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domingo, 4 de agosto de 2013

Debate sobre crise e desempregado e sua relação com o aumento das taxas de suicídio

Crise e desemprego não fazem aumentar casos de suicídio, defendem especialistas

A crise econômica e o aumento do desemprego não fizeram crescer os suicídios em Portugal e Espanha, o que pode ser explicado pelas características dos povos dos dois países e a sua “aparente resiliência”, defendem especialistas.

O texto, publicado hoje na revista científica Lancet, responde a um artigo que relacionava o aumento do suicídio e de surtos de doenças infecciosas com as medidas de austeridade na Grécia, Espanha e Portugal, algo que os autores negam.

O artigo sobre o impacto da crise financeira na saúde, assinado em abril por Marina Karanikolos, defende que a Grécia, Espanha e Portugal “adotaram uma austeridade fiscal rígida”, mas as economias destes países “continuam a decrescer e a tensão sobre os sistemas de saúde está a aumentar”.

“Suicídios e surtos de doenças infecciosas estão a tornar-se mais comuns nestes países e os cortes orçamentais têm restringido o acesso aos cuidados de saúde. Em contraste, a Islândia rejeitou a austeridade através do voto popular e a crise financeira parece ter tido escassos ou nenhuns efeitos discerníveis na saúde”, argumenta o artigo.

Na resposta hoje publicada, os especialistas portugueses e espanhol afirmam que a informação oficial de Portugal e Espanha sobre suicídios nos últimos cinco anos “não sustentam” a ideia de que estes estão a aumentar.

Tanto em Espanha como em Portugal, “não é possível identificar um forte efeito sobre o suicídio diretamente relacionado com o desemprego”, referem, admitindo que o mesmo não se pode dizer sobre outros países europeus.

“As políticas em Portugal e em Espanha envolveram cortes substanciais nos gastos com saúde e apoio social, que claramente não tiveram um efeito mitigador. As características da população em Portugal e em Espanha podem ajudar a explicar a sua aparente resiliência no efeito potencialmente fatal sobre a saúde mental de uma crise econômica”, afirmam José L. Ayuso-Mateos, da Universidade Autónoma de Madrid, o psiquiatra Ricardo Gusmão, responsável da Aliança Europeia Contra a Depressão, e o economista e especialista em questões de saúde Pedro Pita Barros.

Para os autores, “a resposta a esta questão é necessária para guiar futuros estudos baseados em dados sobre a saúde mental e a prevenção do suicídio na Europa”.

Na resposta a este texto, a autora do estudo afirma-se “perplexa” com a argumentação apresentada pelos especialistas portugueses e espanhol, alegando terem existido picos do número de suicídios em 2008 e em 2010, “correspondendo ao desemprego”.

“Contudo, o recurso que fazem a taxas de suicídio totais ofusca a magnitude do aumento concentrado em homens em idade ativa, que são mais afetados pela crise financeira”, sustenta.

Fonte: Diário Digital com Lusa (http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=648511)

sábado, 23 de junho de 2012

Suicídio como "problema de saúde pública" e suas formas de prevenção


Causas do suicídio variam consoante as culturas
Paula Torres de Carvalho

As depressões decorrentes dos problemas causados pela crise podem ser uma explicação para o suicídio (Reuters)


Transformado num problema de saúde pública em muitos países, as causas do suicídio variam consoante as culturas e a sua prevenção passa por uma estratégia que limite o acesso às formas de o cometer: as armas nos EUA e os pesticidas na Ásia.

As notificações de mortes por suicídio aumentam em Portugal, segundo os dados oficiais mais recentes. O maior número de depressões em consequência da crise económica e social pode ser uma das explicações, segundo o secretário de Estado Adjunto e da Saúde Fernando Leal da Costa que, no passado mês de Abril, apontou o suicídio já como “um problema de saúde pública”.

Portugal junta-se assim aos países do mundo de baixos e médios rendimentos onde ocorrem 84% do total de 900 mil suicídios registados todos os anos, segundo estimativas da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Os mais recentes dados da Pordata, a base de dados sobre Portugal Contemporâneo, indicam que, em 2010, se suicidaram 1098 pessoas, mais 84 do que no ano anterior. Leal da Costa defendeu, então, medidas prioritárias para combater o problema cujo aumento justificou com o abandono social e as condições mais difíceis de sobrevivência que estão a afectar a população devido à crise.

Diferenças entre países

Estudos sobre o suicídio publicados na revista médica britânica The Lancet concluem que há cada vez mais provas de que existem grandes diferenças entre países e regiões e importa compreender essas diferenças para promover políticas de prevenção. “Melhorar a prevenção do suicídio exigirá uma melhor compreensão dos motivos e das formas como as pessoas decidem acabar com a vida” em diferentes partes do mundo, consideram os autores dos artigos publicados na Lancet.

Esta conclusão resulta dos “inesperados dados” de investigações realizadas na Índia e na China que indicam que “alguns dos factores de risco de suicídio que até agora eram assumidos como universais, variam profundamente de uma cultura para outra”. Na China e na Índia os suicídios são a segunda causa de mortalidade (49%) entre os jovens adultos dos 15 e os 29 anos, quase ultrapassando as mortes relacionadas com a gravidez e o parto que vitimam as mulheres.

O primeiro estudo representativo sobre o suicídio realizado nesses países “confirma o que se suspeitou durante décadas, que o suicídio é um grande problema de saúde” nesses países e que “não recebeu a atenção que merece”, consideram Michael Phillips e Hui G. Cheng, da Faculdade de Medicina da Universidade Jiao Tong de Shanghai, na China, num dos artigos.

Essas investigações revelam outro dado até agora desconhecido: um rosto mais feminino do problema. Apesar de os homens cometerem mais este acto, o número de mulheres está a aumentar. A análise realizada pela London School of Hygiene & Tropical Medicine, no Reino Unido, indica que, por cada suicídio feminino ocorrem 1,67 masculinos. O novo cálculo é o resultado do observado nestes países asiáticos – o ratio é de 1 para 1 na China e de 1 para 1,5 na Índia – onde as mulheres jovens das zonas rurais formam um grupo de risco especial.

A primeira surpresa e diferença relativamente aos países ricos foi o local da “residência”, já que no “primeiro mundo” os suicídios são mais habituais nas cidades e nos países em vias de desenvolvimento o suicídio acontece nos meios rurais. A segunda, foi descobrir que estar separada, divorciada ou viúva não sao factores determinantes para que as mulheres desses países se suicidem.

Os estudos realizados na China coincidem com estes resultados e referem outra diferença fundamental relativamente ao ocidente: a doença mental é muito menos frequente entre os que cometem suicídio e os que tentam.

No que respeita à prevenção do suicídio, uma das estratégias mais facilmente aplicáveis em qualquer lugar do mundo é a limitação do acesso aos meios mais utilizados para o cometer, como por exemplo, restringir as armas de fogo nos EUA ou dificultar a aquisição de pesticidas na Ásia que são a causa de metade dos suicídios, uma tese defendida pelos investigadores Keith Hawton, Alexandra Pitman e colaboradores.

Estudos publicados na Lancet
Fonte: www.publico.pt/Sociedade/prevenir-o-suicidio-dificultando-o-acesso-aos-meios-para-o-cometer-1551612