídio. É ela que reforça o sofrimento de pacientes com perdas recentes, problemas interpessoais, instabilidade familiar e a comoção causada pelo período natalino - que podem influenciar na decisão pelo suicídio.

"O Natal é uma época muito feliz para a maioria das pessoas, mas para quem sofre de algum transtorno psicológico o período pode vir a ser um momento muito ruim", salientou o psiquiatra. Doutor Fábio Souza afirma só tirar férias após o fim do ano, justamente para monitorar seus pacientes.

Na palestra, o médico apresentou dados científicos que constatam que os transtornos de humor são responsáveis por 38% dos fatores que podem influenciar na decisão pelo suicídio. Entre os fatores físicos, a esquizofrenia é responsável por 10% dos fatores destas mortes e o alcoolismo é responsável de 5% a 10% delas. "É bom lembrar sempre que o álcool é depressor do sistema nervoso central, já a partir do primeiro gole", ressaltou. O alerta é importante nesta época do ano em que o aumenta o consumo de bebidas alcoólicas.

O psiquiatra Fábio Souza é membro do Projeto de Apoio à Vida [Pravida], entidade que promove a prevenção do suicídio em Fortaleza, no Ceará. Criada em 2004, a organização faz atendimento ao público e capacitação dos voluntários que dela fazem parte. Todos os anos, no dia 10 de setembro, Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, o Pravida desenvolve ações na capital cearense como caminhadas de sensibilização. Só em 2007, o projeto atendeu cerca de 224 casos de possíveis suicidas. "Até agora, todos estes pacientes atendidos no ano, passado continuam vivos", garante o psiquiatra.

Fonte: http://180graus.brasilportais.com.br/geral/palestras-debatem-fatores-associados-aos-suicidios-70256.html
Data: 07/12/2008