Qual a eficácia de intervenções para a prevenção do suicídio em ambientes clínicos?
Infelizmente os casos de suicídio vêm aumentando nos últimos anos e em resposta a isso tem-se estudado e debatido mais sobre o assunto e sobre as medidas a serem tomadas para diminuir sua ocorrência.
Em um artigo do Lancet Psychiatry publicado em junho deste ano está descrito que mais de um terço dos pacientes que cometeram suicídio estiveram com um profissional de saúde até 1 semana antes de efetuarem o ato e cerca da metade teve esse mesmo tipo de contato 1 mês antes. Contudo, muitas vezes os serviços e profissionais de saúde não estão preparados para lidar com estes casos, incluindo serviços como urgências e emergências médicas ou outros contextos de atendimento a casos agudos.
Órgãos de saúde estadunidenses sugerem que ao identificar os pacientes em risco estes devam receber o tratamento e as orientações voltadas para redução do risco. Para que isso aconteça as equipes devem ser treinadas a fim de que possam aplicar as intervenções necessárias, incluindo formas breves de intervenção associadas à coordenação do cuidado e seguimento com encaminhamento para serviços de saúde mental.
No referido trabalho, foi realizada uma revisão sistemática da literatura sobre intervenções breves para prevenção de suicídio que possam ser realizadas apenas em um único contato com o paciente.
Os maiores riscos de viés dizem respeito à presença de dados incompletos. Alguns dos trabalhos selecionados usaram métodos padronizados para lidar com as informações que faltavam, sendo considerados como de risco intermediário para viés, enquanto aqueles cujos dados estavam completos foram considerados de baixo risco. Já os que não descreviam como lidavam com os dados que faltavam foram classificados como de alto risco. Para os desfechos de tentativa de suicídio e sintomas depressivos parece não haver evidências fortes de viés de publicação, o que não se aplica ao desfecho de seguimento em um serviço de saúde mental.
Algumas limitações já podem ser observadas: foram avaliados apenas estudos em língua inglesa, não foram incluídos estudos não publicados, foram considerados apenas 14 estudos e apenas os subconjuntos de desfechos relevantes foram incluídos na metanálise. Um dos estudos se destacou por um maior tamanho de amostra e teve maior peso nas análises. A maior parte dos estudos não incluiu o número de óbitos por suicídio como um desfecho, não tendo isto sido avaliado.
Este trabalho foi apoiado pelo National Institute of Mental Health, mas seus autores referem que este não houve influência sobre sua elaboração. Para mais informações sobre a análise estatística e a metodologia, confira o material na íntegra (consultar a bibliografia).
Intervenções feitas durante um contato breve
Coordenação do cuidado
Intervenções terapêuticas
Definidas como medidas que visavam prevenir que os pacientes viessem a desenvolver comportamento suicida ou medidas que promoviam adesão ao atendimento em saúde mental, tendo ocorrido em apenas um único encontro com o paciente ou através de ligações telefônicas rápidas.
Dos 14 estudos incluídos, 13 desenvolveram essas intervenções terapêuticas breves, sendo a mais comum delas a Safety Planning Intervention. Esta por sua vez envolve 6 medidas: para identificar os sinais de alerta para uma possível ameaça suicida; avaliar estratégias de enfrentamento que desviem os pensamentos ou impulsos suicidas; identificar amigos, familiares ou locais que o distraiam desses pensamentos/impulsos; identificar se há pessoas que possam ajudar na iminência de uma ameaça suicida; fornecer contatos de profissionais ou serviços de saúde mental e aconselhamentos para tornar o ambiente ao redor livre de possíveis ferramentas letais.
Ao elaborar esta metanálise os pesquisadores entenderam que os serviços que promoviam pelo menos 4 dessas 6 medidas estavam desenvolvendo estratégias de Safety Planning Intervention. Dez estudos aplicaram outras técnicas de intervenção que não as do Safety Planning Intervention para diminuir a probabilidade do paciente cometer autoinjúria. Estas incluíram técnicas de entrevista motivacional, terapia focada na resolução de problemas, dentre outras. Tais abordagens também usavam estratégias que aumentavam as chances de maior adesão aos serviços de saúde mental.
Os 3 desfechos mais comuns foram: posterior de tentativa de suicídio (7 estudos), seguimento de acompanhamento (9 estudos) e presença de sintomas depressivos (6 estudos).
A avaliação foi a seguinte:
- Houve redução das tentativas de suicídio em 3,5% em adultos (em adolescentes não houve significância estatística). Isso foi avaliado através de um acompanhamento que variou entre 2 e 12 meses com revisão dos prontuários ou com informações dos próprios pacientes.
- Houve aumento da adesão à continuidade de atenção em 22,5%. A avaliação ocorreu entre 1 semana e 3 meses após a intervenção e se deu através de informações eletrônicas ou provenientes dos próprios pacientes.
- Já a redução dos sintomas depressivos não foi estatisticamente significativa. A reavaliação dos sintomas ocorreu após 2-3 meses, com informações dos próprios pacientes através de instrumentos validados. Houve heterogeneidade estatisticamente significativa entre os estudos.
- Outras formas de intervenção também não se apresentaram estatisticamente significativas.
Conclusão
Portanto, as intervenções de prevenção ao suicídio que ocorrem durante o atendimento em um ambiente clínico voltado para casos agudos podem ser eficazes na redução de tentativas de suicídio posteriores e em aumentar as chances de continuidade de atenção em atendimentos de saúde mental.
Autora: Paula Benevenuto Hartmann
Psiquiatra pela UFF ⦁ Graduação em Medicina pela UFF
Referências
Doupnik SK, Rudd B, Schmutte T, Worsley D, Bowden CF, McCarthy E, Eggan E, Bridge JA, Marcus SC. Association of Suicide Prevention Interventions With Subsequent Suicide Attempts, Linkage to Follow-up Care, and Depression Symptoms for Acute Care Settings – A Systematic Review and Meta-analysis. JAMA Psychiatry, published online June 17, 2020. doi:10.1001/jamapsychiatry.2020.1586
Fonte: https://pebmed.com.br/qual-a-eficacia-de-intervencoes-para-a-prevencao-do-suicidio-em-ambientes-clinicos/



