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segunda-feira, 7 de março de 2022

Falar sobre prevenção ao suicídio deve ser um hábito do ano inteiro, alertam especialistas 

Cerca de 3 mil pessoas tiraram a vida nos últimos cinco anos no Ceará, levando o Estado a ocupar o quinto no lugar no ranking nacional no período de 2011 a 2015

(4 março 2022)

Falar sobre prevenção ao suicídio não deve ser um assunto restrito apenas a um mês, por meio da conhecida campanha brasileira de nome Setembro Amarelo. O assunto, que é uma questão de saúde pública, merece máxima atenção também em outros meses do ano, uma vez que cerca de 800 mil pessoas no mundo morrem por suicídio anualmente, de acordo com um levantamento feito pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

No Brasil, o número também assusta: mais de 11 mil pessoas entre 15 e 44 anos cometem suicídio por ano. Ainda, segundo o Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (Datasus), a região do Nordeste apresentou aumento de 51,7% dos casos, enquanto aproximadamente 3 mil pessoas tiraram a vida nos últimos cinco anos no Ceará, levando o Estado a ocupar o quinto lugar no ranking nacional no período de 2011 a 2015.
 
A OMS estima, ainda, que as tentativas de suicídio sejam cerca de 20 vezes mais frequentes do que o suicídio consumado, além de existirem, pelo menos, quatro tentativas não registradas para cada tentativa oficialmente registrada. Dessa forma, o Ministério Público do Ceará (MPCE), por meio do Plano Nacional de Prevenção ao Suicídio, atua com o programa Vidas Preservadas, que articula ações como forma de combater essa problemática.

o programa promove uma abordagem intersetorial sobre o suicídio em parceria com um grupo de órgãos públicos e de organizações não governamentais do Estado, de modo a fomentar o debate e estimular a sensibilização e o fortalecimento de políticas públicas para a promoção da saúde e para o surgimento de estratégias de cuidado integral da população na perspectiva do trabalho em rede. Além disso, ele oferece capacitação para profissionais e planejamento estratégico para os municípios.

Um dos membros do programa, a psicóloga Alessandra Silva Xavier, doutora em Psicologia Clínica e especialista em Psicoterapia Psicanalítica, explica que o pensamento suicida é desencadeado, muitas vezes, por mais de um motivo. “É muito importante compreender que o suicídio não é um fenômeno simples, é um fenômeno complexo, multicausal, que significa que não tem apenas um único fator”, pontua.

Os fatores que levam ao suicídio, segundo a especialista, podem estar relacionados ao estresse, impulsividade, desesperança, rigidez cognitiva, ausência de vínculos afetivos, existência ou presença de violência ao longo do desenvolvimento, além da falta de vínculos protetivos, como os pais, por exemplo. Além disso, o suicídio é comum em pessoas com sofrimento psíquico intenso e dores avassaladoras que não são sanadas.

Alguns fatores sociais, como fome, desemprego e falta de moradia também podem levar pessoas ao sofrimento intenso e ao suicídio, segundo a psicóloga Nimara Lourenço Araújo, pós-graduanda em Gestalt Terapia que também faz parte do programa Vidas Preservadas. “Apesar das estatísticas apontarem para um cenário em que somente pessoas com depressão têm comportamentos suicidas, o fenômeno não está diretamente ligado ao transtorno depressivo”, pontua.

Pessoas com transtorno de boderline ou bipolaridade, aponta Nimara, também podem apresentar traços e características do comportamento suicida. Ainda, transtorno de ansiedade, esquizofrenia e consumo abusivo de drogas e álcool também podem desencadear tais comportamentos. Ter uma patologia psíquica, no entanto, não é fator determinante para a existência de tendências suicidas. É necessário haver avaliação profissional.

"É importante que as pessoas considerem que as doenças mentais estão para todas as pessoas, que não é um fracasso, falta de Deus ou preguiça. Infelizmente, a doença mental está repleta de elementos do imaginário, de elementos do senso comum e de elementos de preconceito, o que faz com que, muitas vezes, as pessoas tenham extrema dificuldade em reconhecer a necessidade de ajuda e de procurar ajuda", pontua a psicóloga Alessandra.

Tratamento

O tratamento dos casos dos transtornos mentais, segundo a especialista Alessandra, é complexo e multiprofissional, que pode exigir medicação, psicoterapia, atividade física, acompanhamento nutricional, fisioterapia, atividades em grupo, mudança de trabalho ou inserção em novos processos de aprendizagem. Dessa forma, o tratamento da depressão exige um reposicionamento da vida do sujeito de forma a considerá-lo na sua dimensão de autonomia e cidadania.

"É importantíssimo que o projeto terapêutico singular considere a existência de cada sujeito no seu processo com as suas demandas e que os objetivos e as estratégias sejam traçados em comum, tanto com o usuário como com a equipe de profissionais, porque as ações vão envolver uma série de intervenções, sendo importante a gente chamar a atenção para a necessidade desses profissionais serem acessíveis à população", pontua Alessandra.

A especialista completa: "Por isso, a gente sempre recomenda que é importante a busca de uma ajuda profissional, seja um profissional de saúde, que tenha uma formação na área para fazer os encaminhamentos adequados, porque quando isso fica no campo leigo, da boa vontade, nem sempre a pessoa vai receber os cuidados que ela precisa de acordo com a gravidade da situação, podendo agravar ainda mais o quadro".

Olhar atento ao próximo

As especialistas recomendam um olhar atento ao próximo para conseguir identificar possíveis sinais de pedidos de socorro que podem estar sendo dados. Nesses casos, elas recomendam que essas pessoas sejam levadas para centros especializados, a fim de receber atendimento de um profissional de saúde capacitado para a solucionar a problemática.

"Uma das coisas mais valiosas que a gente pode fazer para alguém que chega com um pedido de ajuda é ajudar essa pessoa a ser acolhida por um serviço que possa oferecer a ela o tratamento e a ajuda que ela precisa. Então, é fundamental se disponibilizar para procurar e ir junto com a pessoa até o serviço de saúde", recomenda Alessandra.

Atendimento do CBMCE

O Corpo de Bombeiros Militar do Ceará (CBMCE) também tem importante papel em ações de prevenção ao suicídio em todo o Estado. "Existem ameaças suicidas que são ligadas diretamente para a Coordenadoria Integrada de Operações de Segurança (Ciops), onde o Corpo de Bombeiros atua. Há vários casos em que os agentes foram ao local e conseguiram salvar pessoas", explica o tenente coronel do CBMCE, José Edir Paixão de Sousa.

"Existem, também, casos de ameaças suicidas que são identificadas por meio de membros do programa Vidas Preservadas, onde eles entram em contato comigo e eu faço a solicitação junto com o Corpo de Bombeiros", completa o tenente. Além disso, o CBMCE também atua na parte de prevenção por meio de treinamentos, sendo o principal chamado Guardiões da Vida, além de palestras educativas ministradas sobre a temática de prevenção ao suicídio.

"O Guardiões da Vida para a segurança pública se baseia em ensinar sobre a teoria geral do suicídio e da prevenção do suicídio, ensinar a fazer escuta e diálogo em momentos de crises suicidas, e quando atuar depois que se perceber sinais de alerta verbais e comportamentais. Isso ajuda para que companheiros de trabalho possam ter esse olhar atento e humanizado, sabendo se portar sem julgar, sem comparar, utilizando estratégias de comunicação não violenta para poder ajudar", esclarece Edir.

Nessa quarta-feira, 2, o tenente lançou o livro "Saúde e Trabalho na Segurança Pública: reflexões científicas e experiências práticas", tendo distribuição gratuita aqui. "Além disso, eu estou representando o Brasil pelo CBMCE na Federação Internacional de Psicologia das Emergências. Os nossos trabalhos nessa área foram tão reconhecidos que recebemos convites para ministrar treinamentos online em institutos e instituições", completa Edir. 

Onde buscar ajuda [Ceará]?

Centro de Valorização da Vida – CVV
Atendimento 24h
R. Ministro Joaquim Bastos, 806 – Bairro de Fátima
https://www.cvv.org.br
Telefone: 188

Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Ceará
Núcleo de Busca e Salvamento
Av. Presidente Castelo Branco, 1000 – Moura Brasil – Fortaleza-CE
Telefone: 193

Hospital de Saúde Mental de Messejana
Rua Vicente Nobre Macêdo, s/n – Messejana – Fortaleza/CE
www.hsmm.ce.gov.br
Telefone: (85) 3101 4348

Programa de Apoio à Vida – PRAVIDA/UFC
Rua Capitão Francisco Pedro, 1290 – Rodolfo Teófilo – Fortaleza/CE
www.pravida.com.br
contato.pravida@gmail.com
Telefone: (85) 3366 8149 / 98400 5672

Laboratório de Relações Interpessoais – L’ABRI/UFC
Avenida da Universidade, 2762 – Benfica – Fortaleza/CE
labriufc@gmail.com

Instituto Bia Dote
Av. Barão de Studart, 2360 – Sala 1106 – Aldeota – Fortaleza/CE
www.institutobiadote.org.br
contato@institutobiadote.org.br
institutobiadote@gmail.com
Telefone: (85) 3264 2992 / 99842 0403

Instituto DimiCuida
Av. Santos Dumont, 1388 – Aldeota – Fortaleza/CE
www.institutodimicuida.org.br
fabiana@institutodimicuida.org.br
Telefone: (85) 3255 8864 / 98131 1223

Centro de Apoio ao Sujeito no Luto – CASULU
facebook.com/casulupsi
Telefone: (85) 3109 6616 / 99996 7447  

Fonte: www.opovo.com.br/noticias/saude/2022/03/04/falar-sobre-prevencao-ao-suicidio-deve-ser-um-habito-do-ano-inteiro-alertam-especialistas.html

quarta-feira, 7 de abril de 2021

Mais estudos atestam potencial psicodélico contra pandemia de suicídios - Virada Psicodélica

Marcelo Leite | viradapsicodelica.blogfolha.uol.com.br

Um ano atrás, em 29 de março de 2020, o corpo de Thomas Schäfer foi encontrado junto de trilhos de trem perto de Wiesbaden, na Alemanha. Ele era secretário da Fazenda do estado de Hesse, e sua morte foi atribuída a suicídio após desespero com a impotência diante do desastre na economia e no emprego causado pela Covid-19. Dias depois, outro funcionário da secretaria tirou a própria vida.

A pandemia generalizou o temor de um crescimento no número de suicídios (são mais de 800 mil por ano no mundo), na tempestade perfeita a combinar angústia, isolamento social, desemprego e perda de renda. Não há dados ainda para confirmar uma tendência, mas é certo que ao menos nos EUA há mais gente pensando em tirar a própria vida, segundo os Centros de Prevenção e Controle de Doenças (CDC), num país que sem a Covid já contava 48 mil desses óbitos por ano, e aumentando.

Em paralelo, avolumam-se indicações da pesquisa biomédica de que psicodélicos clássicos como a psilocibina de cogumelos “mágicos” e o DMT da ayahuasca podem ser úteis na prevenção dessas mortes. No entanto, essa classe de substâncias permanece banida na maior parte dos países, sob a justificativa de que os chamados “alucinógenos” causam dependência e têm alta toxicidade – coisas que a ciência comprova ser uma falsidade.

O potencial de psicodélicos na prevenção do suicídio já foi tratado aqui. Pesquisadores brasileiros, favorecidos pelo fato de a ayahuasca ser legal no país, mostravam então que o chá ritual de religiões como Santo Daime, Barquinha e UDV pode ser útil nessa empreitada.

Agora, mais estudos surgem para corroborar essa promessa terapêutica e a irracionalidade manifesta de manter tais compostos no rol de substâncias proibidas e controladas, o que só dificulta a pesquisa. Um deles, sobre ansiedade de pacientes com câncer grave e risco de suicídio multiplicado por quatro, tem como co-autor Richard Zeifman, do Imperial College, que já aparecera entre os responsáveis pelo artigo de brasileiros sobre ayahuasca e suicídio, liderado por Dráulio de Araújo, do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

No novo trabalho, publicado em 18 de março, Zeifman, Stephen Ross e outros mostram que a diminuição de ideações suicidas entre diagnosticados com câncer submetidos a psicoterapia com psilocibina permanece até 4,5 anos depois. Para os autores, o psicoativo dos cogumelos Psilocybe aparece como boa alternativa aos antidepressivos disponíveis na prevenção do problema.

Cogumelos da espécie Psilocybe cubensis, que contém a substância psicodélica psilocibina
Cogumelos da espécie Psilocybe cubensis, que contém a substância psicodélica psilocibina  

Zeifman também participa do outro estudo, lançado em 11 de março, neste caso sobre risco de suicídio e psicodélicos clássico em geral, não só psilocibina. Trata-se de uma revisão sistemática, tipo de artigo que busca reunir conclusões de vários outros estudos para robustecer relações causais pressupostas.

Foram considerados 64 trabalhos, 41 deles sobre a associação entre uso não clínico de psicodélicos e comportamentos suicidas e 23 sobre terapias psicodélicas e seu impacto no risco de morte autoprovocada. Nada conseguiram concluir sobre uso continuado dessas substâncias e aumento ou diminuição de risco, mas nos estudos clínicos recentes sobre psicodélicos encontraram evidências preliminares de redução acentuada e sustentada em ideações suicidas.

Fonte: https://viradapsicodelica.blogfolha.uol.com.br/2021/04/05/mais-estudos-atestam-potencial-psicodelico-contra-pandemia-de-suicidios/

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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Pesquisa sobre popularidade e os discursos sobre as doenças no Brasil e em Portugal

Pesquisa mostra diferenças entre buscas online sobre saúde mental feitas no Brasil e em Portugal - Saúde Mental

 Sílvia Haidar

Um estudo divulgado nesta quinta-feira (18), elaborado pela subdivisão Health+Life da agência SA365, revela aumento nas pesquisas relacionadas à saúde mental em redes sociais e mecanismos de busca no Brasil e em Portugal durante o ano passado, quando começou a pandemia da Covid-19.

No Brasil, as pesquisas sobre ansiedade saltaram de 246 mil pontos, em novembro de 2019, para 370 mil pontos, na escala Google, entre os meses de abril a julho de 2020. Esse fenômeno foi acompanhado por uma diminuição na procura por termos ligados à depressão no mesmo período, com queda de 370 mil para 280 mil.

A metodologia utilizada do estudo se baseia na netnografia, que pode ser compreendida como um modelo de pesquisa etnográfica com enfoque maior nas comunidades digitais. Para isso, foram utilizados dados de popularidade do Google Trends, postagens no Twitter e monitoramento de grupos no Facebook e de comunidades no Instagram.

O objetivo do levantamento foi entender a popularidade e os discursos em relação às doenças mentais tanto no Brasil como em Portugal.

A indicação de que pessoas possam estar mais ansiosas, mas, ao mesmo tempo, sendo menos diagnosticadas com depressão chamou a atenção dos pesquisadores, já que uma das possíveis explicações pode estar no receio das pessoas em relação à Covid-19, que deixariam de procurar ajuda médica da forma adequada devido à pandemia.

“Vemos com ceticismo essa queda nas buscas sobre depressão, especialmente porque outros indicadores apresentaram aumento no mesmo período”, afirma Renata Assumpção, gerente da divisão Health+Life.

Também houve uma retração na romantização destes problemas de saúde (textos com apelo emocional e relatando casos pessoais), com um interesse maior por parte dos usuários em aspectos mais concretos como sintomas, diagnósticos e causas.

Manifestações físicas como falta de ar e pressão alta, comumente relacionadas à Covid-19, também apareceram associadas a outras buscas sobre doenças mentais.

Os dados do estudo mostram a importância do universo digital como rede de apoio neste momento. “Entendemos como relevante a atuação da indústria e de influenciadores para facilitar o diagnóstico e encaminhar as pessoas para o cuidado de um médico”, diz Renata.

A popularidade do debate sobre ansiedade vinha apresentando um crescimento orgânico desde 2015, sem variações bruscas. Um cenário semelhante também foi observado nas pesquisas relacionadas à depressão até 2019, já que antes da pandemia esta era a doença mais citada pelos usuários de redes sociais e mecanismos de busca nos dois países.

Essa predominância podia ser muita vezes explicada por fatores como o Setembro Amarelo (campanha de prevenção do suicídio) ou ainda devido a relatos de influenciadores como o humorista Whinderson Nunes, que falou abertamente sobre sofrer de depressão, declaração que foi amplamente divulgada pela imprensa.

No período pré-pandemia, também era notável uma romantização do debate sobre saúde mental. Textos que ganhavam repercussão maior nas principais plataformas sociais como Instagram e Facebook possuíam um forte apelo emocional, com poucas informações sobre sintomas e tratamento. Além disso, havia uma profusão de comentários condenatórios ao suicídio, tratando a questão como desvio de caráter ou “falta de Deus”.

Já durante a pandemia, os debates passaram a ser menos atrelados a postagens sobre depressão e mais associados a comentários sobre casos concretos. No entanto, foi registrada uma diferença entre os públicos brasileiro e português: a repercussão midiática no país europeu direcionou a atenção para o debate de saúde pública, com enfoque maior nos sintomas. Isso diferiu do que se observou no Brasil, onde a cobertura da imprensa se concentrou mais nas histórias e relatos das celebridades em questão.


https://saudemental.blogfolha.uol.com.br/2021/02/18/pesquisa-mostra-diferencas-entre-buscas-online-sobre-saude-mental-feitas-no-brasil-e-em-portugal/

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Texto simples e clássico sobre o suicídio

SUICÍDIO: Identificar, tratar e prevenir

Dra. Alexandrina Maria Augusto da Silva Meleiro, Doutora em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Suicídio é a trágica e intempestiva perda de vida humana. O mais devastador e perplexo de tudo é que é representado por um ato da vontade.

A palavra suicídio deriva do latim e significa: sui = si mesmo e caedes = ação de matar, isto é, a morte de si mesmo. Os atos suicidas são definidos como comportamentos potencialmente autolesivos com evidência de que a pessoa pretendia se matar. O resultado de um ato suicida pode variar desde a não ocorrência de lesão até a morte. São subdivididos em tentativas de suicídio e suicídio (completo ou exitoso). As tentativas de suicídio são classificadas como sendo com ou sem lesão.

Tentativas de suicídio deveriam ser encaradas com seriedade, como um sinal de alerta revelando a atuação de fenômenos psicossociais complexos. As reduções nos índices de suicídio e de tentativas de suicídio são dois dos objetivos estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde no documento "Saúde para todos no ano 2000” (WHO, 1992).

O grau de intenção suicida de uma pessoa deve ser considerado como um ponto num continuum: de um lado está a certeza absoluta de matar-se e no outro extremo está a intenção de seguir vivendo. A condiçãosine qua non do suicídio é uma morte em que o sujeito é, ao mesmo tempo, o agente passivo e ativo, a vítima -o desejo de morrer e o desejo de ser morto - e o assassino - o desejo de matar. Na intencionalidade do comportamento suicida deve-se levar em conta: 1. a possibilidade ou impossibilidade de reversão do método empregado para morrer; 2. as providências que tornam possíveis a ação de terceiros; 3. quando esta intervenção ocorre e pode-se inferir que a intencionalidade seja mínima. Avaliar o grau de gravidade de uma tentativa de suicídio pode ser uma tarefa bastante difícil, pois são atos intencionais de auto-agressão que não resultam em morte, desde atos discretos e velados de ameaça a própria vida, alguns deles talvez com o objetivo de ganhar atenção, até situações graves que necessitam de atendimento médico hospitalar. A noção de que a ideação suicida varia dentro de um continuum, ocorrendo desde idéias não especificadas como “a vida não vale a pena” ou “eu queria estar morto”, para idéias específicas que se acompanham de intenção de morrer e/ou de um plano de suicídio.

A intenção suicida genuína é freqüentemente ambivalente em relação a morte e a firmeza do propósito pode ser variável. Esses pacientes têm humor disfórico, com sentimento de inutilidade, falta de esperança, perda da auto-estima e desejo de morrer. Há o sentimento de dos três “is”: intolerável (não suportar),inescapável (sem saída) e interminável (sem fim). Suicidas potenciais podem se arrepender e procurar ajuda após o ato. O alívio, após a tentativa, faz a pessoa refletir sobre seu ato.

Identificando intenção suicida: a comunicação prévia de que iria ou vai se matar, mensagem ou carta de adeus, planejamento detalhado, precauções para que o ato não fosse descoberto, ausência de pessoas por perto que pudessem socorrer, não procurou ajuda logo após a tentativa de suicídio, método violento ou uso de drogas mais perigosas, crenças de que o ato seria irreversível e letal, providência finais (conta bancária, providenciar a escritura de imóveis, seguro de vida) antes do ato, afirmação clara de que queria morrer, arrependimento por ter sobrevivido.

Entre os jovens deve-se estar alerta para o abuso ou dependência de substâncias psicoativas associado a depressão, incluem: tentativa suicida prévia, idéias suicidas, sentimentos de desesperança e problemas de abuso de substâncias, luto, acesso fácil ao método do suicídio e falta de apoio social. Outras situações estressantes habituais na adolescência são as mudanças físicas e psíquicas, busca da identidade e autonomia, e relacionamentos com grupos que favoreçam comportamentos destrutivos: atividade sexual precoce e sem proteção, porte de armas, delinqüências, lutas corporais, tabagismo excessivo e intoxicação por álcool e pobre gerenciamento da rotina dos filhos por parte dos pais.

Indicativos de repetição de tentativa de suicídio: história prévia de hospitalização por auto-agressões, tratamento psiquiátrico anterior, internação psiquiátrica prévia, transtorno e personalidade anti-social, alcoolismo / drogadição e não estar vivendo com a família.

Fator precipitante: A intoxicação por álcool é um potente fator no momento da morte. Três características marcam o ato suicida praticado por alcoólatras deprimidos: a impulsividade da tentativa, aumento do consumo de álcool na véspera e intoxicação alcoólica precedendo a tentativa. A presença de uma arma de fogo em casa é o mais poderoso fator, principalmente em adolescentes.

Fatores de risco: Conhecer os fatores de risco auxilia a dissipar o mito de que o suicídio seja um ato aleatório ou que resulte unicamente de sofrimento. O risco de suicídio aumenta com a idade, atinge seu maior nível após os 65 anos. É duas a três vezes mais freqüente em homens que em mulheres. Os divorciados e viúvos são os mais atingidos (quatro vezes mais que os casados), sendo seguidos pelos solteiros (duas vezes mais), os casados são os menos afetados. A proteção oferecida pelo casamento é bem mais importante para os homens que para as mulheres. A gravidez e a maternidade são fatores protetores para as mulheres, embora uma gravidez não planejada, sobretudo na adolescência pode precipitar tentativa de suicídio. Há uma correlação positiva entre desemprego e suicídio, especialmente entre os homens. Estudos de história familiar mostram aumento de suicídio em famílias com vítimas de suicídio. Níveis cerebrais reduzidos de serotonina ou de seu metabólito, o ácido 5-hidroxi-indol-acético (5-HIAA), têm sido encontrados em vítimas de suicídio ou de graves tentativas. A história prévia de tentativa de suicídio é considerada um forte preditor de suicídio posterior, aumentando em cerca de 40 vezes nestes indivíduos em comparação com a população geral.

Abordagem das tentativas de suicídio: consiste nos cuidados iniciais à saúde, se emergência clínica e/ou cirúrgica, assegurar o bem-estar físico, evitando as complicações médicas decorrentes do ato. O médico do pronto-socorro deverá decidir se a vítima deve ser levada para a unidade de terapia intensiva (UTI), para o Centro cirúrgico ou ortopédico, setor de endoscopia ou clínica de queimados, ou as condutas nos casos de envenenamento. Poderá ser encaminhado ao ambulatório de saúde mental ou se deve ser transferido para uma unidade psiquiátrica pela presença de risco ou de transtorno psiquiátrico que necessite de tratamento especializado.

Após o exame clínico usual, devem ser investigados os recursos do paciente: avaliar a capacidade de elaboração, de resolução de problemas, os recursos materiais (moradia e alimentação), o suporte familiar (família próxima ou confiável), social, profissional e de instituições, e os eventos precipitantes: levantar todas as circunstâncias e motivações que deflagraram o ato. É freqüente a presença de vários fatores estressantes, ou problemas psicossociais crônicos, problemas policiais ou pendência judicial, perda de ente querido, luto, doença física crônica, desemprego, eventos de vida adversos na presença de depressão. Os conflitos interpessoais, como brigas, desentendimentos, separações, podem precipitar 50% das tentativas.

A hospitalização é indicada de acordo com o grau de risco potencial de suicídio, principalmente se o paciente não colabora, apresenta um transtorno mental grave que prejudica a sua crítica frente à situação e não possui uma rede de suporte familiar. Algumas vezes, uma hospitalização precipitada pode ser prejudicial ao paciente frente a uma avaliação errônea do risco de suicídio. Após a escolha do ambiente terapêutico (hospital, ambulatório, domicílio). A medicação adequada deve ser indicada e manuseada por profissionais habilitados com a dosagem, efeitos colaterais e interações medicamentosas, levando-se em conta as condições físicas do paciente, além da idade e peso. Grande vigilância faz-se necessária no início do tratamento com antidepressivos, pois eles demoram dias a semanas para alcançarem efeito terapêutico. O tratamento com eletroconvulsoterapia (ECT) deve ser cogitado naqueles casos graves, com forte determinação para o suicídio. Esse tipo de terapêutica não deve ser visto com preconceito, pois é um tratamento eficaz e seguro para diversos quadros psiquiátricos com risco de suicídio. O seu benefício ao paciente está relacionado diretamente à sua indicação oportuna e adequada, como na cardioversão. Em outros mais leves, encaminhamento para psicoterapia. A família e o paciente devem ser exaustivamente orientados e esclarecidos quanto à proposta terapêutica. Uma internação domiciliar pode ser uma alternativa razoável. Isso é possível quando há baixo risco de suicídio, supervisão disponível e suporte adequado em casa. Os familiares e amigos devem revezar-se na tarefa de vigilância. Sentimentos e comportamentos como choque, confusão, negação, inquietação, regressão, desesperança e estado de alerta são comuns nos familiares.

A vigilância deve ser providenciada com o intuito de garantir a segurança do paciente: 1. retirar da casa medicamentos potencialmente letais, armas brancas e armas de fogo; 2. manter abstinência de álcool e drogas que possuem efeitos desinibitórios; 3. evitar locais elevados e sem proteção, pelo risco de se jogar; 4. evitar que o paciente fique sozinho, ou trancado em um recinto. Pode ser realizado um contrato de"não-suicídio" (verbal ou escrito), que consiste em o paciente concordar em não realizar ato auto-agressão e relatar a um familiar se tiver desejos suicidas.

Prevenção: Dirigem-se à melhora da assistência clínica ao indivíduo que já luta contra idéias suicidas ou ao indivíduo que precise de atendimento médico por tentativa de suicídio; e abordagens que possam reduzir a probabilidade do suicídio antes que indivíduos vulneráveis alcancem o ponto de perigo. “Prevenir é melhor que remediar”.

Comentários Finais

Em termos de tratamento e prevenção do suicídio, é provável que a redução considerável de morbidades psiquiátricas (Transtorno Afetivo Bipolar, Esquizofrenia, Transtorno de dependência à substancias psicoativas, transtorno de personalidade etc) na população deve também diminuir o risco de suicídio. No entanto, dado o pequeno conhecimento sobre o valor preventivo das diversas intervenções existentes e que apenas uma pequena parcela de paciente com risco de suicídio recebem o tratamento adequado. Os esforços dos dirigentes de saúde pública devem concentrar-se em:

  1. Projetos educativos, com o intuito de aumentar o conhecimento público e profissional dos fatores de risco para o suicídio;
  2. Melhorar o sistema de saúde, para que possa garantir o acesso precoce a avaliações clínicas adequadas, aumentar a segurança e a efetividade dos tratamentos para os transtornos psiquiátricos com alto risco de suicídio; e
  3. Investigações sobre a prevenção de suicídio, as quais através de pesquisas médicas podem esclarecer os benefícios e riscos específicos dos tratamentos médicos e intervenções psicossociais que possam prevenir o suicídio.

O determinismo multifatorial do suicídio impõe-nos, de início, analisar cada fator de risco com prudência. As correlações estatísticas não são as causas; elas nos permitem formular hipóteses de certeza variada. Somente estudo prospectivo de avaliação de métodos de prevenção que procurem resposta para essas hipóteses pode permitir o engajamento de uma adequada política de profilaxia relacionada ao suicídio.

A autora deste artigo é co-autora do livro Suicídio: estudos fundamentais.

http://www.fenix.org.br/material/suicidio_texto.doc