sábado, 10 de abril de 2021

Senado aprova ações de prevenção do suicídio entre policiais e agentes de segurança

Projeto amplia políticas do programa Pró-Vida, destinado a policiais e categorias como bombeiros e agentes de trânsito. Texto ainda será analisado na Câmara.

O plenário do Senado aprovou nesta terça-feira (6), por 75 votos a 0, um projeto que amplia as políticas do Programa Nacional de Qualidade de Vida para Profissionais de Segurança Pública (Pró-Vida). Segundo a proposta, que seguirá para a Câmara, o programa terá de oferecer acompanhamento psicológico para evitar o suicídio desses profissionais.

Pelo texto, o Pró-Vida também precisará desenvolver, para aprimoramento dos agentes de segurança pública, "ações de combate a todas as formas de discriminação e preconceito".

O Pró-Vida é destinado a policiais federais, rodoviários, civis, militares; a bombeiros; guardas municipais; agentes de trânsito e outros.

Hoje, a lei diz somente que o programa tem a função de elaborar projetos de atenção à saúde mental dos profissionais. A proposta, que recebeu aval dos senadores, dá mais atribuições ao Pró-Vida.

De acordo com o projeto, o programa Pró-Vida terá que:

– desenvolver ações de promoção da saúde mental e prevenção do suicídio;

– realizar atuação preventiva com acompanhamento psicológico até dos familiares dos profissionais;

– publicar, uma vez ao ano, dados referentes aos transtornos psicológicos e casos de suicídio entre os profissionais de segurança;

– combater o preconceito e criar uma cultura de respeito aos Direitos Humanos.

O projeto, de autoria do senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE), foi relatado por Jorge Kajuru (Cidadania-GO).

Em seu parecer, Kajuru informou que, em 2019, morreram mais policiais por suicídio do que em confrontos. Ele citou levantamento do ano passado publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (veja vídeo).

"Houve 93 suicídios de policiais civis e militares em 2018 e 91 em 2019. A taxa foi de 17,4 por 100 mil policiais, quase o triplo da verificada entre a população em geral, que ficou em seis por 100 mil habitantes em 2019", disse o relator.

Kajuru apontou que os elevados índices de suicídio entre profissionais de segurança podem ocorrer devido a "situações de estresse no trabalho, convívio permanente com a morte e a violência, extenuantes jornadas de trabalho, estresse pós-traumático e fácil acesso a armas de fogo".

Durante a votação, Kajuru acolheu uma sugestão do senador Izalci Lucas (PSDB-DF). A emenda diminui de cinco para dois anos o período em que devem ser realizadas conferências para debater as regras dos planos nacional, estaduais e municipais de segurança pública.

Fonte: https://g1.globo.com/politica/noticia/2021/04/06/senado-aprova-acoes-de-prevencao-do-suicidio-entre-policiais.ghtml

quarta-feira, 7 de abril de 2021

Mais estudos atestam potencial psicodélico contra pandemia de suicídios - Virada Psicodélica

Marcelo Leite | viradapsicodelica.blogfolha.uol.com.br

Um ano atrás, em 29 de março de 2020, o corpo de Thomas Schäfer foi encontrado junto de trilhos de trem perto de Wiesbaden, na Alemanha. Ele era secretário da Fazenda do estado de Hesse, e sua morte foi atribuída a suicídio após desespero com a impotência diante do desastre na economia e no emprego causado pela Covid-19. Dias depois, outro funcionário da secretaria tirou a própria vida.

A pandemia generalizou o temor de um crescimento no número de suicídios (são mais de 800 mil por ano no mundo), na tempestade perfeita a combinar angústia, isolamento social, desemprego e perda de renda. Não há dados ainda para confirmar uma tendência, mas é certo que ao menos nos EUA há mais gente pensando em tirar a própria vida, segundo os Centros de Prevenção e Controle de Doenças (CDC), num país que sem a Covid já contava 48 mil desses óbitos por ano, e aumentando.

Em paralelo, avolumam-se indicações da pesquisa biomédica de que psicodélicos clássicos como a psilocibina de cogumelos “mágicos” e o DMT da ayahuasca podem ser úteis na prevenção dessas mortes. No entanto, essa classe de substâncias permanece banida na maior parte dos países, sob a justificativa de que os chamados “alucinógenos” causam dependência e têm alta toxicidade – coisas que a ciência comprova ser uma falsidade.

O potencial de psicodélicos na prevenção do suicídio já foi tratado aqui. Pesquisadores brasileiros, favorecidos pelo fato de a ayahuasca ser legal no país, mostravam então que o chá ritual de religiões como Santo Daime, Barquinha e UDV pode ser útil nessa empreitada.

Agora, mais estudos surgem para corroborar essa promessa terapêutica e a irracionalidade manifesta de manter tais compostos no rol de substâncias proibidas e controladas, o que só dificulta a pesquisa. Um deles, sobre ansiedade de pacientes com câncer grave e risco de suicídio multiplicado por quatro, tem como co-autor Richard Zeifman, do Imperial College, que já aparecera entre os responsáveis pelo artigo de brasileiros sobre ayahuasca e suicídio, liderado por Dráulio de Araújo, do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

No novo trabalho, publicado em 18 de março, Zeifman, Stephen Ross e outros mostram que a diminuição de ideações suicidas entre diagnosticados com câncer submetidos a psicoterapia com psilocibina permanece até 4,5 anos depois. Para os autores, o psicoativo dos cogumelos Psilocybe aparece como boa alternativa aos antidepressivos disponíveis na prevenção do problema.

Cogumelos da espécie Psilocybe cubensis, que contém a substância psicodélica psilocibina
Cogumelos da espécie Psilocybe cubensis, que contém a substância psicodélica psilocibina  

Zeifman também participa do outro estudo, lançado em 11 de março, neste caso sobre risco de suicídio e psicodélicos clássico em geral, não só psilocibina. Trata-se de uma revisão sistemática, tipo de artigo que busca reunir conclusões de vários outros estudos para robustecer relações causais pressupostas.

Foram considerados 64 trabalhos, 41 deles sobre a associação entre uso não clínico de psicodélicos e comportamentos suicidas e 23 sobre terapias psicodélicas e seu impacto no risco de morte autoprovocada. Nada conseguiram concluir sobre uso continuado dessas substâncias e aumento ou diminuição de risco, mas nos estudos clínicos recentes sobre psicodélicos encontraram evidências preliminares de redução acentuada e sustentada em ideações suicidas.

Fonte: https://viradapsicodelica.blogfolha.uol.com.br/2021/04/05/mais-estudos-atestam-potencial-psicodelico-contra-pandemia-de-suicidios/

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Lockdown causa depressão e suicídio? O que um ano de covid-19 nos revela sobre saúde mental

André Biernath da BBC News Brasil em São Paulo
(27 março 2021)

Pelo que foi observado até o momento, a maioria das pessoas se mostrou muito resiliente e conseguiu se adaptar à nova rotina imposta pela pandemia

Quando a covid-19 começou a se espalhar pelo Brasil em março de 2020 e exigiu a adoção de medidas mais restritivas, especialistas em saúde mental passaram a usar o termo "quarta onda" para se referir à avalanche de novos casos de depressão, ansiedade e outros transtornos psiquiátricos que viriam pela frente.

Mas, contrariando todas as expectativas, os primeiros 12 meses pandêmicos não resultaram em mais diagnósticos dessas doenças: estudos publicados nas últimas semanas indicam que os números de indivíduos acometidos tiveram até uma ligeira subida no início da crise, mas depois eles se mantiveram estáveis dali em diante.

Outros achados recentes também apontam que políticas mais extremas como o lockdown, adotadas em vários países e tão necessárias para achatar as curvas de contágio e evitar o colapso dos sistemas de saúde, não resultaram numa piora do bem-estar ou no aumento dos casos de suicídio.

A tese que liga lockdown a aumento de doenças mentais é defendida pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que usa essa e outras justificativas econômicas para resistir à necessidade de firmar decretos que fechem o comércio e reduzam a circulação de pessoas pelas ruas.

Num discurso feito aos seus apoiadores na frente do Palácio do Planalto na manhã da última sexta-feira (19/03), o presidente voltou a abordar o assunto:

"O caos vem aí, a fome vai tirar o pessoal de casa, vamos ter problemas que nunca esperamos ter, problemas sociais gravíssimos. Tenho mantido todos os ministros informados sobre o que está acontecendo. E ainda me culpam, como se eu fosse um insensível no tocante a morte. A fome também mata, a depressão tem causado muito suicídio no Brasil. Onde nós vamos parar?", questionou.

O ponto é que, até agora, os cientistas não encontraram essa subida vertiginosa nos números de depressão ou suicídio. Os estudos indicam que os casos continuam estáveis, apesar de todas as privações que o mundo está vivendo.

Mas como é possível explicar a capacidade de adaptação, a resiliência e o equilíbrio mental inesperado das pessoas num momento de tantas notícias ruins, dúvidas e incertezas sobre o futuro?

A diferença entre sentir e sofrer

Em maio e junho de 2020, começaram a ser publicados os primeiros trabalhos que mediam a saúde psicológica e a qualidade de vida das pessoas na pandemia.

Os dados não eram nada animadores: alguns estudos indicavam que quase metade dos entrevistados apresentavam sintomas de depressão e ansiedade, enquanto outros detectaram um aumento preocupante no consumo de bebidas alcoólicas e nas dificuldades para dormir.

Mas todas essas pesquisas traziam uma grande limitação: elas se baseavam em entrevistas e enquetes feitas pela internet ou por telefone.

"Por mais que muitas dessas iniciativas tenham recrutado dezenas de milhares de voluntários, não havia comparação com a situação deles num período anterior, antes da covid-19", observa o psiquiatra Andre Brunoni, professor associado da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Especialistas apontam que, até certo ponto, é esperado sentir-se mal, triste, nervoso ou estressado diante de tantas mudanças provocadas pela pandemia. O problema é quando esses sentimentos perduram por dias (ou semanas) e atrapalham as atividades diárias.

É possível especular, então, que esse tipo de questionário online ou por telefone chame mais a atenção de indivíduos que se sentem aflitos e preocupados com toda a situação. Com isso, as porcentagens podem ficar infladas e não refletem necessariamente a média da sociedade.

Outro defeito importante desses estudos: eles avaliaram sintomas, e não as doenças.

A diferença pode até parecer sutil numa análise superficial, mas ter sintomas depressivos ou ansiosos é absolutamente diferente de possuir um diagnóstico de depressão ou ansiedade.

"É esperado sentir-se mal, triste, confuso e revoltado diante de uma situação nova e ruim, como foi o aparecimento da covid-19. Mas há todo um processo entre esses sentimentos e o desenvolvimento de um transtorno mental", diferencia Brunoni.

Os especialistas têm uma série de critérios bem definidos e validados que são levados em conta antes de fechar um diagnóstico desses.

O que a ciência descobriu?

Passado um ano desde que a pandemia foi oficialmente declarada, grupos de pesquisadores ao redor do mundo finalmente conseguiram avaliar as questões de saúde mental com calma para obter resultados mais sólidos.

Um artigo ainda em pré-print que foi escrito por cientistas da Universidade de Liverpool, na Inglaterra, e da Universidade Maynooth, na Irlanda, faz uma revisão sistemática e uma meta-análise de tudo que foi produzido sobre o tema até o momento.

Os especialistas selecionaram 65 estudos que acompanharam pacientes com doenças psiquiátricas diagnosticadas previamente e fizeram a comparação sobre a saúde mental deles antes e depois da pandemia.

Até foi observada uma piora dos sintomas em março e abril de 2020, mas logo a situação se estabilizou e voltou aos níveis pré-coronavírus.

O mesmo fenômeno foi observado em pelo menos duas outras pesquisas que utilizaram uma metodologia parecida, que é a que garante os resultados mais confiáveis de acordo com o rito científico.

Os participantes que já tinham um diagnóstico prévio, como depressão, ansiedade e transtorno obsessivo-compulsivo, apresentaram um impacto negativo, quando os resultados das avaliações foram comparados com análises feitas entre 2006 e 2016. Mas esse mesmo prejuízo não foi perceptível no grupo de indivíduos saudáveis.

Aqui no Brasil, cientistas devem publicar nas próximas semanas um artigo que analisa a situação dos participantes do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto, conhecido pela sigla Elsa.

O mecanismo foi o mesmo: eles compararam mais de 14 parâmetros de saúde mental e dez tipos de diagnósticos psiquiátricos colhidos em 2018 e, depois, durante a pandemia.

"Nós também não observamos elevações nesses indicadores", adianta Brunoni.

Os dados brasileiros completos já foram submetidos aos editores de revistas científicas e deverão ser publicados em breve.

E o lockdown?

A tese defendida por Bolsonaro de que fechar tudo aumentaria os casos de suicídio também não encontra respaldo na ciência.

Uma revisão de estudos assinada por especialistas da Universidade de Bolonha, na Itália, e da Universidade Pace, nos Estados Unidos, analisou os achados de 25 estudos, que envolveram mais de 72 mil pessoas.

"O impacto psicológico dos lockdowns durante a pandemia são pequenos em magnitude e altamente heterogêneos, sugerindo que essas medidas não têm consequências prejudiciais uniformes à saúde mental e a maioria das pessoas mostrou-se resiliente a esses efeitos", concluem os autores.

Mais especificamente sobre o risco maior de atentar contra a própria vida, o trabalho ítalo-americano não encontrou qualquer relação significativa e chega até especular que "a pandemia pode ter mudado a forma como as pessoas enxergam a saúde e a morte e isso torne o suicídio menos provável".

Mas é claro que essas observações são generalistas e esse impacto pode ser absolutamente diferente em outros contextos ou para indivíduos específicos.

'Terraplanismo psiquiátrico'

O médico e pesquisador Jose Gallucci-Neto, diretor do Serviço de ECT e Vídeo-EEG do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, classifica a não adoção do lockdown sob a justificativa de que isso vai aumentar os casos de suicídio como uma "falácia".

"O fenômeno do suicídio é complexo e multifatorial. Na maioria das vezes, não dá pra relacionar o ato a um episódio específico, como o lockdown", explica.

No dia 12 de março, Gallucci-Neto e Brunoni escreveram uma coluna de opinião para o site do Instituto Questão de Ciência em que descrevem os argumentos e preocupações de Bolsonaro com a questão como "terraplanismo psiquiátrico".

"Terraplanistas não são apenas pessoas que não acreditam na esfericidade do planeta. O terraplanismo é um empirismo às avessas, uma negação sistemática das evidências científicas em prol de visões particulares, superficiais e opinativas, seja por ingenuidade, seja por perversidade. Após o terraplanismo clínico, imunológico e epidemiológico, a autoridade máxima de nosso país e sua coorte nos oferecem, agora, o terraplanismo psiquiátrico", apontam.

Numa transmissão ao vivo realizada no dia 11 de março, o presidente chegou a citar um suposto caso de suicídio que teria relação com o lockdown e leu uma carta de despedida da vítima.

Em discursos e transmissões ao vivo, presidente Bolsonaro diz que lockdown poderia aumentar casos de suicídio, mas isso até agora não foi observado pela ciência

Seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) foi além e postou em suas redes sociais a foto do corpo e da carta escrita à mão.

Entre as diretrizes, a entidade orienta a não divulgar histórias detalhadas ou sensacionalistas sobre o suicídio, não descrever o método usado, não dar detalhes sobre o local e não divulgar fotos ou vídeos.

Um dia depois da live presidencial, a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) divulgou uma carta reforçando o cuidado necessário ao abordar o tema, mas não chegou a citar diretamente a ação de Jair e Eduardo Bolsonaro:

"A ABP, em concordância com as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS), reforça sua postura contrária ao compartilhamento de notícias sobre suicídio, especialmente àquelas que contenham informações explícitas sobre meio letal, fotografias, entre outros. Veículos de comunicação e pessoas, de um modo geral, precisam ter cautela ao noticiar óbitos por suicídio ou compartilhar notícias."

A reportagem da BBC News Brasil procurou a ABP para realizar entrevistas com representantes da entidade, mas até o fechamento desta reportagem não obteve nenhuma resposta.

Então está tudo bem com o mundo?

O que as pesquisas mais recentes nos apontam é que, ao menos em 2020, aquela "quarta onda" de transtorno mentais que era prevista pelos especialistas não aconteceu na prática — graças à resiliência do ser humano e a despeito de uma piora na qualidade de vida e de um esperado aumento de sentimentos como tristeza, frustração, raiva e nervosismo.

Mas é preciso destacar que alguns grupos foram mais atingidos que outros, como é o caso dos profissionais da saúde e as mulheres, que precisaram lidar com a sobrecarga de trabalho.

E nada garante que esse tsunami não vá aparecer agora em 2021.

"A grande dúvida é o futuro. Será que conseguiremos manter a resistência e a resiliência que tivemos no ano passado?", questiona Gallucci-Neto.

O especialista aponta que o atual recrudescimento da pandemia no país pode ser um fator importante para uma eventual piora nos indicadores de saúde mental. "O Brasil vive um cenário em que o número de casos e mortes dispararam, não há perspectiva de melhora no curto e médio prazo, não tem vacina, não tem coordenação nacional e não tem implementação de medidas de uma forma coesa. Isso gera uma insegurança muito grande na população", descreve.

E, por mais que medidas drásticas como o lockdown possam até ter um estrago psicológico, o risco à saúde pública de não tomá-las neste momento é muito maior.

"Por ano, o Brasil registra entre 12 e 15 mil suicídios. Isso é o que está morrendo de pessoas toda a semana por covid-19", compara Gallucci-Neto.

"Para diminuir o impacto do fechamento, é necessário auxiliar e apoiar aquelas pessoas que não têm como trabalhar, como abrir seu comércio. Precisamos pensar em diminuição de impostos e fazer uma cobertura econômica que compense a perda financeira para que todos fiquem mais tranquilos e se sintam mais seguros", completa.

É impossível ser feliz sozinho?

Além de reforçar os cuidados preventivos contra o coronavírus, com o uso de máscaras e o distanciamento social, a nova onda de restrições exige atenção redobrada com a saúde mental.

"Esses cuidados envolvem medidas simples, como criar uma rotina adaptada à nova realidade, fazer atividade física, manter contato com amigos e familiares pela internet, ter bons hábitos de sono e reservar momentos do dia para atividades que tragam prazer e relaxamento", recomenda o médico Antonio Egidio Nardi, professor titular de psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Enquanto medidas mais restritivas são necessárias, uma saída para manter laços com amigos e familiares é utilizar ferramentas e aplicativos de videochamadas. Outra recomendação é compartilhar informações cientificamente validadas, como o uso correto de máscaras

"A atenção com todos esses comportamentos diminui o risco de desenvolver quadros como depressão e ansiedade", completa o especialista, que também é membro da Academia Nacional de Medicina.

É claro que adotar todas essas medidas de uma hora para outra é algo bastante desafiador — e é natural ter dias mais atribulados e estressantes, em que todo o planejamento vai por água abaixo.

A questão é quando esses incômodos passam do limite e começam a afetar a saúde e o bem-estar.

"Quando sintomas como tristeza, apatia, falta de prazer, alteração do sono, mudanças no apetite, dificuldade de concentração, pensamentos pessimistas, diminuição de libido e ideias de culpa e morte perduram por vários dias, é importante buscar a avaliação de um especialista", orienta Nardi.

O psicólogo ou o médico podem dar orientações personalizadas e, se for o caso, fazer o diagnóstico de doenças psiquiátricas e prescrever o melhor tratamento.

"É importante saber e ter em mente que uma hora a pandemia vai acabar, não é algo que vai ficar para sempre. Mas também não devemos nos preocupar demais com quando esse fim vai chegar, pois isso não está sob o nosso controle", raciocina Gallucci-Neto.

Mas há coisas que estão, sim, sob nosso controle, garante o especialista.

"Podemos ser pró-ativos e, por exemplo, ajudar nossos vizinhos e familiares com informações sobre o uso correto de máscaras e os cuidados de prevenção. Isso nos dá um senso de propósito e pertencimento que faz bem para a sociedade e para a nossa própria saúde mental", finaliza.

* O Centro de Valorização da Vida (CVV) dá apoio emocional e preventivo ao suicídio. Se você está em busca de ajuda, ligue para 188 (número gratuito) ou acesse www.cvv.org.br.

Fonte: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-56491463

 5 séries que falam sobre saúde mental de maneira responsável

Psicóloga Jessica Kadri explica a importância de abordar o assunto de maneira correta nas produções

Mariana Rodrigues | @marigues_  Sob supervisão de Yolanda Reis. (25 março 2021) 

 



13 Reasons Why (2017) é uma das séries mais populares da Netflix, e também protagoniza uma das maiores polêmicas envolvendo o streaming. A trama - sobre uma adolescente que comete suicídio e deixa fitas cassete culpando os amigos - levantou vários questionamentos na época do lançamento. Principalmente sobre como abordar a saúde mental de maneira responsável.

Quando a série estreou, o número de ligações para o CVV (Centro de Valorização da Vida) aumentou cerca de seis vezes, segundo o voluntário Carlos Correia - e o nome da produção foi abordado com frequência durante as chamadas. A informação é d'O Globo.

Apesar da boa recepção inicial, pouco tempo depois, a produção tornou-se um assunto recorrente nas redes sociais por ser voltada para o público jovem e mostrar cenas explicitas de suicídio. Tanto críticos, quanto profissionais da área da saúde, debateram sobre o poder de influência da produção.

Os 13 Porquês não foi a primeira nem a única série a abordar temas envolvendo saúde mental. No entanto, por serem delicados, precisam ser retratados de maneira correta para não causar gatilhos nos telespectadores e nem banalizar o assunto.

Segundo a psicóloga Jessica Kadri, o ideal seria retratar a vida dos personagens de maneira mais fiel possível à realidade. Para ela, a melhor forma de fazer isso é compreender as experiências de quem vivencia essas questões diariamente. Dessa forma, é possível se aprofundar nas histórias dos personagens e não tratar a saúde mental como algo superficial e estereotipado.

Quando retratados da maneira errada, essas temáticas podem criar uma falsa impressão para o público sobre os distúrbios e a idealização da vida. De acordo com Kadri, isso gera um julgamento e uma polarização maior, tanto por quem assiste, quanto por quem vivência.

Para entender mais sobre o assunto e a importância de debater questões como essa, confira cinco séries que tiveram exito ao falar sobre saúde mental:

This Is Us (2016)

This Is Us acompanha diferentes problemas emocionais do casal Jack (Milo Ventimiglia) e Rebeca (Mandy Moore) e dos três filhos, Kate (Chrissy Metz), Kevin (Justin Hartley) e Randall (Sterling K. Brown). Kate lida com obesidade e baixa autoestima, por isso, frequenta reuniões de grupos de apoio à pessoas com distúrbios alimentares.

Kevin tem o mesmo problema do pai e luta constantemente contra o alcoolismo enquanto Randall sofre de ansiedade e enfrenta questões raciais. Além disso, Rebeca enfrenta problemas com o envelhecimento e precisa lidar com a pressão de ser mãe de três filhos.

Glee (2009)

Will Schuester (Matthew Morrison) é um professor de ensino médio apaixonado por música. Decide criar um clube de coral com os alunos. No entanto, convencer os adolescentes a participarem e administrar o clube não é tarefa fácil.

O Glee Club não é bem-visto pelo resto da escola e, no início, muitos alunos sofriam bullying por participarem. Além disso, tanto os jovens quanto os professores precisarem lidar com diversas outras questões desde problemas com autoestima e orientação sexual até doenças como distúrbios alimentares, TOC e síndrome de Down.

BoJack Hoserman (2014)

Em um mundo onde animais e seres humanos vivem lado a lado, BoJack é um ator famoso pelo papel em um seriado dos anos 1990. Planeja voltar aos holofotes com uma biografia sobre a vida e carreira. No entanto, tanto ele quanto as pessoas ao redor precisam aprender a lidar com problemas como depressão, síndrome do impostor, vício em drogas e trabalho.

Atypical (2017)

Sam (Keir Gilchrist) é um adolescente autista encorajado pela psicóloga a buscar uma namorada. No entanto, enquanto descobre o amor, enfrenta problemas na escola e em casa, pois os pais enfrentam uma crise no casamento, resultando em uma traição. Além disso, a irmã Casey (Brigette Lundy-Paine) é superprotetora com Sam, mas também precisa lidar com questões internas como a descoberta da orientação sexual.

Euphoria (2019)

Rue (Zendaya) é uma adolescente de 17 anos tentando retomar a vida após sair de uma clínica de reabilitação por conta de uma overdose. De volta à escola, descobre outros jovens lidando com os problemas da idade, além de questões como sexo, aceitação, identidade de gênero, violência e relacionamentos amorosos e familiares.

ATENÇÃO: Aqui no Brasil, o CVV – Centro de Valorização da Vida realiza gratuitamente apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo todas as pessoas que querem e precisam conversar. Contato disponível pelo telefone 188 ou por meios online (e-mail, chat, Skype) com dados disponíveis no site https://www.cvv.org.br/

Fonte: https://rollingstone.uol.com.br/noticia/5-series-que-falam-sobre-saude-mental-de-maneira-responsavel-lista/

terça-feira, 30 de março de 2021

Espetáculo “A Última Live” aborda saúde mental em tempos pandêmicos

Acontece nesta quarta-feira, 31, às 20h, o encerramento da temporada do espetáculo "A Última Live", realizada pelo Toca Criações Artísticas, em parceria com o Centro de Valorização da Vida (CVV) e a Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio (ABEPS).

No espetáculo, o ator Danilo Cairo dá vida à tragicômica história de Matias Deodato, um estudante de direito que na trama, planeja encerrar sua vida durante sua última live, transmitindo em suas redes sociais emblemáticas reflexões sobre o sentido da vida e morte enquanto passeia entre os cômodos da casa que o acolhera durante sua infância. Esta obra é uma releitura contemporânea do conto homônimo de Machado de Assis (O Último Capítulo, 1884).

Em sua live, Matias tece com humor e emoção detalhes de sua relação direta com cada parte de seu lar, objetos, memórias e com a própria plateia digital; entrelaçando ficção e realidade até uma grande reviravolta se instaurar no clímax deste espetáculo live. Em seu último capítulo, Matias Deodato transforma sua vida em uma espetacularização da realidade.

A que se despede centralizando discussões conscientes sobre estados de luto, redes familiares e consciência emocional. Para o momento do bate-papo teremos a mediação de Tita Matos em “Luto e Família: preconceitos, entendimentos e perspectivas” e Carlos Linhares em “Entre a consciência de finitude e a ilusão de eternidade: a eficácia do processo de luto”.

Equipe

À frente do cenário, Erick Saboya e Agamenon de Abreu, tendo Adriano passos como cenotécnico. Figurino nas habilidosas mãos de Diana Moreira, ao lado da modelista Dora Moreira. Iluminação por Allison de Sá e fotografia de Diney Araújo.

Nos vídeos, Rogério Vilaronga assume e Anderson Falcão dá régua e compasso no design gráfico do projeto. Cairo também assume direção de produção e idealização do projeto, que tem produção executiva de Bergson Nunes.
Serviço

O quê: A Última Live - espetáculo teatral + bate-papos temáticos em saúde mental
Quando: 31 de março, 20h
Onde: Canal Toca Criações Artísticas
Quanto: Gratuito 

Fonte: https://atarde.uol.com.br/cultura/teatro/noticias/2162825-espetaculo-a-ultima-live-aborda-saude-mental-em-tempos-pandemico

quinta-feira, 18 de março de 2021

Saiba até que ponto a genética influencia nas doenças mentais

De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), cerca de 1 bilhão de pessoas tem algum transtorno mental. Mas muita gente se pergunta de onde surgem esses problemas. Será que as doenças mentais são fruto de herança genética ou aparecem conforme nossas condições de vida?

As causas dos transtornos psiquiátricos são muito complexas e têm influência genética associada a fatores ambientais, segundo a professora Sintia Iole Belangero, do Departamento de Morfologia e Genética da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Ela também é coordenadora da divisão de genética do laboratório de neurociências integrativas e do biorrepositório da Corte Brasileira de Alto Risco do Instituto Nacional de Psiquiatria do Desenvolvimento.

Há fatores ambientais que conferem risco ao desenvolvimento das doenças, tais como traumas, eventos estressores e experiências adversas da vida, como abuso de drogas”, explica. “Já outros fatores ambientais protegem os indivíduos contra essas afecções, como suporte social, suporte emocional dos pais, união da comunidade local em que vivemos e alto QI.”

Segundo a professora, recentes pesquisas buscam compreender melhor essa relação entre ambiente e genoma, assim como o impacto dessa interação sobre as doenças mentais.

O diagnóstico dessas doenças por parte de psiquiatras, muitas vezes, é um desafio. Daí a importância de entender suas relações com a genética – o que poderia dar pistas e facilitar o trabalho dos médicos. Além disso, os estudos podem abrir caminho para o desenvolvimento de remédios e para prever riscos associados a esses problemas.

A professora conta que uma das maiores pesquisas sobre o tema se debruçou sobre análises genéticas que revelaram uma ligação entre oito distúrbios, identificando três grupos e um grande compartilhamento genético entre eles.

Além disso, um estudo do qual ela participa, fruto de uma parceria entre universidades brasileiras, avalia o tema há mais de 10 anos entre crianças e jovens de Porto Alegre e de São Paulo.

Os pesquisadores observaram que mudanças no DNA aconteceram paralelamente ao aparecimento de sintomas psiquiátricos nesses jovens. Também perceberam que maus-tratos sofridos na infância influenciaram no comprimento dos telômeros – estrutura dos cromossomos que funcionam como o relógio biológico das células. Também houve uma relação, nesse grupo, entre alguns genes, maus-tratos e depressão.

Suicídio

Participante do estudo, a Unifesp também vem se dedicando à prevenção do suicídio, outro grave problema de saúde pública no Brasil. Conforme a universidade, as taxas têm aumentado nos últimos 40 anos e essa alta sistemática é desproporcionalmente maior entre adolescentes.

Cada morte por suicídio é uma morte que poderia ser evitada”, diz Elson Asevedo, pesquisador do Departamento de Psiquiatria da instituição. “A ciência já conhece estratégias capazes de prevenir essas mortes: falta implementar.

Asevedo é um dos coordenadores de um projeto que visa abordar o tema – que se acentuou na pandemia, devido ao isolamento social – entre os jovens brasileiros. Para ele, os sinais de depressão podem ser percebidos em conversas na internet. “Conversas essas que estão cada vez mais objetivas, frias e sem espaço para sutilezas emocionais”, opina o especialista.

Assim, a Unifesp disponibiliza o Caism (Centro de Atenção Integrada à Saúde Mental) e inaugurou, em setembro do ano passado, o Conversas de Vida – Centro de Promoção de Esperança e Prevenção de Suicídio. O objetivo é apoiar quem precisa e ajudar a prevenir suicídios. A campanha visa também capacitar profissionais, conduzir pesquisas, orientar escolas e empresas e atuar na criação de políticas públicas. Saiba mais aqui.

Fonte: https://catracalivre.com.br/equilibre-se/saiba-ate-que-ponto-a-genetica-influencia-nas-doencas-mentais/

sábado, 6 de março de 2021

Já vi esta série antes! Felizmente, num dos episódios eu pude participar...

O título acima é provocativo. A série é sobre o despreparo de parte expressiva dos profissionais da saúde (todas as categorias) em lidarem com as doenças mentais (ou os transtornos emocionais, como alguns preferem, por ser mais brando o impacto das palavras...).

O episódio foi uma mensagem que recebi, em 2 de agosto de 2016, de um médico. Eis o conteúdo do apelo:

Encontrei seu blog no google e gostaria de saber se você pode me ajudar. Sou médico, e hoje atendi uma mulher que tentou se matar, fiz as devidas orientações, foi encaminhada ao hospital, no entanto, percebi que em um caso desse fico meio sem saber o que falar exatamente para pessoa, como algo que poderia lhe confortar adequadamente e que a convença realizar os devidos cuidados, a seguir com a vida e tudo mais.
 
Gostaria se você pode me indicar algum site, vídeo ou livro com instruções para melhorar a forma de como lidar com suicidas e depressivos, para que possar ajudar eles melhor.

Orientei-o como pude. Num dos trechos, disse-lhe que a grande obra de referência nesta área é Crise Suicida: Avaliação e Manejo, de Neury José Botega.

Exatos 1677 dias corridos (quatro anos e meio) depois, lamento que a situação não tenha melhorado o suficiente... 

 As falhas são graves e a desatenção (a falta de atenção básica) há de custar muitas vidas!

Médicos se formam incapazes de atender pacientes suicidas, aponta estudo

Pedro Martins  (6 mar. 2021)

Enquanto casos de suicídio crescem a cada ano no Brasil, um estudo publicado no início de 2021 pela RBEM (Revista Brasileira de Educação Médica) revelou que médicos estão se formando incapazes de atender pacientes que pensam ou tentam cometer suicídio.

A pesquisa reflete a experiência de pacientes como a estudante de letras Bianca*, 23, que aos 18 tentou se suicidar. Internada em casa, ela encontrou seus remédios, que estavam escondidos, e os ingeriu de uma vez. Ao descobrir, sua mãe a levou para o hospital, mas a médica de plantão a mandou de volta para casa e não lhe deu nenhuma orientação além da receita para que tomasse imediatamente mais um tarja-preta.
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"Eu não conseguia andar. Estava dopada. Tiveram que me arrastar até o pronto-atendimento, mas a médica falou que eu estava lúcida e não tinha motivo para ficar internada", relembra a estudante. "Senti que não fui levada a sério. Era como se aquilo não fosse motivo suficiente para ter ido ao hospital".

Ao conversar com sua psiquiatra no dia seguinte, Bianca descobriu que a falta de sensibilidade da plantonista não era sentimentalismo de sua parte. Um mês depois, ela ainda foi diagnosticada com hepatite medicamentosa, o que poderia ter sido evitado se o atendimento tivesse sido adequado, segundo sua nutróloga. "O certo era fazer uma lavagem estomacal e, se não desse mais tempo, eu devia ao menos ter ficado em observação", diz.
Falha na formação médica

A história de Bianca não é única. Entre 188 estudantes de medicina do 1º ao 6º ano que participaram da pesquisa publicada na RBEM, somente um deles, o equivalente a 0,5%, declarou ter plena capacidade técnica para atender um paciente com ideação suicida. Como o questionário permitia ainda respostas com concordância ou discordância parciais, 16% afirmaram ter habilidades limitadas para a tarefa, enquanto os incapacitados somaram 72,8%, e os que se consideraram neutros, 11,2%.

O estudo apontou ainda que somente 8,5% dos alunos são plenamente capazes de identificar e classificar comportamentos de risco suicida e 4,3% sabem realizar corretamente a notificação de tentativa ou concretização de suicídio, que é obrigatória e deve ser encaminhada pelo médico aos órgãos competentes em até 24 horas após o atendimento.

A pesquisa foi conduzida entre alunos da UEPA (Universidade do Estado do Pará). Ela tem limitações estatísticas devido à restrição geográfica, mas acende um alerta sobre uma falha na formação médica, de acordo com o psiquiatra Salomão Rodrigues Filho, do CFM (Conselho Federal de Medicina). A instituição se posiciona contra a abertura de novas escolas de medicina.

"O médico está cada vez mais despreparado. Com o aumento indiscriminado de novas faculdades de medicina e turmas imensas, cada vez temos mais dificuldade em preparar o aluno para estar atento à saúde mental. Além disso, tanto no sistema público quanto privado de saúde, o médico não tem tempo para ouvir o paciente. Ele quer chegar logo ao diagnóstico para fazer a prescrição de medicamento ou pedir exame e mandar o paciente retornar depois", diz o conselheiro.

Segundo levantamento do CFM a partir de dados do CNES (Cadastro Nacional das Entidades de Saúde), 77% das cidades brasileiras com faculdades de medicina não possuem leitos suficientes para o ensino prático dos alunos. A região mais deficitária é o Norte, onde, entre 32 escolas de medicina, somente uma está localizada em um município com preparo para uma boa formação. A região com melhor desempenho no levantamento é o Centro-Oeste, com 31,3% dos cursos localizados em municípios adequados.

"O médico generalista precisa ser capaz de rastrear suicídio no pronto-atendimento. Não é porque tenho um paciente aparentemente muito mais grave para ver em seguida que vou abreviar a entrevista com o outro", explica o conselheiro. "Não sou contra abertura de boas faculdades de medicina, mas de faculdades péssimas, que colocam no mercado profissionais incapazes".

Uma das autoras do estudo, a estudante Lívia Limonge, que cursa o 6º ano de medicina na UEPA, afirma que os resultados da pesquisa não surpreenderam, mas serviram de provocação para que seus colegas abram os olhos para o suicídio, que é a segunda principal causa de mortes entre jovens de 15 a 29 anos no mundo, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde).

"A grade curricular de medicina prevê que a gente discuta suicídio e saúde mental como um todo, mas isso não está necessariamente sendo cumprido. Suicídio ainda é um tabu mesmo entre médicos. Como é possível aprimorar a formação, se o assunto não é discutido? Vi minha formação refletida nos resultados desta pesquisa", diz Limonge.

No Brasil, em 2019, 13.520 pessoas se suicidaram, uma alta de 6,18% ante os casos de 2018. No acumulado da década, o aumento foi de 44,22%, segundo o Ministério da Saúde. Os dados de 2020 ainda não foram divulgados pela pasta, mas especialistas apontam chance de aumento, tal qual ocorreu em países como Japão, devido à instabilidade emocional provocada pela pandemia de covid-19.

*O nome foi alterado a pedido da entrevistada

Onde buscar ajuda

O CVV (Centro de Valorização da Vida) oferece gratuitamente atendimento via telefone, e-mail ou chat, sob sigilo, para prevenção do suicídio. Para mais informações, acesse cvv.org.br ou disque 188, qualquer dia e a qualquer hora.

Fonte: www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2021/03/06/medicos-se-formam-incapazes-de-atender-pacientes-suicidas-aponta-estudo.htm