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sexta-feira, 2 de setembro de 2022

Álcool e drogas: quando a dependência das substâncias leva ao suicídio

É preciso entender o recado oferecido pelas estatísticas e agir para evitar novas mortes

Analice Gigliotti (1º agosto 2022)

Estudo inédito da UnB (Universidade de Brasília) – publicado em artigo científico na revista BMC Psychiatric – concluiu que quatro em cada dez pessoas que cometeram suicídio no Distrito Federal, entre 2005 e 2014, usavam substâncias psicoativas, como álcool e drogas. A relação faz todo sentido, na medida em que a bebida alcoólica aumenta a desinibição, a impulsividade e a agressividade, podendo ser um facilitador para um ato tão extremo.

De 1.088 casos analisados, 780 passaram por exames toxicológicos e 44% tiveram resultados positivos para substâncias psicoativas, das quais 72% para o consumo exclusivo de álcool (até 3 gramas por litro, quantidade capaz de causar confusão mental). Os dados brasileiros são superiores até mesmo aos Estados Unidos, onde a intoxicação por álcool está envolvida em 22% de todas as mortes por suicídio, de acordo com a SAMHSA (Substance Abuse and Mental Health Service Administration). Ainda de acordo com o órgão americano, um diagnóstico de abuso ou dependência de álcool está associado a um risco dez vezes maior de uma pessoa tirar a própria vida, se comparado à população de um modo
geral.

Quanto a combinação do uso abusivo de álcool com outras drogas, o estudo da UnB concluiu que 22% dos casos estavam relacionados com o uso combinado das duas substâncias, com destaque para a cocaína, mas não apenas ela. De acordo com estudo divulgado ano passado pelo Jama Network, a maconha está diretamente associada a um aumento de risco de ideação, plano e tentativas de se matar entre adultos.

Segundo o Ministério da Saúde do Brasil, a taxa média de suicídios ronda os seis casos ao ano a cada 100 mil habitantes (dos quais 9,8 são homens e 2,5 são mulheres). A maioria dos casos apurados na pesquisa da UnB foi cometida por homens – 84% –, um percentual que se confirma com estudos em outras cidades do Brasil, de acordo com o Ministério. Quando o assunto é a faixa etária, 55% são pessoas entre 30 e 59 anos, seguidos pelos mais jovens, entre 18 e 29 anos (35%). Estes dados acendem, mais uma vez, o alerta acerca da saúde mental dos brasileiros. O estudo da UnB possibilita levantar várias questões ricas para o debate.

Antes de mais nada, confirma o consumo de álcool como um perigo concreto. No Brasil, consome-se álcool em excesso – e cada vez mais cedo. De acordo com dados do II Levantamento Nacional sobre Álcool e Drogas (Lenad), 26% dos menores de idade já consomem álcool e segundo o Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA), o brasileiro consome álcool pela primeira vez com 12 anos, em média. Este primeiro contato pode ser sozinho – para atender uma curiosidade particular -, em festas ou com amigos e, por fim, com os próprios pais, que preferem oferecer a bebida ao filho, acreditando ter algum tipo de controle – mas sem considerar que nenhum volume de álcool é seguro para adolescentes.

O estudo da UnB faz pensar ainda sobre como o público do sexo masculino é especialmente impactado pelo uso abusivo de álcool. Por décadas, o marketing das bebidas alcoólicas era focado nos homens. Além disso, trata-se também do reflexo de um traço cultural. Na nossa sociedade machista e patriarcal, homens são educados a sofrerem em silêncio. Sem compartilharem suas angústias e questões, acabam compensando a dificuldade de lidar com seus sentimentos na dependência de álcool e drogas.

É relevante destacar ainda que, de acordo com a coordenadora do estudo da UnB, professora Andrea Galassi, é grande a chance de uma pessoa que já tentou anteriormente por fim à própria vida tentar fazê-lo novamente. Por isso, familiares e amigos tem um papel fundamental. É preciso ficar atento a comportamentos padrão, como demonstrar falta de perspectiva ou preocupação excessiva com a morte, explicitar intenções suicidas, isolamento social excessivo ou vivenciar experiências com potencial traumático (como um episódio de discriminação, abuso ou demissão). 

Temos instalado no centro da sociedade brasileira uma questão: uma “epidemia” de uso abusivo de álcool e drogas. É urgente olhar para o tema com maturidade e ação, para que mais vidas não sejam perdidas.

Analice Gigliotti é Mestre em Psiquiatria pela Unifesp; professora da PUC-Rio; chefe do setor de Dependências Químicas e Comportamentais da Santa Casa do Rio de Janeiro e diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química.

Fonte: https://vejario.abril.com.br/coluna/analice-gigliotti/alcool-e-drogas-quando-a-dependencia-leva-ao-suicidio/?utm_source=emailmanager&utm_medium=email&utm_campaign=CISA_227

Qual a relação entre consumo nocivo de álcool e suicídio?

O consumo nocivo de álcool pode aumentar as chances de suicídio

(26 agosto 2022) 

A OMS reconhece o suicídio como um problema de saúde pública. Em outras ocasiões, o CISA já abordou as recomendações da OMS para a prevenção do suicídio. Entender a relação entre consumo de álcool e suicídio é importante para aprimorar as políticas de prevenção. Já está bem estabelecido que a correlação existe, e um estudo de 2021 reitera que, ao redor do mundo, quanto maior a taxa de consumo de álcool per capita de um país, maiores são as taxas de suicídio1. A despeito disso, muitas questões culturais ainda precisam ser desvendadas.

Um estudo recente2, publicado em fevereiro de 2022, buscou fazer uma revisão das pesquisas que abordam a relação entre consumo abusivo de álcool e os prejuízos associados ao álcool (entre eles o suicídio) em comunidades remotas e rurais de 49 países ao redor do mundo (entre eles, Estados Unidos, Índia, Canadá e África do Sul). Uma conclusão interessante do estudo aponta que, de acordo com a maioria das pesquisas analisadas, existe maior associação entre morar em zonas rurais e remotas e engajamento em consumo abusivo de álcool e, consequentemente, maiores riscos de prejuízos associados ao uso de álcool. Além disso, os autores apontam que os riscos aumentaram de gravidade ao longo da série temporal analisada, de 1990 a 2019, sendo que suicídios atribuíveis ao uso de álcool – e mesmo o beber e dirigir – foram ficando mais prevalentes ao longo do tempo.

Neste sentido, um estudo de 2021 buscou analisar sistematicamente as pesquisas que buscam intervenções psicossociais para redução de comportamentos suicidas em pessoas com transtornos relacionados ao uso de álcool3. Os autores apontam que as intervenções mais promissoras seriam as abordagens pautadas na Terapia Cognitivo Comportamental (TCC), mas ressaltam a carência de mais estudos na área, e concluem que, até que tais estudos sejam publicados, não existem evidências científicas de que este tipo de intervenção seja eficaz em reduzir tentativas de suicídio em pessoas com transtornos relacionados ao uso de álcool.

Este cenário desafiador torna ainda mais imprescindível o acompanhamento destes indivíduos por uma equipe multiprofissional da área da saúde. Se você ou alguma pessoa conhecida está passando por algum destes problemas, procure acompanhamento! Em nossa página “Encontre Ajuda”, apresentamos um mapa da Rede de Atenção Psicossocial presente em todo o Brasil. Lá é possível encontrar a ajuda mais próxima! Se restarem dúvidas, entre em contato através de nosso “Fale Conosco”.

Referências

1. Kim AM. Alcohol consumption and suicide rate: A cross-sectional analysis in 183 countries. Psychiatry Res. 2021 Jan 1;295:113553.

2. Friesen EL, Bailey J, Hyett S, Sedighi S, de Snoo ML, Williams K, et al. Hazardous alcohol use and alcohol-related harm in rural and remote communities: a scoping review. Lancet Public Heal. 2022 Feb 1;7(2):e177–87.

3. Hurzeler T, Giannopoulos V, Uribe G, Louie E, Haber P, Morley KC. Psychosocial Interventions for Reducing Suicidal Behaviour and Alcohol Consumption in Patients With Alcohol Problems: A Systematic Review of Randomized Controlled Trials. Alcohol Alcohol [Internet]. 2021 Jan 4 [cited 2022 Aug 24];56(1):17–27. Available from: https://academic.oup.com/alcalc/article/56/1/17/5926572

Fonte: https://cisa.org.br/sua-saude/informativos/artigo/item/372-qual-a-relacao-entre-consumo-nocivo-de-alcool-e-suicidio