domingo, 23 de outubro de 2022

“O pós-pandemia vai ser uma grande massa de pessoas adoecidas”, afirma psicóloga

Fabiana Reinholz (14 setembro 2022)

"Sou uma sobrevivente do suicídio, que é como costumam ser chamadas as pessoas que perderam alguém para o suicídio. Só que no meu caso, sou duplamente uma sobrevivente. Isso porque, além de ter perdido alguém, também sobrevivi a uma tentativa de suicídio. E não tem um dia sequer que uma dessas marcas não reviva dentro de mim. Seja por uma notícia, uma música, um filme, uma 'piadinha', um comentário. Todo dia uma dessas feridas arde, feito um machucado que não cicatriza direito e dói quando algo encosta nele." O depoimento é da jornalista Annie Castro, em sua rede social, onde chama atenção para a prevenção ao suicídio.

De acordo com a pesquisa Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), Porto Alegre é a capital com maior índice de depressão do Brasil. Segundo análise do GZH sobre dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), em 2021, Porto Alegre registrou a maior taxa de suicídio entre todas as capitais brasileiras. Foram 9,65 suicídios a cada 100 mil habitantes. Em segundo lugar está Campo Grande (MS) e na sequência Teresina (PI).

Com o advento da pandemia, segundo o Relatório Global sobre Saúde Mental, divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) no dia 17 de junho deste ano, os casos de depressão e ansiedade aumentaram 25% no primeiro ano após o surgimento do novo coronavírus. De acordo com a organização, estima-se que mais de 300 milhões de pessoas sofram com depressão em todo mundo.

Conforme o relatório, mesmo antes da pandemia, apenas uma pequena fração das pessoas necessitadas tinha acesso a cuidados de saúde mental eficazes, acessíveis e de qualidade. O documento aponta que 71% das pessoas com psicose em todo o mundo não acessam serviços de saúde mental e que, enquanto 70% das pessoas com psicose são tratadas em países de alta renda, apenas 12% das pessoas com essa condição recebem cuidados de saúde mental em países de baixa renda.

"Para a depressão, as lacunas na cobertura dos serviços são amplas em todos os países: mesmo em países de alta renda, apenas um terço das pessoas com depressão recebe cuidados formais de saúde mental e estima-se que o tratamento minimamente adequado para depressão varie de 23% em países de baixa renda para 3% em países de baixa e média-baixa renda”, expõe o relatório.

Ainda segundo a organização, em 2019, quase um bilhão de pessoas – incluindo 14% dos adolescentes do mundo – viviam com um transtorno mental. O suicídio foi responsável por mais de uma em cada 100 mortes e 58% dos suicídios ocorreram antes dos 50 anos de idade. A entidade pede mais investimentos em saúde mental em todo o mundo. De acordo com a OMS, penas 2% dos orçamentos nacionais de saúde – e menos de 1% da ajuda internacional de saúde – são dedicados a essas enfermidades.

No Setembro Amarelo, mês dedicado à prevenção do suicídio, o Brasil de Fato RS conversou com a psicóloga Fabiane Konowaluk Santos Machado, conselheira do Conselho Regional de Psicologia do Rio Grande do Sul (CRPRS). Para ela os altos índices de depressão e suicídio na capital gaúcha, é o resultado de um desmonte das políticas públicas e principalmente o desinteresse dos gestores públicos pela questão da saúde mental.

“Hoje nós temos muita dificuldade de tratar esse tema, de lidar com essas pessoas quando elas nos procuram, ou com intenção suicida, ou até depois que elas tentam o suicídio e não conseguem efetivá-lo, na relação à assistência deste tipo de caso”, aponta, enfatizando que é preciso política pública para que a população tenha acesso garantido a um serviço de qualidade no âmbito da saúde mental.

Segundo ela, o cuidado com saúde mental tem que ser diário e rotineiro. "Todos nós precisamos nos conhecer, olhar para dentro e entender quando a gente está mal, quando estamos bem, quando a gente acha que está com uma ansiedade um pouco mais elevada e essa ansiedade começa a prejudicar a nossa vida.”

Annie Catro, em seu relato, chama a atenção para quem estiver precisando conversar com alguém, o Centro de Valorização da Vida disponibiliza ajuda 24h pelo número 188 ou no site cvv.org.br.


Em 2015, o Brasil iniciou a campanha ‘Setembro Amarelo’ / Agência Brasil

Abaixo a entrevista completa:

Brasil de Fato RS - Neste mês de Setembro Amarelo ocorre a campanha nacional de conscientização sobre a prevenção ao suicídio. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), são registrados anualmente 12 mil suicídios no país. Além disso há muito tabu e preconceito em relação ao suicídio. Isso dificulta que o tema seja abordado de maneira mais clara e objetiva?

Fabiane Konowaluk Santos Machado - Com certeza. Tem dois pontos de vista, primeiro a sociedade ocidental não está acostumada a falar sobre a morte. A morte de forma geral é um grande tabu para nós, diferente de outras culturas, como a oriental, que compreende a morte como uma passagem para uma vida melhor, para um momento melhor. Eles até confraternizam durante um velório. É totalmente diferente da nossa cultura onde a gente vela quem fez a passagem, com muita tristeza, sofrimento, normalmente

Nós, aqui no Brasil, além de ser um tabu como toda cultura ocidental, nós ainda temos uma dificuldade maior de fazer essa abordagem porque normalmente quando a pessoa comete suicídio tem uma gama muito grande de culpabilização e sofrimento para aquelas pessoas que ficam e que tinham convivência direta com a pessoa que cometeu suicídio. Isso é um dificultador também da gente conversar sobre isso. Se torna uma conversa penosa, sofrida, já somada ao sofrimento de quem fica.

BdF RS - Como tu descreverias o quadro atual da saúde mental gaúcha e também em relação ao suicídio?

Fabiane - Infelizmente no estado do RS e especificamente em Porto Alegre, a capital do suicídio (dados da pesquisa Vigitel demonstram que a capital dos gaúchos lidera os índices de depressão e suicídio no país), nós temos o resultado de um desmonte das políticas públicas e principalmente o desinteresse dos gestores públicos pela questão da saúde mental. Hoje nós temos muita dificuldade de tratar esse tema, de lidar com essas pessoas quando elas nos procuram ou com intenção suicida, ou até depois que elas tentam o suicídio e não conseguem efetivá-lo, na relação a assistência deste tipo de caso.

A rede não está preparada e os serviços de saúde mental que dispúnhamos até então foram desmontados. Houve a terceirização desses serviços. A prefeitura não tem mais serviços próprios de saúde mental para fazer esse atendimento. E houve, o que é pior, a redução dos locais de pronto atendimento para as questões de saúde mental. Isso é um grande problema, visto que Porto Alegre é reconhecidamente a capital do suicídio no pais.

Esse é um problema que vamos ter que enfrentar, e poder cobrar dos nossos gestores públicos políticas de acesso para que se consiga fazer um encaminhamento. Quando uma pessoa, por exemplo, está no serviço e está com uma intenção suicida, ou até mesmo quando ela já tentou, onde a gente leva essas pessoas, qual é o serviço, quem atende, como é este encaminhamento? Hoje nós não temos uma política direcionada para isso.


Estima-se que mais de 300 milhões de pessoas sofram com depressão em todo mundo / Marcelo Camargo / Agência Brasil

BdF RS - Como a pandemia afetou a saúde mental (os quadros de depressão, ansiedade)? Que impactos ela trouxe para a vida cotidiana? O Quanto ela agravou o quadro de saúde mental?

Fabiane - É importante compreendermos que a pandemia afetou a saúde mental de todo mundo. Tivemos aquela primeira fase em que por força da contingência da própria doença tivemos que ir para casa, muitos serviços foram fechados, daqueles trabalhadores que puderam se afastar e ficar em casa.

Nós temos esse aspecto das pessoas que ficaram em casa e todo efeito rebote dessa situação contingencial na saúde mental de todos nós. Quadros de ansiedade agravados, a migração do trabalho presencial para o ritmo do trabalho em casa. Todo mundo sabe que em casa há uma outra rotina, outro ritmo e aí tivemos que agregar o trabalho junto ao cuidado com as crianças, com os idosos, do nosso cuidado. Isso trouxe uma elevação muito grande dos quadros de ansiedade.

Por outro lado tivemos os trabalhadores da linha de frente, esses não puderam ir para casa, continuaram trabalhando, tanto no Sistema Único de Saúde (SUS) quanto no Sistema Único de Assistência Social (SUAS). Os trabalhadores da saúde, os assistentes sociais, os psicólogos que trabalham na rede do SUAS também continuaram com o serviço aberto, sendo porta de entrada para as questões da população. E esses trabalhadores em especifico agora estão num roll de adoecimento e afastamento do trabalho muito grande. Tiveram também um efeito rebote de tudo que eles viveram, presenciaram, que sabemos foram situações limítrofes, situações muito difíceis.

Eu tenho notado um aumento muito grande do que chamamos de TEPT (Transtorno do estresse pós-traumático), principalmente nos trabalhadores da saúde que ficaram dentro dos serviços fazendo atendimento à população e que passaram por traumas. E esses traumas agora começam a impactar na saúde mental desses trabalhadores, com a diminuição da demanda no serviço. E é agora que eles conseguem ter tempo para se olhar e se perceber enquanto pessoas e que também tem questões de saúde mental.

Então vemos essa emergência subindo, e seria de fundamental importância podermos pensar em políticas públicas de saúde mental para também dar conta desta população que sofreu tanto durante a pandemia.

É muito importante que a população consiga entender que saúde mental não é problema de uma ou de outra, todos nós somos afetos por ela

BdF RS - Como tu avalias as políticas adotadas quando falamos em suicídio e saúde mental. E a importância de cuidar da saúde mental?

Fabiane - O cuidado com saúde mental tem que ser diário e rotineiro. Todos nós precisamos nos conhecer, olhar para dentro e entender quando a gente está mal, quando estamos bem, quando a gente acha que está com uma ansiedade um pouco mais elevada e essa ansiedade começa a prejudicar a nossa vida.

Eu costumo dizer que o primeiro sinalizador de que algo não está bem internamente, no tocante à saúde mental, é a qualidade do sono. Quando perdemos a qualidade do sono é porque algo não está bem. Então sempre é importante procurar ajuda, quando mais cedo procuramos, mais cedo o profissional vai conseguir trabalhar essa situação, dar um tratamento adequado.

E principalmente prevenir que esses quadros se transformem em grandes patologias e, em situações do próprio andamento, da própria evolução da doença, consigamos atacar isso de forma mais preventiva, imediata, para que possamos prevenir que esses quadros acabem se aglutinando, piorando e sendo mais difíceis de tratar. Ou seja, tendo que ter outros recursos e até mesmo tratamentos mais alongados.

É muito importante que a população consiga entender que saúde mental não é problema de uma ou de outra, todos nós somos afetos por ela, a quadros de ansiedade, a própria depressão. A própria OMS trata a depressão como a doença do século e efetivamente ela é, mas temos que estar olhando também para esses outros quadros, como, por exemplo, a ansiedade. Todos nós aumentamos a nossa ansiedade durante a pandemia.

O esperado agora, na retomada das nossas rotinas, é que essas ansiedades vão diminuindo e que consigamos ter condições de voltar às nossas rotinas normais. Se não estamos conseguindo, é um grande sinalizador que precisamos procurar ajuda.

Está na hora da gestão pública poder olhar para a saúde mental e poder compreender que saúde mental não é frescura

BdF RS - Na sua opinião, quais ações preventivas institucionais podem contribuir para evitar o suicídio e também ajudar a identificar e tratar sintomas de adoecimento mental?

Fabiane - Precisamos de política pública, precisamos que a população tenha acesso garantido a um serviço de qualidade no âmbito da saúde mental. Hoje temos os Centros de Atenção Psicossocial, os CAPS, que estão nas cidades prontos para isso. Temos os pronto atendimentos. Mas vemos uma diminuição destes serviços em função do desmonte e da falta de investimento da gestão pública para esses programas. É preciso retomar.

A pandemia está resultando em uma gama de pessoas adoecidas e, consequentemente, com o afastamento do trabalho. Isso gera um impacto muito grande, não só na questão epidemiológica do acompanhamento das doenças, mas também na nossa capacidade de produção laboral.

O que eu vejo hoje é uma grande gama de trabalhadores que estão gravemente adoecidos, que estão afastados do trabalho, estão deixando de produzir para a sociedade, e que não tem, muitas vezes, o local adequado para poder fazer o seu tratamento, para buscar sua ajuda. Acabam recorrendo a serviços privados e que muitas vezes não tem condições de arcar com esse tratamento.

É muito importante que os gestores públicos possam olhar com carinho porque o pós-pandemia vai ser uma grande massa de pessoas adoecidas, fora aquelas pessoas que estão em luto. Hoje nós temos um grande luto social que é geral, porque nós tivemos mais de 600 mil mortes nesse país repentinamente.

Está na hora da gestão pública poder olhar para a saúde mental e poder compreender que saúde mental não é frescura, não é xilique, ela é uma patologia como outra qualquer. E quanto mais grave ela fica, mais demorado é o resultado, mais demora para consigamos fazer a pessoa se estabilizar e retomar sua vida novamente. É muito importante que possamos ter ações preventivas, mas também ter uma rede de cuidado que seja adequada e que garanta o acesso da população que dela necessita. 

Fonte: www.brasildefators.com.br/2022/09/14/o-pos-pandemia-vai-ser-uma-grande-massa-de-pessoas-adoecidas-afirma-psicologa

Cientistas brasileiros publicam diretrizes de prevenção ao suicídio

Fernanda Bassette - Da Agência Einstein (25 setembro 2022)

Pesquisadores brasileiros publicaram um novo documento com diretrizes para ajudar as pessoas em geral - que não trabalham necessariamente na área da saúde - a identificar, abordar e encaminhar um conhecido com ideações suicidas para um tratamento adequado, já que a maioria dos casos estão associados a algum tipo de transtorno de saúde mental.

O documento dialoga com os dados oficiais: na contramão dos países desenvolvidos, o número de suicídios na América Latina e no Brasil tem aumentado nos últimos anos, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). No país, os registros se aproximam de 14 mil casos por ano, o que significa que em média 38 pessoas tiram a própria vida por dia. 

As diretrizes

Os especialistas detalham de forma simples e didática como agir em caso de um conhecido estar com ideações suicidas. Eles citam alguns sinais importantes de alerta, como, por exemplo, identificar alguém que esteja:

- Ameaçando se machucar ou se matar, ou falando em querer morrer;

- Procurando maneiras de se matar, como em busca de comprimidos, armas, ou outras formas

- Falando ou escrevendo sobre morte, morrer, ou suicídio

- Sentindo-se preso, como se não houvesse saída

- Afastando-se de amigos, família, e sociedade.

Além disso, o documento ensina como se aproximar e abordar a pessoa em risco. Diz, por exemplo, que a pergunta deve ser direta e sem pré-julgamentos. Por exemplo: a pessoa deve perguntar "você está tendo pensamentos suicidas?" e nunca "você não está pensando em fazer alguma coisa estúpida, né?". O socorrista deve assegurar à pessoa que está ali para ouvir e que quer ajudá-la.

As diretrizes trazem um quadro com dicas de escuta (como ouvir o relato com atenção, paciência e empatia) e o que nunca dizer quando estiver conversando com uma pessoa em risco de suicídio, como por exemplo não minimizar os problemas relatados, não interrompê-la com suas próprias histórias e nem dizer que a pessoa esta "blefando". Por fim, o documento estimula que a pessoa busque ajuda.

Sobre a criação do documento

Traduzido e adaptado das diretrizes do programa "Mental Health First Aid", que existe na Austrália desde 2000, a versão brasileira é resultado de uma cooperação que existe desde 2018 entre pesquisadores brasileiros e australianos.

Por aqui, os cientistas trabalharam para chegar em uma interpretação nacional do modelo, de acordo com a cultura e as particularidades de cada país. O documento do Brasil recebeu o nome de "Diretrizes para pensamentos e comportamentos suicidas no Brasil" e foi publicado no periódico científico "BMC Psychiatry".

Antes de ser divulgado, o texto oficial foi avaliado por um grupo de 60 brasileiros - sendo 30 profissionais da saúde especialistas e 30 pessoas com experiência associada ao suicídio (seja pessoalmente, sobrevivendo à tentativa, ou acompanhando um familiar).

"Na nossa cultura existe uma conexão familiar muito forte. Por isso, nos casos de risco, incluímos essa questão do envolvimento dos amigos e familiares para ajudar", explicou o psiquiatra Alexandre Andrade Loch, professor de pós-graduação do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clinicas da Faculdade de Medicina da USP (IPq-FMUSP), um dos especialistas que participou da elaboração desse documento.

"É muito comum que as pessoas que suspeitam de que alguém esteja em risco [de tirar a própria vida] não saibam como agir, não saibam como abordar, não saibam onde buscar ajuda. Até os profissionais de saúde encontram dificuldades num primeiro momento. Por isso, esse manual foi organizado e pensado também por quem já passou por essa situação para que ele proponha a melhor conduta possível", explicou Loch.

Apesar de já terem sido publicadas em uma revista científica, o modelo de treinamento que será usado aqui ainda não está acessível ao público - a expectativa é que isso ocorra no começo do ano que vem. Segundo Loch, há um estudo de mestrado em andamento no Instituto de Psiquiatria da USP para definir qual o a melhor forma de curso para que essas informações sejam disponibilizadas.
 
"A ideia é que esse treinamento possa ser aplicado em escolas, locais de trabalho, empresas, mas ainda não sabemos por quanto tempo: se seriam semanas, ou meses. O que a gente sabe, pela experiência da Austrália, é que quanto mais informações as pessoas tem, menos preconceitos com os problemas de saúde mental existem", afirmou Loch.

Para o psiquiatra Elton Kanomata, do Hospital Israelita Albert Einstein, a existência de um documento para o público leigo é fundamental porque muitas vezes a pessoa que está em risco de suicídio não se identifica nessa situação e não procura ajuda.

"Ter um documento que facilite a identificação de pessoas em risco é importante porque muitas dessas pessoas estão em negação, acham que não têm nenhum problema de saúde mental. Ou quando reconhecem que possuem um sofrimento legítimo, sentem vergonha porque ainda existe muito tabu e estigmas sobre o suicídio. Isso faz com que a pessoa agrave o seu quadro", alerta o médico.

Kanomata disse ainda que a ideação suicida não é algo constante, ela vai oscilando ao longo do tempo e vai se exacerbando em momentos de maior estresse. Por isso, há importância na participação de amigos e familiares na identificação dos casos.

"O suicídio é algo que vai contra os princípios instintivos de qualquer ser vivo, que é o de sobrevivência e autopreservação. O fato de uma pessoa tentar suicídio, falar que quer morrer, acaba provocando uma sensação desprazerosa nas outras pessoas, gerando um certo distanciamento. Por isso a importância do apoio e acolhimento da família", afirmou.

Setembro Amarelo

Desde 2014, a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM), utiliza o mês de setembro como período de prevenção ao suicídio - iniciativa que recebe o nome de Setembro Amarelo, com ações em todo o país para chamar a atenção para o tema, assim como ocorre com o Outubro Rosa (para prevenção do câncer de mama) e Novembro Azul (sobre câncer de próstata).

Neste ano, a campanha teve como lema "A vida é a melhor escolha" e ressalta que muitos casos de suicídio poderiam ter sido evitados se as pessoas em crise tivessem tido acesso ao tratamento psiquiátrico e à informação de qualidade.

Mais pessoas se suicidam todos anos do que morrem de HIV e de malária, por exemplo, segundo a OMS. Entre os jovens de 15 a 29 anos, o suicídio foi a quarta causa de morte, depois de acidentes no trânsito, tuberculose e violência interpessoal.

"Ainda existe muito estigma em torno do suicídio. O que a gente quer com esse documento é que as pessoas entendam que uma pessoa que se suicida não tomou essa decisão do dia para a noite. É um processo que vem acontecendo há algum tempo, a pessoa está adoecendo e precisa de ajuda. O suicídio é só a ponta do iceberg", disse Loch.

Fonte: www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2022/09/25/cientistas-brasileiros-publicam-diretrizes-de-prevencao-ao-suicidio-veja.htm


 

 

Especialistas norte-americanos recomendam rastreio da ansiedade a partir dos 8 anos e da depressão a partir dos 12

Naomi Thomas, do CNN (22 outubro 2022)
 
Entre 2016 e 2019, cerca de 5,8 milhões de crianças foram diagnosticadas com ansiedade e aproximadamente 2,7 milhões foram diagnosticadas com depressão no Estados Unidos

Pela primeira vez, o Grupo de Trabalho dos Serviços Preventivos dos EUA (USPSTF) recomendou o rastreio da ansiedade em crianças a partir dos 8 anos.

Nas suas recomendações finais, publicadas na terça-feira, na revista médica JAMA, o Grupo de Trabalho também apela ao rastreio da depressão em crianças a partir dos 12 anos, em conformidade com as recomendações de 2016.

Ambos os conjuntos de recomendações se aplicam a crianças que não têm uma doença de saúde mental diagnosticada e que não apresentam sintomas reconhecidos de ansiedade ou depressão.

Os membros ponderaram recomendações para o rastreio do risco de suicídio em crianças e adolescentes, mas não existem evidências suficientes sobre os seus perigos e benefícios.

“O Grupo de Trabalho analisou as evidências sobre o rastreio da ansiedade, da depressão e do risco de suicídio para prestar aos profissionais dos cuidados primários orientações sobre como podem apoiar a saúde mental das crianças e dos adolescentes”, afirmou Martha Kubik, membro do Grupo e professora da School of Nursing do College of Health and Human Services, na George Mason University, num comunicado de imprensa. “Felizmente, o rastreio da ansiedade e da depressão em crianças mais velhas consegue identificar estes quadros para que as crianças e os adolescentes possam receber os cuidados de que necessitam”.

O USPSTF é um grupo de especialistas médicos e em prevenção de doenças independentes cujas recomendações ajudam a orientar as decisões dos médicos.

De acordo com a Agência americana de prevenção e controlo de doenças (US Centers for Disease Control and Prevention), entre 2016 e 2019, cerca de 5,8 milhões de crianças foram diagnosticadas com ansiedade e aproximadamente 2,7 milhões foram diagnosticadas com depressão.

“O Estudo Nacional de Saúde Infantil de 2018-2019 [National Survey of Children’s Health (NSCH)] verificou que 7,8% das crianças e dos adolescentes com idades dos 3 aos 17 anos tinham um distúrbio de ansiedade atual”, afirma a nova recomendação. “Os distúrbios de ansiedade na infância e na adolescência estão associados a uma maior probabilidade de distúrbio de ansiedade ou depressão no futuro”.

Além da ausência de evidências relativas ao rastreio do risco de suicídio, o USPSTF afirmou que não dispõe de evidências suficientes para elaborar uma recomendação para o rastreio da ansiedade em crianças com 7 anos ou menos ou para o rastreio da depressão em crianças com 11 anos ou menos.

“O Grupo de Trabalho preocupa-se profundamente com a saúde mental de todas as crianças e adolescentes. Infelizmente, existem lacunas nas evidências fundamentais relativamente ao rastreio da ansiedade e da depressão em crianças mais pequenas e ao rastreio do risco de suicídio em todos os jovens”, afirmou Lori Pbert, psicóloga clínica e professora na Chan Medical School da Universidade de Massachusetts, num comunicado de imprensa. “Apelamos a que seja realizada mais investigação nestas áreas críticas para que possamos fornecer aos profissionais de saúde formas baseadas em evidências para manterem os seus pacientes jovens saudáveis”.

O USPSTF também referiu que não encontrou evidências sobre os intervalos de rastreio adequados para a depressão ou para a ansiedade.

No mês passado, o Grupo de Trabalho publicou recomendações preliminares que, pela primeira vez, afirmavam que deveriam ser efetuados rastreios da ansiedade em adultos com menos de 65 anos.

Nessa ocasião, Pbert disse à CNN que foi dada prioridade a uma recomendação relativa à ansiedade “devido à sua importância na saúde pública, principalmente com o maior destaque que tem sido dado à saúde mental nos últimos anos, a nível nacional”.

Num editorial publicado juntamente com as novas recomendações para as crianças, na terça-feira, os médicos do Ann and Robert H. Lurie Children’s Hospital, Weill Cornell Medicine e da Universidade de Cincinnati afirmaram que o relatório de evidências fornecido com as recomendações não oferece orientações específicas ou acionáveis sobre como o rastreio deve ocorrer em contextos de cuidados primários e que existem questões pendentes relativamente ao rastreio.

No entanto, “embora sejam necessários esforços de investigação futura para resolver as lacunas no conjunto de evidências, as evidências disponíveis parecem sustentar que se avance com a implementação do rastreio e do tratamento de distúrbios de ansiedade em contextos de cuidados primários pediátricos”, escreveram.

Chamam a isto “muito boas notícias”, afirmando que a maioria dos distúrbios psiquiátricos, incluindo os distúrbios de ansiedade, começam durante a infância e a adolescência.

“O rastreio em contexto de cuidados primários pediátricos é importante para a identificação precoce e permite um tratamento mais precoce e eficaz para reduzir o sofrimento, a incapacidade e a morbilidade associados a um atraso no reconhecimento e no tratamento”, afirmou.

Noutro editorial publicado na terça-feira, na revista JAMA, o Dr. Oscar Bukstein do Boston Children’s Hospital abordou as recomendações relativas à depressão e ao risco de suicídio: “O comportamento suicida encontra-se entre as emergências médicas mais críticas para os adolescentes” e o rastreio do suicídio é a “pedra angular da prevenção do suicídio”.

“Não se trata de uma coincidência que o USPSTF tenha considerado evidências para o rastreio do suicídio e da depressão no mesmo Relatório de evidências e Revisão sistemática atualizados”, escreveu. “Dada a relevância da depressão como fator de risco para o comportamento suicida e o valor do rastreio da depressão, conforme sustentado pela recomendação do USPSTF, o rastreio do suicídio no âmbito do rastreio da depressão poderia cumprir ambas as tarefas de rastreio ao mesmo tempo”.

Bukstein também afirmou que as recomendações do Grupo de Trabalho sugerem que existem muito mais perguntas a fazer que podem ser respondidas com as evidências atuais.

Fonte: https://cnnportugal.iol.pt/ansiedade/ansiedade-criancas/especialistas-norte-americanos-recomendam-rastreio-da-ansiedade-a-partir-dos-8-anos-e-da-depressao-a-partir-dos-12/20221022/634ed8e20cf26256cd3b34c9

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Suicídio não é escolha, mas um ato de desespero imerso numa grande dor

Entrevista especial com Karen Scavacini

Psicóloga analisa os casos entre jovens e diz que o tema é pouco abordado. Falar e educar as pessoas sobre saúde e equilíbrio mental, numa sociedade que exige alta performance, pode ser um caminho

João Vitor Santos (30 setembro 2022)

Desde 2015, a campanha Setembro Amarelo tem chamado atenção para os riscos e fatores que podem levar ao suicídio. A ideia é trabalhar, ao longo de setembro, na prevenção e identificação de fatores de riscos, como é feito para outras doenças como diabetes, câncer e problemas vasculares em outros meses do ano. No entanto, esse esforço ainda parece ser pouco, justamente porque ainda não se encara a saúde mental com a seriedade que requer, e a consequência de seu desequilíbrio pode levar a doenças como depressão, fatores de risco ao suicídio.

“As pessoas ainda têm uma visão de que suicídio é uma escolha e que a pessoa está consciente, tendo uma escolha livre. Alguém que está inundado de dor e sofrimento não tem uma escolha livre, não é assim que funciona”, aponta a psicóloga Karen Scavacini, ao reconhecer que o tema ainda é tabu atualmente.

Para ela, é preciso ter clareza do que estamos falando. “O suicídio é um ato desesperado, imerso em sofrimento e dor, de alguém que não vê outra forma de acabar com sua dor e não tem esperança, ela está cega para ver caminhos. O que causa essa cegueira é a dor, e nessa dor pode haver diversos fatores”, explica, na entrevista concedida via áudios de WhatsApp enviados ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU. Além disso, reforça que precisamos trabalhar na prevenção, o que não é fácil diante a inabilidade de se tratar do tema, mesmo nas redes de saúde pública e privada. “Temos ainda uma visão muito intervencionista. Algo é feito quando ocorre um quadro com sinais muito claros e, ainda assim, olhe lá… Ainda é difícil conseguir vagas para internação e tratamento, e até mesmo para consultas e atendimentos”, constata.

Recentemente, o que tem chamado atenção são tanto casos de distúrbios na saúde mental de jovens como casos de suicídios. Karen reconhece que esses parecem ter mais fragilidades e dificuldades de lidar com medos, traumas e frustrações. “A leitura que faço é que os jovens estão lidando de um modo mais delicado com relação ao sofrimento e à saúde mental. E a falta de diálogo não tem contribuído para que eles saibam onde buscar ajuda. Mesmo que vão buscar ajuda, é difícil que consigam essa ajuda por conta do tabu e, também, pela lotação dos serviços de saúde mental”, diz.

É por isso que a profissional aposta na informação, pois crê que o tema deva ser tratado na escola, entre familiares e amigos e mesmo no ambiente de trabalho e rede de assistência em saúde. Embora o desequilíbrio na saúde mental e o suicídio ocorram pelo que chama de “quebra-cabeça de fatores”, Karen reconhece que muito está relacionado com os modos como temos levado a vida. Por isso, mesmo com relação aos jovens, ela sugere que nos questionemos: “O que a sociedade tem cobrado? Qual é o papel desses jovens hoje? Que papel o sofrimento tem?”

Ela vê que muito de nosso adoecimento está relacionado com um modo de viver, em que é preciso fazer para ter e isso cada vez mais, numa sociedade do sucesso e da alta performance. “A própria visão de empreendedorismo, essa ideia de que você tem que ter a força de fazer, lutar, o próprio discurso coaching da força da mente, isso é muito complicado em termos de saúde mental, em termos de quanto as pessoas estão chegando no burnout e ultrapassando todos os limites em nome de um sucesso”, avalia.

Karen Scavacini

Psicóloga e psicoterapeuta, mestre em saúde pública na área de promoção de saúde mental e prevenção do suicídio pelo Instituto Karolinska, da Suécia. Também é doutora em psicologia pela Universidade de São Paulo – USP e idealizadora e cofundadora do Instituto Vita Alere.

Confira a entrevista.

IHU – Como a senhora define o suicídio? Como enfrentá-lo diante a sociedade e dos modos de vida atuais?

Karen Scavacini – O suicídio é um ato desesperado, imerso em sofrimento e dor, de alguém que não vê outra forma de acabar com sua dor e não tem esperança. Ela está cega para ver caminhos. O que causa essa cegueira é a dor e, nessa dor, pode haver diversos fatores que influenciam, como a sociedade, a economia, também a depressão, a ansiedade, o desespero. Temos que ter muito diálogo, muita educação, união e saber pedir ajuda no momento necessário. E não só pedir ajuda, mas saber onde tem essa ajuda.

IHU – Tratar do suicídio atualmente ainda é um tabu?

Karen Scavacini – A morte ainda é um tabu no Brasil. As pessoas não falam sobre morte e finitude. Isso tem mudado com o tempo, em alguns espaços esse diálogo tem acontecido. Porém, o suicídio ainda entra como o maior dos tabus. As pessoas ainda têm uma visão de que o suicídio é uma escolha e que a pessoa está consciente, tendo uma escolha livre. Alguém que está inundado de dor e sofrimento não tem uma escolha livre, não é assim que funciona. Temos muitos mitos com relação a expressões como “quem fala, não faz [o suicídio]”, “é frescura”, “falta de coragem” e até “falta de Deus no coração”.

E há, ainda, um outro ponto que é o fato de que as pessoas acham que não podemos falar sobre isso, pois se falarmos produziríamos mais casos. E essa vai ser a lógica do tabu: não podemos falar sobre a questão, quando, na verdade, sabemos que se falarmos poderemos ajudar muitas pessoas. Ou seja, ainda não temos educação sobre o tema. Nas escolas ainda falta muito. Precisamos falar sobre a morte, assim como em programas de TV, reportagens, trazer isso de diversas formas. Podemos, por exemplo, falar de perdas, de mortes, como também do suicídio.

O suicídio é um ato desesperado, imerso em sofrimento e dor, de uma pessoa que não vê outra forma de acabar com sua dor e não tem esperança. Ela está cega para ver caminhos 
IHU – Essa dificuldade de tratar da temática do suicídio teria relação com a dificuldade que se tem para, ainda antes, abordar a saúde mental?

Karen Scavacini – Com certeza, embora tenhamos visto que a partir da pandemia as pessoas têm falado mais de saúde mental. Foi preciso perder a saúde mental para poder dar atenção para ela. Ainda assim, abordar a saúde mental, de maneira que traga ações de promoção de saúde mental, ainda é algo incomum. Ou fica só na autoajuda, ou só no tratamento medicamentoso.

Então, precisamos falar de saúde mental de uma forma mais ampla e, dentro da questão de saúde mental, falar do suicídio. Quando falamos de bem-estar, saúde mental, transtornos mentais e suicídio, estamos falando de uma linha de ações de cuidado, em diversos níveis, supernecessários.

IHU – Na sua avaliação, os sistemas públicos e privados de saúde no Brasil têm dado a devida atenção à saúde mental, especialmente nos primeiros sinais de desequilíbrios do paciente?

Karen Scavacini – Não, de forma alguma. Temos ainda uma visão muito intervencionista. Algo é feito quando ocorre um quadro com sinais muito claros e, ainda assim, olhe lá… Ainda é difícil conseguir vagas para internação e tratamento, e até mesmo para consultas e atendimentos. E não temos perguntas nem testes para avaliar indícios de desequilíbrios no paciente.
O suicídio vai ser sempre multifatorial, a saúde mental é uma parte dessas questões porque a gente tem também as questões sociais, econômicas, casos situacionais tecnológicos, familiares e laborais que também vão influenciar a saúde mental 
IHU – Um desequilíbrio da saúde mental pode levar a casos de suicídios? Como isso ocorre e por quê?

Karen Scavacini – O suicídio vai ser sempre multifatorial, a saúde mental é uma parte dessas questões porque a gente tem também as questões sociais, econômicas, casos situacionais tecnológicos, familiares e laborais que também vão influenciar a saúde mental. E esse quebra-cabeça pode levar ao suicídio. É claro que alguém que está com a saúde mental equilibrada muito dificilmente pensará em suicídio.

É necessário um sofrimento, um sofrimento intenso, não é só um desequilíbrio. Estamos falando, no caso do suicídio, de uma dor intensa, de não conseguir ver outra saída que não seja a morte. E, aí, é quase que como um curto-circuito que dá na saúde mental, onde não se tem a capacidade de ver outras possibilidades.
As pessoas ainda têm uma visão de que o suicídio é uma escolha e que a pessoa está consciente, tendo uma escolha livre. Alguém que está inundado de dor e sofrimento não tem uma escolha livre, não é assim que funciona 
IHU – Nesse mês de setembro, dedicado à prevenção de suicídio, a senhora tem insistido em falar do aumento de casos entre jovens de 15 a 19 anos. Que aumento é esse? Que leitura a senhora faz desses números?

Karen Scavacini – Como podemos perceber a partir dos dados do Ministério da Saúde [abaixo], nossos maiores índices são de idosos, mas temos percebido um aumento nessa faixa etária dos jovens também em termos de números, embora não chegue a ser nosso maior índice. Agora, em termos de aumento, ele tem sido expressivo.

Percebemos que os jovens têm chegado a esse desespero existencial em grande número. O jovem ainda tem um comportamento que vai ser mais impulsivo. Temos visto que lidar com o sofrimento e frustração tem sido algo difícil e desafiador para essa geração. E temos a pandemia no meio disso que deixa os jovens ainda mais vulneráveis.

A leitura que faço é que os jovens estão lidando de um modo mais delicado com relação ao sofrimento e à saúde mental. E a falta de diálogo não tem contribuído para que eles saibam onde buscar ajuda. Mesmo que vão buscar ajuda, é difícil que consigam essa ajuda por conta do tabu e, também, pela lotação dos serviços de saúde mental.
Os jovens estão lidando de uma forma mais delicada com relação a sofrimento e saúde mental. E a falta de diálogo não tem contribuído para que eles saibam onde buscar ajuda
IHU – Em que medida a pandemia provocou um efetivo aumento de casos e que levou à agudização de um problema que já vinha existindo, mas pais, famílias, escola e sociedade não conseguiam enxergar?

Karen Scavacini – Vimos que a pandemia teve um maior impacto na saúde mental dos jovens por conta do isolamento, pela falta de sociabilização nesse período superimportante da vida. Não houve um aumento efetivo de casos de suicídio. Inclusive, há situações em que houve diminuições de casos, isso em certos países. A exceção foi o Japão, que teve um aumento considerável de casos com mulheres.

É claro que já tínhamos casos de saúde mental, já tínhamos um problema na própria prevenção e, agora, estamos sendo exacerbados. Não é algo novo, é algo que piorou com a vivência de um estresse absurdo que foi a pandemia. Ainda é muito difícil de enxergar a questão, muitos locais só param para pensar quando há um caso de suicídio. Mas precisamos ter esse olhar mais preventivo.
O que a sociedade tem cobrado? Qual é o papel desses jovens hoje? Que papel o sofrimento tem? 
IHU – Por que os jovens dessa geração parecem mais vulneráveis a desequilíbrios de saúde mental e ao suicídio?

Karen Scavacini – Já falei um pouco sobre isso antes, mas, sim, eles nos parecem mais vulneráveis no trato com suas dores, com suas frustrações e isso tem sido percebido. E, aí, podemos pensar que está também dentro de um problema geral, mas não só isso. Precisamos pensar como a sociedade tem lidado com esses jovens e nos questionarmos: O que a sociedade tem cobrado? Qual é o papel desses jovens hoje? Que papel o sofrimento tem? E, claro, levar em conta que a forma de encarar os problemas está muito diferente.

IHU – Pensando nesses casos de suicídios de outras faixas etárias, podemos afirmar que a sociedade atual tempo está doente? Como podemos compreender o que tem nos trazido até esse ponto?

Karen Scavacini – É, percebemos que entre os idosos houve um aumento de casos. O suicídio é uma representação, a resposta para tempos de sofrimento, de não ver outras possibilidades. Sem dúvida nenhuma, não há uma nação que esteja salva. Quanto mais adoecida estiver – e não falo somente em saúde mental, mas social também –, maior será a possibilidade de um aumento no número de casos. Quando vemos toda a polarização que existe hoje, o aumento da violência, a LGBTQfobia, tudo tem contribuído para o estado atual.

Não tenho dúvida que estamos falando mais sobre assuntos que antes não falávamos, e as redes sociais também ajudaram a trazer esse debate, ajudando que grupos de pertencimento possam se formar. Mas, ao mesmo tempo, assim como dá voz como um instrumento para pessoas que se ajudem, também dá voz para pessoas que trazem violências. E, enquanto sociedade, precisamos aprender a lidar com essas violências que já acontecem, mas que agora estão sendo expressas de uma outra forma. A falta de sentido na vida, a falta de esperança também são outros pontos que levamos em consideração.

IHU – Lógicas da sociedade neoliberal, do desempenho, do sucesso e do empreendedorismo de si impactam a saúde mental dos sujeitos?

Karen Scavacini – Com certeza há o impacto dessas lógicas, pois, se você tem que fazer para ter, tem que ter sucesso para ser feliz, você é medido pelo seu desempenho, acreditando em tudo que está nas redes, no sentido de que está tudo bem, feliz e fazendo coisas legais o tempo inteiro. A própria visão de empreendedorismo, essa ideia de que precisamos ter a força de fazer, lutar, o próprio discurso coaching da força da mente, isso é muito complicado em termos de saúde mental, em termos de quanto as pessoas estão chegando no burnout e ultrapassando todos os limites em nome de um sucesso, desempenho. Com certeza isso tudo vai impactar e vai levar as pessoas muito além de seus limites.
A própria visão do empreendedorismo, essa ideia de que precisamos ter a força de fazer, lutar, o próprio discurso coaching da força da mente, isso é muito complicado em termos de saúde mental
IHU – A vida em comunidade vem se transformando, e não apenas em decorrência da pandemia. A tecnologia e as redes têm mudado as formas de estarmos juntos e vivermos em comunidade. Como essa transformação incide sobre o ser humano, um ser social e do contato? Pode se ter aí uma questão de fundo para o aumento dos problemas de saúde mental e suicídios?

Karen Scavacini – Com certeza mudou a forma como se vive em comunidade, mas imagine se não tivéssemos a tecnologia durante a pandemia. Talvez, fosse muito mais difícil lidar com o afastamento e o isolamento. Então, acho que a tecnologia é positiva em muitos momentos e ela tem nos ajudado em muitas coisas. Para a nova geração, a forma de se comunicar e usar a tecnologia é outra, pelo menos para pessoas como eu, ainda da era analógica, que temos esse tipo de comparação.

A tecnologia mudou, sim, a forma de viver em comunidade, o contato entre as pessoas e isso pode ser um pano de fundo para problemas de saúde mental se a pessoa está mais vulnerável. Essa pessoa precisará aprender a lidar com a sociedade digital e não digital, isso hoje é fundamental. Não temos mais como separar, não temos como falar que é um mundo virtual porque quando ele nos impacta no dia a dia, nas nossas emoções, nos nossos sentimentos, ele é tão real quanto qualquer outro.

Não acho que temos que olhar para a tecnologia como um fator que contribui para o aumento de casos de suicídios. Hoje, colocamos a tecnologia com mais um fator. E, talvez, para algumas pessoas, ela seja um gatilho em alguns momentos, talvez seja uma peça maior no seu quebra-cabeça de sofrimento. Mas não vai ser a única.

IHU – Qual o lugar da religiosidade e da fé na busca por uma saúde mental na sociedade de hoje?

Karen Scavacini – A religiosidade, a religião, a espiritualidade no geral são grandes fatores de proteção do suicídio, no pertencimento, na esperança, em acreditar em algo maior. Por isso, costuma ser algo muito bom, muito protetivo. Em alguns casos, pode ser fator de risco quando, por exemplo, um jovem LGBTQIA+ é expulso de sua família e de seu grupo de pertencimento por conta da religião. Isso é muito sério.

A sociedade não tem vivido esses espaços de fé e religiosidade e, talvez, uma parte da sociedade tem vivido em espaços onde se fala muito de pecado. A saúde mental não é levada em consideração ou, quando a pessoa tem uma questão de saúde mental, é porque não está rezando muito. Então, precisa haver muito mais conscientização entre os líderes religiosos para as questões de saúde mental, para as questões de suicídio. É preciso saber fazer esse acolhimento para entender que estamos lidando com o sofrimento e, muitas vezes, com transtornos mentais. E aí o tratamento não é só religioso.
Precisamos ter muito mais a conscientização de líderes religiosos para as questões de saúde mental, para as questões de suicídio, saber fazer esse acolhimento para entender que a gente está lidando com o sofrimento

IHU – Segundo dados do Ministério da Saúde, o Rio Grande do Sul é um dos estados líderes em suicídios. Como a senhora interpreta essa realidade?

Karen Scavacini – A questão do suicídio tem muita relação com a cultura, muito mais machista de ter que resolver tudo sozinho, de não poder pedir ajuda. Sabemos que há muito mais casos no interior do que na capital. Tem também uma relação com a forma como esses negócios familiares e agrícolas tem acontecido. Dívidas, aumento de uso de álcool e drogas também são outros fatores, assim como questões conjugais. Há também uma herança europeia, no sentido de cultura, que pode ter relação com esse aumento. São explicações para essa situação do Rio Grande do Sul.

IHU – Deseja acrescentar algo?

Karen Scavacini – Gostaria de acrescentar alguns canais onde as pessoas podem buscar ajuda. Existe o Centro de Valorização da Vida – CVV, acessível de diversas formas, inclusive pelo telefone 188.

Tem o Mapa Saúde Mental, um mapeamento nacional dos locais de atendimento em saúde mental no país.

Tem o Podefalar.org, que é do Unicef para jovens dos 13 a 24 anos também terem primeiros socorros emocionais. E estamos com dois cursos gratuitos, um se chama Bem-estar digital para ajudar profissionais da área da saúde a lidarem com a vida digital de seus pacientes também em períodos de vulnerabilidade. E o Programa Apoiar, feito para qualquer pessoa aprender a lidar com o suicídio. Ele também está disponível através do Instituto Sul-América.

Fonte: www.ihu.unisinos.br/622601-suicidio-nao-e-escolha-mas-um-ato-de-desespero-imerso-numa-grande-dor-entrevista-especial-com-karen-scavacini

segunda-feira, 19 de setembro de 2022

Outras visões sobre o suicídio

Atribuir o suicídio a apenas causas individuais e transtornos mentais é simplista demais 

Consolidar um diálogo sobre tentativas de suicídio justificados apenas em causas individuais e transtornos psiquiátricos, é simplista demais

Fernanda Magano* (16 setembro 2022)

É fundamental desvelarmos este tema sem preconceitos e amplificarmos na saúde pública ações de prevenção e cuidado.

Este deve ser um movimento cotidiano, todavia foi criado um “Dia Mundial da Prevenção do Suicídio” celebrado em 10 de setembro e referendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). A data remete a um compromisso global para chamar atenção para a prevenção.

Segundo a OMS, o suicídio continua sendo uma das principais causas de morte no mundo, sendo responsável por uma em cada 100 mortes, e se configura como um problema de saúde pública.

É um fenômeno complexo, multifacetado e de múltiplas determinações, que pode afetar indivíduos de diferentes origens, classes sociais, idades, orientações sexuais e identidades de gênero.

Os índices de violência LGBTI+fóbica colocam o nosso país no primeiro lugar no ranking de assassinatos à população LGBTI+ em todo o mundo.

O racismo estrutural gera danos que impactam estados psíquicos através da humilhação racial e a subsequente ação de tentativa de apagamento das consequências do sofrimento psíquico entre a população negra.

Preocupa, e deve ser melhor estudada, a taxa de mortalidade por suicídio entre povos indígenas no Brasil ser três vezes maior que a da população em geral.

É preciso buscar formas de intervenção e cuidado da saúde mental desta população, respeitando suas concepções de vida, de morte, sua organização social e política, além de relações de parentesco diferenciadas e cosmologias e sistemas de crença específicos.

Minha provocação aqui é dirimir a afirmação direta de que as tentativas de suicídio estão associadas somente e diretamente a transtornos mentais, como a depressão e ao abuso de substâncias psicoativas. A questão é para além disto.

Nos efeitos da sociedade capitalista brasileira, que hoje está ainda mais profundamente marcada pelas desigualdades sociais e pela opressão, além das questões da competitividade e disputas com efeitos da fragilidade dos vínculos trabalhistas, as condições de trabalho e dificuldades socioeconômicas pioram a cada dia e a volta das populações abaixo da linha da miséria e com fome são cada vez mais visíveis.

Sem falar do inegável e descarado desmonte das políticas públicas e da política de austeridade fiscal, como a Emenda Constitucional 95, que apresentam efeitos cada vez mais nocivos.

Precisamos abrir este debate na sociedade, especialmente no Controle Social da Saúde, porque isto significa derrubar estigmas.

Para isso, é fundamental dar eco à discussão do fortalecimento e financiamento do Sistema Único de Saúde (SUS) como um sistema público, potente e suficiente para oferecer nas redes de atenção psicossocial estruturadas, o caminho mais indicado e justo para a prevenção ao suicídio.

Consolidar um diálogo sobre ideações, verbalizações, tentativas e suicídios consumados, apenas justificando em causas individuais e em transtornos psiquiátricos, é simplista demais.

Principalmente por estarmos ainda sob os efeitos da sindemia/pandemia da Covid-19, aonde ficou escancarado que o acesso a saúde pública é uma necessidade e um direito humano.

É preciso prevenção, detecção e resposta, e sobretudo uma discussão aberta sobre saúde mental também nas casas, nas escolas e nos locais de trabalho.

Um movimento voltado para a população em geral e grupos de risco, facilitando a conscientização e rompendo com as barreiras para a busca de ajuda, destacando que a maioria das tentativas ou dos suicídios concretizados, manifestam sinais verbais ou comportamentais, que funcionam com alertas.

É preciso enfrentar os estigmas, discuti-los, criar fatores de proteção, promovendo a conscientização, retomando o planejamento e a adoção de políticas de redução danos.

As ações de saúde nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) devem ocorrer incluindo abordagem multiprofissional, com profissionais da Psicologia, Enfermagem, Medicina, Terapia Ocupacional, Serviço Social, entre outros.

É preciso ampliar a sensibilidade nas intervenções nas UPAs 24H, no SAMU 192, nos pronto-socorros e nos hospitais, assim como as parcerias das ligações para o Centro de Valorização da Vida (CVV) com o SUS, por meio do número 188, e o suporte social dentro de serviços em Rede com a Educação e Sistema Único de Assistência Social (Suas).

Temos que enfrentar falácias e buscar compreender as perdas e sofrimentos, as vivências com violências, as histórias de vida com traumas repetidos, as situações de abuso, violência doméstica, assédio moral, assédio sexual, humilhações e constrangimentos e tantas outras formas de sofrimentos invisíveis.

Para garantir saúde mental e prevenir o suicídio é fundamental que os direitos sociais sejam garantidos, fazer valer e cumprir os preceitos do Artigo 6º da Constituição Federal, que define e enumera quais são os direitos sociais: à educação, à saúde, à alimentação, ao trabalho, à moradia, ao transporte, ao lazer, à segurança, à Previdência Social, à proteção à maternidade e à infância e promover assistência aos desamparados.

*Fernanda Lou Sans Magano é psicóloga, conselheira nacional de saúde e integrante da mesa diretora do Conselho Nacional de Saúde (CNS)

Fonte: www.viomundo.com.br/blogdasaude/fernanda-magano-atribuir-o-suicidio-a-apenas-causas-individuais-e-transtornos-mentais-e-simplista-demais.html

sábado, 10 de setembro de 2022

Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC) oferece acolhimento para prevenção de suicídio

(8 setembro 2022)

O próximo dia 10 é o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, organizado pela Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio (IASP) e endossado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Representa um compromisso global para chamar atenção para prevenção do suicídio.

De acordo com a última pesquisa realizada pela OMS em 2019, são registrados mais de 700 mil suicídios em todo o mundo, sem contar com os episódios subnotificados, pois com isso, estima-se mais de 1 milhão de casos. No Brasil, os registros se aproximam de 14 mil casos por ano, ou seja, em média 38 pessoas tiram a própria vida, por dia.

Ainda segundo a OMS, a maioria dos casos tem relação com doenças mentais, principalmente não diagnosticadas ou tratadas incorretamente. Dessa forma, a maioria dos casos poderia ter sido evitada se essas pessoas tivessem acesso ao tratamento psiquiátrico e informações.

Por causa disso e também aliado ao caráter comunitário, a Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) disponibiliza acolhimento a essas pessoas. “A Unisc oferece uma diversidade de ações através dos seus diferentes cursos. No Serviço Integrado de Saúde (SIS), oferecemos atendimento psicoterápico à comunidade, sendo que entre os transtornos mais frequentes está a depressão”, fala o professor Jerto Cardoso da Silva, responsável pela área da psicologia no SIS.

Os interessados podem ligar para o SIS pelo telefone (51) 3717-7480 para se inscrever nos acolhimentos, com ou sem encaminhamento.

Egressa da Unisc passa orientações

A psicóloga e mestre em Psicologia pela Unisc, Vanessa Mendes Pinto Mostardeiro, desenvolveu um trabalho de pesquisa sobre o tema. 

Foi elaborado um estudo extremamente relevante, realizado numa Organização Militar, o qual pode proporcionar reflexões a respeito do sofrimento psíquico dos militares propensos à prática de suicídio, além de desenvolver ações interventivas preventivas eficazes para minimizar a possibilidade de risco do suicídio.
Dentro desta pesquisa e ao longo do mestrado, Vanessa diz que é possível traçar alguns sinais de alerta.

É comprovado que a cada 10 suicídios consumados, 9 deles poderiam ter sido evitados pelos sinais emitidos como mudança na personalidade, mudança no hábito alimentar e de sono, raiva de si mesmo, entre outros.
Ainda, Vanessa explica que, em geral, os suicídios são premeditados e as pessoas dão sinais das intenções. 

Reconhecer esses sinais de alerta e oferecer apoio ajudam a prevenir. A expressão do desejo suicida nunca deve ser interpretada como simples ameaça ou chantagem emocional. Perguntar sobre a intenção suicida não aumenta nas pessoas o desejo de realizar o ato.
Caso estes sinais ocorram, Vanessa orienta a encontrar um momento apropriado e um lugar calmo para falar sobre suicídio com essa pessoa. 

Deixe-a saber que você está lá para escutar, ouça com a mente aberta e atenção, seja empático e ofereça apoio. Leve a situação a sério e verifique o grau de risco. Não fique chocado, envergonhado ou em pânico, apenas acolha. Nunca guarde segredos sobre esse assunto. Incentive a pessoa a procurar ajuda de um profissional especializado em saúde mental. Ofereça-se para acompanhá-la em uma consulta. Caso você ache que essa pessoa está em perigo iminente, não a deixe sozinha. Não desqualifique a pessoa, nem faça o problema dela parecer sem importância. Não compare a situação com outros casos.

Sinais de alerta 

  • Expressões de ideias ou de intenções suicidas, isolamento social, mudanças bruscas de comportamento, como parar de realizar atividades que antes considerava prazerosas;
  • Pessoas com comportamento retraído - dificuldade de relacionamento pessoal;
    Mudança na personalidade - irritabilidade, pessimismo, tristeza profunda, acessos de choro ou apatia;
  • Mudança no hábito alimentar e de sono;
  • Tentativa de suicídio anterior;
  • Raiva de si mesmo - odiar-se, sentimento de culpa, de se sentir sem valor ou com vergonha;
    Perda recente de entes queridos – morte, divórcio, separação, dentre outros; e
  • Histórico familiar de suicídio.
  • Deve-se, também, atentar para as frases de alerta: “vou desaparecer”, “vou deixar vocês em paz”, “eu queria dormir e nunca mais acordar”, “Quero desaparecer”, “Não me deixe fazer besteira”, “sou um peso para as pessoas”, “Não vejo futuro para mim”, “Não aguento mais sofrer”, “não suporto mais essa vida”, “ainda vou fazer besteira”, “minha vida não vale mais a pena”. 

Saiba mais

Desde 2014, a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM), organiza, em território nacional, o Setembro Amarelo. Em 2022, o lema é “A vida é a melhor escolha!”.  Universidade tem o Serviço Integrado de Saúde (SIS) que disponibiliza apoio

Fonte: https://www.portalarauto.com.br/Pages/213911/unisc-oferece-acolhimento-para-prevencao-de-suicidio

quinta-feira, 8 de setembro de 2022

Taxa de suicídio entre bancários é alarmante!

Setembro Amarelo estimula a vida e previne o suicídio

Contraf-CUT  (6 setembro 2022)

A vida é a melhor escolha! Com esse lema, o Setembro Amarelo, que ocorre desde 2014 no Brasil, engloba uma série de ações de prevenção ao suicídio, em especial baseadas na difusão de informação. Segundo os responsáveis pela iniciativa, a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e o Conselho Federal de Medicina (CFM), essa é a maior campanha antiestigma do mundo.

Esta sexta-feira (10) é o Dia Internacional de Prevenção ao Suicídio, no entanto as entidades ligadas ao tema atuam o ano todo, de modo contínuo, para desestimular qualquer risco, pois o volume de casos mostra que se trata de uma questão que afeta todas as sociedades.

Conforme a última pesquisa sobre o tema, realizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2019, são registrados mais de 700 mil casos por ano em todo o mundo, mas estima-se que esse número seja de até 1 milhão. No Brasil, são notificados cerca de 14 mil por ano, ou seja, 38 pessoas em média cometem suicídio por dia no país. 

Como ajudar

Todas as pessoas devem atuar na prevenção do suicídio. Essa postura nem sempre é fácil de ser adotada, pois o assunto ainda é visto como um grande tabu. Conforme orientações das entidades médicas, como a APD, o CFM e a OMS, a primeira e principal iniciativa pessoal para isso é informar-se.

Como o pensamento de uma pessoa que está considerando se matar passa a ser controlado por seu sofrimento emocional, é fundamental que quem está próximo dela consiga identificar essa sua condição, saiba ouvi-la sem julgamentos, demonstre empatia e possa encaminhá-la aos cuidados de um psiquiatra, que é o profissional capaz de salvá-la.

Várias publicações ajudam nesse processo, como as cartilha Suicídio: informando para prevenir, do CFM, e Prevenção ao suicídio e promoção da vida, do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e Região (SindBancários). Para divulgar e participar da campanha do Setembro Amarelo deste ano, conheça as diretrizes da APB e do CFM.

Bancários e bancárias

A categoria bancária é uma das que apresentam alto índice de suicídio no Brasil. Entre 1993 e 1995, por exemplo, quando ocorreram várias privatizações e reestruturações no setor, foram registrados 72 suicídios entre bancários, ou seja, um a cada 15 dias. Outro levantamento, mostra que de 1996 a 2005 foram 181 casos, ou um a cada 20 dias.

O documentário 4 Contos, a tragédia por trás do lucro, produzido pelo SindBancários e disponível no Youtube, trata da questão especificamente dentro da categoria. A produção é baseada em testemunhos de bancários que estiveram próximos à decisão extrema de pôr fim à própria vida e mostra com bastante realismo como a pressão no ambiente de trabalho está relacionado ao suicídio.

“Nós, bancários, somos muito cobrados no trabalho por resultados abusivos, metas inatingíveis, assédio moral, o que causa um profundo sentimento de insegurança, medo e solidão”, afirma o secretário de Saúde do Trabalhador da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT), Mauro Salles.

Pesquisa sobre sequelas da covid-19, desenvolvida pela Contraf-CUT, mostrou, por exemplo, que 67,1% dos bancários e bancárias sentem quase o tempo todo a cabeça cheia de preocupação e que 45% nunca ou quase nunca se sentem alegres.

“As consequências dessa opressão podem ser observadas pelo forte aumento de afastamentos na categoria por problemas psíquicos, que, nos últimos anos, superou inclusive as ocorrências de lesão por esforço repetitivo e distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho (LER/Dort)”, continua o secretário. “Essa situação de estresse pode ser tão intensa, que o trabalhador se sente encurralado, a ponto de ser levado ao suicídio”, conclui.

Seminário

Nos próximos dias 12, 13 e 14, das 9h às 18h, será realizado o 2º Seminário Sofrimento Mental e Suicídio: Estratégias de Enfrentamento no Trabalho, organizado pelo Ministério Público do Trabalho e pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com apoio da Contraf-CUT e de diversas outras entidades. O evento será transmitido ao vivo pelo canal do Youtube do MPT de Campinas.

Fonte: www.apcefsp.org.br/noticias/setembro-amarelo-estimula-a-vida-e-previne-o-suicidio