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quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Reflexões importantíssimas de além mar!

A importância de parar de ‘viver como se o suicídio não existisse’

No Dia Mundial da Saúde Mental, importa referir que, todos os dias, em média, três pessoas morrem para o suicídio em Portugal. O que se pode fazer para ajudar a mudar este panorama?

Maria Moreira Rato (maria.rato@newsplex.pt)

Aos 23 anos, prestes a completar 24, Sofia Santos Nunes havia completado o curso de Psicologia há um ano. Apesar de saber que o divórcio dos pais aconteceria inevitavelmente, não pensou que o mesmo pudesse ter consequências tão drásticas. «O meu pai tinha depressão, não estava a ser acompanhado apesar de eu ser psicóloga clínica. E, por mais que insistisse, tinha muita reticência a tratamento psicológico e psiquiátrico também», explica a jovem.

Além disto, quando perdeu a mãe, em 2017, o homem «começou a desenvolver um luto patológico». Apesar de sempre ter sido muito ansioso, a situação agravou-se com esta perda e, quase simultaneamente, a separação ocorreu, pois a progenitora de Sofia entrou com um processo de divórcio porque esta concluíra o percurso no Ensino Superior. «Ele assinou os papéis do divórcio durante o dia e suicidou-se à noite. Foi uma lição de humildade para mim enquanto pessoa e psicóloga porque, quando as pessoas têm as mãos fechadas, é difícil ajudá-las. Isto deixou a minha mãe numa situação complicada», confessa, lembrando que, ainda que existissem divergências entre o casal, o pai geria um estabelecimento na área da restauração.

«Ele devia ter ido abrir o café porque a minha mãe entrava muito mais tarde do que ele e, curiosamente, estava muito calmo nos dias anteriores, como se estivesse preparado para uma nova vida. Só não pensámos que fosse para outra dimensão», diz, explicando que, ao contrário daquilo em que pensaram, em primeira instância, o adulto de 56 anos nunca chegou a dirigir-se ao negócio que dirigia. Muito pelo contrário: foi para casa da mãe e pôs termo à vida.

«Foi aí que começou a nossa jornada do ‘Porquê?’. Tinha trabalhado com a ideação suicida como profissional, mas nunca tinha olhado para esta área dos sobreviventes, das pessoas que perderam alguém para o suicídio», admite, lamentando que o padre que contactaram recusou celebrar a missa. O motivo? «Isto ainda é encarado como um pecado, uma escolha livre, mas é provocado por uma doença mental. Nunca ninguém diz, por exemplo, que um ataque cardíaco é pecado».

Procurando respostas para inúmeras perguntas, partiu para Santiago de Compostela, na Galiza, passou por um processo de psicoterapia, viajou até à Colômbia e fez «muitas coisas para trabalhar este luto». «Percebi que quando partilhava aquilo que sentia, a dor tornava-se mais leve. Não nos podemos esquecer de que cerca de 50% dos casos de suicídio não são reportados, são as tais causas de morte inespecíficas. Quando a minha avó morreu por causas naturais, toda a gente falava dela e dos bons momentos. Quando o meu pai morreu, quase que se evitava falar dele porque, de repente, parecia que só existia a causa de morte», refere a jovem adulta que, hoje, tem 27 anos, e refere-se ao facto de, em termos estatísticos, o suicídio ser raramente denominado devidamente, acabando por ser encapotado.

Esta posição é corroborada pelas docentes universitárias Rita Alexandra Manso Araújo, Zara Pinto-Coelho e Felisbela Lopes que no artigo ‘Representações do suicídio na imprensa generalista portuguesa’ escrevem que «o fenómeno do suicídio poderá estar sub-representado e o problema ‘deverá ser bem mais grave na Europa, e muito particularmente em Portugal, do que atualmente reconhecido’. Por contabilizar ficam, segundo os autores, as mortes por causa desconhecida e as mortes violentas de intenção indeterminada, para além de ‘suicídios mascarados’, como as mortes por acidente ou por overdose».

Se pesquisarmos os «óbitos por algumas causas de morte», na plataforma PORDATA, em 1960, o primeiro ano registado, o valor das mortes ocorridas por suicídio situava-se nos 0,8%. Em 1979, atingiu o 1%. O valor mais elevado, 1,2%, registou-se nos anos de 2004 e 2014.

Em 2005, 0,8% – percentagem mais reduzida do que aquela que foi apurada em anos recentes – das mortes registadas ocorreram por suicídio e o jornal Público, num artigo de 13 de março do ano passado, de Roberto Dores, noticiava que o suicídio no Alentejo tem a taxa mais alta no mundo, sendo que esta mortalidade atingia 24 em cada cem mil habitantes.

Em 2017, a taxa de mortalidade mais elevada registou-se no Chipre, na Grécia e em Malta. Em 2016, a título de exemplo, suicidaram-se 1450 pessoas (1092 homens e 358 mulheres), sendo que Portugal colocava-se em 20.º lugar da lista dos países com mais suicídios na União Europeia.

Em 2019, último ano com apuração de dados veiculada, o suicídio representou 0,9% dos óbitos. Ainda que não se conheça o impacto da pandemia de covid-19 naquele que é considerado, pela Organização Mundial da Saúde (OMS), um «ato de deliberadamente se matar a si mesmo» – que inclui nos fatores de risco para o suicídio as perturbações mentais, como a depressão ou a esquizofrenia, o abuso de bebidas alcoólicas, e algumas doenças físicas, como perturbações neurológicas, cancro, e infeção por VIH-Sida. A OMS estima que, anualmente, haja cerca de um milhão de suicídios no mundo, é possível ter algumas luzes através da leitura de ‘Suicide in Portugal: spatial determinants in a context of economic crisis’.

Na investigação liderada pela investigadora Paula Santana, conclui-se que se verifica uma forte associação entre o suicídio e os períodos de elevada instabilidade económica. Por exemplo, o seu aumento, em território nacional, coincidiu, por vezes, com os resgates financeiros a Portugal do Fundo Monetário Internacional (em 1983 – de 0,9% em 1982 para 1% no ano seguinte. Em 2011, era de 1%, sendo essa proporção igual desde 2007). Santana percebeu igualmente que, em municípios com maior privação socioeconómica, o risco de mortalidade é 50% mais elevado.

‘É possível viver outra vez’

Foi na sequência da experiência pessoal aliada ao conhecimento académico e profissional, bem como à pesquisa autónoma, e da perceção dos fatores anteriormente referidos que Sofia Santos Nunes decidiu criar a associação Sobre Viver Depois do Suicídio, dada a conhecer ao grande público neste verão. 

«Decidi criar esta ponte que não junta só as famílias como os profissionais e todos aqueles que queiram contribuir para esta causa. Os sobreviventes ficam com muito mais probabilidade de desenvolver depressão, ataques de ansiedade e até de morrer para o suicídio. Há muito mais do que sobreviver: é possível viver outra vez e ter uma vida plena», partilha, reconhecendo que «o luto é muito marcado pelo “e se?”, pela culpa e, portanto, chega a desestruturar a própria pessoa, os amigos e toda a comunidade».
Para combater o estigma associado ao suicídio, Sofia e os restantes membros da associação organizam grupos de apoio, designados de ‘Círculos de Palavra’, no qual, além de amigos e familiares das vítimas de doença mental, «também estão envolvidos psicólogos que perderam pacientes, maquinistas que assistiram à morte de alguém, etc.», desejando alcançar igualmente as forças de segurança.

«E depois temos apoio formal como jurídico, psicológico, psiquiátrico e qualquer pessoa pode ser voluntária. Fazemos eventos e pontos de encontro entre os sobreviventes. Temos a vertente da comunicação, queremos capacitar a sociedade para lidar com o luto. E queremos prevenir que outras histórias tenham este desfecho». Deste modo, a associação juntou-se a universidades e até à Campanha Nacional de Prevenção do Suicídio, uma iniciativa do Programa Nacional para a Saúde Mental/Direção-Geral da Saúde (DGS).

«É necessário falar sobre isto, mas bem, com o vocabulário adequado. Viver como se o suicídio não existisse é permitir que pelo menos três pessoas morram, todos os dias, em Portugal», revela, adiantando que constitui também uma forma de fechar os olhos perante as «cerca de 6 a 10 pessoas que ficam traumatizadas diretamente». É por isso que a Sobre Viver Depois do Suicídio se dedica ao investimento na campanha de sensibilização de jornalistas para esta temática, explicando, a título de exemplo, que «o verbo cometer parece estar associado a um crime, por isso, devemos dizer que alguém morreu para o suicídio».

«E nem sequer se deve dizer algo como ‘foi um ato de coragem ou ato de cobardia’, na medida em que não se pode romantizar o suicídio. É um fenómeno complexo, multifatorial e em cada 9 a 10 casos são provocados por doença mental. As pessoas sentem que não há solução e que os problemas não vão passar», realça, enaltecendo a importância do ‘Prevenção do Suicídio: Manual Para Jornalistas’, documento [produzido pela OMS] onde, entre outras, podemos encontrar as recomendações dadas por Sofia, bem como outras. Apelando a que estes profissionais tenham cuidado com a linguagem utilizada, os autores escreveram tópicos como «não usar os termos ‘suicídio bem-sucedido’, ‘tentativa falhada de suicídio’ ou ‘malsucedida’ por implicarem que a morte é o efeito desejado» ou «não usar o termo ‘epidemia/pandemia de suicídio’ por não ser correto. Apesar de ter o intuito de dar maior importância ao tema, pode ler-se como alarmismo desnecessário».

Se os órgãos de informação seguirem estes passos e «as pessoas abrirem as mãos», Sofia acredita que o processo de entreajuda será muito mais facilmente agilizado. «Tem de haver uma perspetiva de esperança. Se a pessoa tiver uma ideação suicida estruturada ou semiestruturada, acompanhámo-la, mas reencaminhamo-la para serviços específicos. Por outro lado, nos círculos, temos muitas pessoas que estão estabilizadas. Queremos sempre um grupo que parta da esperança e, se houver algum membro muito desestruturado, isto não vai fazer bem ao grupo nem a ele», acrescenta, explicitando que já lidou com membros que dizem coisas como «Não gosto muito da forma como vivo agora» e, com tranquilidade, responde sempre «que ninguém gosta de sobreviver, mas sim viver. No entanto, sobreviver não tem de ser sempre a nossa experiência».

Neste momento, a associação conta com 30 voluntários, mas tem vindo a receber muitos pedidos desde que começou a surgir nos media, tendo até emigrantes portugueses que se encontram nos mais variados pontos do globo a colaborarem com a mesma. Existe um leque de funções distintas, pois «há pessoas que se dedicam à comunicação, algumas à revisão de textos, outras à responsabilidade social» e importa referir que, entre estas, encontra-se quem tenha vivido a depressão, com tentativa de suicídio, e, atualmente, opte por ser uma voz ativa na promoção da saúde mental.

«As pessoas podem contactar-nos por Facebook, Instagram e e-mail. Recebem uma resposta em menos de 24 horas. Se for uma situação muito urgente, reencaminhamos para linhas telefónicas como a Voz Amiga ou a Saúde24» para que as pessoas saibam que, do outro lado, há voluntários e profissionais preparados para fazerem intervenção em crise.

‘Não há problema em perguntar se tem ideias de morte’

Sabe-se que, em média, três pessoas suicidam-se por dia em Portugal. Será que este número continua atualizado? «O número que vejo mais é de 9 a 10 pessoas por cada 100 mil habitantes. No total do ano, dá quase três pessoas por dia, sim», começa por mencionar o psiquiatra Henrique Prata Ribeiro, de 31 anos, autor de crónicas acerca de temas como a ansiedade ou o desinvestimento na saúde mental na ‘Comunidade Cultura e Arte’.

«Estes números têm tido uma tendência ligeiramente decrescente desde 2014, embora os atuais sejam mais elevados do que os da década de 90, por exemplo». O também assistente da unidade curricular de Psiquiatria na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa realça que «Portugal, apesar de ser o segundo país com mais perturbações psiquiátricas da Europa, só atrás da Irlanda, tem números relativamente baixos de percentagem de suicídios», salientando que «há quem atribua estes números baixos a questões metodológicas na contabilização. Tem é das taxas mais elevadas da UE de suicídio em idosos».

Quem é que demonstra mais ideação suicida? Os pacientes mais velhos, mais novos ou não se pode generalizar? «Aquilo que acaba por ser a minha prática clínica é um bocadinho a tradução dos grandes números. Portanto, já são alguns anos a trabalhar no hospital e a fazer urgências. Lá recebemos pessoas que fizeram tentativas de suicídio e sobreviveram» e, com base no caminho que tem trilhado, o jovem médico percebe que as mulheres tentam mais vezes, enquanto os homens são menos atendidos porque consumam mais vezes.

«Há uma tendência para que, com a idade, haja mais tentativas, mas o suicídio é muito importante na análise das causas de morte nos jovens, porque aparentemente já é a principal causa de morte para as idades compreendidas entre os 10 e os 29 anos», aponta o consultor em saúde mental que nutre interesse pelos direitos humanos e pela Psiquiatria Forense.

Numa entrevista dada à revista Visão, em 2019, o psiquiatra Carlos Braz Saraiva destacou que «o fenómeno tem-se verificado cada vez mais cedo. Agora, em vez de ser aos 55 anos, é a partir dos 45 que começam a aparecer mais casos», sendo que tal se justifica através da «perda de estatuto social, associada à crise económica» que «poderá estar na base do impulso dos chamados adultos tardios».

«Costumo dizer que a Psiquiatria também é física porque, apesar de não conseguirmos ver em pormenor os neurotransmissores em direto, digamos assim, estão a sofrer alterações. Na depressão, por exemplo, há áreas do cérebro que podem chegar a ficar atrofiadas. Ou seja, há alterações neuroquímicas, por vezes estruturais, do cérebro. É físico», elucida o mestre em Medicina pela Universidade de Coimbra que realizou o ano comum no arquipélago da Madeira.

«Quando pensamos em saúde mental, temos de nos focar não só na ausência de doença, mas também naquilo que é o bem-estar da pessoa como um todo e do seu papel na comunidade em que está inserida, sentindo-se útil e percebendo que a sua vida tem propósito», indica, evocando que «o cérebro é um órgão complexo, não conseguimos ter acesso à informação toda, mas as alterações estão a acontecer. A depressão, por exemplo, é muito associada à inflamação cerebral».

«Na maioria dos casos, as causas estão associadas a doença, sendo as mais frequentes a depressão e a doença bipolar. Para consumar o suicídio, no entanto, os principais fatores de risco passam por ser do sexo masculino – apesar de a depressão ser mais presente nas mulheres, os homens usam meios mais letais para porem termo à vida –, o estado civil, ser solteiro ou viúvo, a idade e viver em zonas rurais», expressa, julgando que a campanha internacional Setembro Amarelo, de consciencialização sobre a prevenção do suicídio, que abarca iniciativas formativas, culturais e desportivas, e que é levada a cabo no mês de setembro, com o objetivo primordial de captar a atenção de todos para o suicídio, tem dado frutos em Portugal.

«Uma das questões mais abordadas na área do suicídio é o facto de se dever falar sobre o mesmo. Quando alguém está deprimido, não há problema em perguntar a essa pessoa se tem ideias de morte. Já está provado, em vários estudos, que isso até é protetor porque pode ajudar a prevenir o suicídio e não aumenta a probabilidade de que esse passo seja dado», sintetiza o autor da obra ‘Urgências Psiquiátricas’, lançada pela editora Lidel em 2018, na ótica do qual «estas iniciativas são boas porque mostram às pessoas que há ajuda disponível, canais que podem utilizar e isso é muito importante, tal como saberem que há mais pessoas que já passaram pelo tipo de pensamentos pelos quais estão a passar». Por outro lado, ainda que não conheça nenhum estudo que infira uma causalidade direta, costuma afirmar «que os antidepressivos previnem suicídios – por curarem as pessoas da depressão. Muitas das vezes, são injustamente diabolizados».

Portugal encontra-se em quinto lugar, no universo da OCDE, dos países onde estes fármacos são mais prescritos, mas o médico observa que «ao longo dos anos, tem sido feito um trabalho da retirada das benzodiazepinas da medicação crónica. São os chamados ansiolíticos».

Refletir sobre o Baixo Alentejo

Sabe-se que o Alentejo é a região que regista as taxas de suicídio mais elevadas, sendo que urge conhecer os contextos social e cultural em que tal fenómeno decorre. Para elaborar a tese de mestrado ‘Representações do Suicídio no Alentejo’, Joana Costa inquiriu 271 adultos residentes nos distritos de Portalegre, Évora e Beja, questionando-os acerca daquilo em que o suicídio os faz pensar e sentir, confrontando-os igualmente com perguntas sobre as pessoas que se suicidam. Assim, «dos dados recolhidos (…) conclui-se que os alentejanos têm a representação de que o suicídio se encontra associado a perturbações psicológicas e fortes emoções negativas (…) No que respeita à imagem que têm das pessoas que cometem suicídio, divergem entre a coragem e o egoísmo».

Em ‘Cultura Suicida no Alentejo’, Sónia Cândido esclareceu que «estima-se que morrem, em Portugal, por suicídio cerca de 18 pessoas por cada 100.000 habitantes, sendo que no Baixo Alentejo, a taxa média de suicídio, na última década, é de 30,2». A autora acrescentou também que «a fraca perceção de suporte social assume uma elevada significância no fenómeno suicida do Alentejo, sendo que esta variável explica 82,3% da variância da ideação suicida e 74,4% da variância dos resultados da Desesperança». Já na obra ‘Alentejo Prometido’, o investigador e escritor Henrique Raposo esclareceu: «O Norte de Portugal, que representa 35% da população, sofreu 43 suicídios em 2009, 48 em 2010 e 38 em 2011. O Alentejo, que conta apenas com 7% da população, sofreu 144 suicídios em 2009, 113 em 2010 e 105 em 2011. A diferença é avassaladora».

Os últimos dados oficiais, publicados em 2017 pelo Instituto Nacional de Estatística, mostram que, nesta região alentejana, há 54,2 mortes por suicídio por 100 mil habitantes, opondo-se às 22,4 no restante território. O fenómeno abrange, principalmente, os homens (43,6 óbitos por 100 mil habitantes no Alentejo; 17,4 no resto do país).

Existe uma predisposição cultural para a conduta suicida na população do Alentejo e, para além desta característica psicológica, a desertificação, o isolamento, a pobreza e a falta de sentido para a vida constituem os fatores promotores para causar a própria morte de forma intencional. Curiosamente, ao contrário daquilo que defendia o sociólogo Émile Durkheim, teórico do suicídio no século XIX, parece que os laços sociais não estão mais protegidos em ambiente rural.

Se recuarmos até ao estudo da investigadora Paula Santana, conseguimos entender que, tendo por base o mesmo, percecionamos que esta região do país apresenta um dos PIB per capita mais baixos da União Europeia. Em 2008, o PIB per capita no Alentejo foi de 11.6 mil euros. Este valor, especificamente no Baixo Alentejo, era de 10.5 mil euros. Tal contrasta com os 24.847 mil euros, no mesmo ano, do PIB per capita de todo o território nacional. Estes números podem ser encontrados em ‘Alto Alentejo. Caracterização Socio-económica’, da autoria de Conceição Leitão.

Concordando com estes fatores, Henrique Prata Ribeiro assume que existe «um desinvestimento crónico na área da saúde mental» que afeta Portugal de Norte a Sul, mas, no Baixo Alentejo, «grande parte da população preenche todos estes critérios», porém, em determinadas situações, «a religião acaba por ser um fator protetor porque, durante muitos anos, na cultura judaico-cristã, o suicídio era punido. O Alentejo é uma região tipicamente comunista e, culturalmente, poderá haver um peso menos importante da religião».

Quem sempre lidou de perto com este fenómeno é Luísa (nome fictício), de 48 anos, que nasceu na Alemanha mas veio para Portugal com apenas cinco anos. «Viemos para Moura, em Beja, porque o meu pai era do Alqueva e, quando tinha 10 anos, para Lisboa. O meu avô era de Olhão, no Algarve, mas nunca o conheci». Tal aconteceu porque o homem suicidou-se quase há 70 anos. «Os meus familiares romantizam um bocadinho a questão do suicídio e para mim não faz sentido. Aquilo que me contam é que ele apanhou tuberculose e, como era altamente contagiosa, não a queria transmitir a ninguém».

Uma das filhas do homem é a mãe de Luísa, hoje com 78 anos, mas a sofrer devido à doença bipolar há muito. «A primeira imagem de que me lembro, de uma tentativa de suicídio da minha mãe, foi quando tinha cerca de 5, 6 anos. Tínhamos saído todos para uma festa e ela foi parar ao hospital. Fizeram-lhe uma lavagem ao estômago, veio para casa».

Todavia, a patologia viria a agravar-se cada vez mais. «Os meus pais eram donos de uma pastelaria e tínhamos um quarto para fazer sestas. Ela, para tentar novamente, pegou num cinto e não me recordo de muito mais porque gritei e o meu pai apareceu logo», declara, em retrospetiva, dizendo que um dos dois irmãos, atualmente com 52 anos, começou a ter comportamentos diferentes quando cumpriu o serviço militar.

«Inicialmente, achou-se que ele tinha esquizofrenia e, depois, entendeu-se que tem bipolaridade, mas muito mais extrema do que a da minha mãe. Nunca tive ideação suicida. E tenho outro irmão, de 59 anos, que também nunca teve», expõe a terapeuta holística, especificando que a última tentativa de suicídio da progenitora ocorreu há dois anos. «Estava em casa. Tirei fotografias para ter provas. Chamei a polícia e os bombeiros e eles vieram, mostrei-lhas e ela negou que tinha tentado. Habituei-me a lidar com isto. O meu pai faleceu há muitos anos, mas não noto que ela tenha ficado pior, a doença continua grave como sempre».

Depois de um AVC e de um cancro da mama, Luísa nota que a idosa tem estado mais calma. «Não é que quase todas as semanas não diga que se vai matar, mas parece-me que já não tem força para tal», repara, adiantando que esta chegou a contactar a Segurança Social fazendo uma queixa de maus tratos, alegando que não tinha um quarto digno para dormir ou comida suficiente para se alimentar. «Vieram técnicos confirmar tudo e perceberam que não correspondia à verdade. Disseram-lhe que não pode fazer queixas sem fundamento porque é crime. Temos de ter sangue frio para reagir».

«O meu irmão é casado e, de vez em quando, a minha cunhada liga-me porque ele desaparece, fecha-se na arrecadação, pega nas caixas dos medicamentos... Ele é seguido em Psiquiatria, enquanto a minha mãe nega a pés juntos que precisa de ajuda», constata, declarando que já passou com ambos pelas urgências de Psiquiatria e com «o Serviço Nacional de Saúde ajuda com medicamentos para ‘desenrascar’», mas não achou que o impacto na vida dos doentes fosse muito maior do que esse.

«A minha mãe não consegue ter uma conversa positiva, vive com o negativismo. O meu irmão não fala com ela. Ele não conta, mas há algum trauma que ele teve com ela, alguma situação que ele viu e, automaticamente, afasta-se. Quando a minha mãe foi operada, ele nunca foi vê-la. Nem quando teve o AVC», declara, lastimando que a progenitora encare o neto de 21 anos, com quem vivem, como «alguém que não presta».

«Os familiares destas pessoas têm de procurar apoio e não se esquecerem deles mesmos. Pedir ajuda não tem mal nenhum e não é sinal de fraqueza: muito pelo contrário», começa por finalizar. «A campanha Setembro Amarelo tem pouca divulgação e, infelizmente, vou dizer isto com muita tristeza, mas o ser humano está cada vez mais egoísta, julga e critica constantemente. Não entendo o porquê».

Fonte: https://sol.sapo.pt/artigo/748865/a-import-ncia-de-parar-de-viver-como-se-o-suicidio-nao-existisse-

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Pesquisa sobre popularidade e os discursos sobre as doenças no Brasil e em Portugal

Pesquisa mostra diferenças entre buscas online sobre saúde mental feitas no Brasil e em Portugal - Saúde Mental

 Sílvia Haidar

Um estudo divulgado nesta quinta-feira (18), elaborado pela subdivisão Health+Life da agência SA365, revela aumento nas pesquisas relacionadas à saúde mental em redes sociais e mecanismos de busca no Brasil e em Portugal durante o ano passado, quando começou a pandemia da Covid-19.

No Brasil, as pesquisas sobre ansiedade saltaram de 246 mil pontos, em novembro de 2019, para 370 mil pontos, na escala Google, entre os meses de abril a julho de 2020. Esse fenômeno foi acompanhado por uma diminuição na procura por termos ligados à depressão no mesmo período, com queda de 370 mil para 280 mil.

A metodologia utilizada do estudo se baseia na netnografia, que pode ser compreendida como um modelo de pesquisa etnográfica com enfoque maior nas comunidades digitais. Para isso, foram utilizados dados de popularidade do Google Trends, postagens no Twitter e monitoramento de grupos no Facebook e de comunidades no Instagram.

O objetivo do levantamento foi entender a popularidade e os discursos em relação às doenças mentais tanto no Brasil como em Portugal.

A indicação de que pessoas possam estar mais ansiosas, mas, ao mesmo tempo, sendo menos diagnosticadas com depressão chamou a atenção dos pesquisadores, já que uma das possíveis explicações pode estar no receio das pessoas em relação à Covid-19, que deixariam de procurar ajuda médica da forma adequada devido à pandemia.

“Vemos com ceticismo essa queda nas buscas sobre depressão, especialmente porque outros indicadores apresentaram aumento no mesmo período”, afirma Renata Assumpção, gerente da divisão Health+Life.

Também houve uma retração na romantização destes problemas de saúde (textos com apelo emocional e relatando casos pessoais), com um interesse maior por parte dos usuários em aspectos mais concretos como sintomas, diagnósticos e causas.

Manifestações físicas como falta de ar e pressão alta, comumente relacionadas à Covid-19, também apareceram associadas a outras buscas sobre doenças mentais.

Os dados do estudo mostram a importância do universo digital como rede de apoio neste momento. “Entendemos como relevante a atuação da indústria e de influenciadores para facilitar o diagnóstico e encaminhar as pessoas para o cuidado de um médico”, diz Renata.

A popularidade do debate sobre ansiedade vinha apresentando um crescimento orgânico desde 2015, sem variações bruscas. Um cenário semelhante também foi observado nas pesquisas relacionadas à depressão até 2019, já que antes da pandemia esta era a doença mais citada pelos usuários de redes sociais e mecanismos de busca nos dois países.

Essa predominância podia ser muita vezes explicada por fatores como o Setembro Amarelo (campanha de prevenção do suicídio) ou ainda devido a relatos de influenciadores como o humorista Whinderson Nunes, que falou abertamente sobre sofrer de depressão, declaração que foi amplamente divulgada pela imprensa.

No período pré-pandemia, também era notável uma romantização do debate sobre saúde mental. Textos que ganhavam repercussão maior nas principais plataformas sociais como Instagram e Facebook possuíam um forte apelo emocional, com poucas informações sobre sintomas e tratamento. Além disso, havia uma profusão de comentários condenatórios ao suicídio, tratando a questão como desvio de caráter ou “falta de Deus”.

Já durante a pandemia, os debates passaram a ser menos atrelados a postagens sobre depressão e mais associados a comentários sobre casos concretos. No entanto, foi registrada uma diferença entre os públicos brasileiro e português: a repercussão midiática no país europeu direcionou a atenção para o debate de saúde pública, com enfoque maior nos sintomas. Isso diferiu do que se observou no Brasil, onde a cobertura da imprensa se concentrou mais nas histórias e relatos das celebridades em questão.


https://saudemental.blogfolha.uol.com.br/2021/02/18/pesquisa-mostra-diferencas-entre-buscas-online-sobre-saude-mental-feitas-no-brasil-e-em-portugal/

sexta-feira, 5 de junho de 2020

A enfermeira-anjo é de Portugal, mas todo o assunto nos interessa!

Enfermeira algarvia na linha da frente contra o suicídio

Bruno Filipe Pires (4 junho 2020)

Carolina Marques, 45 anos, enfermeira do serviço de Pedopsiquiatria da unidade de Faro do Centro Hospitalar e Universitário do Algarve (CHUA), é voluntária, desde abril, numa linha de prevenção nacional, lançada pelo Núcleo de Estudos do Suicídio (NES). Objetivo é salvar vidas.

O vírus da COVID-19 ataca a saúde física e, sobretudo, tem provocado um aumento significativo e generalizado do sofrimento psicológico de muitas pessoas, de todas as faixas etárias e extratos sociais.

Por isso, em abril, durante o confinamento e em pleno estado de Emergência, o Núcleo de Estudos do Suicídio (NES), do Hospital de Santa Maria, lançou uma resposta especializada para todo o país.

Uma resposta específica para quem se sente triste, com pensamentos negativos ou ideias de morte.

Carolina Marques, enfermeira algarvia que está na linha da frente, considera que a altura excecional que vivemos exige ultrapassar o tabu social que tem remetido esta problemática para o silêncio.


«A maior parte das pessoas, até os profissionais de saúde, abordam o tema com receio. Mas este trabalho de prevenção do suicídio não pode ser feito com medo. Tem de ser feito de uma forma realista. Quando se aborda alguém, temos de perguntar com clareza, se tem pensamentos de morte, se tem ideação ou plano suicida. São coisas diferentes, mas é assim que se avalia a gravidade da situação. Se estivermos com rodeios, o que acontece é que a pessoa não se sente compreendida», começa por explicar ao barlavento Carolina Marques, enfermeira especialista em saúde mental.

«A verdade é que o tema suicídio, se até aqui não era falado, hoje está nas redes sociais, em todo o lado. A ideia já está interiorizada nos jovens, nos adultos, até nos mais pequenos. Temos de perguntar: já pensaste em morrer? E se sim, já pensaste como? É duro, mas tem de ser. Tem de ser criada empatia, para que o outro diga o que realmente sente», explica.

«É como nas automutilações. Quem o faz está dentro do contexto de risco, mas não quer dizer que irá cometer suicídio, embora seja um fator de risco. As automutilações têm a ver com uma grande dor emocional que a pessoa sente e que é aliviada pela dor física. Quando se avalia alguém, temos de perceber se há antecedentes dessas práticas de agressão ao próprio corpo, porque é provável que continue. Se abordarmos a questão com rodeios, não conseguimos avaliar, nem fazer uma intervenção», acrescenta.

Carolina Marques trabalha na equipa de Pedopsiquiatria da unidade de Faro do Centro Hospitalar e Universitário do Algarve (CHUA), que durante alguns anos, contou com a colaboração da psicóloga Patrícia Romão, uma das maiores especialistas na problemática do suicídio.

«Foi a pessoa que me fez interessar. Durante a crise da COVID-19, com o isolamento e a saúde mental das pessoas a agravar-se, as situações a piorar, o acesso à ajuda nos centros de saúde limitado, a Drª Patrícia Romão perguntou-me se eu queria participar» no projeto do NES, associação científica sem fins lucrativos e com estatuto de utilidade pública já com 33 anos de existência.

A linha conta com profissionais de norte a sul de Portugal. Carolina Marques é, neste momento, a única enfermeira do Algarve envolvida, devido à sua experiência profissional e formação. Mas qualquer pessoa no país que precise de ajuda, basta enviar um email ([email protected]).

«Todos os meses é feita uma escala que divide o trabalho pela equipa do projeto. Todos os dias somos três a quatro pessoas em alerta, divididas por localização geográfica, de forma a se fazerem os encaminhamentos», explica. E todos os emails têm resposta, e se o remetente concordar, será, de seguida, contactado por telefone.

A enfermeira reconhece que «há de facto algumas situações graves», e se não surgem mais pedidos de ajuda é talvez porque esta linha de apoio ainda não está muito divulgada.

As folgas do seu trabalho são sacrificadas em prol deste projeto. É voluntariado, mas também altruísmo. Chega a ficar de alerta duas vezes por semana, das 9 às 21 horas, colocando a família em segundo plano.

«O que desgasta é o sofrimento do outro. Mas este é um trabalho que salva vidas. E numa altura com esta, acredito que tem de haver uma sensibilidade», remata.

Profissionais estão preocupados


A enfermeira Carolina Marques refere que há eventos de vida dolorosos que podem ser precipitantes do suicídio, como a perda de saúde, roturas afetivas, desemprego, entre outros, levando aos sentimentos de desesperança. Nunca há apenas um motivo isolado, mas sim um conjunto de situações na vida de cada um que a determinada altura poderá levar ao desejo de morrer.

«Momentos de angústia, temos todos nós. O problema é quando chega a desesperança, que é a falta de esperança num dia melhor».

Por vezes, o sistema também pode falhar na deteção. «Imagine alguém que tomou comprimidos a mais. Se não for bem esclarecida a causa da ida à urgência e depois tiver alta, se calhar, nós que trabalhamos esta problemática nunca chegamos a saber o que aconteceu. Assim, essa pessoa fica em risco, pois não terá acompanhamento» adequado.

Também nem sempre quem tenta quer mesmo pôr termo à vida. «Recordo o caso recente de uma senhora que se divorciou. Tinha vontade de morrer e fez uma intoxicação medicamentosa. Será que queria mesmo morrer? Não queria. Foi um ato de desespero. É preciso falar e escutar muito as pessoas para se perceber. Às vezes, só precisam de atenção. As mulheres têm muito este registo. Há uma diferença entre géneros. Tanto que os métodos escolhidos, estatisticamente, são diferentes. Os homens escolhem sobretudo métodos mais letais», distingue.

Por outro lado, a enfermeira não esconde que os profissionais de saúde estão muito preocupados, até porque os casos de ideação suicida estão a aumentar, sobretudo nas novas gerações.

«Há quatro ou cinco anos tivemos na Pedopsiquiatria uma adolescente que tentou o suicídio. Se tivesse ido para casa, haveria fortes probabilidades de voltar a tentar. Concordámos um internamento e fez psicoterapia. Há cerca de três semanas, veio parar outra vez à urgência, já adulta e reconheceu-me».

Na verdade, «em termos oficiais, ela já não me pertence, enquanto doente, mas dei-lhe o meu email e temos trocado mensagens. Basta dizer olá e as pessoas sentem-se um pouco mais agarradas à vida. Ela diz-me: ontem não tive bons pensamentos, mas é tão bom perceber que você gosta de mim. Ou seja, bastam estas pequenas coisas» para apaziguar a grande carência afetiva que existe sobretudo neste momento.

«Também há miúdos querem afastar a dor, querem desaparecer. Na infância ainda não há maturidade para perceber o que de facto é morrer, mas na adolescência já o sabem», esclarece.
«Todos temos um pouco de culpa»

Falando em contexto de vida pessoal, também esta profissional de saúde já perdeu um amigo querido. «Ainda hoje me pergunto como é que eu não consegui perceber que ele ia morrer? Lembro-me de o ver com uma depressão, já mais para o psicótico. Certo domingo tivemos entre amigos. Ele despediu-se de algumas pessoas. Eu tive de sair mais cedo. Ainda hoje pergunto-me porque não se despediu de mim, porque eu teria percebido. Como é que não fez luz a alguém que ele estava efetivamente a despedir-se?», recorda.

Mais uma vez, é uma questão cultural, mas também religiosa. «Ninguém quer falar sobre a morte. Toda a circunstância é dolorosa, não gostamos de pensar na tristeza. Há confissões religiosas que não vêm a discussão do tema com bons olhos, porque num suicídio ninguém vai para o céu. Isto mexe com as nossas ressonâncias. É algo que nos assusta. Quando alguém se suicida fica um aberto. As questões ficam por responder. É uma falha da sociedade, porque todos reconhecemos que também temos alguma culpa».

A pandemia é apenas mais uma crise. O quotidiano moderno também não ajuda. «Os miúdos vão com poucos meses para o infantário, passam pouco tempo de qualidade com os pais, não é feita uma boa vinculação. Antes havia famílias alargadas, em que os avós estavam presentes. Hoje as crianças vão crescendo num vazio enorme e na correria dos dias».

Trabalho de retaguarda ajuda famílias


Num dia de trabalho normal no serviço de Pedopsiquiatria do Hospital de Faro, neste contexto da pandemia, a enfermeira Carolina Marques acompanha vários casos à distância.

«Apenas uma minoria tem apoio. Imagine o que é uma criança hiperativa fechada num apartamento. Tem que haver uma contenção de toda a família. Havendo este trabalho de monitorização direta e de acompanhamento, são dadas às famílias estratégias de adaptação à crise, facilitando a sua adaptação e evitando descompensações das patologias e consequentes idas à urgência. Agora, também é verdade que a pedopsiquiatria não tem uma retaguarda de crise numa situação grave. As crianças que precisam de internamento vão para o Hospital de D. Estefânia, em Lisboa. Precisavam de um internamento no Algarve», considera.

E mais. «Em termos de consulta, há apenas um pedopsiquiatra para toda a região. É muito pouco. Como é que as crianças de Aljezur ou de Silves conseguem vir a Faro fazer uma psicoterapia semanal? É muito difícil ou impossível». Ainda em relação à linha de apoio do NES, a voluntária sublinha que daquele lado estão «pessoas que se envolvem e que gostam de dar e cuidar dos outros».

Como pedir ajuda?


Como é que se motiva alguém a dar um sinal de alarme se já está com ideias suicidas? «Há sintomas e todos temos de estar atentos. Por exemplo, alterações de sono e alimentação. O isolamento, consumo de drogas ou álcool. Nos jovens vai havendo um desinvestimento na escola, nas rotinas», explica a enfermeira Carolina Marques, voluntária num projeto nacional de prevenção do suicídio.

A linha do NES está disponível para todas as idades. Até pode ser um um terceiro a contactar. «Sim, já aconteceu. Pode ser um pai, um vizinho, um amigo. Como é que ajudamos as pessoas? Se tiver ou conhecer pessoas com determinados sintomas como por exemplo depressão ou desesperança, sentimento de inutilidade ou pensamentos relacionados com suicídio ou morte» deve contactar, sem hesitar, por email ([email protected]).

Fonte: www.barlavento.pt/destaque/enfermeira-algarvia-na-linha-da-frente-contra-o-suicidio



sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Alerta! Eutanásia tem vínculo com o suicídio e a sua prevenção...

A fundamentação em 21 pontos do não à eutanásia 


O debate sobre a eutanásia traduz um sensível conflito de valores e uma mudança radical de paradigma da sociedade, que exige um referendo.

Como contributo construtivo para este importantíssimo debate, desenvolvo em sintéticos 21 pontos a fundamentação para o não à eutanásia e para a necessidade de um referendo sobre esta matéria, que não é, nem pode ser, uma questão política partidária ou sectária.

O que está em causa não é meramente uma “liberdade individual de escolha” mas sim uma mudança radical dos valores, dos princípios e da estrutura da sociedade em que vivemos. Da total proibição de matar passaremos a viver numa sociedade que permite matar, sem fronteiras bem definidas e que se vão alargando progressivamente. Tão complexa e marcante decisão só pode ser tomada em referendo e após um debate nacional, não apenas alguns debates elitistas, porque nos vai afetar a todos.

1) O conceito de “morrer com dignidade” não pode ser indevidamente associado à antecipação da morte. A vida e a morte são sempre dignas na sua essência, independentemente dos contextos. A dignidade reside nas próprias pessoas, não no tipo de morte.

2) O projeto de Lei do PS, por exemplo, permite que a eutanásia seja requerida por “pessoa, maior, em situação de sofrimento extremo, com lesão definitiva ou doença incurável e fatal”, havendo a consciente preocupação de não referir doentes terminais e aceitando a antecipação da morte em dias, semanas, meses ou anos, numa subjetividade extrema e perigosa de definições.

3) Refere-se habitualmente que a defesa da eutanásia é uma questão de defesa da liberdade individual escolha. Porém, quem o afirma cai em enorme contradição, pois, afinal, são colocadas imensas restrições à decisão individual, que depende, nomeadamente, de parecer médico e de uma comissão, pelo que o conceito de defesa da liberdade individual, não colhe.

4) É curioso o modo ilusório de utilização da conceção de “escolha pessoal”. A “escolha” da morte não é uma opção, mas sim o resultado da “exclusão” externa de todas as outras opções. De igual modo, ao contrário do que muitos ainda pensam, o suicídio não é um ato de coragem mas sim de desespero ou de pedido de ajuda.

Ainda assim, para ser uma genuína “escolha” significaria que, primeiro, todos teriam de ter direito a optar pelos cuidados paliativos precoces e ter acesso a cuidados domiciliários e apoios sociais adequados, para não fragilizar e pressionar os mais vulneráveis a recorrer, afinal, à única “opção” disponível, pedirem para serem mortos, o que seria profundamente antissocial.

5) Afirma-se que “os cuidados paliativos não eliminam por completo o sofrimento”, como se fosse possível alguém ter uma vida sem sofrimento e como se devêssemos perseguir uma vida sem sofrimento, desde logo uma irreal impossibilidade. Com os recursos farmacológicos e tecnológicos atualmente existentes faz ainda menos sentido falar-se em dor descontrolada ou incontrolável.

Sem aprofundar o tema, recordamos que Marguerite Yourcenar disse que o prazer e a dor são duas sensações vizinhas e Sófocles afirmou que o que nos liberta do sofrimento da vida é o amor.

Quem, como e onde? O que propõem os partidos sobre eutanásia

6) Persiste uma enorme confusão de conceitos. Note-se que dois em cada três adultos do Quebec pensa que eutanásia é a simples retirada de tratamento, o que não é verdade. Também em Portugal, muitas pessoas defendem a eutanásia com base neste mesmo erro.

7) Os defensores da eutanásia recusam a via francesa, da sedação terminal/paliativa a pedido sem indução deliberada da morte. A sedação terminal ultrapassa todos os argumentos dos defensores da eutanásia, sem ser necessário alterar a legislação e o paradigma da sociedade. Apenas fica menos barata.

8) Ignora-se a real experiência de outros países e a verdadeira rampa deslizante a que deu origem a aprovação da eutanásia e a extensão da inerente cultura, com aumento progressivo de pessoas eutanasiadas, mesmo sem ser a pedido. Não são especulações ou ilegítimos temores, é a realidade, que a seguir se descreve.

9) Não há salvaguardas eficazes para o doente potencialmente submetido a bullying familiar no sentido de pedir a eutanásia para “deixar de ser um fardo”... Esta matéria é tanto mais sensível quanto se sabe que os idosos têm uma particular dificuldade/inibição em se queixarem dos maus tratos e pressões que recebem. Os defensores da eutanásia sabem que muitas pessoas em situação mais frágil e de maior dependência vão ser “massacradas” para “pedirem” a eutanásia, mas não se importam. A aprovação deste “direito individual” iria colidir frontalmente com o “direito coletivo” das pessoas não serem pressionadas a “pedirem” a sua eutanásia. E não há salvaguarda legal que o impeça!

10) Devido ao segredo médico, a família de um doente pode em qualquer altura ser surpreendida pela informação de que um seu familiar foi eutanasiado, sem sequer ter uma hipótese de o ajudar. O caso de Tom Mortier, completamente surpreendido pela eutanásia da mãe, que pediu para ser morta por sofrer de uma depressão, é paradigmático, tendo avançado com um processo contra o Estado belga no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem.

11) Na Bélgica e na Holanda a eutanásia tem sido aplicada a doentes mentais, incluindo síndroma de asperger, distúrbios da personalidade, doentes que nunca tiveram sequer uma hospitalização por doença psiquiátrica e casos com forte componente de isolamento social e solidão, sugerindo que a eutanásia foi aplicada como um substituto para um efetivo suporte psicossocial. Discute-se agora a extensão da eutanásia às demências. Progressivamente a eutanásia vai sendo transformada numa “terapêutica” simples, barata e eficaz...

12) A sociedade pode desistir de programas de prevenção do suicídio, que representa um grave problema de saúde pública, e passar até a facilitá-lo. O"cansaço da vida" pode ser uma razão cada vez mais comum para as pessoas escolherem o suicídio assistido.

13) Atualmente, na Holanda, já se antecipa a criação de uma clínica especializada na eutanásia infantil e Eduard Verhagen, um dos arquitetos do Protocolo de Groningen, relativo à eutanásia infantil, considera que algumas crianças com menos de 12 anos estão aptas a tomar a decisão sobre a sua própria eutanásia.

14) A cultura da eutanásia será naturalmente transmitida aos doentes e será mais uma forma de indução do pedido. A aprovação cultural pode servir como um incentivo para o suicídio. Muitos doentes poderão ser avaliados por médicos que não os conhecem e a quem foram referenciados apenas para avaliação da eutanásia, uma decisão simplificada se o médico for favorável à solução. Na Holanda, a eutanásia tornou-se num tratamento normal.

15) Uma elevada percentagem de casos de eutanásia não são reportados porque os médicos não os considerarão como verdadeira eutanásia, sendo muitas vezes os fármacos administrados por enfermeiros (BMJ, 2010; 341: c5174). É uma ilusão pensar que salvaguardas e controlos legais evitam abusos e a verdade é que as transgressões identificadas nunca foram julgadas.

16) Na prática, atribui-se ao médico o poder legal de matar. A relação médico-doente pode ser afetada, perturbando a confiança do doente e da família do doente no médico. “A ideia da medicina como uma profissão que encarna um compromisso comum para cuidar de pessoas que estão doentes e debilitados, de modo a restaurar sua saúde, vai desaparecer rapidamente da memória” (JAMA, 2016; 315: 247-8).

17) A morte assistida não é compaginável com o conceito de ato médico aprovado pela União Europeia dos Médicos Especialistas (UEMS).

18) Com a Declaração Antecipada de Vontade, ou o recurso ao (não) Consentimento Informado, o doente tem a tranquilidade de saber que nunca será submetido a tratamentos ou intervenções que não pretenda ou que possam configurar distanásia.

19) Afirmam alguns que a aprovação da eutanásia é um progresso civilizacional e dão os exemplos dos países que já a aprovaram, que são uma esmagadora minoria! Porque não se referem os países que a recusaram, como a França e a Finlândia, mais recentemente, e todos os outros? Já agora, para correção, a Suíça não aprovou a eutanásia, mas apenas o suicídio assistido.

20) O grande progresso da civilização foi a defesa da vida! Modificar um dos pilares centrais dos valores da sociedade, do edifício do Direito e dos princípios milenares da Medicina, que evoluíram para uma efetiva salvaguarda do direito das pessoas à vida, à sua dignidade como pessoas e a uma vida que cumpra os preceitos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, seria mudar radicalmente a estrutura e o modelo da Sociedade em que vivemos, com consequências facilmente (im)previsíveis.

21) Porque o que está em causa não é meramente uma “liberdade individual de escolha” mas sim uma mudança radical dos valores, dos princípios e da estrutura da sociedade em que vivemos, pois da total proibição de matar passamos a viver numa sociedade que permite matar, sem fronteiras bem definidas e que se vão alargando progressivamente, tal decisão só pode ser tomada em referendo. Afinal, quem tem medo deste debate e da decisão livre e esclarecida do povo?

*José Manuel Silva é médico, especialista em medicina interna e foi bastonário da Ordem dos Médicos entre 2011 e 2017

Fonte: https://rr.sapo.pt/2020/02/16/pais/a-fundamentacao-em-21-pontos-do-nao-a-eutanasia/noticia/182189/

sábado, 25 de janeiro de 2020

Em Portugal e no Brasil (MT) as forças policiais trabalham em favor da saúde mental e da prevenção do suicídio

Estratégias de prevenção do suicídio têm de ser sempre atualizadas, alerta psicólogo da GNR


O chefe do Centro de Psicologia e Intervenção Social da GNR defendeu hoje, em Lisboa, uma atualização constante das estratégias de prevenção de suicídio nas forças de segurança, face à evolução das realidades com que são confrontados.

“Estes programas na área da prevenção do suicídio estão sempre inacabados, mesmo quando se atinge uma taxa zero”, disse à agência Lusa o tenente-coronel e psicólogo António Martinho, no final de uma intervenção na conferência “Forças de Segurança – Do Burnout ao Suicídio”, promovido pela Associação dos Profissionais da Guarda (APG).

De acordo com o mesmo responsável, as estratégias adotadas recentemente já deram resultados, não se tendo verificado qualquer caso em 2018 na GNR, o que não acontecia há 23 anos: “É isso que nos incentiva e nos faz acreditar que é possível o zero”.

No ano passado, porém, houve dois suicídios. “São duas situações particulares em que não estando de serviço, têm acesso à arma de fogo, o que nos obriga também, do ponto de vista da ação do comando, a haver um maior controlo no acesso a armas de fogo por parte de quem não está efetivamente a desempenhar funções de serviço”, defendeu.

Questionado sobre a resposta da tutela, o oficial respondeu que têm sido adotadas várias medidas para prevenir “o flagelo”, entre palestras ao nível das subunidades e uma “reavaliação psicológica de todo o efetivo”, no sentido de tentar detetar fatores de riscos, por forma a fazer um encaminhamento para tratamento.

Segundo a mesma fonte, há “uma preocupação de intervenção na crise psicológica”, nomeadamente nas crises suicidárias, tendo sido disponibilizada uma linha telefónica de apoio 24 horas por dia (800 962 000).

Para o psicólogo, é “primordial” falar do tema sem tabus.

“Costumamos dizer que na sociedade ocidental há dois grandes tabus: a morte e o sexo. Parece que ninguém morre e ninguém tem sexo! Com o suicídio, o tabu agrava-se”, afirmou durante a intervenção na conferência, perante uma plateia de militares, psicólogos e dirigentes associativos.

Fonte: https://lifestyle.sapo.pt/saude/noticias-saude/artigos/estrategias-de-prevencao-do-suicidio-tem-de-ser-sempre-atualizadas-alerta-psicologo-da-gnr

PM realiza 6º Ciclo de Assistência Social, Saúde e Bem-Estar para policiais militares


No período 27 a 31 de janeiro, a Polícia Militar realiza em Cuiabá o 6º Ciclo de Assistência Social, Saúde e Bem-Estar (Cassbem). O evento é dirigido aos policiais militares e tem como foco a saúde física, mental, psicológica, espiritual e financeira.

A abertura será as 13h, no auditório Milton Figueiredo, na Assembléia Legislativa. A PM aproveitou o ‘Janeiro Branco’, a campanha nacional de conscientização sobre cuidados com a saúde mental e a prevenção do suicídio para iniciar a série Cassbem 2020. 

Nessa edição, as atenções estão voltadas aos policiais dos dois comandos regionais de Cuiabá e Várzea Grande (CR 1 e 2) e do Comando Especializado (unidade que reúne os batalhões Bope, Rotam, Ambiental, Trânsito e Cavalaria) e do Gefron. Também estão convidados policiais do Corpo de Bombeiros e da Guarda Municipal de Várzea Grande.

Durante os cinco dias os participantes terão palestras com especialistas abordando temas sobre dependência química (álcool e outras drogas), prevenção a doenças cardíacas, câncer, transtornos mentais, comportamento suicida, estresse ocupacional (prevenção e tratamento), educação financeira, entre outros.

O coordenador de Assistência Social da PMMT, tenente-coronel Diego Tocantins, destaca que o Cassbem é resultado da preocupação e trabalho de integração dos setores de saúde e assistência social com o Comando Geral, Comandos Regionais e batalhões na busca de maior proximidade e mais qualidade de vida aos policiais militares e de seus dependentes.

Em 2019, cerca de 2.500 policiais de Cuiabá e dos 14 comandos regionais do interior participaram do curso e de dinâmicas sobre práticas saudáveis, identificação de doenças e a busca de apoio e tratamento especializado. O Cassbem é um programa permanente da PM, após essa primeira edição de 2020, assim como no ano passado, os ciclos serão estendidos aos policiais dos comandos regionais do interior que ainda não tiveram acesso ao curso.

Fonte: https://odocumento.com.br/pm-realiza-6o-ciclo-de-assistencia-social-saude-e-bem-estar-para-policiais-militares/

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Caso de uma sobrevivente suicida, felizmente acolhida e cuidada...

 Tentou o suicídio por quatro vezes


“Rute” (nome fictício) é um dos sete utentes que tiveram comportamento suicidário que a MenteMovimento está a acompanhar no âmbito do Projeto Habitus


Giselia Nunes (28 novembro 2019)

“Queria adormecer e não acordar mais”, repetiu “Rute” várias vezes durante a conversa com a nossa reportagem, de mais de uma hora e meia. Natural do concelho de Oliveira de Azeméis, esta mulher de apenas 45 anos, divorciada e com uma filha, abriu-nos o livro da sua vida, partilhando vivências que não lembram ao diabo! Ao ponto de nos levar a autoquestionar como é que (sobre) viveu até hoje.

Ao labor, “Rute” começou por relatar uma infância “com muitos problemas em casa”. Mesmo após os pais se terem divorciado, as discussões continuaram a ser o “prato do dia” e ela só queria acabar com aquele “pesadelo”. Tanto que, e uma vez que não conseguiu concretizar o sonho de “entrar em Belas Artes”, no Porto, “viu no casamento “uma oportunidade de sair de casa”. Na altura, “já tomava depressivos, havendo dias em que andava completamente noutro mundo”, admitiu ao nosso jornal.

 “Rute” casou um dia antes de completar 22 anos com um rapaz mais velho, amigo de um antigo namorado, e já depois de ter tentado o suicídio pela primeira vez por ingestão medicamentosa. Ao todo, e sempre utilizando o mesmo método porque diz ter “medo da dor”, foram quatro as tentativas que cometeu até ao momento. Nenhuma delas com sucesso, felizmente.
Ao casar, “foi pior a emenda do que o soneto”
Ao casar, “foi pior a emenda do que o soneto”. Além de “possessivo e ciumento”, como já era quando namoravam, o marido também bebia e consumia drogas, o que “Rute” só veio a saber quando foi viver com ele. Um quadro familiar que viria a piorar com episódios de violência doméstica, de tal forma que “chegava a estar noites e noites acordada com medo dele, porque ele tinha uma faca”, com dívidas por causa do álcool, etc.

“Rute” chegou mesmo a ter vergonha de sair à rua até ao dia em que, com a ajuda do pai, abandonou a casa. Também o divórcio não foi fácil. Mas, “após inúmeras tentativas”, “consegui livrar-me dele e nunca mais o vi até hoje”.

Fechado este “capítulo”, não demorou muito tempo a ter outro relacionamento que, de igual modo, deixou muito a desejar. “Rute” conheceu o segundo marido, pai da sua filha, no local de trabalho, o qual “já tinha outra maneira de ser, de estar”. Mas todo este encantamento “foi sol de pouca dura”. “Começámos [também] a ter muitas discussões”, o que complicou quando “Rute” descobriu que tinha cancro da mama. A sua filha tinha quatro anos quando soube que estava doente.
O marido nunca a acompanhou a uma consulta nem sequer aos tratamentos. Como se não bastasse, “quando chegava a casa dos tratamentos muito mal, ele era agressivo”. “Via-me a perder o cabelo, as pestanas, e reagia como se eu tivesse uma simples gripe”, contou “Rute”, que mais tarde viria a confirmar que era traída.

Tentou pôr termo à vida, novamente, já a filha “tinha seis, sete anos”. Só o facto de não poder pegar na menina ao colo devido à doença fê-la sentir que “era um empecilho, que estava ali a mais”. Chegou até a fazer um vídeo de despedida para a filha, que o pai fez questão de lhe mostrar.
Ao fim de quase 14 anos, e de viver mais um “verdadeiro filme de terror”, “Rute” tentou suicidar-se mais duas vezes. Mas (sobre)viveu! Confidenciou ao nosso semanário que, apesar do “enorme vazio que sempre sentiu”, “há uma força” que a mantém agarrada à vida. E essa “força” é a sua filha, de 18 anos, que, presentemente, está com o pai, mas com a qual tem uma boa relação. “O simples facto de querer continuar a lutar deve-se a querer deixar esse exemplo para a minha filha, quero que ela saiba que a mãe sempre lutou, apesar das dificuldades”, garantiu.
“Rute” ficou a saber do Projeto Habitus e da MenteMovimento através do hospital
“Rute” reside em S. João da Madeira (SJM) há alguns anos. Após mais uma relação amorosa fracassada, vive agora sozinha e encontra-se desempregada, tendo voltado “a ter crises de ansiedade, de nervosismo, de querer partir tudo”. No Hospital de Dia de Psiquiatria, instalado na unidade hospitalar de S. João da Madeira, foi-lhe diagnosticada Síndrome de Borderline ou perturbação de personalidade borderline. Após tantos anos de sofrimento, ficou a saber que tem um transtorno mental grave caracterizado por um padrão de instabilidade contínua no humor, no comportamento, autoimagem e funcionamento.

Também no Hospital de Dia de Psiquiatria ficou a conhecer o Projeto Habitus e a MenteMovimento. E abençoada a hora que isso aconteceu.  Nesta associação fundada em outubro de 2016 por um movimento cívico de utentes, profissionais de saúde e cuidadores informais, da qual faz parte há meio ano, encontrou “pessoas amigas, que se preocupam comigo”. Aliás, “Rute” aceitou dar este testemunho ao labor, “porque a MenteMovimento tem-me ajudado muito”. Além disso, esta sua partilha é também um apelo para que “as pessoas não deixem de dar apoio quando alguém pede ajuda, para que não ignorem”.

“Eu e outros como eu podemos nem pedir ajuda verbalmente, mas fazemo-lo através de sinais (partir tudo discutir, multas, dívidas, etc.)”, referiu, acrescentando que “os outros normalmente só julgam quando deviam questionar mais, deviam olhar para este problema com olhos de ver”. Em seu entender, “as pessoas nem se apercebem que um dos maiores problemas da sociedade é a saúde mental”. “A maior parte diz que está bem e não está. Devemos estar mais atentos”, alertou.

MenteMovimento acompanha pessoas que tiveram comportamento suicidário

E realmente o alerta de “Rute” faz cada vez mais sentido.  Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) estamos mesmo perante “uma epidemia” que mata no mundo uma pessoa a cada 40 segundos. De acordo com os dados mais recentes da OMS, o suicídio é responsável por cerca de 800 mil mortes por ano, apresentando uma taxa maior nos homens do que nas mulheres. E – imagine-se! – na faixa etária entre os 15 e os 29 anos, surge como a segunda causa que mais mata, logo a seguir aos acidentes rodoviários.

Em SJM este “problema de saúde pública” não passa ao lado de quem de direito. Há mais trabalho a ser levado a cabo para além do que é feito pelo Hospital de Dia de Psiquiatria. Tanto que “Rute” é um dos sete utentes que tiveram comportamento suicidário que a MenteMovimento está a acompanhar.

Nesta associação sediada na cidade, integra a Unidade Sócio-Ocupacional, um dos eixos de intervenção do Projeto Habitus cuja entidade promotora é a câmara municipal, que tem como população alvo adultos com experiência de doença mental, clinicamente estáveis, que tenham possibilidade de inserção e reabilitação. Ou seja, nesta unidade não são admitidos indivíduos em casos de deficiência intelectual; consumos de álcool e/ou de substâncias ilícitas; sem adesão terapêutica; demências e doenças neuro degenerativas; sem acompanhamento médico; e/ou que apresentem, em crise, comportamentos agressivos, que possam comprometer a integridade física de outros ou do próprio.
Unidade Sócio-Ocupacional tem 34 utentes
 Os objetivos da Unidade Sócio-Ocupacional são – como explicou ao nosso jornal Ana Ferreira, terapeuta ocupacional da MenteMovimento –  apoiar a nível psicossocial pessoas com experiência de doença mental e dos seus cuidadores; promover atividades ocupacionais e grupos terapêuticos; proporcionar um espaço seguro onde a pessoa se possa expressar de forma livre e usufruir da partilha de experiências; e adquirir competências pessoais e sociais com vista à preparação para a integração profissional.

Presentemente, “temos em funcionamento um conjunto de oficinas sócio-ocupacionais e grupos terapêuticos, quer para os utentes quer para os cuidadores informais, que permitem o desenvolvimento de competências funcionais, no sentido de potenciar oportunidades de participação e inserção social, a todas as pessoas que nos procuram”, prosseguiu a responsável.

Fazendo as contas, no total, são 34 os utentes que se encontram em acompanhamento. Provenientes da região de Entre Douro e Vouga (Oliveira de Azeméis, Arouca, Vale de Cambra, S. João da Madeira e Santa Maria da Feira), são maioritariamente do sexo feminino e com idades compreendidas entre os 26 e os 61 anos.

Ainda a propósito, Ana Ferreira avançou que, destes 34, sete tiveram um comportamento suicidário, principalmente por ingestão medicamentosa. Situação que, como adiantou, se verifica “mais no género masculino, com idades compreendidas entre 26 e os 61 anos”. Além disso, informou que todos os utentes (com ou sem comportamento suicidário) foram referenciados pelo médico de família ou médico psiquiatra, através do preenchimento de uma ficha de referenciação.

CHEDV tem Consulta de Prevenção de Comportamentos Autolesivos e Suicidários
O Centro Hospitalar de Entre o Douro e Vouga (CHEDV) tem a funcionar no Hospital de S. João da Madeira, desde janeiro de 2017, a Consulta de Prevenção de Comportamentos Autolesivos e Suicidários. Criada no âmbito do Projeto de Prevenção do Departamento de Saúde Mental do CHEDV e contando com três profissionais (dois psiquiatras e uma psicóloga clínica), trata-se de uma consulta apenas de referenciação interna, para pessoas que já sejam acompanhadas em consulta de Psiquiatria Geral, com mais de 18 anos e que, pelo quadro clínico, exijam um acompanhamento especializado nesta área.

Em declarações ao labor, a sua coordenadora, Ana Cristina Lopes, não pôde adiantar o número de utentes que estão a ser seguidos. Mas partilhou algumas informações detalhadas sobre o Projeto de Prevenção do Departamento de Saúde Mental que esteve na sua génese. Este – segundo disse a psiquiatra que participou em outubro passado na tertúlia “Prevenção do suicídio: falar é o melhor remédio!”, promovida pela MenteMovimento em S. João da Madeira – surgiu em 2016 enquadrado no Plano Nacional de Prevenção do Suicídio (2013-2017).
 
Focando-se na articulação com as estruturas da comunidade, de forma a sinalizar e apoiar indivíduos que possam estar em risco na região, este projeto do CHEDV aposta em ações de sensibilização e no trabalho em rede. Além de ações destinadas à população em geral, como a que teve lugar na Biblioteca Municipal Ferreira de Castro, em Oliveira de Azeméis, em outubro de 2017, houve outras direcionadas aos porteiros sociais (psicólogos, professores, assistentes sociais), militares da GNR, agentes da PSP e bombeiros, na Torre da Oliva, em novembro de 2018.

O projeto também colaborou na organização do II Encontro do Fórum Social da União de Freguesias de Santa Maria da Feira, Travanca, Sanfins e Espargo, este ano, no Dia Mundial da Saúde Mental – Prevenção do Suicídio (10 de outubro) e tem vindo a articular com a Rede Local de Intervenção Social (RLIS). Nota ainda para, em termos de articulação com os cuidados de saúde primários, as ações de sensibilização para profissionais de saúde do ACeS Aveiro Norte (sete sessões replicadas em três centros de saúde – S. João da Madeira, Vale de Cambra e Oliveira de Azeméis), em janeiro de 2018.

No que diz respeito a cuidados especializados hospitalares, além da Consulta de Prevenção de Comportamentos Autolesivos e Suicidários, Ana Cristina Lopes falou-nos ainda da terapia de grupo e da articulação com equipa de enfermagem do Serviço de Urgência para sinalização dos utentes admitidos por comportamentos suicidários e autolesivos. Por último, referiu-se ao desenvolvimento de um projeto de investigação com a Universidade de Aveiro na área da literacia em depressão e suicídio, na sequência de uma candidatura aprovada e financiada no âmbito do Concurso “Comunicar Saúde”.

Fonte: https://labor.pt/home/2019/11/28/tentou-o-suicidio-por-quatro-vezes/

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Suicídio x câncer

"É no primeiro ano a seguir ao diagnóstico de cancro [câncer] que as pessoas se suicidam mais"

O risco de suicídio aumenta um ano após o diagnóstico de cancro, segundo revela um estudo norte-americano publicado na revista CANCER, da Sociedade Americana de Cancro

Vanda Marques (14 jan 2019)

O risco de suicidio é duas vezes superior em doentes com cancro [câncer] do que a população em geral, revela a psiquiatra Lúcia Monteiro. Por isso, os resultados de um estudo, publicado na revista da American Cancer Society, a Cancer, que revela que os pensamentos suicidas aumentam após o primeiro ano do diagnóstico de cancro, não é surpresa para os especialistas. A investigação indica ainda que é determinante avaliar este risco nos doentes recentemente diagnosticados.

As conclusões baseiam-se numa análise de 4.671 989 doentes e concluíram que 1.585 cometeram o suicídio cerca de um ano após a descoberta da doença. Os doentes que correm maior risco são os que sofrem de cancro nos pulmões e no pâncreas. 

A psiquiatra Lúcia Monteiro, da Unidade de Psiquiatria do IPO, concorda com estes resultados e revela que foi criado um grupo de trabalho multidisciplinar com esse objetivo: "avaliar o risco e sobretudo, implementar medidas intrahospitalares de prevenção do suicídio nos nossos doentes." A diretora do Núcleo de Oncologia Psicossocial IPOLFG explica porque é que este fenômeno ocorre e que o acompanhamento dos doentes é fundamental.

É verdade que, ao fim do primeiro ano, é quando os pacientes ficam mais deprimidos e com mais pensamentos suicidas?
 
Todos os estudos nesta área confirmam que o risco de suicídio nos doentes oncológicos é superior ao da população geral, provavelmente duas vezes superior. Se pensarmos que o cancro é a segunda causa de morte por doença no mundo ocidentalizado, o problema torna-se francamente preocupante.

Confirma-se ainda que é durante o primeiro ano a seguir ao diagnóstico de cancro que as pessoas se suicidam mais (o risco é maior). Acreditamos que esta será também a realidade na população portuguesa embora não tenhamos dados objetivos.  A morte por suicídio é muitas vezes omitida pelas famílias e iludida nos registros medico legais e estatísticas da saúde. Estes estudos afiguram-se  particularmente difíceis de replicar no nosso país.

Porque é que os doentes com cancro se suicidam?

Poderemos considerar fatores de risco de 3 naturezas: epidemiológicos, oncológicos, psicossociais. Têm maior risco de suicídio:

- os doentes sexo masculino, 3ª idade (> 65 anos), raça branca, não-casados (solteiros, divorciados, viúvos)

- os doentes com cancro pulmão, estômago, pâncreas e cabeça/pescoço; os doentes em fase avançada ou metastática da doença  (tumores com pior prognóstico e menor taxa de sobrevivência); os doentes com dor persistente e mal controlada (mais frequente na doença avançada)

- a depressão é a principal causa de suicídio na população geral. No doente com cancro reduz  os seus recursos adaptativos e acentua o sofrimento psicológico; afeta a resposta ao a imunidade e a resposta biológica aos tratamentos, mas também a motivação e a adesão ao plano de cuidados. Em consequência ultima, aumenta exponencialmente a desesperança e o risco de suicídio.
Outros fatores psicossociais de risco são o isolamento e deficiente suporte social, os consumo patológico de álcool ou outras substâncias, história de doença mental ou tentativas de suicídio prévias (do doente ou na sua família).

O que é mais importante para prevenir o suicídio nos doentes com cancro?

É fundamental o treino dos profissionais - sobretudo dos médicos - em comunicação, saber dar más noticias. A forma como se dá a notícia do diagnóstico de um cancro ou se explica o que há a fazer na fase avançada de doença, condiciona decisivamente o estado emocional do doente, as suas expectativas para o futuro e o seu empenho em continuar a viver.

Importante informar o doente e a família sobre o tipo de cancro e o seu prognóstico, o plano de tratamentos e as suas sequelas, ajudar a pessoa a ter expectativas realistas e adaptar-se a uma nova realidade de doença crónica (e não imediatamente mortal e dolorosa).

Reforçar a disponibilidade da equipe e a abertura para estratégias terapêuticas alternativas e personalizadas – a pessoa sentir-se-á acompanhada e protegida mas mantendo a autonomia e a dignidade.

Importante evitar que problemas transitórios de adaptação à doença evoluam para síndromes psiquiátricos graves ou situações sociais de maior risco.

Se nas consultas iniciais o doente apresentar stress elevado, insônia, ansiedade antecipatória, desânimo e pessimismo , problemas familiares ou dificuldades sociais deverá ser de imediato referenciado para acompanhamento psicossocial específico – consulta de psicologia ou psiquiatra e/ou avaliação social.

A depressão major e a ideação suicidária são situações de urgência em oncologia.

As equipas oncológicas – médicos, enfermeiros, terapeutas – devem estar sensibilizados para a perigosa associação cancro e depressão, saber comunicar com o doente deprimido e detetar sintomas depressão e ansiedade patológica; de imediato referenciar este doente ao médico psiquiatra de ligação/ psicooncologista).

Na crise suicidária são mandatórias a vigilância clínica do doente, o claro aviso à família e cuidadores, a intervenção psicossocial imediata e enérgica com tratamento antidepressivo e ansiolítico, psicoterapia breve e focada, avaliação do suporte social e comunitário; se necessário, internamento hospitalar protetor.

No IPO Lisboa criámos recentemente um grupo de trabalho multidisciplinar/task force com a missão de avaliar o risco e sobretudo, implementar medidas intra-hospitalares de prevenção do suicídio nos nossos doentes.

NOTA: fizemos a adaptação do presente artigo jornalístico ao português do Brasil para facilitar a leitura

Fonte: https://www.sabado.pt/vida/detalhe/o-primeiro-ano-a-seguir-ao-diagnostico-de-cancro-que-as-pessoas-se-suicidam-mais

sexta-feira, 5 de maio de 2017

"Jovens, nosso presente". Não é nosso dever protegê-los?!


Portas para a realidade…

Fernando Barroso

As lutas são difíceis. Temos que ser mais arrojados do que o “inimigo”. O certo é que vamos ganhando algumas batalhas. Há batalhas muito difíceis de vencer, mas podem contar com a nossa luta até sempre porque os nossos filhos não podem ser “engolidos” pela voracidade das máquinas, e muito menos por mentes que se dão ao “LUXO” de “CRIAR” caminhos para o suicídio. BALEIAS AZUIS? Jogos com caminhos ínvios, que promovem a automutilação, e o colocar termo à própria vida? 50 Desafios “ORIENTADOS” por um “CURADOR”?

1 – Com uma navalha, escreva “F57” na palma da mão e em seguida envie uma foto para o curador.

28 – Não fale com ninguém o dia todo.

50 – Tire a sua própria vida.

QUAL O NOSSO PAPEL? QUAL O PAPEL DE TODOS QUE ESTÃO ACORDADOS PARA AS REALIDADES TRAZIDAS PELA OBSCURA VIRTUALIDADE?

O nosso papel é compreender o sistema e, se necessário, enfrentá-lo em busca de uma sociedade mais justa.

A OMS RECONHECE O SUICÍDIO COMO UMA PRIORIDADE DE SAÚDE PÚBLICA. NO PRIMEIRO RELATÓRIO DA ORGANIZAÇÃO SOBRE O ASSUNTO, RECONHECE QUE A “PREVENÇÃO DO SUICÍDIO: UM IMPERATIVO GLOBAL”

O fenómeno macabro “Baleia Azul” ganha destaque, com justificada razão, entre os assuntos que nos preocupam (guerra na Síria, eleições na França, guerra nuclear da Coreia do Norte, as já conhecidas investidas de Donald Trump). O fenómeno é dinamizado pela execução gradativa de 50 desafios que vão desde a automutilação até ao suicídio. Quem estabelece as regras e propõe os reptos é um mentor (curador), uma espécie de líder, geralmente adulto, que ordena a realização da tarefa do dia com a garantia de provas (os participantes são obrigados a enviarem fotos do trabalho feito). Claro que o “CURADOR” (estranho nome) nunca cumpriu os propósitos do jogo.

UM TOTAL DE 1,3 MILHÃO DE PESSOAS DE 15 A 29 ANOS MORREM NO MUNDO ANUALMENTE VÍTIMAS DE CAUSAS EVITÁVEIS OU TRATÁVEIS, SENDO A PRINCIPAL DELAS OS ACIDENTES DE TRÂNSITO (11,6% DO TOTAL). O SUICÍDIO FICA EM SEGUNDO LUGAR, RESPONSÁVEL POR 7,3% DAS MORTES.

Inescusavelmente, esses acontecimentos fazem-nos pensar sobre um fenómeno que, certamente, não é novo (suicídio entre a população jovem), mas que ganha impulso renovado com um jogo que se desdobra nas malhas da tecnologia.

OS JOVENS NÃO SÃO APENAS O NOSSO FUTURO – ELES SÃO O NOSSO PRESENTE.

São múltiplos os portões de acesso que nos levam a alguns endereços de reposta (como diria Kafka, as portas são inumeráveis, a saída é uma só, mas as possibilidades de saída são tão numerosas quanto as portas).

Para o filósofo sul-coreano Byung-Chull Han, a sociedade de desempenho (que substitui a sociedade disciplinar) prima pelo excesso de positividade. Somos teleguiados pela lógica do excesso (super-comunicação, super-rendimento, super-produção), que nos quer sempre ocupados, respondendo aos estímulos que não param de nos cortejar frente às telas, agora ubíquas.

Provavelmente, os jovens dão-se conta dessas limitações e ousam responder a pergunta que habita as páginas do famoso livro A insustentável leveza do ser: “Então, o que escolher? O peso ou a leveza?” (...)

Coluna: A Saga do Soldado de Papel
Fonte: http://regiaodecister.pt/opiniao/portas-para-realidade

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Ainda a prevenção do suicídio nas forças policiais em Portugal

Prevenção do suicídio

Os investigadores da PJ também se emocionam e também ‘quebram’.

Ricardo Valadas

O recente estudo apresentado sobre o fenômeno do suicídio nas polícias refere que 28,1% dos profissionais que se suicidaram tinham hábitos alcoólicos excessivos, e que na maioria dos casos, as causas se centram em problemas pessoais, que "afetam todo e qualquer cidadão", tais como conflitos familiares e conjugais.

Na base de muitos suicídios está um fenômeno designado por "Síndrome de Burnout" (SB), que na sua essência, se manifesta num quadro clínico, que passa por irritabilidade, fadiga constante, insônia, incapacidade em relaxar, depressão e lapsos de memória. A SB é sobretudo uma doença ocupacional e manifesta-se mais em profissões que envolvam uma gestão emocional próxima, tais como as polícias, os profissionais de saúde e os bombeiros.

Na PJ, onde é exigido que se interaja com o sofrimento de terceiros e com o vislumbre do fim da sua própria vida, é importante que se pense num programa preventivo e de acompanhamento de todos os profissionais sem exceção.

Os problemas familiares existentes são, na maioria, decorrentes dos problemas profissionais e muitas vezes do stress provocado pelas condições de trabalho e pela falta de descanso. Os investigadores da PJ também se emocionam e às vezes também ‘quebram’.

Fonte: http://www.cmjornal.pt/opiniao/colunistas/ricardo-valadas/detalhe/prevencao-do-suicidio
- com adaptação à língua portuguesa brasileira

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Suicídio de policiais em Portugal - mais informações

Saúde mental. Suicídio foi a causa de morte de 9645 pessoas em nove anos

Nos últimos nove anos, o suicídio foi a causa de morte de 9645 pessoas em Portugal. Resultados de um estudo sobre a prevenção do suicídio e outros comportamentos autolesivos nas forças de segurança revelaram, esta semana, que entre 2007 e 2015 foram registados 89 suicídios entre agentes da GNR e PSP. Analisando os dados globais para o mesmo período temporal, os dados do Instituto Nacional de Estatística revelam um flagelo de muito maior dimensão. Qual é a estratégia?

Álvaro Carvalho, diretor do Programa Nacional de Saúde Mental da Direção-Geral da Saúde, sublinha que, para já, este estudo feito junto das forças de segurança traz resultados importantes para a prevenção. Embora representem 1% dos suicídios a nível nacional neste período, entre os agentes de segurança – um universo de 40 mil pessoas – estima-se que a prevalência do suicídio seja o dobro da verificada na população em geral. E atuar junto dos grupos com maiores vulnerabilidades, criando uma cultura de prevenção e deteção de sintomas entre pares, é uma das estratégias centrais do Plano Nacional de Prevenção do Suicídio em vigor no país, sublinha o responsável.

Os dados do INE mostram que o suicídio se tem mantido relativamente estável, na ordem dos mil casos anuais. Foi atingido um pico em 2014, com 1223 óbitos por lesões autoprovocadas intencionalmente, o que fez aumentar a taxa de mortalidade por esta causa no país para 11,8 casos por 100 mil habitantes. Em 2015, os últimos dados disponíveis e divulgados pelo INE na semana passada, o número de suicídios baixou para os 1132 casos, um número ainda assim superior ao que se registava antes da crise económica.

Nestes nove anos, o suicídio tirou a vida a 7398 homens e 2247 mulheres. As estatísticas do INE revelam que é a população de meia-idade e mais velha que está em maior risco. O número de mortes aumenta de forma expressiva a partir dos 40 anos de idade. Entre os 30 e os 40 anos registaram-se 973 casos de suicídio neste período e, entre os 40 e os 49 anos, 1518 mortes; entre os 50 e os 59 anos houve 2369 casos; entre os 60 e os 69 anos registaram-se 1507 casos; entre os 70 e os 79 anos, 1814 casos; e acima dos 80 anos de idade houve 1497 vítimas de suicídio, das quais 651 tinham mais de 85 anos de idade. Já entre os mais jovens registaram-se 106 mortes por suicídio até aos 19 anos de idade e 497 casos entre os 20 e os 29 anos.

Reforçar investigação

Álvaro Carvalho defende que o ideal seria poder avançar com autópsias psicológicas no país para perceber exatamente o contexto das pessoas que cometem suicídio, tal como foi feito no estudo junto das forças de segurança, conduzido pelo psiquiatra Jorge Costa Santos. “Não temos tido meios suficientes nem na medicina legal nem na saúde mental”, reconhece Álvaro Carvalho. “Mesmo que não fossem feitas autópsias a nível nacional, seria importante haver meios para poder desencadear esses processos por amostragem e nas zonas de maior incidência, como o Alentejo litoral”, sublinha o responsável.

Álvaro Carvalho defende que, independentemente do avanço da autópsia psicológica como está previsto no Plano Nacional de Prevenção do Suicídio, seria importante uma “maior profissionalização da investigação dos suicídios por parte das forças de segurança”, dando como exemplo situações de acidentes rodoviárias em que é detetada a presença de drogas nos condutores, mas não é avaliada a hipótese de intencionalidade.

No que diz respeito a grupos de risco, além das forças de segurança, Álvaro Carvalho sublinha que há trabalho a fazer no meio prisional e também junto dos idosos. Atualmente, GNR e PSP têm programas de sinalização de idosos isolados, mas o objetivo, sublinha o responsável, é que em parceria com serviços de saúde, autarquias e agentes de segurança sejam criados planos de intervenção individual junto das pessoas mais vulneráveis que deem recursos em várias dimensões. “Pode ser dar resposta à necessidade de ter alguém com quem conversar ou ajuda para fazer compras”, exemplifica o especialista. Entre os idosos, a solidão e a existência de doença incapacitante são fatores de risco para o suicídio, que em 90% dos casos está ligado a um quadro de depressão.

Ao longo deste período de nove anos, o suicídio tornou-se a principal causa de mortalidade que não doença no país. Foram progressivamente diminuindo as vítimas mortais de acidentes na estrada e, em 2011, o número de mortes por suicídio foi, pela primeira vez, superior ao balanço da sinistralidade rodoviária. Em 2015, os acidentes de transporte provocaram 810 mortes no país e as lesões autoprovocadas intencionalmente tiraram a vida a 1132 pessoas.

Álvaro Carvalho defende que esta tendência resultará mais do efeito da crise económica do que do impacto das estratégias de prevenção. “Está descrito na literatura que, em períodos de crise, diminui a sinistralidade rodoviária e aumenta o suicídio.” Em Portugal, um dos fatores de preocupação nos últimos anos foi um aumento da taxa de mortalidade por suicídio numa população mais jovem.

https://ionline.sapo.pt/546752

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Suicídio de policiais em Portugal e a construção de um plano de prevenção

Associação Sindical dos Profissionais da Polícia defende prevenção do suicídio

O presidente da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia, Paulo Rodrigues, disse hoje que é importante dotar a PSP de instrumentos para prevenção do suicídio, referindo-se ao estudo encomendado pelo Ministério da Administração Interna e hoje divulgado.

"A verdade é que é importante que, a partir deste momento, não se fique só pelas conclusões e se comece a dotar a PSP de instrumentos", afirmou Paulo Rodrigues, explicando que é preciso equipar os gabinetes da PSP com mais psicólogos e montar um programa de prevenção.

Os 89 elementos da PSP e da GNR que se suicidaram entre 2007 e 2015 tinham como perfil comum problemas pessoais ou familiares, se

O estudo "Prevenção do suicídio e comportamentos autolesivos nas forças de segurança", encomendado pelo Ministério da Administração Interna (MAI) ao psiquiatra Jorge Costa Santos, indicam também que estes elementos que se suicidaram apresentavam alguns antecedentes pessoais e profissionais, nomeadamente mais casos de divórcios e maior absentismo por doença.

O mesmo estudo defende um reforço de psicólogos e psiquiatras na PSP e GNR para permitir um acompanhamento de proximidade.

"Tem de haver esta conjugação de esforços para que se possa efetivamente fazer uma prevenção, mas tem de se passar à prática, porque há dois anos que estamos à espera que este projeto se inicie para melhorar aquilo que temos, que é muito pouco", salientou Paulo Rodrigues, ressalvando que apenas conhece as conclusões do estudo.

Ainda sobre as conclusões apresentadas, o dirigente salientou que em relação aos suicídios a conclusão "não é de estranhar", lembrando que o ano de 2015 foi "muito complicado" na PSP porque "houve muitos suicídios".

Entre 2007 e 2015, suicidaram-se 51 militares da GNR e 38 agentes da PSP, sendo os anos com maior número 2008 (12) e 2015 (15).

Em 2016, suicidaram-se dois agentes da PSP e dois militares da GNR.

Fonte: http://www.rtp.pt/noticias/pais/associacao-sindical-dos-profissionais-da-policia-defende-prevencao-do-suicidio_n979802
 
ndo esta a principal causa para o suicídio, revela um estudo hoje apresentado.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Matérias excelentes sobre suicídio, depressão e, naturalmente, prevenção!

Tristeza não é depressão, depressão é não sentir nada
Jornal Observador, de Portugal

A matéria elaborada por Vera Novais e publicada em 1/5/2016 tem por subtítulo:
Não ter reação, não sentir a dor da perda, não sentir nada de nada, apenas uma culpa profunda. Estes podem ser sinais de uma depressão, especialmente se duram muito tempo.
Muita bem escrita e ilustrada. Traduzi uma das figuras disponíveis:
Vale a leitura, que naturalmente tem uma abordagem, digamos, européia!


Por que precisamos falar sobre o suicídio de jovens no Brasil
Jornal Nexo - Brasil

Enquanto em países desenvolvidos a taxa de suicídios dessa parcela da população cai, no país ela aumenta

O subtítulo acima mostra o quanto é importante esta matéria. A frase que encerra é praticamente um manifesto em favor da prevenção:

Convite à leitura feito!!

terça-feira, 21 de junho de 2016

Facebook prevenindo suicídio também em Portugal, com apoio do CVV

Aplicação que alerta para tendências suicidas chega a Portugal
Paula Sofia Luz

Amigo ou seguidor que veja publicação suspeita pode chamar a atenção. Instituição Voz de Apoio já colabora com rede social

A rede social Facebook vai ter em Portugal uma ferramenta que permitirá ajudar a prevenir o suicídio. Dentro de poucos dias, a empresa criada pelo americano Mark Zuckerberg vai anunciar a parceria com uma instituição nacional para qual serão encaminhados alertas sobre pessoas que colocarem posts na rede social que possam ser entendidos por quem os ler como eventuais tendências suicidas.

A aplicação começou por ser testada nos Estados Unidos e tem vindo gradualmente a estender-se a outros países. O DN sabe que os responsáveis pela rede social já estabeleceram uma parceria com uma instituição portuguesa ligada à prevenção do suicídio, cuja identidade será revelada nos próximos dias. Neste momento "estão a ser preparados os conteúdos para Portugal", soube o DN junto de fonte ligada ao processo.

Desde fevereiro que a ferramenta está a ser usada em diversos países. Embora não existam ainda dados estatísticos sobre a aplicabilidade prática ao nível dos resultados, a verdade é que o Facebook estabeleceu parcerias com centros de apoio e instituições do mundo inteiro. Até agora Portugal aparece agregado ao Brasil nessa funcionalidade do Centro de Ajuda daquela rede social. No item "Ferramentas e Recursos de Segurança", ao lado das ferramentas já disponíveis para denunciar casos de bullying, reportar abusos diversos ou conselhos para pais e educadores, é possível aceder ao link "Prevenção de Suicídios".

"Se te deparaste com uma ameaça direta de suicídio no Facebook, contacta imediatamente as autoridades ou uma linha direta de prevenção de suicídios", pode ler--se no Facebook. Acontece que, até agora, quem acede em Portugal ao link dessa "linha direta" é encaminhado para o Centro de Valorização de Vida, uma organização brasileira que "realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, e-mail, chat e Skype 24 horas todos os dias". O centro tem sede em São Paulo, de modo que os números disponibilizados são, também eles, do Brasil. Contactado pelo DN, André Lorenzetti, assessor de comunicação do CVV, esclareceu a função: "O que ocorre é a indicação do CVV para pessoas da língua portuguesa em todo o mundo onde a empresa ainda não tiver feito parceria com iniciativa local, uma vez que falamos o mesmo idioma e podemos atender pelo Skype, por chat e e-mail." Além disso, "o centro faz parte do Befrienders Worldwide, entidade que reúne iniciativas de prevenção do suicídio em todo o mundo, existindo, provavelmente, entidades no Portugal". É um facto. É a Voz de Apoio, de Vila Nova de Gaia, que disponibiliza "apoio emocional, de carácter pontual, anónimo e confidencial, sem julgamentos".

Atualização alertou polícia

Enquanto prepara a comunicação dessa ferramenta para Portugal, o Facebook tem sido alvo de notícia por todo o mundo, à conta desta ajuda. Na semana passada, o The New York Times contava a história de Carrie Simmons, uma americana que - sem querer - acabou não só por evitar o suicídio de um amigo como também por alertar para a importância de criar esta ferramenta. Em 2014, ela deparou-se com uma atualização de estado de um antigo colega de escola, que a alarmou: "Obrigado a todos os que me tentaram ajudar. Adeus." Carrie alertou um polícia amigo e as autoridades conseguiram evitar o pior: encontraram o amigo dentro do carro, estacio
nado na berma de uma estrada, com uma pistola no colo. "Os polícias conseguiram evitar que puxasse o gatilho." O homem acabou por ser encaminhado para um centro de apoio.

"Está vivo até hoje. Se não tivesse visto aquela atualização de estado, alertando as autoridades, não sei o que teria acontecido...talvez ele tivesse mesmo disparado", afirmou Carrie Simmons, certa de que histórias como esta conseguiram despertar a consciência dos mentores do Facebook. Sabendo que a rede é utilizada regularmente por mais de 1,65 milhões de utilizadores, em que a maioria a utiliza para relatar estados de alma, esse o foi o mote para que os seus responsáveis decidissem passar a ter um papel mais ativo na prevenção do suicídio. Com a nova ferramenta, qualquer pessoa pode evitar que isso aconteça. A ideia é que amigos ou seguidores de alguém que tenha manifestado uma intenção suicida possam alertar o Facebook ou a linhas de apoio. A partir daí, caberá à instituição parceira em cada país apoiar a pessoa em risco.

"Se alguém no Facebook vir uma ameaça de suicídio, pedimos que contacte os serviços de emergência locais imediatamente", lia-se num post da página Facebook Safety, em março. "Temos equipas a trabalhar em todo o mundo, 24 por dia, que reveem todas as denúncias que nos chegam. Elas priorizam as denúncias mais sérias, como automutilação, e enviam ajuda e recursos a quem está em sofrimento", escreveram os responsáveis Rob Boyle e Nicole Staubli na mesma página.

terça-feira, 7 de junho de 2016

Lá e cá, cá e lá: Brasil e Portugal e a prevenção do suicídio

Tenho republicado e comentado muitas reportagens de Portugal.

A consciência mais aguda dos portugueses, pesquisadores e governantes, dão a entender que eles, em alguns aspectos, estão à nossa frente em prevenção do suicídio.



Publicação de item na coluna "Cartas á Directora", do jornal Público.

Os suicidários

No ano 2014 da era cristã, 1223 pessoas suicidaram-se em Portugal. Os dados do Instituto Nacional de Estatística são bons para as agências funerárias. Nascemos para viver! A crise económica não explica tudo. A competição no mundo ocidental a todos implica. O desemprego, a desestruturação moral, os problemas mentais e a falta de perspectivas convidam ao suicídio. Contudo, os responsáveis políticos devem estar atentos na prevenção do suicídio em meios académicos, face ao aumento do suicídio entre os jovens. Álvaro de Carvalho, coordenador do Plano Nacional de Prevenção do Suicídio deve ser ouvido pelos responsáveis políticos e governativos. Segundo Álvaro de Carvalho “Portugal é dos países da União Europeia que apresenta a maior taxa de morte por causa indeterminada”. Jorge de Sena escreveu: “…Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém/ vale mais que uma vida…”

Ademar Costa, Póvoa de Varzim


Fonte: https://www.publico.pt/opiniao/noticia/cartas-a-directora-1734272



O projeto de um aplicativo para celular, que torna possível o apoio emocional acessível a todas as pessoas em momentos difíceis está entre os dez finalista no Brasil do DESAFIO DE IMPACTO SOCIAL, promovido pelo Google.

Com o prêmio, eles tem como propósito desenvolver um aplicativo para facilitar a conexão entre pessoas que precisam de ajuda com os voluntários, mais do que duplicando o número de atendimentos em dois anos.

Para ver e votar, clique aqui.