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sábado, 6 de março de 2021

Já vi esta série antes! Felizmente, num dos episódios eu pude participar...

O título acima é provocativo. A série é sobre o despreparo de parte expressiva dos profissionais da saúde (todas as categorias) em lidarem com as doenças mentais (ou os transtornos emocionais, como alguns preferem, por ser mais brando o impacto das palavras...).

O episódio foi uma mensagem que recebi, em 2 de agosto de 2016, de um médico. Eis o conteúdo do apelo:

Encontrei seu blog no google e gostaria de saber se você pode me ajudar. Sou médico, e hoje atendi uma mulher que tentou se matar, fiz as devidas orientações, foi encaminhada ao hospital, no entanto, percebi que em um caso desse fico meio sem saber o que falar exatamente para pessoa, como algo que poderia lhe confortar adequadamente e que a convença realizar os devidos cuidados, a seguir com a vida e tudo mais.
 
Gostaria se você pode me indicar algum site, vídeo ou livro com instruções para melhorar a forma de como lidar com suicidas e depressivos, para que possar ajudar eles melhor.

Orientei-o como pude. Num dos trechos, disse-lhe que a grande obra de referência nesta área é Crise Suicida: Avaliação e Manejo, de Neury José Botega.

Exatos 1677 dias corridos (quatro anos e meio) depois, lamento que a situação não tenha melhorado o suficiente... 

 As falhas são graves e a desatenção (a falta de atenção básica) há de custar muitas vidas!

Médicos se formam incapazes de atender pacientes suicidas, aponta estudo

Pedro Martins  (6 mar. 2021)

Enquanto casos de suicídio crescem a cada ano no Brasil, um estudo publicado no início de 2021 pela RBEM (Revista Brasileira de Educação Médica) revelou que médicos estão se formando incapazes de atender pacientes que pensam ou tentam cometer suicídio.

A pesquisa reflete a experiência de pacientes como a estudante de letras Bianca*, 23, que aos 18 tentou se suicidar. Internada em casa, ela encontrou seus remédios, que estavam escondidos, e os ingeriu de uma vez. Ao descobrir, sua mãe a levou para o hospital, mas a médica de plantão a mandou de volta para casa e não lhe deu nenhuma orientação além da receita para que tomasse imediatamente mais um tarja-preta.
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"Eu não conseguia andar. Estava dopada. Tiveram que me arrastar até o pronto-atendimento, mas a médica falou que eu estava lúcida e não tinha motivo para ficar internada", relembra a estudante. "Senti que não fui levada a sério. Era como se aquilo não fosse motivo suficiente para ter ido ao hospital".

Ao conversar com sua psiquiatra no dia seguinte, Bianca descobriu que a falta de sensibilidade da plantonista não era sentimentalismo de sua parte. Um mês depois, ela ainda foi diagnosticada com hepatite medicamentosa, o que poderia ter sido evitado se o atendimento tivesse sido adequado, segundo sua nutróloga. "O certo era fazer uma lavagem estomacal e, se não desse mais tempo, eu devia ao menos ter ficado em observação", diz.
Falha na formação médica

A história de Bianca não é única. Entre 188 estudantes de medicina do 1º ao 6º ano que participaram da pesquisa publicada na RBEM, somente um deles, o equivalente a 0,5%, declarou ter plena capacidade técnica para atender um paciente com ideação suicida. Como o questionário permitia ainda respostas com concordância ou discordância parciais, 16% afirmaram ter habilidades limitadas para a tarefa, enquanto os incapacitados somaram 72,8%, e os que se consideraram neutros, 11,2%.

O estudo apontou ainda que somente 8,5% dos alunos são plenamente capazes de identificar e classificar comportamentos de risco suicida e 4,3% sabem realizar corretamente a notificação de tentativa ou concretização de suicídio, que é obrigatória e deve ser encaminhada pelo médico aos órgãos competentes em até 24 horas após o atendimento.

A pesquisa foi conduzida entre alunos da UEPA (Universidade do Estado do Pará). Ela tem limitações estatísticas devido à restrição geográfica, mas acende um alerta sobre uma falha na formação médica, de acordo com o psiquiatra Salomão Rodrigues Filho, do CFM (Conselho Federal de Medicina). A instituição se posiciona contra a abertura de novas escolas de medicina.

"O médico está cada vez mais despreparado. Com o aumento indiscriminado de novas faculdades de medicina e turmas imensas, cada vez temos mais dificuldade em preparar o aluno para estar atento à saúde mental. Além disso, tanto no sistema público quanto privado de saúde, o médico não tem tempo para ouvir o paciente. Ele quer chegar logo ao diagnóstico para fazer a prescrição de medicamento ou pedir exame e mandar o paciente retornar depois", diz o conselheiro.

Segundo levantamento do CFM a partir de dados do CNES (Cadastro Nacional das Entidades de Saúde), 77% das cidades brasileiras com faculdades de medicina não possuem leitos suficientes para o ensino prático dos alunos. A região mais deficitária é o Norte, onde, entre 32 escolas de medicina, somente uma está localizada em um município com preparo para uma boa formação. A região com melhor desempenho no levantamento é o Centro-Oeste, com 31,3% dos cursos localizados em municípios adequados.

"O médico generalista precisa ser capaz de rastrear suicídio no pronto-atendimento. Não é porque tenho um paciente aparentemente muito mais grave para ver em seguida que vou abreviar a entrevista com o outro", explica o conselheiro. "Não sou contra abertura de boas faculdades de medicina, mas de faculdades péssimas, que colocam no mercado profissionais incapazes".

Uma das autoras do estudo, a estudante Lívia Limonge, que cursa o 6º ano de medicina na UEPA, afirma que os resultados da pesquisa não surpreenderam, mas serviram de provocação para que seus colegas abram os olhos para o suicídio, que é a segunda principal causa de mortes entre jovens de 15 a 29 anos no mundo, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde).

"A grade curricular de medicina prevê que a gente discuta suicídio e saúde mental como um todo, mas isso não está necessariamente sendo cumprido. Suicídio ainda é um tabu mesmo entre médicos. Como é possível aprimorar a formação, se o assunto não é discutido? Vi minha formação refletida nos resultados desta pesquisa", diz Limonge.

No Brasil, em 2019, 13.520 pessoas se suicidaram, uma alta de 6,18% ante os casos de 2018. No acumulado da década, o aumento foi de 44,22%, segundo o Ministério da Saúde. Os dados de 2020 ainda não foram divulgados pela pasta, mas especialistas apontam chance de aumento, tal qual ocorreu em países como Japão, devido à instabilidade emocional provocada pela pandemia de covid-19.

*O nome foi alterado a pedido da entrevistada

Onde buscar ajuda

O CVV (Centro de Valorização da Vida) oferece gratuitamente atendimento via telefone, e-mail ou chat, sob sigilo, para prevenção do suicídio. Para mais informações, acesse cvv.org.br ou disque 188, qualquer dia e a qualquer hora.

Fonte: www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2021/03/06/medicos-se-formam-incapazes-de-atender-pacientes-suicidas-aponta-estudo.htm


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

PLANO DE PREVENÇÃO DO SUICÍDIO NO BRASIL, DIGO, NO PIAUÍ!!

Piauí cria plano de ação para prevenção do suicídio

Além de instituir o Grupo de Trabalho Interinstitucional de Prevenção ao Suicídio (GTI).

Denise Nascimento

Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), no
Brasil 400 milhões de pessoas sofrem com algum tipo de transtorno mental. Nesse contexto, o suicídio tem se destacado como um grave e crescente problema de saúde pública, estando entre as dez principais causas de morte na população mundial de todas as faixas etárias.

Tendo isso em vista, dentro das políticas da Rede de Atenção Psicossocial, a Secretaria de Estado da Saúde do Piauí tem realizado ações de conscientização para as questões que envolvem a saúde mental. Uma delas é a elaboração, em parceria com outras instituições, do plano de ação para prevenção do suicídio que visa à sistematização e organização do fluxo de atenção e cuidado à saúde do paciente em risco de suicídio, buscando a redução desse agravo de saúde.

O plano prevê medidas como campanhas educativas, ações de promoção em saúde e prevenção de danos, reforçando a ação da atenção primária, visando o fortalecimento e a melhoria da qualidade de vida dessa população. Além disso, o secretário de Estado da Saúde, Francisco Costa, instituiu o Grupo de Trabalho Interinstitucional de Prevenção ao Suicídio (GTI), composto por equipe multiprofissional e interinstitucional para realização de debates constantes acerca do tema e vigilância das ações.

Uma das principais estratégias adotadas, como explica o secretário Francisco Costa, é “trabalhar a prevenção do suicídio logo na atenção básica, sensibilizando as equipes de Estratégia da Saúde da Família e capacitando os agentes comunitários de saúde para que eles estejam aptos a identificar pessoas com comportamentos autodestrutivos e fazer os encaminhamentos necessários para o tratamento adequado”.

Outra ação é a elaboração de um aplicativo como ferramenta que permita os professores, no âmbito da educação tanto no nível fundamental, médio como no superior, detectarem precocemente pessoas com sofrimento psíquico que podem levar ao suicídio. O Estado também irá fomentar pesquisas científicas junto ao grupo de estudo sobre prevenção ao suicídio nas Universidades e Faculdades.

Como dispositivos de assistência, o Estado oferece gratuitamente acesso a hospitais, centro de acompanhamento e programas de cuidados em Saúde Mental. Atualmente, o Piauí possui 62 Centros de Apoio Psicossocial (CAPS) e implementou leitos psicossociais na rede hospitalar.

Realidade no Piauí
O Piauí, segundo dados do Ministério da Saúde, mostrou-se com uma taxa bruta de mortalidade por suicídio a cada 100 mil habitantes superior à do Brasil. Enquanto a taxa do Estado é de 7,6, a do país é de 5,3. Dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) da Secretaria de Estado da Saúde apontam que nos anos de 2015 e 2016 foram registrados 541 óbitos por suicídio no Estado.

A notificação das tentativas de suicídio também vem aumentando em todos os anos, em 2015 foram 603 tentativas, já no ano seguinte foram 724, totalizando 1.327 casos. A faixa etária com maior número de óbitos por suicídio está entre 20 e 29 anos. Além disso, Teresina ocupa o 1º lugar entre as capitais brasileiras no número de suicídios, levando-se em conta todos os habitantes, e em 2º lugar na população jovem entre 15 e 24 anos.

Fonte: http://www.piaui.pi.gov.br/noticias/index/categoria/2/id/29449

quarta-feira, 23 de março de 2016

Em Portugal... E no Brasil?!

PROFESSORES RECEBEM FORMAÇÃO PARA PREVENIR SUICÍDIO NOS JOVENS

Projetos-piloto alertam para sinais de risco e ensinam o que fazer. Experiências avançam em Aveiro, Setúbal (meio escolar), Évora e Porto (saúde infantil). Faltam psiquiatras e pedopsiquiatras

Professores e profissionais de saúde vão receber formação para detetar e encaminhar para acompanhamento crianças e jovens com sinais de sofrimento ou de depressão. A medida faz parte do plano de prevenção do suicídio em meio escolar e é também uma das áreas que a coordenação nacional de Saúde Mental quer ver reforçada.

O pedido de prolongamento do Plano Nacional de Saúde Mental até 2020, com especial enfoque nos cuidados comunitários e prevenção, já foi feito ao Ministério da Saúde. Este é dos temas a ser debatido nos dois dias da Conferência Nacional de Saúde Mental, que começa hoje com a presença do ministro da saúde, Adalberto Campos Fernandes.

"Queremos ter melhor capacidade de fazer diagnóstico e tratamento da depressão e apostar na promoção e prevenção nas escolas com o aprofundamento de dois projetos de saúde escolar e saúde infantil e juvenil que começaram em dezembro de 2015 e que já têm financiamento garantido para este ano, com cerca de 40 mil euros cada", disse ao DN Álvaro de Carvalho, coordenador do Programa Nacional para a Saúde Mental.

O primeiro é um trabalho desenvolvido com a direção-geral da educação, o segundo com os cuidados de saúde primários. O objetivo é o mesmo: "Capacitar os professores e os profissionais de saúde a encontrarem e valorizarem sinais de sofrimento emocional nas crianças. Ainda há muita iliteracia nesta área. São manifestações que podem resultar em perturbações do sono, da alimentação, comportamento, autoinfligir lesões.". Aveiro e Setúbal são as zonas escolhidas para o projeto em meio escolar, Évora e Porto para os projetos-piloto na saúde infantil.

"Tiveram muito êxito. A ideia é estender o projeto a todos os agrupamentos de centros de saúde", adiantou, referindo que estão a ser desenvolvidos estudos para perceber a prevalência de perturbações mentais em crianças e adolescentes e para avaliação de prescrição de psicofármacos infantil, por causa do consumo de alguns medicamentos para a hiperatividade.

Há uma outra questão que preocupa Álvaro de Carvalho. O envelhecimento dos psiquiatras e pedopsiquiatras. De acordo com inventário de pessoal da saúde da Administração Central do Sistema de Saúde, em 2014, existiam no SNS 799 psiquiatras (incluindo internos), mas a maioria (222) entre os 50 e os 59 anos. Já pedopsiquiatras eram 161, com a maioria dos profissionais entre os 40 e os 59 anos.

"Existem 40 serviços de saúde mental em hospitais, 36 com unidades da infância. Algumas só têm um pedopsiquiatra, pelos mesmos motivos de faturação. Procuro que esta seja uma das áreas de prioridade de formação. Só temos dois centros com capacidade formativa", refere.

"Vários psiquiatras saíram em poucos meses de Beja porque outros países ofereceram residência, mais férias, viagens ao país. Santiago do Cacém tem um serviço de psiquiatria criado desde 1998 e apesar de várias tentativas nunca conseguiu profissionais. Portalegre tem carência e o Algarve não chega para as encomendas. Vila Real, Bragança, Castelo Branco têm um ou dois psiquiatras. Se existisse garantia de equipas multidisciplinares não seria tanto um problema", aponta. As normas indicam um psiquiatra por cada 25 mil habitantes e um pedopsiquiatra por 65 mil.

Nova forma de pagar saúde mental

Outro tema em debate na conferência é o financiamento. Os hospitais não estão a apostar tanto nos cuidados na comunidade em saúde mental como a lei prevê por causa da forma como são pagos, diz o coordenador do Programa Nacional de Saúde Mental. É por isso que vai propor uma nova forma em que os hospitais não recebem apenas por consulta ou internamentos, mas um valor médio pelos cuidados previsíveis que o doente vai precisar, incluindo continuados.

A lei da saúde mental coloca os cuidados na comunidade como uma prioridade - aponta para equipas comunitárias por cada 50 mil habitantes (zonas menos povoadas) a 200 mil (zonas urbanas) - e os hospitais apenas como uma referência para internamento e urgências. Mas a aposta não tem acontecido como desejado. "Há uns anos a Administração Central do Sistema de Saúde reforçou o preço das consultas para apoiar o trabalho não médico, mas nos hospitais não se encontram psicólogos ou enfermeiros porque só os médicos faturam. Os hospitais não recebem por atos não médicos e por isso evitam o trabalho comunitário. Os hospitais em parceria público-privada, por exemplo, não fazem consultas na comunidade", frisou Álvaro de Carvalho.

O apoio em casa torna-se ainda mais importante quando a aposta foi desinstitucionalizar os doentes. É por isso que vai propor um novo modelo de de financiamento e gestão dos serviços de saúde mental, criado no âmbito do EEA-Grants [programa de financiamento europeu]. "O dinheiro segue o doente e os hospitais não recebem por ato (internamento ou consulta) como acontece agora. Este projeto vai propor - a decisão será depois da tutela - um modelo de financiamento que tem em conta a realidade prática da saúde mental. A ideia é que não seja por ato nem per capita, mas uma espécie de preço compreensivo dos cuidados previsíveis a que cada doente tenha direito e que inclua cuidados continuados. O objetivo é que seja aplicado a todas as doenças mentais", concluiu.

Fonte: http://www.dn.pt/portugal/interior/professores-recebem-formacao-para-prevenir-suicidio-nos-jovens-5088882.html