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domingo, 6 de março de 2022

OMS pede atenção para problemas de saúde mental provocados pela pandemia

No primeiro ano da pandemia de Covid-19, a prevalência global de ansiedade e depressão aumentou 25%. Diretor geral diz que é "apenas a ponta do iceberg"

Por Simone Blanes (2 março 2022) 

No primeiro ano da pandemia de Covid-19, a prevalência global de ansiedade e depressão aumentou 25%, de acordo com um resumo científico divulgado nesta quarta-feira 2, pela Organização Mundial da Saúde (OMS). “As informações que temos agora sobre o impacto da Covid-19 na saúde mental do mundo são apenas a ponta do iceberg”, disse Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS.

O relatório também destaca quem foi mais afetado e resume o efeito da pandemia na disponibilidade de serviços de saúde mental e como isso mudou durante a crise sanitária. Preocupações com possíveis aumentos nas condições de saúde mental já levaram 90% dos países pesquisados a incluir saúde mental e apoio psicossocial em seus planos de resposta à Covid-19, mas permanecem grandes lacunas e preocupações. “Este é um alerta para que todos os países prestem mais atenção à saúde mental e façam um trabalho melhor no apoio de suas populações”, completou Ghebreyesus.

Uma das principais explicações para o aumento é o estresse sem precedentes causado pelo isolamento social. Ligados a isso estavam as restrições à capacidade das pessoas de trabalhar, buscar apoio de entes queridos e se envolver em suas comunidades.

Solidão, medo da doença, sofrimento, sensação de morte iminente, luto e preocupações financeiras também foram citados como estressores que levaram à ansiedade e à depressão. Entre os profissionais de saúde, a exaustão tem sido um importante gatilho para o pensamento suicida.
Jovens e mulheres são os mais atingidos

O resumo, com uma revisão abrangente das evidências existentes sobre o impacto do Covid-19 na saúde mental e nos serviços de saúde mental e estimativas do último estudo Global Burden of Disease, joga luz aos jovens e mulheres, apontados como os mais afetados pela pandemia. No caso dos jovens, é preocupante porque correm um risco desproporcional de comportamentos suicidas e de automutilação. Já as mulheres severamente impactadas com condições de saúde física pré-existentes, como asma, câncer e doenças cardíacas, eram mais propensas a desenvolver sintomas de transtornos mentais.

Os dados sugerem ainda que pessoas com transtornos mentais pré-existentes não parecem ser desproporcionalmente vulneráveis à doença. No entanto, quando são infectadas, ficam mais propensas a sofrer hospitalização, doenças graves e morte em comparação com indivíduos mentalmente saudáveis. Pessoas com transtornos mentais mais graves como psicoses e jovens com transtornos mentais estão particularmente em risco, de acordo com o relatório.

Lacunas no cuidado

Esse aumento na prevalência de problemas de saúde mental coincidiu com graves interrupções nesses serviços, deixando enormes lacunas no atendimento daqueles que mais precisam. Durante grande parte da pandemia, os serviços para condições mentais, neurológicas e de uso de substâncias foram os mais afetados entre todos os essenciais de saúde relatados pelos Estados Membros da OMS. Muitos países também disseram ter grandes interrupções nos serviços de saúde mental que salvam vidas, inclusive na prevenção do suicídio.

No final de 2021, a situação melhorou um pouco, mas hoje muitas pessoas continuam incapazes de obter os cuidados e o apoio que precisam para condições de saúde mental pré-existentes e recém-desenvolvidas. Incapazes de acessar o atendimento presencial, muitas pessoas buscaram suporte online, sinalizando a necessidade urgente de disponibilizar ferramentas digitais confiáveis, eficazes e de fácil acesso. No entanto, desenvolver e implantar essas intervenções online continua sendo um grande desafio em países com recursos limitados.

Ação dos países

Desde os primeiros dias da pandemia, a OMS e seus parceiros têm trabalhado para desenvolver e divulgar recursos em vários idiomas e formatos para ajudar diferentes grupos a lidar com os impactos da Covid-19 na saúde mental. Por exemplo, o órgão produziu um livro de histórias para crianças de 6 a 11 anos, “My Hero is You”, disponível em 142 idiomas e 61 adaptações multimídia, bem como um kit de ferramentas para apoiar idosos, em 16 idiomas.

Ao mesmo tempo, a OMS tem recrutado parceiros, incluindo outras agências das Nações Unidas, organizações não-governamentais internacionais e as Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho, para liderar uma resposta de saúde mental e psicossocial à doença. Ao longo da pandemia, a OMS se esforçou ainda para promover a integração da saúde mental e do apoio psicossocial em todos os aspectos de retorno global.

Os Estados Membros da OMS reconheceram o impacto da Covid-19 na saúde mental e estão tomando medidas. A mais recente pesquisa da Organização sobre a continuidade dos serviços essenciais de saúde indicou que 90% dos países estão trabalhando para fornecer saúde mental e apoio psicossocial aos pacientes e socorristas da doença. Além disso, na Assembleia Mundial da Saúde, no ano passado, os países enfatizaram a necessidade de desenvolver e fortalecer a saúde mental – adotaram o Plano de Ação Integral de Saúde Mental 2013-2030 – com o objetivo de preparar as pessoas para futuras emergências de saúde pública.

Aumento de investimento

No entanto, esse compromisso com a saúde mental precisa ser acompanhado por um aumento global de investimento. O relatório ressalta uma situação de escassez global crônica de recursos de saúde mental que continua até hoje. O mais recente Atlas de Saúde Mental, da OMS, mostrou que, em 2020, os governos em todo o mundo gastaram em média pouco mais de 2% de seus orçamentos em saúde mental. E muitos países de baixa renda relataram ter menos de 1 profissional de saúde mental para 100.000 habitantes. “Embora a pandemia tenha gerado interesse e preocupação pela saúde mental, também revelou um sub investimento histórico nesses serviços. Os países devem agir com urgência para garantir que o apoio à saúde mental esteja disponível para todos”, resume Dévora Kestel, diretora do Departamento de Saúde Mental e Uso de Substâncias da OMS.

Fonte: https://veja.abril.com.br/saude/oms-pede-atencao-para-problemas-de- saude-mental-provocados-pela-pandemia/

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Lady Gaga e a carta-manifesto escrita a quatro mãos em favor da saúde mental

800.000 pessoas se matam a cada ano. O que podemos fazer?

Em muitos lugares, não existem serviços de apoio à saúde mental, e muitas pessoas com condições tratáveis são criminalizadas. Há muito tempo que se espera uma ação corajosa.

Lady Gaga e Tedros Adhanom Ghebreyesus
9/10/2018

Quando você terminar de ler isto, pelo menos seis pessoas ao redor do mundo terão se matado.

Esses seis são uma pequena fração das 800 mil pessoas que se matarão este ano - mais do que a população de Washington, Oslo ou da Cidade do Cabo. Às vezes elas são famosas, como Anthony Bourdain ou Kate Spade, e viram manchetes, mas são todos filhos ou filhas, amigos ou colegas, membros valiosos de famílias e comunidades.

O suicídio é o sintoma mais extremo e visível de uma emergência maior de saúde mental que, até agora, não conseguimos abordar adequadamente. O estigma, o medo e a falta de compreensão agravam o sofrimento das pessoas afetadas e impedem uma ação mais corajosa, que é tão desesperadamente necessária e que, por muito tempo, tem sido posta de lado.

Um em cada quatro de nós terá que lidar com uma condição de saúde mental em algum momento de nossas vidas, e, se não formos nós os diretamente afetados, provavelmente será alguém com quem nos importamos. Nossos jovens estão particularmente vulneráveis, e o suicídio é, em todo o mundo, a segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos, representando metade de todas as doenças mentais com início aos 14 anos de idade.

No entanto, apesar da universalidade da questão, nós lutamos para falar abertamente sobre isso ou para oferecer cuidados ou recursos adequados. Dentro das famílias e comunidades, muitas vezes permanecemos em silêncio, por uma vergonha que nos diz que aqueles com doença mental são, de alguma forma, menos dignos ou culpados por seu próprio sofrimento.

Em vez de tratar aqueles que enfrentam problemas de saúde mental com a mesma compaixão que ofereceríamos a alguém com uma lesão física ou doença, nós os afastamos, culpamos e condenamos. Em muitos lugares, os serviços de apoio são inexistentes e aqueles com condições tratáveis são criminalizados - literalmente acorrentados em condições desumanas, isolados do resto da sociedade, sem esperança.

A saúde mental atualmente recebe menos de 1% da ajuda global. O financiamento interno na prevenção, promoção e tratamento é igualmente baixo. Atualmente, todas as nações do mundo são um país “em desenvolvimento” quando se trata de saúde mental.

Esse investimento insignificante não é ruim apenas para os indivíduos, é destrutivo para as comunidades e mina as economias. As condições de saúde mental custam ao mundo US$ 2,5 trilhões/ano, um número que deve chegar a US$ 6 trilhões até 2030, a menos que tomemos providências.

Não podemos mais nos permitir sermos silenciados pelo estigma ou frustrados por ideias preconceituosas, que retratam essas condições como uma questão de fraqueza ou falha moral. A pesquisa mostra que há quatro vezes mais retorno sobre o investimento para cada dólar gasto no tratamento da depressão e ansiedade -  as condições mais comuns de falta de saúde mental - , fazendo com que o gasto seja um grande investimento, tanto para líderes políticos quanto para empregadores, além de gerar economia no setor de saúde.

Chegou a hora de todos nós, coletivamente, atacarmos as causas e os sintomas de doença mental, e cuidar dos que sofrem com isso. Você não precisa ser um artista internacional ou o chefe da Organização Mundial de Saúde (OMS) para causar impacto. Todos nós podemos ajudar a construir comunidades que compreendam, respeitem e priorizem o bem-estar mental. Todos podemos aprender como oferecer apoio aos entes queridos que passam por um momento difícil. E todos nós podemos ser parte de um novo movimento - incluindo pessoas que enfrentaram doenças mentais - para pedir aos governos e à indústria que coloquem a saúde mental no topo de suas agendas.

No Zimbábue, avós estão abrindo o caminho: sentadas em seus banquinhos, elas oferecem sessões de aconselhamento baseadas em evidências, o que está ajudando a derrubar o estigma. No Reino Unido e na Austrália, programas de educação interpares encorajam os jovens a se apoiarem uns nos outros. E a tecnologia móvel está fornecendo novas e empolgantes plataformas para se fornecer serviços e abrir um diálogo saudável.

Desde 2013, a OMS vem trabalhando com as nações para implementar um plano de ação global sobre saúde mental. No início deste ano, a OMS publicou o Atlas Global de Saúde Mental, que fornece informações de 177 países sobre o progresso para atingir as metas do plano. A principal conclusão é que, embora tenha havido algum progresso, precisamos de investimentos significativos para expandir os serviços.

A liderança significativa e sustentada do governo é essencial, e alguns governos já estão começando a dar um passo à frente: desde o do Sri Lanka - onde o governo estabeleceu uma estrutura dedicada de saúde mental e financiou posições para apoiar cuidados de saúde mental nas cidades - até o de Nova York, onde a ThriveNYC (Bem-estar New York City) reuniu líderes locais para construir um plano abrangente de saúde mental.

Esta semana, no dia da Cúpula do Reino Unido sobre Saúde Mental, e no Dia Mundial da Saúde Mental, um painel de especialistas internacionais publicará, no The Lancet, a mais abrangente coleção de pesquisas já produzidas sobre como promover e proteger a saúde mental, e sobre como tratar das doenças mentais. Isso fornecerá a base científica para ampliar a ação global em saúde mental, semelhante ao movimento para o HIV/Aids, adotado pela ONU em 2001. Esse movimento ajudou a salvar milhões de vidas e é uma representação do potencial da ação humana coletiva para enfrentar problemas aparentemente insuperáveis.

Nós dois seguimos caminhos diferentes na vida. Mas ambos vimos como liderança política, financiamento, inovação e atos individuais de bravura e compaixão podem mudar o mundo. É hora de fazer o mesmo para a saúde mental.

Fonte:.www.theguardian.com/commentisfree/2018/oct/09/lady-gaga-mental-health-global-emergency-suicide

Traduziu: Luiz Fernando Dias Pita, professor da UERJ, a quem somos imensamente gratos!