sexta-feira, 6 de julho de 2012

É conversando que se entende, que se previne o suicídio


Falar mais sobre suicídio ajuda na prevenção, dizem especialistas
A falta de diálogo e reflexão sobre o tema, ainda tabu no Brasil, aumenta o sofrimento psíquico

Cida de Oliveira (Rede Brasil Atual)

Além disso, é crescente o número de pessoas em algumas regiões do Rio Grande do Sul e sobretudo entre os indígenas, que se enforcam, se intoxicam com medicamentos e agrotóxicos, como o chumbinho (substância também usada como veneno contra ratos), que disparam contra si próprios armas de fogo ou saltam de grandes alturas.

Considerado problema de saúde pública, o suicídio é definido como ato de deliberadamente tirar a própria vida. “No entanto, nem todas as pessoas que põem fim à própria vida estão em condições emocionais e mentais para tomar essa decisão sem a interferência de um problema mental ou falsas crenças”, diz Neury Botega, professor de Medicina da Universidade de Campinas (Unicamp) no documentário Suicídio no Brasil, realizado pelo Grupo de Pesquisa e Prevenção do Suicídio (PesqueSui), do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Seu coordenador, o pesquisador Carlos Eduardo Estellita-Lins, é organizador do livro Trocando seis por meia dúzia – Suicídio como emergência do Rio de Janeiro, lançado esta semana no Rio de Janeiro.

Conforme especialistas, o suicídio é resultado de uma combinação perigosa de depressão, alcoolismo, traços de impulsividade e outros problemas mentais, além da perda de esperança no futuro, da fé, dos sonhos utópicos. A maioria das vítimas brasileiras é de adultos jovens, do sexo masculino.

Para José Belisário Filho, psiquiatra especializado em infância e adolescência que também participa do documentário da Fiocruz, o período correspondente à infância encolheu e a adolescência aumentou. “Pela própria transitoriedade da fase, surgem no período mais ideações suicidas”, diz. Segundo ele, estudos mostram que o número de casos em idade escolar aumentou em comparação com o do século passado. “As pessoas têm medo de falar disso. E os jovens acham que têm algo de muito errado com eles quando têm esses pensamentos. Se eles pudessem dialogar sobre isso, iriam ver que muitos pensam ou pensaram como eles em algum momento da vida”, diz o especialista.

“O problema não é ter o pensamento suicida, mas não saber o que fazer com ele. Falta preparação dos adolescentes e jovens para o sofrimento”, completa Neury Botega, que considera que a falta de diálogo sobre suicídio é como jogar para debaixo do tapete um problema e ser surpreendido mais tarde por um caso fatal que poderia ter sido evitado.

Ainda segundo os especialistas, os serviços de saúde devem oferecer medidas para aumentar as chances de reflexão e ampliar as possibilidades de saídas para a angústia e para o sofrimento e que, assim, a pessoa em sofrimento psíquico encontre outras alternativas além do fim de sua própria existência.

Entre as medidas de prevenção apontadas estão campanhas divulgadas pela imprensa e, principalmente, a restrição de acesso aos meios letais, como o chumbinho, um agrotóxico usado como raticida que tem causado muitas mortes. Em alguns países, como a Austrália, houve redução nas taxas de suicídio depois de amplas campanhas e do desarmamento da população.

Em outros, há sucesso com a colocação de barreiras em plataformas de trens e metrôs e de intervenções em grandes edificações, como a colocação de redes, além da embalagem de comprimidos em cartelas-bolha em vez de soltos, em vidros. “Com isso dá tempo de chegar alguém enquanto a pessoa destaca comprimido por comprimido. Há uma chance de socorro”, diz Marcelo Tavares, do Núcleo de Intervenção ao Suicídio da Universidade de Brasília (UnB).  “A menor dificuldade que se coloca para o salto de uma janela, de um parapeito, pode levar a pessoa a refletir melhor se vale mesmo a pena aquele esforço”, diz Marcelo.

Seis por meia dúzia

O livro Trocando seis por meia dúzia – Suicídio como emergência do Rio de Janeiro é resultado de três anos de pesquisa realizada nos polos de emergência psiquiátrica do Rio de Janeiro. Relata o atendimento aos pacientes que atentam contra a sua própria vida nas emergências dos hospitais da cidade, e aborda as dificuldades dos profissionais de saúde desde a recepção até o atendimento pelo psiquiatra e, principalmente, a constatação da inexistência de serviços preparados para esta demanda.

O livro traz ainda depoimentos de profissionais, de sobreviventes e de camelôs que vendem o chumbinho, veneno dos mais procurados por suicidas, sem registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e vendido livremente.

Publicado em 05/07/2012
Fonte: http://www.redebrasilatual.com.br/temas/saude/2012/07/falar-mais-sobre-suicidio-ajuda-a-preveni-lo-dizem-especialistas

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Suicídio: morte evitável


Quando a morte pode ser evitada
Diene Batista
 
De um lado, jovens com idade entre 15 e 24 anos atravessando um período de indefinição: sem   autonomia econômica e emocional, eles precisam decidir sobre os rumos da própria vida. De outro, idosos na casa dos 70 anos que perderam a influencia na família e na sociedade. O desejo – muitas vezes levado a cabo – de tirar a própria vida aproxima essas duas faixas da população distantes etariamente.

É entre os jovens e os idosos que o suicídio mais cresce, segundo a psicoterapeuta e psicodramatista Célia Maria Ferreira da Silva Teixeira. De acordo com ela, a vontade de interromper a existência  é resultado de uma complexa interação entre fatores biológicos, psicológicos, sociais, culturais e ambientais.

A prática é considerada problema de saúde pública pela Organização Mundial da Saúde (OMS) porque impacta toda a rede de relacionamentos do indivíduo. “Família, amigos e colegas são os sobreviventes dos suicídios, morte que mais gera problemas emocionais graves e tipo de luto mais difícil de lidar”, detalha.

Fundadora do  Inter-Vir Suporte em Perdas, grupo que discute ações de prevenção do suicídio, ela defende que esse é um tipo de morte que pode ser evitada. Para tanto, seria necessário atuar em três frentes: políticas públicas voltadas para a área, a prevenção dessa prática e a capacitação dos profissionais que lidam com indivíduos que tentaram o suicídio.

No contexto brasileiro, entretanto, a perspectiva não é animadora. Segundo a psicoterapeuta, as políticas públicas em relação ao suicídio são raras: há apenas uma Portaria Ministerial define as  Dire­trizes Nacionais de Prevenção ao Suicídio. De acordo com Célia, na academia, as pesquisas sobre o tema são desdenhadas. O quadro parece ainda pior no âmbito da qualificação profissional, em que a formação visando o atendimento de pessoas que já tentaram suicídio é  quase inexistente.

Campanhas

Na última semana, o Inter-Vir realizou em parceria com o Centro de Atendimento em Estudos de Psicodrama (Caep), palestra para esclarecer sobre os riscos e as formas de prevenção do suicídio. A iniciativa contempla o artigo dois das Diretrizes Nacionais de Prevenção ao Suicídio: desenvolver estratégias de informação e de comunicação para mostrar a sociedade que esse é um tipo de morte evitável.
“Existem campanhas para prevenir problemas cardiovasculares, o câncer e os acidentes de trânsito. E campanhas de prevenção ao suicídio?”, questiona o  psiquiatra Heisler  Lima Vilela. A falta de visibilidade dos debates demostra o quanto o tema ainda é um tabu, apesar estar cada vez mais presente na sociedade.
De acordo com a OMS, nos últimos 45 anos as mortes provocadas intencionalmente aumentaram 60%. Estudos da mesma organização mostram ainda que o suicídio é a  6ª causa de óbito dos adultos com idade entre 15 e 69 anos em todo o mundo.

Vilela lembra que a tentativa de tirar a própria vida é uma maneira de tentar resolver em nível emocional algo que faz o indivíduo sofrer. O psiquiatra ressalta que há um sentimento de ambivalência envolvendo a situação vivida. “Em geral, quem tenta o suicídio não está totalmente decidido. A morte seria uma solução para sua dor, mas, ao mesmo tempo, ele quer viver”, explica.  

Levantamento da OMS aponta que 53% das pessoas que planejam e chegam a executar, sem sucesso, um plano de suicídio não seguem o tratamento médico após a 1ª tentativa. Ao ser atendido, porém, nem sempre esse paciente  recebe a assistência adequada, como lembra o psiquiatra Thiago Cézar da Fonseca.

Segundo Fonseca, para muitos profissionais de saúde trata-se de uma “demanda indigna”, especialmente em unidades já abarrotadas de doentes, como os prontos-socorros. “Esse paciente chega a ser vítima de piadas e comentários maldosos, que pioram a situação”, descreve.

Além das deficiências profissionais, o psiquiatra vê na ausência de Centros de Referência sobre suicídio uma lacuna que impede o mapeamento mais detalhado da ocorrência desse tipo de situação e dificulta a elaboração de políticas para a área.

Fonte: http://tribunadoplanalto.com.br

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Álcool e Suicídio


Alcoolismo e suicídios
Gláucio Soares (Pesquisador do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ)

Uma pesquisa de Pridemore sobre as relações entre alcoolismo e suicídio na Rússia mostra a existência de dimensões importantes que ajudam na compreensão dessas relações e na prevenção do suicídio. Foram analisadas as regiões russas, 78 no total. Como o sexo e a idade influem tanto sobre o alcoolismo, as variáveis tinham que ser controladas. E o foram.

A escolha da Rússia não é acidental. A Rússia é importante em muitos estudos. Em primeiro lugar, a Rússia é um país onde se bebe muito. Nemsov e Treml, separadamente, estimaram o consumo anual de álcool em 15 litros por pessoa, mais do dobro dos Estados Unidos. Em segundo lugar, a Rússia tem alta taxa de suicídios, cerca de 38 por 100 mil habitantes, abaixo apenas da Lituânia. Em terceiro lugar, a política da Rússia em relação ao alcoolismo oscilou muito no tempo, desde uma regulamentação estrita em toda a União Soviética, implementada por Gorbatchov, até um abandono dessas práticas, logo em seguida, por Yeltsin.

Estudiosos como Norström e Ramstedt distinguem culturas “molhadas” de culturas “secas”. Nas molhadas, o hábito de beber é frequente. Essas categorias diferenciam países com taxas mais altas de suicídio dos com taxas mais baixas.

Um conceito muito importante é o de binge drinking. Para o estudo do suicídio (e de outros comportamentos violentos), são importantes tanto o que se bebe quanto o como se bebe. Uma cultura com tradição vinícola, em que o vinho acompanha as refeições, tende a ter níveis de embriaguez mais baixos, com aumento muito menor do risco de comportamentos violentos, do que culturas em que a bebida é destilada.

As pesquisas de Belarus e Razvodovsky deixaram claro que a associação com o suicídio é menos intensa no caso de vinho e cerveja e mais intensa no caso de bebidas destiladas, como gin, vodca, rum ou cachaça. Na Rússia, a vodca responde por 75% do álcool consumido. Binge drinking, convencionalmente, se define por beber cinco ou mais doses em seguida, no caso de homens, e quatro, no caso de mulheres.

O alcoolismo atinge níveis que o caracterizam como problema de saúde pública. Notzon e equipe demonstraram que 12% da baixa na esperança de vida observada entre 1990 e 1994 se deveram ao álcool. Em alguns casos, os anos de vida perdidos são de tal magnitude que alguns definem o alcoolismo como problema de segurança pública.

Há outro fator importante nessa análise, ainda que mais difícil de medir: como a cultura (seja do país, da região, do estado, da cidade, do bairro, da etnia etc.) trata a embriaguez e os alcoólatras. Há muita variância: algumas culturas punem social e psicologicamente os que se embebedam, ao passo que outras são lenientes.

A Rússia, lembra Pridemore, não é apenas grande, é variada. Os hábitos também variam muito: as mortes por envenenamento alcoólico variam, assim como as taxas de suicídio. As taxas seguem, de maneira algo infiel, dois padrões: aumentam do sul para o norte e do oeste para o leste. Há, na Rússia, grandes diferenças nas taxas de suicídio, que variam de 7 a 93 por 100 mil habitantes entre as regiões. É usual medir as taxas de alcoolismo indiretamente, por meio das taxas de envenenamento alcoólico.

A análise mostra que o alcoolismo se relaciona tanto com o suicídio masculino quanto com o feminino. Vários autores chegaram aos mesmos resultados: consumir bebidas mais fortes, embebedando-se (querendo ou não), se associa com vários comportamentos violentos, como a violência doméstica, as brigas e agressões, os homicídios e os suicídios.

Correio Braziliense (Opinião)
Fonte: http://www.uniad.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=14626:alcoolismo-e-suicidios&catid=29:dependencia-quimica-noticias&Itemid=94

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Lançamento do livro “Trocando seis por meia dúzia: suicídio como emergência do Rio de Janeiro


Pesquisa sobre suicídio vira livro e mostra tema de forma delicada

O suicídio é pecado? É covardia? É fraqueza? É loucura? Pode ser tudo isso e mais outras tantas coisas. Mas, no Brasil vem se tornando cada vez mais um problema de saúde pública e é esse viés que é abordado no livro “Trocando seis por meia dúzia – Suicídio como emergência do Rio de Janeiro”, que será lançado na terça-feira, 3 de julho.

Organizado por Carlos Eduardo Estellita-Lins, coordenador do Grupo de Pesquisa de Prevenção do Suicídio - PesqueSui, do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict), da Fiocruz, o livro é resultado de três anos de pesquisa realizada nos pólos de emergência psiquiátrica do Rio de Janeiro. Ele relata o atendimento aos pacientes que atentam contra a sua própria vida nas emergências dos hospitais da cidade, enfocando também as dificuldades enfrentadas pelos profissionais de saúde, desde a recepção ao atendimento pelo psiquiatra, e a constatação da inexistência de serviços preparados para atender a esta demanda.

“Trocando seis por meia dúzia: suicídio como emergência do Rio de Janeiro” traz também dados da Organização Mundial de Saúde e do Ministério da Saúde, que aponta que no Brasil, entre 1998 e 2008, o número oficial de suicídios no país pulou de 6.985 para 9.328 casos, um aumento de 33,5%, superior ao crescimento da população (17,8%), ao número de homicídios (19,5%) e o de óbitos por acidentes de transporte (26,5%), todos no mesmo período.

Um dos pontos interessantes do livro, que tem apoio da Faperj, é que ele apresenta não só depoimentos de profissionais que trabalham na saúde e dos sobreviventes do suicídio, mas também de camelôs que comercializam o “chumbinho”, agrotóxico que não possui registro na Anvisa e é vendido livremente, que é um dos venenos mais procurados por quem quer se matar.

A pesquisa transforma em leitura agradável um tema delicado sem banalizá-lo, mas mostrando que é possível repensar a estratégia de divulgação de informação em saúde mental, como um caminho para reduzir o estigma, levando a reflexão e o debate sobre as políticas de saúde mental adotadas no país.

O lançamento será no dia 3 de julho, terça-feira, a partir das 18 horas, no Espaço Multifoco, na rua Mem de Sá, 126, Lapa. Na ocasião, será feita uma homenagem a psicanalista Neuza Santos Souza. A entrada é gratuita.

Obs.: Quem quiser assistir o documentário feito pelos pesquisadores, pode acessar o vídeo “Suicídio no Brasil” -


Publicada em: 26/06/2012 :: Por: Graça Portela


segunda-feira, 25 de junho de 2012

Modelo matemático aplicado ao estudo estatístico do suicídio


O Prof. Dr. Walter Sydney Dutra Folly, da  Universidade Federal de Sergipe vem desenvolvendo  pesquisas sobre modelagens matemáticas aplicadas ao estudo estatístico do suicídio.

Em 2011, ele publicou pela PLoS ONE, revista científica de acesso livre, o artigo intitulado "The Threshold Bias Model: A mathematical model for the nomothetic approach of suicide", cujo resumo em português segue abaixo. O link para artigo é este.


O Modelo da Tendência Limiar: Um modelo matemático para a abordagem nomotética do suicídio

Resumo
Análises comparativas de dados de suicídio oriundos de diferentes países são difíceis de realizar devido à diversidade de abordagens e à falta de parâmetros adequados para comparação. Neste trabalho foi testado um modelo matemático simples (o Modelo da Tendência Limiar), que pode ser utilizado em comparações e previsões de taxas de suicídio por idade. Este modelo consiste em uma distribuição com seis parâmetros que foi ajustada às taxas americanas de suicídio por idade referentes aos anos 2001 e 2002. Posteriormente, foram realizadas extrapolações lineares dos valores de parâmetro previamente obtidos destes anos de forma a estimá-los para o ano de 2003. As distribuições calculadas apresentaram razoável concordância com os dados estatísticos e o modelo também foi utilizado para estimar a idade acima da qual as taxas de suicídio tornam-se estatisticamente observáveis nos EUA, Brasil e Sri Lanka. O Modelo da Tendência Limiar apresenta considerável aplicabilidade em estudos demográficos de suicídio. Além disso, como pode ser utilizado para prever a evolução temporal das taxas de suicídio por idade, este modelo pode ser de grande interesse para suicidólogos e outros pesquisadores na área de saúde mental.

Palavras-chave:  suicídio, taxas de suicídio, abordagem nomotética, modelo matemático, distribuição

sábado, 23 de junho de 2012

Suicídio como "problema de saúde pública" e suas formas de prevenção


Causas do suicídio variam consoante as culturas
Paula Torres de Carvalho

As depressões decorrentes dos problemas causados pela crise podem ser uma explicação para o suicídio (Reuters)


Transformado num problema de saúde pública em muitos países, as causas do suicídio variam consoante as culturas e a sua prevenção passa por uma estratégia que limite o acesso às formas de o cometer: as armas nos EUA e os pesticidas na Ásia.

As notificações de mortes por suicídio aumentam em Portugal, segundo os dados oficiais mais recentes. O maior número de depressões em consequência da crise económica e social pode ser uma das explicações, segundo o secretário de Estado Adjunto e da Saúde Fernando Leal da Costa que, no passado mês de Abril, apontou o suicídio já como “um problema de saúde pública”.

Portugal junta-se assim aos países do mundo de baixos e médios rendimentos onde ocorrem 84% do total de 900 mil suicídios registados todos os anos, segundo estimativas da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Os mais recentes dados da Pordata, a base de dados sobre Portugal Contemporâneo, indicam que, em 2010, se suicidaram 1098 pessoas, mais 84 do que no ano anterior. Leal da Costa defendeu, então, medidas prioritárias para combater o problema cujo aumento justificou com o abandono social e as condições mais difíceis de sobrevivência que estão a afectar a população devido à crise.

Diferenças entre países

Estudos sobre o suicídio publicados na revista médica britânica The Lancet concluem que há cada vez mais provas de que existem grandes diferenças entre países e regiões e importa compreender essas diferenças para promover políticas de prevenção. “Melhorar a prevenção do suicídio exigirá uma melhor compreensão dos motivos e das formas como as pessoas decidem acabar com a vida” em diferentes partes do mundo, consideram os autores dos artigos publicados na Lancet.

Esta conclusão resulta dos “inesperados dados” de investigações realizadas na Índia e na China que indicam que “alguns dos factores de risco de suicídio que até agora eram assumidos como universais, variam profundamente de uma cultura para outra”. Na China e na Índia os suicídios são a segunda causa de mortalidade (49%) entre os jovens adultos dos 15 e os 29 anos, quase ultrapassando as mortes relacionadas com a gravidez e o parto que vitimam as mulheres.

O primeiro estudo representativo sobre o suicídio realizado nesses países “confirma o que se suspeitou durante décadas, que o suicídio é um grande problema de saúde” nesses países e que “não recebeu a atenção que merece”, consideram Michael Phillips e Hui G. Cheng, da Faculdade de Medicina da Universidade Jiao Tong de Shanghai, na China, num dos artigos.

Essas investigações revelam outro dado até agora desconhecido: um rosto mais feminino do problema. Apesar de os homens cometerem mais este acto, o número de mulheres está a aumentar. A análise realizada pela London School of Hygiene & Tropical Medicine, no Reino Unido, indica que, por cada suicídio feminino ocorrem 1,67 masculinos. O novo cálculo é o resultado do observado nestes países asiáticos – o ratio é de 1 para 1 na China e de 1 para 1,5 na Índia – onde as mulheres jovens das zonas rurais formam um grupo de risco especial.

A primeira surpresa e diferença relativamente aos países ricos foi o local da “residência”, já que no “primeiro mundo” os suicídios são mais habituais nas cidades e nos países em vias de desenvolvimento o suicídio acontece nos meios rurais. A segunda, foi descobrir que estar separada, divorciada ou viúva não sao factores determinantes para que as mulheres desses países se suicidem.

Os estudos realizados na China coincidem com estes resultados e referem outra diferença fundamental relativamente ao ocidente: a doença mental é muito menos frequente entre os que cometem suicídio e os que tentam.

No que respeita à prevenção do suicídio, uma das estratégias mais facilmente aplicáveis em qualquer lugar do mundo é a limitação do acesso aos meios mais utilizados para o cometer, como por exemplo, restringir as armas de fogo nos EUA ou dificultar a aquisição de pesticidas na Ásia que são a causa de metade dos suicídios, uma tese defendida pelos investigadores Keith Hawton, Alexandra Pitman e colaboradores.

Estudos publicados na Lancet
Fonte: www.publico.pt/Sociedade/prevenir-o-suicidio-dificultando-o-acesso-aos-meios-para-o-cometer-1551612