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sexta-feira, 2 de setembro de 2022

Qual a relação entre consumo nocivo de álcool e suicídio?

O consumo nocivo de álcool pode aumentar as chances de suicídio

(26 agosto 2022) 

A OMS reconhece o suicídio como um problema de saúde pública. Em outras ocasiões, o CISA já abordou as recomendações da OMS para a prevenção do suicídio. Entender a relação entre consumo de álcool e suicídio é importante para aprimorar as políticas de prevenção. Já está bem estabelecido que a correlação existe, e um estudo de 2021 reitera que, ao redor do mundo, quanto maior a taxa de consumo de álcool per capita de um país, maiores são as taxas de suicídio1. A despeito disso, muitas questões culturais ainda precisam ser desvendadas.

Um estudo recente2, publicado em fevereiro de 2022, buscou fazer uma revisão das pesquisas que abordam a relação entre consumo abusivo de álcool e os prejuízos associados ao álcool (entre eles o suicídio) em comunidades remotas e rurais de 49 países ao redor do mundo (entre eles, Estados Unidos, Índia, Canadá e África do Sul). Uma conclusão interessante do estudo aponta que, de acordo com a maioria das pesquisas analisadas, existe maior associação entre morar em zonas rurais e remotas e engajamento em consumo abusivo de álcool e, consequentemente, maiores riscos de prejuízos associados ao uso de álcool. Além disso, os autores apontam que os riscos aumentaram de gravidade ao longo da série temporal analisada, de 1990 a 2019, sendo que suicídios atribuíveis ao uso de álcool – e mesmo o beber e dirigir – foram ficando mais prevalentes ao longo do tempo.

Neste sentido, um estudo de 2021 buscou analisar sistematicamente as pesquisas que buscam intervenções psicossociais para redução de comportamentos suicidas em pessoas com transtornos relacionados ao uso de álcool3. Os autores apontam que as intervenções mais promissoras seriam as abordagens pautadas na Terapia Cognitivo Comportamental (TCC), mas ressaltam a carência de mais estudos na área, e concluem que, até que tais estudos sejam publicados, não existem evidências científicas de que este tipo de intervenção seja eficaz em reduzir tentativas de suicídio em pessoas com transtornos relacionados ao uso de álcool.

Este cenário desafiador torna ainda mais imprescindível o acompanhamento destes indivíduos por uma equipe multiprofissional da área da saúde. Se você ou alguma pessoa conhecida está passando por algum destes problemas, procure acompanhamento! Em nossa página “Encontre Ajuda”, apresentamos um mapa da Rede de Atenção Psicossocial presente em todo o Brasil. Lá é possível encontrar a ajuda mais próxima! Se restarem dúvidas, entre em contato através de nosso “Fale Conosco”.

Referências

1. Kim AM. Alcohol consumption and suicide rate: A cross-sectional analysis in 183 countries. Psychiatry Res. 2021 Jan 1;295:113553.

2. Friesen EL, Bailey J, Hyett S, Sedighi S, de Snoo ML, Williams K, et al. Hazardous alcohol use and alcohol-related harm in rural and remote communities: a scoping review. Lancet Public Heal. 2022 Feb 1;7(2):e177–87.

3. Hurzeler T, Giannopoulos V, Uribe G, Louie E, Haber P, Morley KC. Psychosocial Interventions for Reducing Suicidal Behaviour and Alcohol Consumption in Patients With Alcohol Problems: A Systematic Review of Randomized Controlled Trials. Alcohol Alcohol [Internet]. 2021 Jan 4 [cited 2022 Aug 24];56(1):17–27. Available from: https://academic.oup.com/alcalc/article/56/1/17/5926572

Fonte: https://cisa.org.br/sua-saude/informativos/artigo/item/372-qual-a-relacao-entre-consumo-nocivo-de-alcool-e-suicidio

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Álcool e Suicídio


Alcoolismo e suicídios
Gláucio Soares (Pesquisador do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ)

Uma pesquisa de Pridemore sobre as relações entre alcoolismo e suicídio na Rússia mostra a existência de dimensões importantes que ajudam na compreensão dessas relações e na prevenção do suicídio. Foram analisadas as regiões russas, 78 no total. Como o sexo e a idade influem tanto sobre o alcoolismo, as variáveis tinham que ser controladas. E o foram.

A escolha da Rússia não é acidental. A Rússia é importante em muitos estudos. Em primeiro lugar, a Rússia é um país onde se bebe muito. Nemsov e Treml, separadamente, estimaram o consumo anual de álcool em 15 litros por pessoa, mais do dobro dos Estados Unidos. Em segundo lugar, a Rússia tem alta taxa de suicídios, cerca de 38 por 100 mil habitantes, abaixo apenas da Lituânia. Em terceiro lugar, a política da Rússia em relação ao alcoolismo oscilou muito no tempo, desde uma regulamentação estrita em toda a União Soviética, implementada por Gorbatchov, até um abandono dessas práticas, logo em seguida, por Yeltsin.

Estudiosos como Norström e Ramstedt distinguem culturas “molhadas” de culturas “secas”. Nas molhadas, o hábito de beber é frequente. Essas categorias diferenciam países com taxas mais altas de suicídio dos com taxas mais baixas.

Um conceito muito importante é o de binge drinking. Para o estudo do suicídio (e de outros comportamentos violentos), são importantes tanto o que se bebe quanto o como se bebe. Uma cultura com tradição vinícola, em que o vinho acompanha as refeições, tende a ter níveis de embriaguez mais baixos, com aumento muito menor do risco de comportamentos violentos, do que culturas em que a bebida é destilada.

As pesquisas de Belarus e Razvodovsky deixaram claro que a associação com o suicídio é menos intensa no caso de vinho e cerveja e mais intensa no caso de bebidas destiladas, como gin, vodca, rum ou cachaça. Na Rússia, a vodca responde por 75% do álcool consumido. Binge drinking, convencionalmente, se define por beber cinco ou mais doses em seguida, no caso de homens, e quatro, no caso de mulheres.

O alcoolismo atinge níveis que o caracterizam como problema de saúde pública. Notzon e equipe demonstraram que 12% da baixa na esperança de vida observada entre 1990 e 1994 se deveram ao álcool. Em alguns casos, os anos de vida perdidos são de tal magnitude que alguns definem o alcoolismo como problema de segurança pública.

Há outro fator importante nessa análise, ainda que mais difícil de medir: como a cultura (seja do país, da região, do estado, da cidade, do bairro, da etnia etc.) trata a embriaguez e os alcoólatras. Há muita variância: algumas culturas punem social e psicologicamente os que se embebedam, ao passo que outras são lenientes.

A Rússia, lembra Pridemore, não é apenas grande, é variada. Os hábitos também variam muito: as mortes por envenenamento alcoólico variam, assim como as taxas de suicídio. As taxas seguem, de maneira algo infiel, dois padrões: aumentam do sul para o norte e do oeste para o leste. Há, na Rússia, grandes diferenças nas taxas de suicídio, que variam de 7 a 93 por 100 mil habitantes entre as regiões. É usual medir as taxas de alcoolismo indiretamente, por meio das taxas de envenenamento alcoólico.

A análise mostra que o alcoolismo se relaciona tanto com o suicídio masculino quanto com o feminino. Vários autores chegaram aos mesmos resultados: consumir bebidas mais fortes, embebedando-se (querendo ou não), se associa com vários comportamentos violentos, como a violência doméstica, as brigas e agressões, os homicídios e os suicídios.

Correio Braziliense (Opinião)
Fonte: http://www.uniad.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=14626:alcoolismo-e-suicidios&catid=29:dependencia-quimica-noticias&Itemid=94