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quinta-feira, 5 de maio de 2022

Comunicação sobre suicídio na internet pode potencializar os riscos

 

Do Jornal da USP - 3 maio 2022

Moradores de cidades com as menores taxas de suicídio localizadas no Estado de São Paulo (Registro e São José dos Campos) publicaram mais sobre o tema no Twitter mas, ao contrário do que se imaginava, a maioria das publicações não tinha conteúdo danoso, não expressava o comportamento suicida nem sofrimento.

Os resultados fazem parte da tese de doutorado de Camila Corrêa Matias Pereira, defendida na EERP (Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto) da USP.

O estudo apresentou, ainda, dicas gerais de como se comunicar acerca do tema. A substituição de termos como "suicídio cometido" (que associa suicídio a crime), "tentativa de suicídio bem-sucedida" (que pode dar uma conotação positiva), "tentativa de acabar com a própria vida", "tentativa não fatal de suicídio", "suicídio consumado" por "morreu por suicídio" foi bastante recomendada.

O objetivo do trabalho foi analisar postagens na rede social Twitter sobre suicídio, investigar evidências científicas sobre recomendações e melhores práticas para a comunicação segura sobre o comportamento suicida no ambiente on-line, além de identificar barreiras e facilitadores da comunicação segura em produções discursivas e mensagens de apoio relacionados ao tema.

Na primeira parte do trabalho, Camila examinou 804 publicações feitas desde o início do Twitter, em 2006, até o período em que foi realizada a busca, em 21 de junho de 2018.

As postagens eram provenientes de quatro cidades do Estado de São Paulo: Marília e Ribeirão Preto, que tiveram os maiores coeficientes de suicídio no período estudado (taxas superiores a 7,5 óbitos por 100 mil habitantes); e Registro e São José dos Campos, que apresentaram os menores números (inferiores a 5,5 óbitos por 100 mil habitantes).

Os dados são da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dadaos (SEADE) de 2016.

No Estado de São Paulo, dados divulgados pela Secretaria de Estado da Saúde mostraram que, só em 2019, 2.365 pessoas morreram por suicídio, o equivale a uma taxa de 6,13 mortes por 100 mil habitantes.

A maioria das postagens consistia em tweets (84%) feitos por pessoas do sexo feminino (60%) em primeira pessoa (64%), não mencionava método para o suicídio (98%) nem comportamento suicida individual (72%).

Foi visto também que posts com conteúdo preventivo tiveram, aproximadamente, oito vezes mais chances de receberem curtidas quando comparados às postagens pró-suicidas (25% contra 12%, respectivamente).

"Uma questão que nos chamou a atenção foi o fato de que pessoas que expressavam sofrimento e ideações suicidas publicavam mais postagens pró-suicidas e tinham pouco retorno para as necessidades que expressavam", destaca Kelly Giacchero, professora da EERP e orientadora de Camila. "Esse achado mostra que buscar apoio nas redes sociais virtuais tem sido um meio pouco seguro para a pedir ajuda."

Na segunda etapa, a pesquisadora fez uma revisão sistemática da literatura para investigar se evidências científicas respaldam recomendações e melhores práticas para a comunicação segura sobre comportamento suicida no ambiente on-line. Dos 429 artigos selecionados inicialmente, quatro foram incluídos no estudo após a aplicação de critérios de elegibilidade.

Camila identificou várias recomendações. Entre elas, o incentivo à busca de ajuda, o foco na prevenção, o estímulo à procura por apoio social, entre outras.

O uso de imagens clichê (como a de uma pessoa segurando a cabeça entre as mãos) também apareceu na literatura como algo a ser evitado. "Mas é importante frisar que as observações não estão apoiadas por dados empíricos, ou seja, são sugestões intuitivas", ressalta Camila. "Apesar disso, vimos que a mudança poderia reduzir o estigma ou a percepção de um termo pejorativo."

Terceira fase

Na última etapa da pesquisa, Camila realizou um estudo qualitativo e identificou barreiras, facilitadores e aspectos ambíguos sobre a comunicação segura e o comportamento suicida.

Por meio de um questionário on-line, 338 usuários da internet alfabetizados e com e-mail ou conta ativa no Facebook foram entrevistados entre outubro de 2018 a fevereiro de 2019. As perguntas iam desde questões pessoais até experiências prévias com pessoas em risco suicida.

Foram identificados facilitadores relacionados a ajuda profissional, a propensão em oferecer ajuda e a possibilidade de superação.

As abordagens para melhorar a busca de ajuda em saúde mental por parte dos jovens devem considerar o papel da internet e dos recursos on-line como um importante complemento de ajuda off-line, de acordo com Camila.

Ao mesmo tempo, profissionais de saúde que trabalham com jovens precisam ser informados sobre planos de gestão de crises para a melhor compreensão de uma situação de risco.

O papel do suporte social, da família e o apoio da amizade estão associados a um risco reduzido de comportamento suicida. As estratégias de prevenção do suicídio devem ter como objetivo o desenvolvimento de habilidades psicológicas, reduzindo os fatores de risco e promovendo os fatores de proteção, como a resiliência, por exemplo.

O despreparo para lidar com as informações foi apontado como um dos dificultadores da comunicação segura sobre o suicídio. "Há um déficit na formação da sociedade para lidar com a temática, o que pode contribuir para o desconforto emocional dos profissionais e para a limitação das possibilidades de atendimento a pessoas com comportamento suicida", descreve Camila em sua tese.

Já entre as possibilidades ambivalentes, uma categoria muito presente foi a da religiosidade. A relação entre o comportamento suicida é complexa, de acordo com a pesquisadora.

"Da mesma maneira que ela apresenta fatores protetivos, pode igualmente representar fatores de risco", explica Camila. "Cada religião manifesta diferentes estratégias para lidar com a situação."

"No geral, o estudo revelou como a comunicação sobre suicídio na internet ainda tem sido pouco segura, ou seja, tem fragilidades que podem potencializar riscos e dificultar a busca por apoio", destaca Kelly.

"Também apresenta uma síntese de algumas recomendações internacionais sobre a comunicação segura para a prevenção do suicídio no ambiente virtual e revela algumas lacunas no conhecimento científico sobre esse tema."

Mortalidade no mundo

Um relatório publicado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em junho de 2021 apontou que o suicídio é uma das principais causas de mortalidade no mundo, na frente de doenças como infecções decorrentes do HIV, malária e câncer de mama, e até de guerras e homicídios.

Só em 2019, 700 mil pessoas tiraram a própria vida - o que equivale a 1 em cada 100 mortes. Esses números levaram a OMS a produzir novas orientações para ajudar os países a melhorarem a prevenção do suicídio.

Como conta Kelly ao Jornal da USP, ainda existem muitas lacunas relacionadas à prevenção do suicídio em nosso País, entre elas, a falta de um Plano Nacional com objetivos, metas, estratégias, recursos, responsáveis e indicadores de acompanhamento.

"Existem programas promissores para a prevenção, mas ainda há lacunas importantes que comprometem a sustentabilidade e abrangência das ações."

Camila trabalha com o tema desde a graduação, quando iniciou seu projeto de iniciação científica. No mestrado, a enfermeira fez um estudo sobre comportamento suicida em blogs preventivos e pró-suicida. No doutorado, decidiu se aprofundar um pouco mais.

"Além da minha tese em si, meu grupo fez vários outros trabalhos sobre essa temática em outras plataformas, como o Tumblr. A depender da rede social, o comportamento suicida pode ser expresso de forma diferente e essa questão precisa ser melhor investigada", explica.

A pesquisa de Camila disparou diversos questionamentos e ações relacionadas à prevenção do suicídio. "Estamos desenvolvendo atualmente um e-book sobre saúde mental, comportamento suicida e o uso de telas e também estamos desenvolvendo estratégias para formação de profissionais para a prevenção do suicídio em ambientes virtuais, incluindo cenários de simulação de alta fidelidade onde os alunos podem ter experiências práticas de atendimento após um período prévio de formação", conclui Kelly.

Serviço

Se você conhece alguém que precisa de ajuda, o Laboratório de Estudos e Pesquisa em Prevenção e Posvenção do Suicídio (LEPS) e o Centro de Educação em Prevenção e Posvenção do Suicídio (CEPS) da EERP criaram o InspirAção. Financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o site traz informações, artigos científicos e instruções sobre o tema, além de disponibilizar cartilhas para os interessados.

Fonte: www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2022/05/03/comunicacao-sobre-suicidio-na-rede-pode-potencializar-riscos.htm

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Risco de suicídio - orientações importantes!

Risco de suicídio: prevenção, como identificar e onde buscar ajuda

A comunicação precisa pode ajudar a salvar vidas e evitar o sofrimento de muitas famílias


Catraca Livre (24 julho 2019)

O suicídio é considerado pelo Ministério da Saúde como um problema de saúde pública, complexo, multifacetado e de múltiplas determinações, que pode afetar indivíduos de diferentes origens, classes sociais, idades, orientações sexuais e identidades de gênero.

Todos os anos, cerca de 800 mil pessoas morrem por suicídio no mundo, segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde). No Brasil, uma pessoa morre por suicídio a cada hora, enquanto outras três tentaram se matar sem sucesso no mesmo período.

Fique atento aos sinais! Um dos falsos mitos sociais em torno do suicídio é que a pessoa que tem a intenção de tirar a própria vida não avisa, não fala sobre isso

O assunto é tão complexo que muitas pessoas evitam falar a respeito, o que nem sempre é a melhor decisão. Um problema dessa magnitude não pode ser negligenciado, pois sabe-se que o suicídio pode ser prevenido.

Uma comunicação correta, responsável e ética é uma ferramenta importante para evitar o efeito contágio.

Qual seria essa forma? Vamos listar alguns sinais de alerta de pessoas em risco e onde procurar ajuda nesses casos.

Formas de prevenção

Um dos falsos mitos sociais em torno do suicídio é que a pessoa que tem a intenção de tirar a própria vida não avisa, não dá pistas. Isso não é verdade e devemos considerar seriamente todos os sinais de alerta que podem indicar que a pessoa está pensando em suicidar-se.

Saber reconhecê-los em você ou em alguém próximo é o primeiro e o mais importante passo. Por isso, sempre fique de olho no seguinte:

Problemas de conduta ou manifestações verbais

Se alguém está, pelo menos, há duas semanas com conduta ou manifestações verbais referentes à suicídio, fique de olho! Essas manifestações não devem ser interpretadas como ameaças nem como chantagens emocionais, mas sim como avisos de alerta para um risco real.

Preocupação com sua própria morte ou falta de esperança

As pessoas sob risco de suicídio costumam falar sobre morte e suicídio mais do que o comum, confessam se sentir sem esperanças, culpadas, com falta de autoestima e têm visão negativa de sua vida e futuro. Essas ideias podem estar expressas de forma escrita, verbal ou por meio de desenhos.

Atenção: não há uma “receita” para detectar seguramente uma crise suicida em uma pessoa próxima, mas a sua ajuda é fundamental!

Expressão de ideias ou de intenções suicidas

Fique atento para comentários do tipo “vou desaparecer”, “vou deixar vocês em paz”, “eu queria poder dormir e nunca mais acordar”, “é inútil tentar fazer algo para mudar, eu só quero me matar” e outros relacionados. Às vezes esse tipo de fala passa desapercebido por membros da família e amigos.

Isolamento

As pessoas com pensamentos suicidas podem muitas vezes se isolar, não atendendo a telefonemas, interagindo menos nas redes sociais, ficando em casa ou fechadas em seus quartos, reduzindo ou cancelando todas as atividades sociais, principalmente aquelas que costumavam e gostavam de socializar.

Outros fatores

Exposição ao agrotóxico, perda de emprego, crises políticas e econômicas, discriminação homofóbica ou transfóbica, ataques racistas, agressões psicológicas e/ou físicas, sofrimento no trabalho, diminuição ou ausência de autocuidado, conflitos familiares, perda de um ente querido, doenças crônicas, dolorosas e/ou incapacitantes, entre outros podem ser fatores que vulnerabilizam, ainda que não possam ser considerados como
determinantes para o suicídio.

Lembre-se também que não há “receita” que detecte seguramente quando uma pessoa está vivenciando uma crise suicida, nem se tem algum tipo de tendência suicida. Mas é sempre bom ficar atento, conversar e procurar ajuda!

O que fazer sob risco de suicídio

Ajudando alguém Se você identificou em alguém próximo sinais de comportamento suicida, encontre um momento apropriado e um lugar calmo para falar sobre suicídio com essa pessoa. Faça a perceber que você está ali para ouvir e ofereça seu apoio.

É importante também que você a incentive a procurar ajuda de profissionais de serviços de saúde, de saúde mental, de emergência ou apoio em algum serviço público. É legal você se oferecer para para acompanhá-la a um atendimento. Assim ela ficará mais confortável e terá menos receio.

Se você acha que essa pessoa está em perigo imediato, não a deixe sozinha. Procure ajuda de profissionais de serviços de saúde, de emergência e entre em contato com alguém de confiança, indicado pela própria pessoa.

Se a pessoa com quem você está preocupado vive com você, assegure-se de que ela não tenha acesso a meios para provocar a própria morte (por exemplo, pesticidas, armas de fogo ou medicamentos) em casa.

Fique em contato para acompanhar como a pessoa está passando e o que está fazendo.

Pensar em acabar com a própria vida pode ser insuportável e muito difícil, e você pode não conseguir enxergar uma saída. Mas existe ajuda disponível!

Primeiramente, é muito importante conversar com alguém que você confie. Não hesite em pedir ajuda! Você pode precisar de alguém que te acompanhe e te auxilie a entrar em contato com os serviços de suporte.

Lembre-se que quando pede ajuda, você tem o direito de ser respeitado e levado a sério, ter o seu sofrimento levado em consideração, falar em privacidade com as pessoas sobre você mesmo e sua situação, ser escutado e ser encorajado a se recuperar.

Onde buscar ajuda para prevenir o suicídio?

Há algumas possibilidades de auxílio nesse momento:

CAPS
Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) nas suas diferentes modalidades são pontos de atenção estratégicos da RAPS: serviços de saúde de caráter aberto e comunitário constituído por equipe multiprofissional e que atua sobre a ótica interdisciplinar e realiza prioritariamente atendimento às pessoas com sofrimento ou transtorno mental, incluindo aquelas com necessidades decorrentes do uso de álcool e outras drogas, em sua área territorial, seja em situações de crise ou nos processos de reabilitação psicossocial e são substitutivos ao modelo asilar.

Unidades Básicas de Saúde
A Unidade Básica de Saúde (UBS) é o contato preferencial dos usuários, a principal porta de entrada e centro de comunicação com toda a Rede de Atenção à Saúde. É instalada perto de onde as pessoas moram, trabalham, estudam e vivem e, com isso, desempenha um papel central na garantia de acesso à população a uma atenção à saúde de qualidade.

UPA 24H

A Unidade de Pronto Atendimento (UPA 24h) faz parte da Rede de Atenção às Urgências. O objetivo é concentrar os atendimentos de saúde de complexidade intermediária, compondo uma rede organizada em conjunto com a atenção básica, atenção hospitalar, atenção domiciliar e o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência – SAMU 192.

Centro de Valorização da Vida

O CVV – Centro de Valorização da Vida realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo, por telefone, email, chat e voip 24 horas todos os dias. A ligação para o CVV em parceria com o SUS, por meio do número 188, são gratuitas a partir de qualquer linha telefônica fixa ou celular.

Também é possível acessar o site do CVV para chat, Skype, e-mail e mais informações sobre ligação gratuita, ou conferir aqui os postos de atendimento.

Ajuda psicológica gratuita

Universidades públicas e particulares no Brasil que possuem em sua grade o curso de Psicologia normalmente possuem atendimento psicológico gratuito para a comunidade. Há profissionais particulares que oferecem cotas de atendimento psicológico social para pessoas em situações financeiras vulneráveis.

Fonte: https://catracalivre.com.br/saude-bem-estar/prevencao-suicidio/