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terça-feira, 13 de outubro de 2015

A respeito do imperativo de cuidarmos uns dos outros e, principalmente, dos mais fragilizados!

O título é para chamar mesmo a atenção para o tema e para a obra abaixo indicado, leitura necessária aos pesquisadores e profissionais da área de saúde.

INDICAÇÃO BIBLIOGRÁFICA (Dissertação de Mestrado)

RESUMO 
O enfrentamento das questões relacionadas ao suicídio se torna cada vez mais importante nos dias atuais. A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que quase um milhão de pessoas se suicida a cada ano, sendo um ato comum em todas a faixas etárias. O significativo aumento das taxas de suicídio e os apelos da OMS para que os países enfrentassem o fenômeno, considerando-o um problema de saúde pública, contribuiu decisivamente para que o Brasil se tornasse o primeiro país da América Latina a ter uma proposta de ação nacional voltada à prevenção do suicídio. O desafio da construção de uma política de atenção relacionada ao suicídio passa pela formação de profissionais sensíveis à magnitude do problema em nossa sociedade. Este trabalho tem por objetivos discorrer sobre formas de efetivação do cuidado à pessoa que tentou o suicídio, identificar capacitações profissionais voltadas para os trabalhadores que atendem a essa demanda e identificar componentes da rede assistencial que atendem a pessoas que tentaram o suicídio no Rio de Janeiro. Foi possível observar que a capacitação profissional é uma forma importante e adequada para dirigir a informação e a sensibilização aos profissionais de saúde que atendem as pessoas que tentaram ceifar as
próprias vidas.
Palavras-chave: Suicídio. Cuidado em saúde. Capacitação Profissional. 
Obra disponível aqui.

sábado, 11 de janeiro de 2014

Suicídio & Saúde Pública

Suicídio deve ser tratado como questão de saúde pública

Adriana Martins/ Portal Fiocruz

Ao ano, quase um milhão de pessoas morrem em decorrência de suicídio. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o ato está entre as dez causas de morte mais frequentes em muitos países do mundo. No Brasil, são registradas 10 mil mortes por ano, com uma taxa de 4,8 a cada 100 mil habitantes, em 2008. Depois destes dados, podemos pensar o suicídio como uma questão de saúde pública? Especialistas na área de saúde mental defendem que sim. E acreditam que esses números podem diminuir se aumentarem os debates sobre o assunto. É o que faz a Fiocruz, por meio de pesquisas, projetos e capacitações. Profissionais de diversas áreas buscam desmitificar esse tabu e oferecer um melhor acolhimento a quem busca ajuda no Sistema Único de Saúde.

A troca de informações sobre suicídio pode ser muito útil para diminuir esses índices. A OMS estima que 90% dos casos podem ser evitados quando há oferta de ajuda. Em geral, seis meses antes de consumar o ato, pessoas com pensamentos suicidas procuram ajuda com profissionais, em especial em clínicas médicas. Esta constatação, feita pelo Grupo de Pesquisa de Prevenção do Suicídio (PesqueSui/Icict/Fiocruz), questiona o atendimento primário à saúde. "Quem já tentou o suicídio tem um risco ainda maior. Toda tentativa precisa ser olhada com atenção", diz a psicóloga Clarice Moreira Portugal, pesquisadora no grupo.

O PesqueSui realiza estudos sobre suicídio e ideação suicida, o uso de emergências psiquiátricas pela população e métodos de educação em massa sobre saúde mental. Em 2012, o grupo lançou o livro Trocando seis por meia dúzia – Suicídio como emergência do Rio de Janeiro, organizado pelo pesquisador Carlos Estellita-Lins. A obra relata o atendimento, nas emergências dos hospitais da cidade, a pacientes que tentaram se matar. Estellita diz que entre as principais dificuldades enfrentadas pelos profissionais de saúde no atendimento desses casos no Brasil estão a precariedade na formação em urgências psiquiátricas e em suicidologia. "Precisamos admitir que o suicídio é uma questão que diz respeito a todos os profissionais de saúde. Todos nós devemos buscar capacitação profissional para lidar com isto", afirma.

Nos últimos 45 anos, as taxas de morte por suicídio tiveram aumento de 60% no mundo, como mostra a OMS, ficando entre as três causas de morte mais frequentes em populações de 15 a 44 anos, em alguns países, e a segunda maior causa em grupos de 10 a 24 anos, em outras regiões. Nas populações brasileiras, houve um crescimento de suicídio entre os jovens, idosos, além de uma interiorização dos casos. Em 2008 foram registrados altos índices nas regiões de Amambaí e Paranhos, ambos no Mato Grosso do Sul: 49,3 e 35 casos de suicídio por 100 mil habitantes, respectivamente, segundo o DataSUS – Banco de dados do Sistema Único de Saúde. Em Ibirubá (RS), 34,5. Já Nova Prata do Iguaçu (PR) está em 15º lugar no Brasil, com 24,7 casos. Em Mato Grosso do Sul, as comunidades indígenas tem taxas bem elevadas. No Rio Grande do Sul a incidência é maior em comunidades de colonos ou aquelas ligadas à indústria fumageira.

Essas são as informações registradas. Mas o que acontece muito é a subimputação e mesmo subregistro dos óbitos. Ao examinar no DataSUS as mortes por causas externas o PesquiSui verificou uma ampla fatia de óbitos não especificados. É possível que mais de 20% destes sejam suicídios não investigados ou deliberadamente subtraídos no preenchimento do atestado.

'Falar sobre suicídio não provoca o suicídio'

Por ser um tabu, existem limitações para abordar o tema. Na tentativa de evitar mais casos, o Ministério da Saúde propos, em 2005, a Estratégia Nacional de Prevenção ao Suicídio, a qual cria grupos de trabalho, diretrizes nacionais, seminários, além do Manual de Prevenção do Suicídio para Profissionais das Equipes de Saúde Mental, lançado em 2006. Entre as ações da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), um manual de imprensa esclarece jornalistas sobre termos específicos e traz um panorama com dados e informações gerais que permitem uma compreensão mais adequada da saúde mental; e uma outra publicação, o livreto Comportamento suicida: conhecer para prevenir, orienta profissionais da imprensa sobre como abordar o tema, preservando o direito à informação e contribuindo para a prevenção.

"Falar sobre suicídio não provoca o suicídio", diz a especialista em saúde mental Maria Fernanda Cruz Coutinho, que também integra o PesqueSui. "Colocar a questão em pauta na mídia, nas escolas e instituições permite que se converse mais sobre isto. É preciso fazer circular, de modo global, informações a pacientes, familiares e profissionais da saúde", reforça.

Além do PesqueSui, na Fiocruz, outras iniciativas desenvolvem trabalhos e projetos estratégicos em saúde mental para capacitar profissionais da saúde, qualificar o campo de pesquisa e fortalecer políticas públicas de saúde, de direitos e do cuidado integral em saúde mental e de campos relacionados. Dentre estes podemos citar o Laboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental (Laps), vinculado à Escola Nacional de Saúde Pública e o Grupo de Trabalho em Saúde Mental, que fica na Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), dentro do Laboratório de Educação Profissional em Atenção à Saúde (Laborat). A pesquisadora Nina Soalheiro, associada aos dois grupos, ressalta que a atenção básica, enquanto porta de entrada da rede pública de saúde, "pode e deve identificar os sinais, a gradação do sofrimento, as características que o paciente com tendência suicida apresenta, seja por meio de pensamentos de desesperança, desespero ou desamparo". Nina coordena o curso de especialização técnica de nível médio em saúde mental na Escola Politécnica, que, assim como o curso de especialização do Laps/Ensp, coordenado pelo professor Paulo Amarante, inclui em seu currículo a discussão sobre o suicídio como um problema e uma desafio para a saúde pública.

Suicídio no Brasil: documentário apresenta dados epidemiológicos, percepção social e formas de enfrentamento do problema

Além destas ações, a Fundação também aposta em meios de ampliar o acesso à informação. A pedido do PesqueSui, o historiador e documentarista Eduardo Thielen, da VideoSaúde Distribuidora da Fiocruz, teve um novo desafio: transpor os debates sobre saúde mental para a linguagem audiovisual, criando imagens e textos para comunicar as informações. O resultado foi positivo. Embora o grande desafio tenha sido como encarar o tema, que é um tabu, o filme Suicídio no Brasil conseguiu abordar o tema falando que o fato existe, mostrou os grupos de risco e a que fatores estão associados.

"A proposta era dar uma introdução geral à ideia de suicídio, com base nas pesquisas feitas, em especial às do PesqueSui, com uma linguagem compreensível à maioria da população", diz Thielen. Para dar a 'voz do povo' ao documentário, ou seja, uma opinião sob o ponto de vista do senso comum, foram feitas entrevistas com transeuntes na Praça XV, no Centro do Rio de Janeiro. Lá, mais surpresas. "O mais curioso foi a facilidade das pessoas ao falar sobre o assunto. Quando levantamos o tema, sempre havia um ou outro com histórias para contar".

A ideia de Thielen é que o documentário tenha uma segunda parte, para abordar grupos de risco, como adolescentes, idosos e indígenas. Para os interessados em saber mais sobre a questão, Thielen recomenda o filme nacional Elena, idealizado a partir das lembranças da diretora Petra Costa sobre sua irmã que cometeu suicídio.

O vídeo Suicídio no Brasil está em acesso aberto na internet. Para os interessados em obter uma cópia, os pedidos podem ser feitos com a VideoSaúde Distribuidora.

Fonte: http://www.ensp.fiocruz.br/portal-ensp/informe/site/materia/detalhe/34477#

sábado, 3 de novembro de 2012

Documentário sobre suicídio


Suicídio no Brasil
UTV - RJ (Canal 11 da NET)
21/11, quarta-feira, 21h30
Horários alternativos: sábado, 13h; segunda-feira, 15h

O suicídio é um problema de saúde pública ainda considerado um tabu. Com a ideia de que a informação é um passo decisivo para romper o tabu social e trabalhar a prevenção, o documentário produzido pelo Grupo de Pesquisa de Prevenção do Suicídio, em parceria com a VideoSaúde, apresenta informações como dados epidemiológicos, percepção social e formas de enfrentamento. A direção é de Eduardo Thielen.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Suicídio de idosos no Brasil: estudo financiado pela ENSP


Pesquisa revela perfil do suicídio de idosos no Brasil

Com o objetivo de compreender a magnitude e a significância do suicídio na população brasileira acima de 60 anos, pesquisadores do Centro Latino-Americano de Estudos de Violência e Saúde Jorge Careli (Claves/ENSP), em parceria com pesquisadores de programas de pós-graduação e serviços de saúde de diversos estados brasileiros, desenvolveram a pesquisa É possível prevenir a antecipação do fim? Suicídio de idosos no Brasil e possibilidades de atuação do setor saúde. O estudo, financiado pelo Programa Inova ENSP – que incentiva e apoia investigações de temas novos que possam contribuir estrategicamente para o avanço da saúde pública –, resultou em importantes frutos.

O primeiro deles foi o lançamento do número temático da Revista Ciência e Saúde Coletiva (volume 17, número 8), que reúne artigos de todos os pesquisadores que participaram do estudo, sendo três de cunho epidemiológico que tratam da magnitude do fenômeno no país, por regiões e por municípios, segundo sexo e segmentos de idade entre os idosos e fatores de risco. A outra parte do conjunto de textos disponíveis na edição temática discute os aspectos qualitativos das mortes autoinflingidas e traz, entre outros aspectos, informações circunstanciadas dos casos, impactos na família, clivagem de gênero e análise dos instrumentos utilizados para a pesquisa, descrição do trabalho de campo e, por fim, a análise de uma experiência de prevenção.

O grupo apresenta também um sumário executivo que resume para leigos o conjunto de informações e oferece sugestões para prevenção. Esse sumário executivo, mais um fruto da pesquisa, foi apresentado à sociedade durante a realização do I Seminário Nacional sobre Prevenção de Suicídio de Pessoas Idosas, realizado, de 29 a 31 de agosto, no Hotel Novo Mundo, no Rio de Janeiro. Participaram cerca de 300 pessoas oriundas de 16 estados brasileiros e com representação de todas as regiões. Entre elas, profissionais de diversas áreas: médicos, psicólogos, psiquiatras, enfermeiros, fisioterapeutas, assistentes sociais, advogados, pedagogos, nutricionistas, administradores, empresários, arteterapeutas, cuidadores de idosos, técnicos judiciários, pesquisadores, voluntários e alunos de pós-graduação em medicina, enfermagem, geriatria, políticas públicas e psicologia.

O seminário chamou atenção para temas como o acelerado envelhecimento da população brasileira, sobretudo da população acima de 75 anos; a magnitude, a localização e os fatores de risco para o suicídio de idosos; o resultado de um estudo qualitativo baseado nas chamadas autópsias psicossociais; a metodologia e os instrumentos empregados no estudo; a questão de gênero que tem grande peso na apresentação do fenômeno; as consequências do suicídio dos idosos em suas famílias; e as propostas de prevenção e recomendações para o setor saúde. De acordo com Cecília Minayo, coordenadora científica do Claves/ENSP, o seminário propôs a reflexão sobre um tema muito importante e presente em várias áreas disciplinares e diversos campos de atuação. E foi esse o tema tratado na pesquisa É possível prevenir a antecipação do fim? Suicídio de idosos no Brasil e possibilidades de atuação do setor saúde.

Leia abaixo a entrevista com a coordenadora sobre o desenvolvimento e os resultados da pesquisa.

Informe ENSP: Como foi realizado o desenvolvimento da pesquisa É possível prevenir a antecipação do fim? Suicídio de idosos no Brasil e possibilidades de atuação do setor saúde?

Cecília Minayo: O estudo foi realizado no período de 2010 a 2012 e contemplou uma dimensão de magnitude (abordagem epidemiológica) e outra de aprofundamento (abordagem qualitativa psicossocial). Do ponto de vista epidemiológico, abrangeu todos os idosos com 60 anos ou mais que faleceram por suicídio no período de 1980 a 2009 no Brasil. Foram realizados três estudos que permitiram dimensionar o problema nacionalmente e, ao mesmo tempo, subsidiar a elaboração de critérios para a realização da pesquisa qualitativa, foco principal do estudo.

A pesquisa epidemiológica trouxe um conhecimento abrangente e geral sobre o fenômeno do suicídio. Mas foi nosso escopo conhecer as circunstâncias em que os idosos estão morrendo por suicídio no Brasil. A resposta a essa indagação só foi possível por meio de um estudo qualitativo que promoveu uma contextualização das localidades e dos casos e teve como base o instrumento chamado autópsia psicossocial (estratégia de investigação dos suicídios consumados).

Informe ENSP: Quais foram as regiões escolhidas para o desenvolvimento do estudo?

Cecília Minayo: Foram estudados pelo menos cinco casos de idosos e idosas que faleceram por suicídio em cada dez municípios, o que equivale a um total de 50 casos pesquisados qualitativamente. A pesquisa qualitativa foi realizada Manaus (Amazonas), no Norte; Fortaleza e Tauá (Ceará), e Teresina (Piauí), no Nordeste; Campo Grande e Dourados (Mato Grosso do Sul), no Centro-Oeste; Campos de Goytacazes (Rio de Janeiro), no Sudeste; e Venâncio Aires, Candelária e São Lourenço (Rio Grande do Sul), no Sul. O Norte e o Sudeste tiveram representação de apenas uma localidade cada um. No Norte, isso se explica porque o levantamento estatístico mostrou existirem, em toda a série histórica, baixas taxas de suicídio. E no Sudeste porque ela havia sido contemplada com uma investigação sobre o mesmo tema e pelas mesmas coordenadoras do projeto em 2009. Assim, demos ênfase ao Sul, Nordeste e Centro-Oeste, regiões onde foram identificadas elevadas taxas de mortes de idosos por suicídio.

Informe ENSP: Quais foram as dificuldades encontradas em relação ao acesso às famílias das vítimas e às instituições de saúde?

Cecília Minayo: Os pesquisadores apontaram alguns impasses ocorridos no trabalho: dificuldade de algumas instituições em dar acesso aos dados; problemas na localização das famílias; recusa de familiares em falar sobre o fato; episódios de negação ou de dúvidas por parte de alguns parentes durante os encontros; questionamento se realmente seu familiar idoso havia se suicidado; e não comparecimento de alguns interlocutores às entrevistas agendadas. Outra dificuldade encontrada foi a exigência da assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido por parte dos participantes, como preconiza a Resolução sobre Ética da Pesquisa com Seres Humanos do Ministério da Saúde. Isso porque alguns familiares tiveram medo de se expor e se recusaram a firmá-lo, com receio de qualquer comprometimento judicial. Essas pessoas que se recusaram não foram incluídas na pesquisa.

Informe ENSP: Quais foram os resultados encontrados pela pesquisa?

Cecília Minayo: Verificamos que, nos triênios de 1997–2000 e 2003–2006, 3.039 municípios brasileiros tiveram registros e casos de suicídio de pessoas com mais de 60 anos. Isso corresponde a 54,6% do total de municípios. De 1980 a 2008, as taxas de suicídio na população geral no país passaram de 4,0 em cada 100 mil habitantes para 4,8. Esses índices foram mais ou menos constantes e demonstram uma leve tendência de crescimento. No entanto, o país se mantém entre os que têm menores taxas, segundo os critérios da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Esse crescimento suave – porém consistente – se deve, sobretudo, ao crescimento das mortes autoinfligidas na população masculina de todas as idades e, especialmente, na população acima de 60 anos. Dos 50 municípios brasileiros com os índices mais elevados de mortes autoprovocadas entre pessoas acima de 60 anos, 90% estão no Sul. O Norte é a região que apresenta as menores taxas. Constatou-se também que os idosos morrem principalmente em suas próprias residências (51%).

Informe ENSP: Como o próprio nome da pesquisa questiona, é possível prevenir a antecipação do fim? Como o setor saúde deve atuar para reduzir os casos de mortes de idosos por suicídio?

Cecília Minayo: O desafio da prevenção do suicídio consiste em identificar pessoas em situação de vulnerabilidade, entender as circunstâncias que influenciam seu comportamento suicida e estruturar intervenções eficazes. A prevenção deve ser classificada em termos universais, seletivos e específicos. A prevenção chamada universal visa reduzir a incidência de novos casos por meio de ações educativas; a seletiva concentra-se em grupos expostos a situações de risco; e a específica dirige-se aos indivíduos – ou seja, exige-se uma ação individual para cada caso – que manifestam desejo ou ideação suicida.

As propostas brasileiras seguem uma tendência de realizar ações de prevenção que já estão sendo efetivadas em diversos países do mundo, muitas das quais por meio de rastreamento de situações de vulnerabilidade e ações educativas. Há evidências de resultados de programas exitosos em países europeus, nos Estados Unidos e no Japão, onde as taxas de suicídio são muito mais elevadas que no Brasil. Tais programas vêm diminuindo significativamente as mortes autoinflingidas nesses países. Todos os programas de intervenções com o objetivo de prevenir seguem orientações da OMS. E é preciso deixar claro que as famílias, os profissionais de saúde e de assistência social e ONGs destinadas a prevenir a morte por suicídio podem fazer muito pelas pessoas. No entanto, cada caso é um caso e existe uma decisão individual e intransferível em cada ato suicida.

No Brasil, enquanto avançaram as propostas para a população em geral, nada tem sido preconizado para os casos de suicídio de idosos. Isso é compreensível, pois a literatura nacional sobre o tema jamais havia privilegiado esse grupo. Podemos dizer que, em relação à população de 60 anos ou mais, muito do que é aconselhado nos documentos nacionais é importante, mas não é suficiente. As ações propostas para a população em geral incluem a melhoria da qualidade de vida dos grupos mais atingidos e a eliminação do estigma em torno do tema.

A proposta de atenção integral e o atendimento de pessoas em situação de risco e vulnerabilidade em linhas de cuidado constituem um dos cenários para a organização de políticas de atenção, tendo em mente a integralidade e a ação intersetorial. É muito importante ressaltar que pouco se sabe no país de atuações concretas em relação à problemática do suicídio, mesmo em locais onde as taxas são muito elevadas. E devemos oferecer aos idosos uma atenção peculiar baseada nos fatores associados que são, principalmente, o isolamento social, o sofrimento intenso por doenças degenerativas, a perda do sentido da vida, os vários tipos de depressão, entre outros.

domingo, 8 de julho de 2012

Entrevista com Carlos Estellita-Lins

Suicídio é uma dor silenciosa

Envolto por uma dor extremamente silenciosa, o suicídio é algo carregado de preconceito e estigma. No século 20, o filósofo existencialista Albert Camus classificava-o como “o único tema filosófico realmente sério”, no livro O Mito de Sísifo.

No Brasil, o suicídio começa a ser considerado um problema de saúde pública e chama atenção pelo crescimento: o número de suicidas no país passou de 4,2 para 4,9 em cada 100 mil habitantes na população de todas as idades, e de 4,4 para 5,1 a cada 100 mil jovens entre 1998 e 2008.

Psiquiatra, psicanalista e coordenador do Grupo de Pesquisa de Prevenção do Suicídio – PesqueSui, da Fiocruz, Carlos Estellita-Lins é organizador do livro Trocando seis por meia dúzia – Suicídio como emergência do Rio de Janeiro, lançado recentemente. Nesta entrevista, concedida por telefone para a Gazeta do Povo, ele fala sobre o tema.

O aumento no número de suicídios preocupa?

Há uma preocupação crescente com o suicídio no mundo em lugares onde há taxas de 35 a 45 casos a cada 100 mil habitantes – que são bastante elevadas – como na Rússia e nos países eslavos.

Contudo, no Brasil o que verificamos é um crescimento entre os jovens, idosos e uma interiorização, ou seja, municípios menores têm mostrado taxas mais altas. Em 2008 foram registrados números intrigantes e alarmantes em Amambaí e Paranhos, ambos no Mato Grosso do Sul, com 49,3 e 35 casos de suicídio por 100 mil habitantes, respectivamente, segundo o Datasus.

Em Ibirubá (RS) o índice é de 34,5. Já Nova Prata do Iguaçu (PR) está em 15.º lugar no Brasil, com 24,7 casos. Em Mato Grosso do Sul, as comunidades indígenas respondem claramente pelas taxas elevadas. No Rio Grande do Sul a incidência é maior em comunidades de colonos ou aquelas ligadas à indústria fumageira.

Quais sãos os principais distúrbios relacionados à prática do suicídio?

É importante observar que o suicídio não é algo isolado, é desfecho de alguns distúrbios. Boa parte dos suicídios, talvez acima de 60%, está diretamente ligada a estados depressivos, incluindo as chamadas doenças afetivas, como o transtorno bipolar. Mas qualquer depressão mais grave, na qual a pessoa esteja em situação de dificuldade e de falta de apoio social, pode levar ao suicídio. A prática também está bastante associada ao uso de drogas e é algo mais comum do que a gente imagina.

As pessoas não necessariamente tentam o suicídio quando adoecem, mas muita gente está exposta a isso em função de estresse grave, conflitos psíquicos, por uma enfermidade concomitante e por uma suscetibilidade biológica. Há também casos de psicose, especialmente a esquizofrenia, em que o suicídio ocorre quando o tratamento é inadequado ou insuficiente.

Por último, sabemos que a impulsividade, característica de personalidade, também aumenta o suicídio quando somada a esses aspectos que mencionamos. Temos um contingente grande de pessoas sob esse risco. Também notamos que a vida moderna, ou seja, a vida desumanizada, excessivamente mecanizada, com poucas relações sociais, com pouca rede social, parece ser danosa. Há menos saúde mental e mais suicídios.

Há uma tendência na população em não falar sobre o assunto. Isso é um problema?

A pesquisa percebeu que a comunidade tende a não falar sobre suicídio em razão dos vários aspectos já conhecidos: preconceitos religiosos, estigma, mas também pelo fato de as pessoas deprimidas serem mal vistas pela família, por amigos ou pela comunidade em geral. Não se compreende bem o que é a depressão.

A população mais carente, mais dependente de renda, tende a ver alguém que não está trabalhando como moralmente condenável, preguiçoso. Assim, a depressão é sempre mal compreendida, o que parece agravar a situação.

Além disso, muitas vezes o suicídio é visto como uma fraqueza moral, ou seja, quem pratica o suicídio é tido como alguém que desistiu e, portanto, não seria uma pessoa digna, o que é incorreto.

A experiência de depressão e de suicídio é algo muito silencioso porque existe tabu e porque todos nós estamos despreparados, os profissionais de saúde e a comunidade. Também é silenciosa porque se trata de uma experiência limite-humana que merece todo respeito, cuidado e carinho, mas na enorme maioria dos casos precisa de tratamento adequado.

Como avalia a forma como a sociedade lida com o sofrimento psíquico? Há profissionais preparados para o tratamento e prevenção?

O suicídio é um assunto extremamente difícil de lidar e não é exclusivo do psiquiatra, do psicólogo, do psicoterapeuta, mas de todo profissional de saúde.

Na Europa já existe uma tendência que diz ser um assunto da comunidade como um todo. Quer dizer que cada cidadão tem de se preocupar e tentar ajudar. O outro extremo é o treinamento dos profissionais, especialmente nas emergências.

O que temos percebido em alguns estudos é que as emergências psiquiátricas estão muito defasadas, existe pouco treinamento do residente e ainda são separadas da emergência geral, o que é uma tendência antiga.

Como a mídia deve tratar o suicídio?

Há dois aspectos importantes. Um é o fato de a Organização Mundial de Saúde (OMS), no início da década de 2000, ter feito recomendações para os profissionais de imprensa no mundo todo, especialmente jornalistas. Essas recomendações foram prudentes no sentido de não se veicularem notícias de pessoas famosas de uma maneira descuidada. O segundo é que nessas recomendações há uma preocupação no sentido de que não se deixe de noticiar.

Não se trata de esconder o assunto nem torná-lo tabu, mas sim sempre dizer que é um distúrbio, que é tratável, que é passível de prevenção, portanto se deve noticiar com cuidado. Também é importante não informar precisamente os meios utilizados [para cometer o ato], ainda mais quando a pessoa é pública. Isso pode ser útil porque você não está dando sugestões para quem é suscetível.

Data de publicação: 8/7/2012
 http://www.gazetadopovo.com.br/vidaecidadania/conteudo.phtml?tl=1&id=1272963&tit=Suicidio-e-uma-dor-silenciosa

Minicurrículo
CARLOS EDUARDO ESTELLITA-LINS
Médico psiquiatra, doutor em Filosofia (UFRJ), professor e pesquisador do ICICT/Fiocruz
Possui graduação em Medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (1983), mestrado em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1993) e doutorado em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2001). Atualmente é professor&pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz. Tem experiência na área de Medicina (psiquiatria clínica), com ênfase em Psiquiatria da Infância e Adolescência, atuando principalmente nos seguintes temas: psicanálise, cuidado, acompanhamento terapêutico, educação em saúde, psicoeducação, relação mãe-bebê, face, psiquiatria da infância e adolescência e psiquiatria comunitária. Desenvolve igualmente pesquisa em epistemologia da saúde e estudos sociais da ciência na área biomédica com ênfase na obra de Georges Canguilhem, em epidemiologia clínica e EBM. Desde 2007 vem se dedicando ao estudo da suicidologia e seus nexos clínicos, epidemiológicos, de saúde pública, ciência da informação e comunicação e saúde.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Lançamento do livro “Trocando seis por meia dúzia: suicídio como emergência do Rio de Janeiro


Pesquisa sobre suicídio vira livro e mostra tema de forma delicada

O suicídio é pecado? É covardia? É fraqueza? É loucura? Pode ser tudo isso e mais outras tantas coisas. Mas, no Brasil vem se tornando cada vez mais um problema de saúde pública e é esse viés que é abordado no livro “Trocando seis por meia dúzia – Suicídio como emergência do Rio de Janeiro”, que será lançado na terça-feira, 3 de julho.

Organizado por Carlos Eduardo Estellita-Lins, coordenador do Grupo de Pesquisa de Prevenção do Suicídio - PesqueSui, do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict), da Fiocruz, o livro é resultado de três anos de pesquisa realizada nos pólos de emergência psiquiátrica do Rio de Janeiro. Ele relata o atendimento aos pacientes que atentam contra a sua própria vida nas emergências dos hospitais da cidade, enfocando também as dificuldades enfrentadas pelos profissionais de saúde, desde a recepção ao atendimento pelo psiquiatra, e a constatação da inexistência de serviços preparados para atender a esta demanda.

“Trocando seis por meia dúzia: suicídio como emergência do Rio de Janeiro” traz também dados da Organização Mundial de Saúde e do Ministério da Saúde, que aponta que no Brasil, entre 1998 e 2008, o número oficial de suicídios no país pulou de 6.985 para 9.328 casos, um aumento de 33,5%, superior ao crescimento da população (17,8%), ao número de homicídios (19,5%) e o de óbitos por acidentes de transporte (26,5%), todos no mesmo período.

Um dos pontos interessantes do livro, que tem apoio da Faperj, é que ele apresenta não só depoimentos de profissionais que trabalham na saúde e dos sobreviventes do suicídio, mas também de camelôs que comercializam o “chumbinho”, agrotóxico que não possui registro na Anvisa e é vendido livremente, que é um dos venenos mais procurados por quem quer se matar.

A pesquisa transforma em leitura agradável um tema delicado sem banalizá-lo, mas mostrando que é possível repensar a estratégia de divulgação de informação em saúde mental, como um caminho para reduzir o estigma, levando a reflexão e o debate sobre as políticas de saúde mental adotadas no país.

O lançamento será no dia 3 de julho, terça-feira, a partir das 18 horas, no Espaço Multifoco, na rua Mem de Sá, 126, Lapa. Na ocasião, será feita uma homenagem a psicanalista Neuza Santos Souza. A entrada é gratuita.

Obs.: Quem quiser assistir o documentário feito pelos pesquisadores, pode acessar o vídeo “Suicídio no Brasil” -


Publicada em: 26/06/2012 :: Por: Graça Portela


segunda-feira, 12 de março de 2012

Fiocruz lança vídeo 'Suicídio no Brasil'


Vídeo 'Suicídio no Brasil' será lançado na próxima terça-feira

Graça Portela

Em uma parceria entre a VídeoSaúde e o grupo de pesquisa de Prevenção ao Suicídio, ambos do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz), será lançado em 13 de março, às 14h, o vídeo Suicídio no Brasil, que aborda esse delicado e pouco conhecido problema de saúde pública, com dados epidemiológicos, percepção social e formas de enfrentamento.

O evento, que é aberto a profissionais da área de saúde e também ao público, terá uma mesa redonda com a participação de Umberto Trigueiros, diretor do Icict, Carlos Estellita-Lins, coordenador do Grupo de Pesquisa Sobre Prevenção do Suicídio, do LICTS/Icict (Laboratório de Informação e Comunicação Científica e Tecnológica), Eduardo Thielen, diretor do vídeo e da VideoSaúde, e Homero de Carvalho, da VideoSaúde/Neavs (coordenador).

Após a exibição, o diretor do vídeo, Eduardo Thielen, debaterá com o público.

Serviço
Lançamento do vídeo Suicídio no Brasil
Data e horário: 13/3, às 14h
Local: Icict/Fiocruz - Avenida. Brasil 4.365 - Pavilhão Haity Moussatché – Manguinhos

Fonte: http://www.fiocruz.br/ccs/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=4548&sid=14

terça-feira, 8 de junho de 2010

Suicídio e mídia: debate em aberto

Seminário debate abordagem do suicídio na mídia

Renata Moehlecke

Para os jornalistas, as notícias sobre suicídio trazem à tona um dilema: como conciliar o dever de informar e, ao mesmo tempo, não provocar danos e promover a prevenção? As diferentes perspectivas sobre a prática dessa complicada tarefa foram o ponto central do debate ocorrido no seminário Suicídio na imprensa: entre informação, prevenção e omissão, realizado pelo Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz). O evento contou com a participação do jornalista e professor da PUC-Rio, Arthur Dapieve; do jornalista de ciência e saúde de O Globo, Antônio Marinho; do pesquisador e coordenador do Grupo de Pesquisa de Prevenção do Suicídio do Icict, Carlos Eduardo Estellita-Lins; da editora de saúde do jornal Extra, Flávia Junqueira; e do professor da Unicamp e presidente da Comissão de Prevenção do Suicídio da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), Neury José Botega, reconhecido como um dos mais proeminentes pesquisadores sobre o tema no país.
Durante o evento, houve a apresentação de um filme de 30 segundos que faz parte de uma nova campanha para prevenir contra o suicídio efetuada pela Associação Brasileira de Psiquiatria
Segundo Arthur Dapieve, nos meios de comunicação, há profissionais que acreditam que a informação pode ajudar a reduzir o número de ocorrências de suicídio, mas que a maioria dos jornalistas consideram o tema um tabu, como ocorre em boa parte da sociedade. “O primeiro impulso nas redações é não divulgar, apesar de não haver uma indicação direta de que esse é o procedimento adequado”, comenta o professor. Antônio Marinho complementa que, quando questionados, os jornalistas não sabem dizer de quem partiu a restrição e não a encontram em nenhum manual específico. “É costume falar sobre suicídio quando se trata de casos de polícia ou médicos, como ataques terroristas ou eutanásia, mas sem um enfoque direto ou aprofundamento da questão”, diz o jornalista. “A mídia precisa aprender a discutir o assunto, porque nunca tentou de verdade”.

O pesquisador e organizador do evento, Carlos Estellita-Lins, aponta que essa omissão evasiva considerada ‘politicamente correta’ pode carregar um certo descuido na hora de abordar o tema. “A percepção é de que, por um lado, o suicídio, quando divulgado, pode ser ‘contagioso’; por outro, que o silêncio sobre os casos tende a ser mais danoso para a sociedade”, explica o pesquisador.“É preciso colocar o suicídio na agenda pública. As pessoas devem entender que o suicídio existe e pode ser prevenido. O problema maior é como construir esta informação”.
A jornalista Flávia Junqueira citou que, desde a criação do jornal Extra, em 1998, nunca chegou a ver em seu local de trabalho a produção de uma matéria sobre a prevenção do suicídio. “Há o registro de matérias que falam sobre depressão e que essa doença pode elevar o risco de suicídios, mas não uma matéria que aborde diretamente o problema”, afirma Flávia. O professor Neury Botega acrescenta que o suicídio é uma tragédia silenciosa e silenciada e que é mais comum no Brasil do que se pensa. “Dentre as mortes trágicas, nos meios de comunicação, o suicídio fica a sombra de outros tipos de óbitos, como homicídios e mortes por acidentes de transito”, elucida o psiquiatra. “Se a prevenção é possível? Sim. É claro que não é podemos sanar os suicídios, já que se trata de um problema humano, mas pessoas podem ser identificadas em grupos de risco e ser ajudadas”.

Durante o evento, Botega ainda apresentou o filme de 30 segundos que faz parte de uma nova campanha para prevenir contra o suicídio efetuada pela Associação Brasileira de Psiquiatria. Além disso, os participantes do seminário receberam manuais dirigidos a profissionais de imprensa que apresentam recomendações para produzir textos claros e esclarecedores sobre o comportamento suicida, doenças mentais e psiquiatria.

Publicado em 28/5/2010.

sábado, 1 de agosto de 2009

Adolescência e suicídio em pesquisa da Fiocruz

Depressão, agressões e negligência são as maiores causas de suicídios

Luciana Abade, Jornal do Brasil

BRASÍLIA - Pelo menos seis em cada 100 adolescentes em idade escolar na rede pública da região metropolitana de Porto Alegre já planejaram suicídio. O uso de drogas pelos amigos e o pequeno número de amigos próximos aumentam em, respectivamente, 90% e 66% o planejamento suicida. Esses adolescentes sentem-se incompreendidos pelos pais, negligenciados pelos mesmos quando trata-se do desempenho escolar e costumam ser agredidos por familiares ou colegas.

É o que mostra pesquisa inédita divulgada pela Fundação Fiocruz, que ouviu quase dois mil adolescentes entre 14 a 17 anos. O comportamento suicida em adolescentes vem sendo alvo de várias pesquisas, mas essa chama atenção por ter focado a fase em que o jovem não apenas pensa, mas já planeja como acabará com a própria vida.

– A adolescência é um periodo na vida muito tumultuado – afirma uma das autoras do estudo, a psicóloga Denise Rangel – Apesar de o senso comum achar um absurdo um adolescente estar pensando em morte, esse é um pensamento comum nessa fase da vida. O problema mora no alto número dos que chegam na fase de planejar o suicídio.

A pesquisa, também assinada pelas psicólogas Lissandra Baggio e Líliam Palazzo, mostra a necessidade de se diferenciar os pensamentos de morte quanto à gravidade e intencionalidade. Nesse sentido o planejamento suicida aproxima-se da tentativa pois, em geral, de cada cinco pessoas que planejam, três efetivamente tentam o suicídio. Segundo a pesquisa, os meninos planejam o suicídio 40% menos que as meninas. O local onde foi realizada o estudo merece destaque. A Região Sul tem uma média de suicídio, 8,1 para cada cem mil habitantes, que é quase o dobro da nacional, 4,6.

O suicídio constitui-se um importante problema de saúde pública. Estimativa da Organização Mundial de Saúde (OMS) aponta que é a terceira causa de morte no grupo com idade entre 15 e 34 anos. Em todo o mundo, ocorre uma morte por suicídio a cada 40 segundos.

No Brasil, a taxa de mortalidade por suicídio é praticamente nula até os nove anos. De dez a 14 anos, os valores são semelhantes para homens e mulheres, algo em torno de 0,6 por cem mil habitantes. As diferenças entre os sexos começam a partir da faixa etária de 15 a 19 anos. Apesar das mulheres pensarem e planejarem mais, os homens são os que mais acabam com a própria vida.

O sistema público de saúde, no entanto, não está preparado para cuidar dos adolescentes com problema psicológicos. São apenas 101 Centros de Atenção Psicossocial Infanto-Juvenis cadastrados para fornecer prevenção e tratamento para transtornos mentais em crianças e adolescentes em todo o país. Além de poucos, há problema na distribuição. Os estados de Rondônia, Espírito Santo, Tocantins, Amapá, Acre, Roraima e Amazonas ainda não possuem um CAPSi. Só em 2005 o Ministério da Saúde desenvolveu uma política de prevenção ao suicídio. Os CAPSi são implantados apenas em municípios com mais de 150 mil habitantes.

Gestão ineficiente

Segundo o coordenador do departamento infanto juvenil da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), Marcos Mercadante, o país apresenta uma ineficiência gerencial nessa área. E o pequeno número de psiquiatras infantis, são apenas 300 no país, dificulta ainda mais.

– Você não sabe quanto custa tratar uma criança que tenta se matar. Nem quanto custa deixar de tratar. A falta de tratamento acarreta um custo social enorme.

Para Mercadante, em muitos casos, principalmente quando a família é desestruturada, o ideal é internar o adolescente, mas a rede pública não dá condições necessárias.

Segundo as pesquisadoras, a escola, por ser um local onde são reproduzidos os padrões de comportamento e relacionamentos, tem um papel fundamental para a promoção e proteção da saúde dos alunos. E, por isso, é um local privilegiado para a identificação precoce de situações problemáticas.

Mercadante concorda:

– A escola é parceira fundamental. É preciso dar importância para a mudança de comportamento e queda no rendimento escolar. Os adolescentes são muito impulsivos e nessa história, o velho ditado cão que ladra não morre, não cabe.

Fonte: http://jbonline.terra.com.br/nextra/2009/02/20/e200215205.asp