A imprensa da Paraíba deve ou não noticiar casos de suicídio?
Eliabe Castor - PB Agora - (11 mar 2019)
A observação vem da jornalista e pesquisadora da temática, Cláudia Carvalho, que está concluindo a tese de mestrado na pós-graduação em Jornalismo Profissional da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), cujo título é: "O delicado lugar do suicídio no noticiário impresso paraibano". Categórica, ela afirma que a Academia não prepara o jornalista para lidar com o tema. Não se discute abertamente em sala de aula como a notícia deve ser tratada, havendo um tabu sobre a temática que extrapola a sala de aula e chega às redações.
Tão permanente quanto a morte, é a lacuna que ela deixa. Essa sensação é potencializada, especialmente, quando a partida não é esperada. Talvez o vazio mais acentuado resida quando se perde alguém por ter praticado o suicídio. É nesse delicado assunto, que se pode gravitar em questões éticas e sociais, observando que muito raramente os veículos de comunicação da Paraíba noticiam casos de pessoas que atentaram contra a própria vida.
Ela afirma que essa realidade não se resume, apenas, à Paraíba. "Na verdade, o que acontece na imprensa paraibana é um reflexo do que acontece na imprensa brasileira. Há uma dificuldade em abordar o tema e ainda persiste um tabu, segundo o qual não se deve noticiar suicídios, pois acredita-se que, ao noticiar um caso, estaria levando ao surgimento de vários outros", relata a pesquisadora.
A fundamentação de Cláudia Carvalho encontra respaldo em observações científicas realizadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que organizou, no ano de 2000, a feitura do "guia" intitulado: “Prevenção do suicídio: um manual para profissionais de mídia”. O material cita uma publicação de 1774. " Os Sofrimentos do Jovem Werther”, de Johann Wolfgang von Goethe.
No romance, é possível associar meios de comunicação de massa ao suicídio. Nessa história, o herói atira em si próprio após um amor mal sucedido. Logo após a publicação, foram registrados na Europa vários relatos de jovens que cometeram suicídio usando esse método. O fenômeno originou o termo “Efeito Werther”.
“Efeito Werther”. Um gatilho para o suicídio
Em linhas gerais, o “Efeito Werther” provoca o que se chama de “suicídio copiado”, quando alguém tira a sua vida e a publicização do ocorrido serve como um gatilho para o próximo suicídio. Em geral, o ato é praticado por uma pessoa fragilizada, portadora de problemas emocionais ou transtornos de comportamento que levam, por exemplo, à depressão profunda.
A psiquiatra Francineide Maciel, com 18 anos de experiência na área de saúde mental, entende a importância do estudo da pesquisadora paraibana, e responde não ter dúvidas que uma notícia sobre um suicídio, enfocando o ato em si como forma de espetacularização do fato é danosa. Ela aponta que, ao oferecer detalhes do suicídio, relatar o conteúdo de cartas de despedidas ou mostrar a técnica utilizada para retirar a vida, na verdade é um desserviço da mídia.
"Existem estudos sérios quanto esse assunto. É um fenômeno mundial. Deve-se ter cuidado ao noticiar", alertou a médica psiquiatra, analisando que, bem mais importante que detalhar fatos e “romantizar” o suicídio na mídia, é discutir e levantar questões sobre o problema nos meios de comunicação.
A imprensa cessou os desafios da “Baleia Azul”
Para Cláudia Carvalho e Francineide Maciel, os veículos de comunicação cumprem seu real papel quando abordam o suicídio como um problema social que precisa ser discutido com responsabilidade. Ambas citam os casos da “Baleia Azul” e da “Boneca Momo”, desafios postos na internet que redundaram em suicídios e crimes entre crianças e jovens.
“A imprensa deu publicidade, levou a discussão do assunto para a sociedade, para os pais, e alertou as autoridades sobre os perigos vindos de mentes doentias que incitavam jovens e crianças para esses absurdos”, observou Francineide Maciel, para em seguida afirmar que tais “desafios” foram cessados e muitos dos responsáveis presos graças ao papel dos meios de comunicação.
O suicídio acontece por uma conjunção de muitos fatores, explica psiquiatra Francineide Maciel. Alguns deles são sociais, psicológicos, orgânicos e genéticos. Mas os motivos predominantes são transtornos psiquiátricos, sendo o mais comum a depressão. Também há o transtorno bipolar, a esquizofrenia, a síndrome de Borderline e o abuso de drogas.
“Todos eles têm tratamento, inclusive na rede pública. São informações importantes para constar numa reportagem realmente informativa”, diz a médica psiquiatra. Em termos gerais, quando o suicídio é consumado, principalmente quando a pessoa é uma figura pública, deve-se trazer à tona como o suicida estava se sentindo ao praticar o ato, se ele apresentava sinais de depressão, por exemplo. Isso pode ajudar outros na mesma situação na busca de ajuda”, recomendou Francineide Maciel.
Fonte: www2.pbagora.com.br/noticia/saude/20190223223438/especial-a-imprensa-da-pb-deve-ou-nao-noticiar-casos-de-suicidio
Blog destinado à coleta e disseminação de informações sobre prevenção do suicídio e valorização da vida
Mostrando postagens com marcador suicídio e imprensa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador suicídio e imprensa. Mostrar todas as postagens
sexta-feira, 15 de março de 2019
segunda-feira, 30 de janeiro de 2017
André Trigueiro comenta o caso do PM que transmitiu o suicídio ao vivo no Facebook
Recebi uma ligação na manhã de hoje do Jornal Extra repercutindo o
suicídio de um PM do Rio que foi transmitido ao vivo pelo facebook. Me
ligaram por saberem do meu envolvimento com a causa da prevenção do
suicídio e do livro "Viver é a Melhor Opção" que lancei em 2015. Sobre o
assunto, gostaria de dizer o seguinte:
Fonte: André Trigueiro
- Replicar fotos ou imagens de alguém em situação de extremo
desespero ou desalento com a vida (não apenas o suicídio em si) é algo
simplesmente abominável. Um desrespeito a pessoa que sofre, e também a
quem vier a receber essa informação.
- Segundo a Organização Mundial de Saúde, é melhor não reportar
casos de suicídio na mídia. Se isso for inevitável (como no caso do ator
americano Robins Williams, em 2014) convém evitar generosos espaços com
manchetes e imagens, não revelar o método empregado nem enaltecer s
qualidades morais do suicida.
- Pessoas fragilizadas psíquica ou emocionalmente podem registrar notícias sobre suicídios como uma sugestão.
- A informação sobre suicídio que merece destaque na mídia (segundo
a OMS) é a seguinte: em 90% dos casos, os suicídios são evitáveis por
estarem associados a patologias de ordem mental diagnosticáveis e
tratáveis. Um dos principais fatores de risco suicida é a depressão. O
PM que virou notícia por essa tragédia tinha um histórico de depressão, e
havia sido internado 4 vezes na psiquiatria do Hospital Central da
Polícia Militar. Não sabemos como foram esses atendimentos.
- Outro fator de risco é o acesso a armas. Soldados das Forças
Armadas, Policiais (civis, militares, federais) ou qualquer pessoa que
tenha porte de arma precisa ter assistência psicológica e apoio
emocional constantes.
- Ninguém se mata por uma única razão. Pode haver uma causa
preponderante, que jamais responderá sozinha pelo ato extremo de se
matar. Suicídio é um fenômeno complexo que não se explica com conclusões
precipitadas ou generalizações.
- Quem precisa de ajuda (e não tem dinheiro sobrando) pode procurar
os CAPs (Centros de Apoio Psicossociais), os serviços gratuitos
oferecidos por Faculdades de Psicologia espalhados pelo Brasil e o CVV -
Centro de Valorização da Vida - pelo número 141.
- Amigos e parentes devem acompanhar eventuais comportamentos
estranhos de reclusão social, não compartilhamento de informações,
sucessivas queixas ou declarações que remetem a uma situação limite,
falta de esperança ou de qualquer saída possível. Em se confirmando
isso, não despreze a possibilidade de haver aí algum sinal indicando
risco de suicídio.
A vida é para ser vivida.
Quando não estamos de bem com a vida, precisamos procurar ajuda.
As crises passam. Nós devemos seguir adiante.
Assinar:
Postagens (Atom)